quinta-feira, 18 de abril de 2019

[Romance] para quem não gosta de [romance]

Todo leitor se identifica com alguns gêneros literários mais do que com outros. Mas existem alguns livros que são capazes de abrir os olhos dos leitores para gêneros dos quais ele nunca gostou, justamente por mostrarem uma faceta diferente do gênero, por terem algo a mais. Livros que fazem o leitor que diz “Não gosto deste tipo de livro” se apaixonar justamente por um livro deste tipo.

Foi pensando nisso que o Além da Contracapa criou a coluna: “[...] para quem não gosta de [...]”, na qual faremos uma seleção de livros de um determinado gênero ou temática que podem agradar até mesmo quem costuma fugir deles. 

Inspirado na coluna do mês passado, na qual a Mari indicou três histórias de casais, resolvi que era chegada a hora de recomendar livros de romance. Particularmente, não sou um fã do gênero, especialmente quando a estória gira em torno apenas do casal, focando na origem e nos percalços do relacionamento. Assim, os livros que selecionei para a coluna desse mês são romances, mas que contam com uma pitada a mais para "engrossar o caldo".

Orgulho e Preconceito

Não poderia começar esta coluna se não por este, um dos maiores clássicos da literatura inglesa e talvez uma das maiores estórias de amor já criadas. Orgulho e Preconceito, na verdade, poderia ser classificado como um livro de múltiplos romances, afinal, são diversos personagens e relacionamentos amorosos que são desenvolvidos. Porém, Jane Austen vai muito além de tais estórias, explorando os costumes da época, questionando o papel da mulher e as imposições de uma sociedade machista, e mostrando um mundo que não é um perfeito conto de fadas. Além disso, o desenvolvimento dos personagens é impressionante, pois entendemos todas as ações e motivações de cada um deles. A meu ver, são poucos os autores que tem a habilidade de Austen para mergulhar na psique de seus personagens.

A Garota no Penhasco 

Comecei o livro de Lucinda Rilley sem muitas expectativas, mas poucas páginas foram necessárias para prender minha atenção e me envolver com a estória. O grande diferencial é que, apesar de ser um romance e contar com todos os elementos que esperamos desse gênero, o livro não se limita a isso. Lucinda Riley criou uma trama intrincada — envolvendo duas famílias,  quatro gerações e muitos desentendimentos —, mostrando como o passado e o presente se entrelaçam das formas mais inesperadas. E foi exatamente este fator que me impedia de largar o livro: queria montar esse grande quebra-cabeça e entender como a vida dessas famílias havia se emaranhado e como isso ainda os afetava. Dessa forma, o relacionamento amoroso da protagonista é apenas mais uma parte da estória, uma peça desse quebra-cabeça, cuja imagem é muito maior. 

Morto Até o Anoitecer

Outro romance que vale a pena conferir é o primeiro livro da saga As Crônicas de Sookie Stackhouse. No universo criado por Charlaine Harris, vampiros não apenas são reais, como também decidiram assumir publicamente sua existências após cientistas terem formulado sangue sintético. Em Morto Até o Anoitcer vamos conhecer Sookie, uma garçonete telepata que vive na pequena cidade de Bons Temps, que se apaixona pelo vampiro Bill. No entanto, além do romance e da fantasia, o livro é um típico whodunit, pois uma serial-killer está a solta e Sookie usará de suas habilidades para investigar as mortes. A mistura, além de extremamente original, é bem sucedida tanto como romance, tanto como mistério ou fantasia. Infelizmente, não indico os demais livros da série, que deixam a desejar se comparado com o primeiro. No entanto, saliento que Morto Até o Anoitecer tem uma estória fechada, com início, meio e fim. 


segunda-feira, 15 de abril de 2019

RESENHA: O Nome do Vento

O nome do vento / A crônica do matador do rei / Patrick Rothfuss
Lançado em 2007 e seguido por “O Temor do Sábio” (2011), “O Nome do Ventodá início a trilogia “A Crônica do Matador de Rei”, uma história de aventura e fantasia. A saga despertou meu interesse na ocasião do lançamento do segundo livro, mas por não haver previsão do desfecho da trilogia, guardei meu exemplar e decidi esperar. Recentemente, encaixotando meus livros para uma mudança, resolvi conhecer a história de Kvothe.

Quem conhece Kote hoje o vê como o dono da Pousada Marco do Percurso, um simples hospedeiro. Mas poucos imaginam as histórias que seu passado guarda, quando ele ainda se chamava Kvothe. Sua infância em uma trupe de artistas itinerantes, seus anos tentando sobreviver nas ruas e seu ingresso na universidade lhe renderam aventuras e o transformaram em lenda, mas poucos sabem que as histórias que escutam se concentram todas em um mesmo homem. Até que ele decide relatar os acontecimentos de sua vida para um cronista que cruza o seu caminho.

“O Nome do Vento” é um livro sobre histórias. Quando a trama começa, nos deparamos com um grupo de homens em uma hospedaria, bebendo e contando histórias. Lendas. E é lá que conhecemos Kote (que, mais tarde, iremos nos familiarizar como Kvothe), um homem reservado que guarda muitos segredos.

Em sua maior parte, “O Nome do Vento” é uma história sobre uma história. Sobre um passado. Não é sobre o que pode acontecer e sim um relato de algo que já aconteceu. Em geral, a voz que nos guia é a de Kvothe, mas Rothfuss adota narrativa em terceira pessoa para os momentos no presente quando vemos pequenas conversas entre o protagonista e o cronista. Por estarmos conhecendo a história de um homem justamente pelas palavras deste homem, não temos verdades absolutas e sim pontos de vista.

Kvothe é o centro de tudo e é uma incógnita dentro de sua própria história. Durante boa parte do livro eu me perguntava por que esse homem que sempre se resguardou decidiu agora revelar toda a sua vida? O que ele está contando é a verdade ou uma versão que lhe convém? E lhe convém para quê? Mas eis que esse é justamente o encanto de “O Nome do Vento”: desvendar seu protagonista.

Kvothe é um personagem maravilhoso. Sua jornada passa por fases e nelas vemos sua personalidade se moldar. Confesso que suas primeiras aventuras não me cativaram muito e que foi apenas quando o personagem chegou na universidade que sua história realmente me fisgou. Diante de professores, colegas, amigos e inimigos, a minha sensação era a “vocês não conhecem ele. Eu conheço. Vocês não sabem do que ele é capaz”.

“Todas as histórias são verdadeiras. Mas essa realmente aconteceu, se é isso que você quer saber (...) É preciso ser um pouquinho mentiroso para contar uma história direito. O excesso de verdade confunde os fatos. O excesso de franqueza nos faz soar insinceros.” (ROTHFUSS, 2009, p.182)

E se continuo a falar sobre o Kvothe, isso é um reflexo de como Rothfuss nos apresenta sua trilogia. Histórias de fantasia dificilmente se desenvolvem em um livro único e o papel do primeiro costuma ser apresentar o universo criado. Ao que tudo indica, em “A Crônica do Matador do Rei” o universo é seu próprio protagonista.

Sim, Kvothe é um grande personagem e eu sou da opinião de que o que cativa em um livro é justamente a humanidade dos personagens, mais do que gênero ou trama (Harry Potter, para citar um exemplo fácil, é o que é pelo que torna seus personagens humanos, mais do que pelo que os torna bruxos. Um bom romance policial surpreende e fisga não pelo tamanho da pilha de corpos ou pela violência das mortes e sim pelo que há por trás dos crimes). Ainda assim, acredito que o autor errou na dosagem. Me pareceu que se Rothfuss inserisse o mesmo personagem e a mesma jornada em uma história que nada tivesse a ver com fantasia, teria funcionado da mesma forma. Isso é tanto um elogio quanto uma crítica e pelo mesmo motivo: Kvothe se sustenta sem seu mundo, mas seu mundo não se sustenta sem ele. Usando Harry Potter novamente como exemplo: Hogwarts não depende de Harry para existir claramente em nossas mentes, pois constitui um universo por si só.

No livro que marca sua estreia na literatura, o pecado de Rothfuss é não explorar as peculiaridades do universo da sua obra, não conseguindo fazer o leitor se sentir parte daquele mundo, deixando os elementos soltos e fazendo com o que poderia ser um universo fosse um cenário. O tema da alquimia, por exemplo, mal chegou a ser abordado, tendo pouca ou nenhuma influência nos acontecimentos.

Também senti falta de um norte, de saber para onde a história estava me levando. Qual o objetivo? É conhecer a vida desde homem desde a infância? É entender porque ele se tornou quem ele se tornou? É ver algo acontecer com ele nos dias de hoje? Acredito que isso, inclusive, tenha diminuído o ritmo da minha leitura, afinal, eu não lia para chegar em algum lugar e sim para avançar mais um pouco (e de fato o final deste primeiro livro não soa como a conclusão de uma etapa e sim como uma pausa na leitura).

Esses aspectos não desmerecem o mérito de “O Nome do Vento” que é nos apresentar um carismático e intrigante personagem em uma história ampla o suficiente para ter espaço para ótimos coadjuvantes como o detestável Ambrose, a sedutora Denna e o fiel Blast (este último, aliás - o jovem funcionário de Kote – um dos que mais me intriga devido a sua proximidade com o protagonista).

Ainda não há previsão para o lançamento do terceiro livro.

Título: O Nome do Vento
Autor: Patrick Rothfuss
N° de páginas: 656
Editora: Arqueiro


Compre: Amazon
Gostou da resenha? Então compre o livro pelo link acima. Assim você ajuda o Além da Contracapa com uma pequena comissão.

quinta-feira, 11 de abril de 2019

RESENHA: A Paciente Silenciosa

a paciente silenciosa
Alicia Berenson foi internada no Grove, um hospital psiquiátrico, após ter matado seu marido. Desde então, ela nunca mais falou e todos os seus terapeutas falharam em descobrir o que aconteceu na noite em que deu cinco tiros em Gabriel. É então que Theo Farber, um psicoterapeuta forense, ingressa no Grove e insiste em tratar Alicia e tentar ajudá-la de todas as formas possíveis. 

A Paciente Silenciosa prende a atenção dos leitores desde os primeiros capítulos: somos apresentados aos protagonistas e ficamos intrigados pelo mistério que Alicia representa. Uma pintora talentosa, que vivia uma vida comum ao lado do marido e que, do nada, se torna capaz de um ato hediondo. Theo, por outro lado, também intriga o leitor em virtude de sua obsessão por Alicia.

O livro é narrado em primeira pessoa por Theo, alternando entre sua vida profissional — trabalhando no Grove, tratando de Alicia e pesquisando sobre seu passado — e sua vida pessoal, envolvendo seus traumas de infância e seu relacionamento com Kathy. Além disso, também acompanhamos o diário de Alicia, que ela escreveu antes de ser internada. 

Assim, o livro nos fornece múltiplos pontos de vista: Theo conversa com os amigos e familiares de Alicia para desvendar as origens de seus transtornos mentais, e também lemos as informações que constam no seu diário. Dessa forma, ficamos em dúvida sobre o que é real e o que não é

“A fúria assassina, a fúria homicida, não nasce no presente. Ela tem origem no território anterior a memória, no mundo da primeira infância, com abusos e maus-tratos, que vão se acumulando ao longo dos anos até explodir — não raro contra o alvo errado” (MICHAELIDES, 2019, p. 50).

É na reta final que uma reviravolta completamente inesperada acontece, fazendo com que todas as peças se encaixem. Mesmo pegando o leitor de surpresa, Michaelides mantém a coerência e a lógica da estória, não tendo necessidade de apelar para elementos inverossímeis. 

Vi algumas resenhas em que o pessoal comentou não ter gostado do final em aberto do livro. No entanto, aprovei o desfecho da obra. Primeiro, por que o autor nos dá informações suficientes para saber o que vai acontecer em seguida; e segundo, por que não havia necessidade de continuar a estória. Creio que um thriller precisa ser encerrado no ápice, deixando o leitor com aquela sensação de “não acredito no que está acontecendo”. Assim, se Michaelides tivesse continuado por mais algumas páginas para colocar todos os pingos nos is,  a obra perderia um pouco desse impacto final, sem nada agregar, visto que as informações necessárias já estavam nas entrelinhas.

Adoro ler thrillers mas nos últimos anos li tantas estórias forçadas e incoerentes que tenho mantido certa distância do gênero. Assim, confesso que comecei a leitura de no espírito de “vou dar uma chance” e acabei me vendo preso a estória de Alicia e Theo do início ao fim. A Paciente Silenciosa se mostrou um thriller envolvente, com ritmo acelerado, além de contar com uma trama complexa e original. 

Título: A Paciente Silenciosa
Autor: Alex Michaelides
N.º de páginas: 349
Editora: Record
Exemplar cedido pela editora

Compre: Amazon
Gostou da resenha? Então compre o livro pelo link acima. Assim você ajuda o Além da Contracapa com uma pequena comissão.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

RESENHA: Noite do Oráculo

Noite do Oráculo / Paul Auster
Às vezes você não tem a menor ideia de qual tipo de livro está a fim de ler. Foi em um desses momentos que decidi passear com calma pelo catálogo da Companhia das Letras e me deparei com um autor que há tempos não lia: Paul Auster. Pronto! A coisa certa estava ali.

O escritor Sidney Orr acabou de sair do hospital e, por alguma razão, sente despertada novamente sua vontade de escrever. Compra um caderno azul em uma pequena papelaria e, para a sua surpresa, a nova história começa a fluir com muita naturalidade. Mas será que o que ele escreve poderia ser capaz de influenciar a realidade em que vive?

Sabe quando você pega um livro para ler alguns capítulos antes de dormir? Pouco recomendável fazer isso com “Noite do Oráculo”, já que ele exige atenção total do leitor. Isso porque Auster brinca de boneca russa, colocando uma história dentro da história, dentro de outra história, pulando de uma para outra sem muito aviso. Nesse caso, temos a história de Sidney que começa a escrever a história de Nick Bowen (inspirado em uma pequena cena de “O Falcão Maltês”, clássico de Dashiell Hammett) que lê a história do manuscrito de Silvia Maxwell (uma escritora já falecida). Não bastasse isso, a história de Sidney ganha a inclusão de diversas notas de rodapé (que, muitas vezes, se estendem por 2 ou 3 páginas - ao terminar a nota, você volta páginas para continuar a leitura onde a nota havia sido inserida) e que funcionam como histórias de bastidores da própria história. Além disso, os personagens que Sidney cria são inspirados em pessoas que ele conhece, então muitas vezes temos personagens “parecidos” em contextos diferentes. Exige atenção para não se tornar confuso.

“Não queremos saber quando vamos morrer ou quando as pessoas que amamos vão nos trair. Mas somos ávidos para conhecer os mortos antes de estarem mortos, de nos relacionarmos com os mortos quando vivos.” (AUSTER, 2004, p.115)

“Noite do Oráculo” um livro que vale mais pela experiência de leitura, do que pela história (ou histórias) em si. Sidney e sua esposa Grace são um casal apaixonado que já viveu dias melhores. Grace é a luz da sua vida, sua inspiração, mas algo a está deixando infeliz. Já Nick é um sujeito que interrompe sua vida, deixa para trás sua esposa, e vai em busca de algo diferente. Temos ainda a história do soldado do manuscrito. Olhando em retrospecto, parece que nenhuma das tramas sofre um grande desenvolvimento (tanto que é mais relevante comentar a estrutura narrativa do livro do que a história em si), mas durante a leitura os acontecimentos se dão de forma tão orgânica que até esquecemos que existem tramas paralelas. Esquecemos até que Nick é apenas invenção da imaginação de Sidney (que por sua vez também é fruto da imaginação de Auster, mas não vamos enveredar por esse caminho). O fato é que vejo “Noite do Oráculo” como um livro sobre a importância das histórias e das palavras. Elas criam. Elas transformam a realidade. Elas criam a realidade. Pode até não ser real, mas basta escrever para que se torne.

Essa parece ser uma temática recorrente na obra de Auster (sobre a qual, confesso, não tenho tanto conhecimento). Quando li “Homem no Escuro” fui totalmente fisgada por aquela trama que se passa em uma única noite em que um homem sem sono, e sem poder sair da cama, cria mentalmente uma história para se distrair. Quando li “A Trilogia de Nova York”, fiquei admirada de ver tudo que havia nas entrelinhas dos três contos que compõem o livro (considerado uma das obras-primas do autor). De um jeito ou de outro, Auster parece sempre querer mostrar que nada é totalmente real e que, em algum nível, tudo foi inventado por alguém. Nem que seja por nós mesmos, a cada decisão que tomamos.

“Oráculo da Noite” não é para qualquer leitor e sua história é só um pretexto para contar outra maior. Em um certo momento, um personagem diz: “Todo mundo faz palavras”. É isso que o leitor precisa entender: no mundo de Auster, palavras não são um adereço. São o instrumento que cria a realidade.

Título: Noite do Oráculo
Autor: Paul Auster
N° de páginas: 224
Editora: Companhia das Letras
Exemplar cedido pela editora

Compre: Amazon
Gostou da resenha? Então compre o livro pelo link acima. Assim você ajuda o Além da Contracapa com uma pequena comissão.

sábado, 6 de abril de 2019

O que vem por aí - abril

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Top Cometarista Abril


No top comentarista de abril, o vencedor poderá escolher o livro que quer ganhar dentre as quatro opções: "Você Nasceu Para Isso", "A Viúva Silenciosa", "O Mundo Segundo Garp" "Muito Além do Inverno"

Confira o regulamento:

1. Para participar, basta preencher o formulário abaixo, usando sua conta do Facebook ou seu e-mail. É obrigatório curtir a página do blog no Facebookcomentar em todas as postagens de abril e ter um endereço de entrega no Brasil.

2. Para simplificar, optamos por utilizar o Rafflecopter. A primeira entrada confirma sua participação no Top Comentarista, enquanto as demais constituem chances extras, sendo opcionais. Atenção: depois de feito o sorteio será conferido se o sorteado comentou em todas as postagens do mês. Caso essa regra não seja cumprida, o mesmo será desclassificado, e um novo sorteio será realizado.

3. Para a entrada "Tweet about the Giveaway" ser válida, é obrigatório seguir o blog no twitter. 

4. Lembrando que somente serão válidos comentários significativos. Ou seja, comentários do gênero “interessante”, “legal” ou “ótima resenha” não serão computados. O participante poderá comentar apenas uma vez em cada post.

5. O sorteado poderá escolher o livro que deseja receber dentre as quatro opções disponíveis:
Você Nasceu Para Isso;
- A Viúva Silenciosa;
- O Mundo Segundo Garp; 
- Muito Além do Inverno.

6. O resultado do Top Comentarista será divulgado no blog até o dia 05 de maio.

7. O sorteado será contatado por email, tendo o prazo de 48h para fornecer seus dados e o blog se responsabiliza por confirmar o recebimento das informações. Decorrido o prazo sem manifestação do vencedor, novo sorteio será realizado.

8. O prêmio será enviado pelo blog no prazo de quarenta e cinco dias úteis.

9. A Equipe do Além da Contracapa se reserva ao direito de dirimir questões não previstas neste regulamento.

a Rafflecopter giveaway

domingo, 31 de março de 2019

"Filter bubbles" e o poder da literatura

Conversa de Contracapa é coluna off topic do blog Além da Contracapa. Sem limitação temática, iremos explorar todo e qualquer assunto relacionado ao mundo da literatura. 

filtter bubbles e literaturaJá reparou que se você pesquisa determinado produto na internet você começa a ver inúmeras propagandas dele enquanto navega em outros sites? Isto acontece por causa dos algoritmos que são usados em mecanismos de buscas e redes sociais, os quais foram projetados com fins comerciais para fornecer ao usuário resultados mais próximos possíveis de suas expectativas. 

Posteriormente, os filtros passaram a personalizar toda a nossa experiência online. No entanto, especialistas descobriram um preocupante efeito colateral destes algoritmos: as filter bubbles (filtros-bolhas em português). A expressão é utilizada para descrever as bolhas que são causadas por estes algoritmos, as quais mantém os usuários em suas zonas de conforto. Nas palavras de Eli Parisier, “a internet nos mostra o que ela acha que queremos ver, mas não necessariamente o que nós precisávamos ver”. 

Dessa forma, estamos presos em bolhas e não temos o poder de decidir o que nos é mostrado. Os algoritmos utilizam diversos critérios para definir o que seria mais relevante para o usuário, nos deixando cegos para todo o resto. E o problema é que as redes sociais são os portões da informação. Segundo os dados constantes no estudo “Information Manipulation: a challenge for our democracies”, mais de 70% do tráfego da internet diz respeito ao uso do Google e Facebook. Além disso, as redes sociais são usadas como fontes de informação por 62% dos americanos e 48% dos europeus. E creio que a realidade brasileira não deve ser diferente. 

Desta forma, os algoritmos estão criando casulos, pois “somos expostos apenas aos conteúdos que confirmam nossas crenças” (Romain Badouard, tradução livre). Assim, nunca somos confrontados com outras opiniões e usamos as informações que coletamos nas redes sociais como uma fonte de validação da nossa visão de mundo. Ou pior, como uma validação dos nossos preconceitos. 

No Brasil, vivemos em um cenário de extrema polarização. E esta situação é ainda mais acentuada pela atuação dos algoritmos, que nos isolam com aqueles que pensam como nós. E se todas as pessoas dentro da bolha pensam igual, morrem o senso crítico, o diálogo e o debate. Assim, não precisamos mais de argumentos para defender nossas ideais pois não há mais necessidade de argumentar. 

E é por isso que a literatura se torna ainda mais vital nos dias de hoje. Precisamos sair da bolha e ser confrontados com novas perspectivas, as quais nos obriguem a refletir sobre nossas convicções. Harry Potter me mostrou que o preconceito existe em muitas formas e que nenhuma delas é aceitável; Os Miseráveis me fez perceber que a meritocracia é uma farsa se as pessoas não partirem das mesmas condições; Capitães da Areia revelou a triste realidade dos garotos de rua e como eles recorrem ao crime por não terem outras alternativas; Ainda Estou Aqui me levou para 1964 e me fez sentir na pele os horrores da ditadura militar. 

Creio que enquanto não nos tornarmos um país de leitores, com uma mente analítica e humildade para reconhecer os erros, continuaremos presos em bolhas. Pessoas limitadas às suas opiniões, usando as informações como uma ferramenta de confirmação, orgulhosos demais para admitir que existe um universo inteiro fora da bolha. E se Bilbo Bolseiro me ensinou alguma coisa foi que a aventura só começa quando deixamos a zona de conforto para trás. 

Para saber mais:
- Palestra de Eli Parisier no TED: "Tenha cuidado com os filtros-bolhas"
- Relatório "Information Manipulation: a challenge for our democracies” (pdf em inglês).


 

Além da Contracapa Copyright © 2011 -- Template created by O Pregador -- Powered by Blogger