sexta-feira, 24 de março de 2017

RESENHA: Cidade em Chamas

“[...], um artista é alguém que combina uma necessidade desesperada de ser entendido com o mais violento amor pela privacidade. O fato de seus segredos poderem ser óbvios para os outros não significa que se esteja disposto a abrir mãos deles.” (HALLBERG, 2016, p. 201)

***

No centro de tudo está a poderosa e rica família Hamilton-Sweeney e seus herdeiros: William e Regan. Ele é um artista plástico e músico que se tornou a ovelha negra, e por isso mantém distância de todos. Cabe a Regan continuar o legado familiar, visto que a saúde de seu pai se debilita a cada dia. Mas no seu caminho estão a madrasta e o irmão dela, que desejam tomar o controle da empresa. A estória ainda conta com a presença de dois jovens que se envolvem com o movimento punk; um professor negro e gay recém-chegado a Nova York; um jornalista ambicioso; um grupo de ativistas; e um detetive dedicado. A vida de todos eles irá se cruzar a partir de um assassinato ocorrido no Central Park na noite de Ano Novo. 

Cidade em Chamas  o livro de estreia de Garth Risk Hallberg  parte de uma premissa interessante, mas se perde em uma trama audaciosa demais em todos os sentidos. São diversos arcos narrativos, que tentam mesclar diferentes gêneros literários, em uma trama confusa e dispersa demais. Assim, fiquei com a impressão de que o foco do autor era compor uma estória grandiosa, mas o problema é claro: ele deu o passo maior do que a perna. 

Um dos fatores que mais me incomodou durante a leitura foi o uso excessivo de descrições, para detalhar situações de pouca relevância.  Creio que um texto se torna cansativo quando abusa desta ferramenta, visto que o desenvolvimento da estória se torna mais arrastado, e esta sensação é apenas ampliada quando o livro tem mais de mil páginas. 

Os personagens são desenvolvidos de forma superficial, sendo que não conseguem desenvolver uma conexão com o leitor. Simpatizei com apenas um personagem secundário, enquanto os demais não causavam nenhuma reação, mas apenas apatia. Um deles tinha potencial de sobra para roubar a cena, acaba sendo subaproveitado. 

A afirmação de que a vida dos personagens se cruza a partir do assassinato me pareceu exagerada. A verdade é que a teia que ligava todos os personagens já existia de forma mais sútil, sendo que o homicídio apenas torna tais elos mais visíveis. Registro também que o caso policial, apontando como o fio condutor da estória, não desempenha exatamente essa função. Como já disse, repito: a trama de Cidade em Chamas é dispersa e a insossa investigação policial é apenas mais um arco em meio a tanto outros. 

O final é decepcionante. Hallberg patina ao longo de mil páginas, desenvolvendo os diversos arcos simultaneamente, expondo detalhes da vida de praticamente todos os personagens, para chegar em um clímax morno e sem graça. Sou da teoria de que quanto maior o livro, maior a responsabilidade que recai sobre o autor. Afinal, o número de páginas acaba sendo uma promessa de que o comprometimento do leitor com um livro tão grande irá valer a pena. Infelizmente, Hallberg não cumpriu com o prometido. 

E creio que isso aconteceu por um simples fato: o livro não tem uma estória de verdade. Creio que a intenção do autor era criar uma trama que fosse como uma colcha de retalhos, retratando a Nova York dos anos 70 por diversos pontos de vista. E o problema acaba sendo justamente este: são muitos pontos de vista, muitos dramas paralelos, muitas estórias que não levam a lugar nenhum. No fim das contas, o autor literalmente atirou para todos os lados, mas não conseguiu acertar um único alvo. Mais uma vez prova-se o ditado de que menos é mais. 

Assim, creio que o principal problema é que Hallberg se perdeu em meio a sua ambição de escrever uma estória memorável. E isso o levou ao caminho oposto, pois Cidade em Chamas é uma obra maçante, que não causa impacto e que não será lembrada por muito tempo. 

Título: Cidade em Chamas (exemplar cedido pela editora)
Autor: Garth Risk Hallberg
N.º de páginas: 1043
Editora: Companhia das Letras

16 comentários:

Luiza Helena Vieira disse...

Oi, Alê!
Meu Deus, que quantidade de páginas são essas, senhor!!! Esse livro nunca me chamou muito atenção.. Agora que vi que é descritivo, maçante e um calhamaço sem fim, vou passar longe hahahah
Beijos
Balaio de Babados
Sorteio Três Anos de Historiar

Sil disse...

Olá, Alê.
Que pena que o livro não deu certo. Ler mil páginas para se decepcionar não dá não hehe. Acho que tem histórias que não dá para inventar muito não, acaba se perdendo mesmo. E cenas descritivas quando é em um livro de fantasia até gosto, mas em histórias assim não hehe.

Prefácio

Gabriela CZ disse...

Comprei esse livro num festival literário que teve aqui na minha região, estava cheia de expectativas e agora murchei, Alê. As críticas que você fez são todas coisas que também considero negativas. Mas vou dar mais um tempo e tentar. Fazer o que? Ótima resenha.

Beijos!

Marília Leocádio disse...

Esses temas nunca me chamou a atenção é também é a primeira resenha que leio a respeito desse livro e já não gostei, o autor me pareceu tão bom é uma pena acabar se desviando assim os protagonistas e não ter um fina esperado.
Até mais!!!

RUDYNALVA disse...

ALê!
Nossa! um livro com mais de 1000 páginas que se torna maçante, deve ter sido uma tormenta para ler.
Os livros policiais tem deixado muito a desejar.
Aqui a trama policial fica relegada a segundo plano, escrita muito descritiva sem necessidade e ainda personagens no qual nos temos condições de nos apegar.
“Não basta conquistar a sabedoria, é preciso usá-la.” (Cícero)
cheirinhos
Rudy
http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
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Kemmy Oliveira disse...

Alê, me desculpe mas nem mesmo consegui terminar de ler a resenha. Acho que tinha visto algo sobre esse livro mas muito brevemente e em momento algum ele me despertou interesse. É uma pena quando os autores querem abordar tudo de uma vez achando que assim vão criar uma coisa incrível e no fim acabam dando o passo maior que a perna, como você mesmo citou. Deve ser mesmo um livro muito confuso e maçante, pois deteeeesto descrições enormes e detalhadas, principalmente para coisas irrelevantes.

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Nessa disse...

Oi Alê
Não conhecia o livro e pela sua descrição eu não iria curtir nada essa leitura. Adorei sua resenha sincera, e que pena que a leitura não foi boa.

Beijinhos
http://diariodeincentivoaleitura.blogspot.com.br/

Kéziah Raiol disse...

Oi Alê, tudo bom?
Fiquei bem decepcionada com a resenha. Já não era lá o meu livro top 10 de desejados, e agora fiquei bem mais sem vontade. Detesto quando livros acabam se tornando massantes, e pelo jeito que você explicou tudo, tenho certeza que não ia rolar pra mim.

Beijos,
Paixão Literária

Priscila Tavares disse...

Oi Alê, tudo bem?
Acredito que em algumas histórias o uso contínuo de descrição se faz necessário, mas esse é um caso em um milhão. E quando o autor abusa dessa ferramenta, como de qualquer outra, o texto perde um pouco de potencial né. Não sei se leria o livro.
Que quantidade assombrosa de páginas menina!
Beijos
Quanto Mais Livros Melhor

Girlene Viey disse...

O que me chamou atenção neste livro e que ele mostra até que pode o homem chega para ganhar o poder. Acho que por isso que existe personagens superficiais na obra, porque geralmente esse tipo de pessoa que procura poder acima de qualquer coisa tem essa "qualidade". Enfim, acho, e espero muito que livro trata a ambição do homem bem notável

Marta Izabel disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marta Izabel disse...

Oi, Alê!
E uma pena que o autor perdeu a mão na história. Pois o enredo até que era interessante!! Mesmo assim fica a indicação.
Bjoss

Jônatas Amaral disse...

Não conhecia o autor nem o livro, mas que pena que ele pecou pelo excesso. Realmente, atualmente temos visto muito dessas situações, autores pesando a mão nas páginas e nem sempre conseguindo fazer disso uma qualidade, como muitos outros já fizeram.

A história em si não me chama a atenção, mas a partir de seu resenha acredito que não irei procura-lo.

Jônatas Amaral
alma-critica.blogspot.com.br

suzana cariri disse...

Oi!
Quando vi esse livro ele me chamou atenção e fiquei curiosa para saber sobre o que era a historia, mas lendo a resenha vi que não era um livro que irei gostar, realmente livros muito descritivos para mim se deixa a leitura arrastada e gosto quando os autores se aprofundam mais em seus personagens, por isso esse não é um livro que me chamou atenção !!

Ana I. J. Mercury disse...

É se você não gostou muito, acho que eu também não iria gostar, pois parece um livro vago, sem uma ideia bem trabalhada, organizada e defendida.
Mas a capa é linda, engana bem kkkk
bjs

Carolina Garcia disse...

Oi, Alê!!

Realmente é uma pena quando nos deparamos com livros assim.
E concordo com você, quanto mais páginas, mais eu espero da história.
Até porque é muito difícil ficar carregando nos bus e metrôs da vida! Hahahaha

Espero que seus próximos livros melhorem! :)

Bjs!

http://livrosontemhojeesempre.blogspot.com.br

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