quarta-feira, 14 de maio de 2014

RESENHA: Janela Indiscreta e outras histórias

“Mas, por acaso, enquanto eu investigava um assassinato que, como se revelou, jamais tinha sido cometido, acabei descobrindo um outro, que ainda estava tomando forma. Em outras palavras, aquilo que parecia ser um assassinato, mas não era, antecipava um assassinato que ainda estava em andamento.” (WOOLRICH, 2008, pag.92).

Poucas coisas me satisfazem tanto como leitora como pegar um livro que me parece apenas ligeiramente interessante, ser surpreendida por ele e ainda descobrir um autor que tem tudo para entrar para o rol dos meus favoritos. Isso aconteceu com “Janela Indiscreta e outras histórias”, de Cornell Woolrich cujo nome eu desconhecia por completo até pouco tempo.

Confesso que a única coisa que despertou o meu interesse para esta leitura foi o conto-título, “Janela Indiscreta” que inspirou o filme homônimo, estrelado por James Stewart e Grace Kelly, dirigido pelo genial Alfred Hitchcock e que, diga-se de passagem, vem a ser um dos meus favoritos do diretor (ficando atrás apenas de “Um Corpo que Cai”). Mal sabia eu que outras obras de Woolrich também já haviam sido adaptadas para o cinema e que Hitchcock (famoso por garimpar histórias simploriamente boas e transformá-las em pérolas da sétima arte) não fora o único a atrair-se por suas tramas. E não para menos. Woolrich é um criador e contador de histórias original que não comete um único deslize.

Seguindo a vertente noir que tanto me agrada na literatura policial, os cinco contos que compõe este livro apresentam narrativas precisas e diretas, com frases curtas e descrições cruas, e cenas que passam diante dos olhos de forma que mal se percebe que se está lendo. São poucos os autores que tem tamanha habilidade de transformar em visuais suas palavras.

Por razões óbvias, “Janela Indiscreta” foi o conto que menos me surpreendeu, mas isso apenas porque eu já conhecia a história, não porque seja inferior aos outros. A história do homem que, estando com a perna quebrada, se vê preso no seu apartamento e encontra sua única distração ao observar os vizinhos do edifício da frente que, assim como ele, mantém as janelas abertas devido ao calor, até que em um desses dias passa a desconfiar que um dos vizinhos matou a esposa, é construída de forma a brincar com as certezas do leitor que descobre a história junto com o personagem principal, compartilhando com ele suas desconfianças e frustrações.

Já “Post-mortem”, o conto que se segue a “Janela Indiscreta”, me surpreendeu por sua engenhosidade e por conseguir apresentar tantas reviravoltas em um espaço de narrativa tão curto (meras 37 páginas). Mal sabia eu que o mesmo aconteceria com os três contos seguintes, já que todas as histórias apresentadas neste livro tomam rumos que o leitor jamais seria capaz de prever (ainda que elas terminem menos de quarenta páginas depois de terem começado). Em “Post-mortem”, uma viúva descobre que seu falecido marido ganhou uma soma expressiva em dinheiro que agora poderá ser repassada a ela desde que ela encontre um bilhete que nem sabia que existia.

“Três Horas” conta a história de um homem que planeja explodir a própria casa e matar a esposa que ele acredita estar tendo um caso. Em “Homicídio Trocado”, um ex-presidiário planeja junto com outro homem um álibi perfeito para que possa acertar as contas com um antigo amigo e sair impune. “Impulso” é a história de um homem honesto, prestes a ser despejado do apartamento onde mora com a esposa, e sua jornada após tentar conseguir com seu ex-chefe um dinheiro que lhe era devido.

À primeira vista, nenhuma das histórias parece ser mais do que interessante, mas Woolrich consegue desenvolve-las de tal maneira e manipular o leitor tão bem que cada uma se torna inesquecível. “Homicídio Trocado” e “Impulso” esbanjam ironia, assim como este último e “Três Horas” tem um suspense que cresce a cada página até que domina por completo.

De forma geral, os personagens são pessoas comuns, porém em situações pouco comuns (que por vezes eles mesmos procuraram, outras se viram jogados lá dentro).

Cornell Woolrich conseguiu, com meras 202 páginas, deixar de ser um ilustre desconhecido para entrar na lista de autores que quero ler todos os livros que forem possíveis. Isso é mais do que eu podia esperar.

Título: Janela Indiscreta e outras histórias (exemplar cedido pela Editora)
Autor: Cornell Woolrich
Nº de páginas: 202
Editora: Companhia das Letras

11 comentários:

Ana Paula Barreto disse...

Eu adoro demais o filme Janela Indiscreta e gostaria muito de ler o livro.
Aliás, o autor realmente deve ser bom em manipular o leitor. E essa é uma habilidade bem incrível: conseguir direcionar o leitor a ter um ponto de vista, enquanto a realidade da trama é outra. Muito bom!
bjs

Gabriela Cerutti Zimmermann disse...

Quando abri a resenha fiquei tentando lembrar aonde já tinha visto o título Janela Indiscreta, lendo descobri que foi por causa do filme que eu não sabia se tratar de uma adaptação. E diante de tais comentários é difícil não se interessar pelo livro. Ótima resenha.

Abraço!
http://constantesevariaveis.blogspot.com.br/

Nardonio disse...

Eu também não conhecia esse autor. Apenas tinha conhecimento desse filme dirigido por Hitchcook. A única coisa que posso falar é que quero ler esse livro o mais rápido possível, pois além de ser de contos, me parece ser bem do jeito que gosto: Dinâmicos e cheios de suspense. Já coloquei na minha listinha de próximas aquisições.

Seguidor: DomDom Almeida
@_Dom_Dom

Kel Costa disse...

É muito gostoso quando a gente acaba adorando um livro pelo qual não tínhamos muitas expectativas, né? Sempre fico maravilhada (e aliviada) quando acontece comigo rs
Confesso que não sou muito fã de contos, mas achei interessante. A dica do nome do autor já tá anotadinha aqui ;)

Bjs,
Kel Costa
www.itcultura.com.br

Dani Kaulitz disse...

Não conhecia o livro, nem a estória Janela Indiscreta e entendo que, por já conhecer a estória você se surpreendeu pouco, mas como nunca assisti o filme, fiquei curiosa para ler. É mesmo interessante esses contos por serem protagonizados por pessoas comuns mas em situações muito incomuns que devem prender muito a atenção do leitor, eu fiquei super curiosa! :)
beijos ♥
nuclear--story.blogspot.com.br

Karolayne Nascimentos Santos disse...

Nunca havia ouvido falar do livro ou do autor.
Ainda não assisti o filme e fiquei bem curiosa para ler as histórias.
Acho que nunca li nenhum livro policial, mas está na hora de conhecer esse gênero que agrada a tantas pessoas.
Gosto muito de histórias curtas e diretas. Isso faz com que o leitor não se perca com detalhes.
Bjokas

Ana Carolina Ribeiro disse...

Nunca ouvi falar do livro
Pelo que eu li ,vi que é um livro de contos
Não faz meu gosto,mais deixo pra quem gosta ;)

Lais Cavalcante disse...

Não ouvi falar do livro ou desse autor.
Confesso que a premissa não me atraiu nem um pouco, nem a capa, muito menos a sinopse... sei lá, não curti mesmo :/

Adriana disse...

Não conhecia o livro e também o autor, mas voce teceu tantos elogios a ele na resenha, que fica quase impossível não procurar esse livro pra ler, ainda mais que são várias historias num mesmo livro, isso me deixa mais atraída ainda, adoro esse tipo de leitura, com certeza vou ler! :)
Adriana

Érika Rufo disse...

Não conhecia nem o livro e nem o autor. Parece que são contos né? Não gosto muito de contos, mas gostei de saber mais sobre o autor.

Beijos!!

DominO Simmons disse...

hum.... me bateu a curiosidade.....
já anotei o titulo da obra e autor pra procurar na minha próxima ida ao sebo!
Adoro conhecer novos romances beijosss
http://cantodadomino.blogspot.com.br/

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