Desde que li Grandes Esperanças tenho vontade de conferir outro romance de Charles Dickens. O escolhido foi David Copperfield, referido pelo próprio autor como “seu filho predileto” e que se tornou a minha maior expectativa literária deste ano.
David Copperfield conta a estória do personagem homônimo, partindo de sua infância até a vida adulta. Assim, acompanhamos seu nascimento e primeiros anos de vida, sua difícil infância, os anos de estudos, as paixões da juventude, sua indecisão a respeito do futuro profissional, entre outros episódios. Além de David, também acompanhamos a jornada de inúmeros personagens que cercam a vida do protagonista.
A obra é narrada em primeira pessoa pelo próprio David, que conta sua estória olhando para trás, reencontrando os fantasmas do passado e falando abertamente sobre sua vida como se estivesse conversando com o leitor. Logo nos primeiros capítulos nos afeiçoamos a ele e a sua voz sincera, que não oculta defeitos, nem exalta qualidades. Chama atenção que mesmo publicado há mais de cento e cinquenta anos, a linguagem de Dickens é acessível e envolvente. Entretanto, a leitura é densa em virtude de sua carga dramática, então não espere encontrar um livro cuja leitura seja fluída.
Como esperado, o trabalho do autor na construção dos personagens é fantástico. Mesmo sem descrever a personalidade, o leitor enxerga nas entrelinhas a essência de cada personagem, especialmente de David. E mais do que isso: vemos como a vida deles é entrelaçada e a forma como as ações de uns provocam as reações dos outros. Eis um mestre na arte do “show, don’t tell” (mostre, não diga).
A estória é extremamente orgânica e retrata a vida como ela é. Dickens cria uma trama verossímil, sem reviravoltas mirabolantes, focando sua atenção na jornada de seus personagens, seus altos e baixos. Mesmo se passando na Inglaterra do século dezenove, vemos que os costumes mudaram, mas as relações humanas permanecem as mesmas.
“[...]; tinha pensado como as coisas que nunca acontecem muitas vezes são tão reais para nós, em seus efeitos, quanto as que se realizam.” (DICKENS, 2014, p. 1162).
Apesar de não conter grandes críticas sociais, pelas quais o autor geralmente é conhecido, David Copperfield faz o leitor refletir sobre temas como amadurecimento, amizade, ganância, injustiça, perda da inocência, amor, família, entre tantos outros.
Porém, não gostei tanto de David Copperfield quanto esperava e atribuo isto ao fato de que a estória me pareceu muito dispersa. Em alguns momentos, tramas paralelas ganharam demasiada importância, sendo que o próprio Copperfield se tornava um mero coadjuvante. Não é por menos que o livro conta com mais de mil e duzentas páginas. Se Dickens tivesse dado menor atenção às estórias dos personagens secundários, a leitura teria sido menos cansativa.
Devo confessar que tampouco gostei do desfecho, pois me pareceu um pouco forçado em virtude da felicidade generalizada dos personagens, passando a impressão de que todos “viveram felizes para sempre”. Não que o final deixe de ser verossímil, mas considerando que a estória envolvia inúmeros núcleos, achei estranho que todos eles conquistassem exatamente o que desejavam.
Apesar das críticas, David Copperfield não apenas mostra a habilidade inata de Dickens em retratar o ser humano de forma profunda e sem maniqueísmos, mas também revela um autor que sabe criar personagens inesquecíveis e abordar temas universais.
Autor: Charles Dickens
N.º de páginas: 1243
Editora: Cosac Naify
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