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sábado, 21 de janeiro de 2017

[Literatura Brasileira] para quem não gosta de [Literatura Brasileira]

Todo leitor se identifica com alguns gêneros literários mais do que com outros. Mas existem alguns livros que são capazes de abrir os olhos dos leitores para gêneros dos quais ele nunca gostou, justamente por mostrarem uma faceta diferente do gênero, por terem algo a mais. Livros que fazem o leitor que diz “Não gosto deste tipo de livro” se apaixonar justamente por um livro deste tipo.

Foi pensando nisso que o Além da Contracapa criou uma nova coluna: “[...] para quem não gosta de [...]”, na qual faremos uma seleção de livros de um determinado gênero ou temática que podem agradar até mesmo quem costuma fugir deles. 

1. Dom Casmurro

Talvez um dos livros mais icônicos da Literatura Brasileira, “Dom Casmurro” pode fazer muitos torcerem o nariz graças a traumas de escola, mas é um livro sensacional. Eu poderia dizer aqui que a narrativa de Machado de Assis é, provavelmente, a mais engraçada e irônica que você vai encontrar em um clássico. Eu poderia dizer que Bentinho e Capitu são personagens espetaculares (e eu só não a considero a melhor personagem da literatura brasileira porque Erico Verissimo nos presenteou com o Capitão Rodrigo Cambará). Mas “Dom Casmurro” também é um ótimo livro para quem gosta de desvendar um bom mistério. Não importa quantas vezes você leia, simplesmente não há como ter uma opinião definitiva sobre a possível traição de Capitu. Já li três vezes, quero ler outras, e em todas terminei acreditando que a traição ocorreu. Mas como saber ao certo? Já vi até mesmo professores de literatura manterem suas dúvidas. Um comentou inclusive que só depois de várias releituras percebeu um comentário de Capitu que iria totalmente contra a hipótese de Bentinho de que ela o traía. Até então, ele também era do time dos que acreditam que houve traição. É por isso que mesmo que você não goste dos clássicos da nossa literatura, “Dom Casmurro” pode conquistar você por ser um quebra-cabeças no qual você procura novas peças escondidas a cada linha para tentar desvendar o insolúvel mistério.
Cresci ouvindo minha mãe falar sobre “O Tempo e o Vento” e, quando li a saga, não foi difícil entender porque a história se mantinha viva em sua memória após tantos anos. Você não lê “O Tempo e o Vento”, você vive “O Tempo e o Vento”, isso porque Verissimo cria alguns dos personagens mais vívidos que eu já encontrei na literatura e não é difícil sentir que você os conhece (não é à toa que certa vez um leitor disse a Verissimo que ficou em luto e não foi trabalhar no dia seguinte ao ler a morte do Capitão Rodrigo Cambará ou que minha mãe chorou por dias quando Rodrigo Cambará – bisneto do capitão – também morreu). Em uma história tão extensa e com tantos personagens surpreende que até o menor dos coadjuvantes ganhe essa faísca de vida. É verdade que a história é longa (três livros divididos em sete volumes), mas quando você termina a sensação não é de conclusão e sim de fazer parte de uma nova família: a dos Terra Cambará. “O Tempo e o Vento” tem aventuras, batalhas, amores, decepções, personagens fortes e é uma aula de história, tanto do Rio Grande do Sul, quanto do Brasil. Por ter de tudo um pouco é capaz de agradar leitores dos mais variados gêneros.

3. Capitães de Areia 


Capitães de Areia foi meu primeiro contato com a obra de Jorge Amado e um dos melhores livros que já li (inclusive estando entre minhas 5 melhores leituras de 2015). A estória gira em torno de um grupo de meninos abandonados, que vive de pequenos furtos e mora nas ruas. Jorge Amado conviveu com meninos de rua para escrever o livro e o conhecimento de causa do autor fica claro desde o início, pois vemos um “olhar de dentro”. Com muita sensibilidade, Amado desenvolve personagens complexos — cada um vivenciando dramas particulares — e que encontram no grupo não apenas aceitação, mas também o sentimento de pertencimento e, principalmente, uma identidade. O autor ainda aborda temas como amizade, companheirismo, lealdade, amor, integridade, vingança, abandono e violência de forma sútil, mas contundente. Capitães de Areia consegue ser uma mescla de romance de formação e crítica social, que não apenas faz o leitor refletir, mas que também emociona. Certamente, um livro atemporal e que merece ser visto com um verdadeiro clássico da literatura brasileira. 


terça-feira, 26 de abril de 2016

Conexões Além da Contracapa #23

Jorge Amado é uma das vozes mais importantes da literatura nacional, tendo criado personagens de destaque como Gabriela, Tereza Batista e Tieta. Suas histórias por vezes adquirem contornos de crítica politica e social, por outras tendem para a sensualidade e a irreverência. Um dos melhores exemplos desta última, é “A Morte e a Morte de Quincas Berro D’água”, considerada por alguns críticos como um dos melhores trabalhos do autor. Nele, a família do protagonista quer acreditar que sua morte se deu por causas naturais, mas os amigos sabem que um homem como ele jamais teria uma morte tão comum e o levam para uma última noite de farra para lhe dar a morte heroica com a qual sempre sonhou. Mortos voltando à vida e causando confusão entre os vivos é um tema que também aparece em...


...“Incidente em Antares”, no qual os ilustres mortos da cidade de Antares se unem para reclamar seu direito a um enterro digno, algo que não lhes foi dado graças a uma greve dos coveiros. O romance foi o último escrito por Érico Verissimo, cuja obra-prima sem dúvida é “O Tempo e o Vento” saga que retrata 200 anos da história do Rio Grande do Sul e da família Terra-Cambará e na qual Veríssimo introduz Floriano Cambará, o narrador por trás de toda a história e considerado seu alter-ego, assim como Nathan Zuckerman é considerado o alter-ego de...


...Philip Roth, figurando em alguns dos romances mais importantes do autor como “Pastoral Americana” e “A Marca Humana”. Neste último, um professor universitário se vê obrigado a se afastar de suas atividades depois de uma acusação de racismo por usar uma palavra pejorativa em sala de aula. Racismo também é tema de...



...“O Sol é Para Todos”, um dos mais populares romances norte-americanos de todos os tempos, no qual o advogado branco Atticus Finch é condenado pela sociedade por defender um homem negro acusado de estuprar uma mulher branca. A história é narrada pelo ponto de vista da pequena Scout, filha de Atticus, e foi o único livro publicado por Harper Lee que durante anos se recusou até mesmo a deixar que o público conhecesse a história de Scout adulta (que foi, na verdade, o embrião a partir do qual o editor sugeriu que a autora explorasse os anos da infância da menina). Porém, em 2015, quando Lee estava com 89 anos e a saúde debilitada, o livro “Vá, coloque um vigia” veio à tona, cercando sua publicação de controvérsias, como também aconteceu com...


...“O Original de Laura”, livro no qual Vladimir Nabokov trabalhava na ocasião de sua morte. Sua intenção era que o manuscrito fosse destruído por seus herdeiros caso ele não conseguisse finalizar a obra. O desejo do autor não foi respeitado e o livro foi publicado, não fazendo jus às suas obras aclamadas, como “Lolita”, mas ainda assim mostrando algumas de suas características como a precisão e a ironia, que também podem ser observadas na obra de...


...John Banville, considerado “um herdeiro de Proust, via Nabokov”. Banville, vencedor de prêmios importantes como o Franz Kafka e o Man Booker, é o autor de “Os Infinitos”, uma história na qual deuses do Olimpo tomam formas humanas e criam confusões em meio a uma família. A temática também aparece em...


...“O Sumiço da Santa: uma história de feitiçaria” na qual uma imagem de Santa Bárbara ganha vida e sai pelas ruas de Salvador em uma das últimas histórias escritas por Jorge Amado.


quarta-feira, 13 de abril de 2016

RESENHA: A morte e a morte de Quincas Berro D'água

“Viu o sorriso. O sorriso cínico, imoral, de quem se divertia. O sorriso não havia mudado, contra ele nada tinham obtido os especialistas da funerária. Também ela, Vanda, esquecera de recomendar-lhes, de pedir uma fisionomia mais a caráter, mais de acordo com a solenidade da morte. Continuara aquele sorriso de Quincas Berro D’água e, diante desse sorriso de mofa e gozo, de que adiantavam sapatos novos (...) de que adiantavam roupa negra, camisa alva, barba feita, cabelo engomado, mãos postas em oração? Porque Quincas ria daquilo tudo (...). (AMADO, p. 43, 2014)

Nenhum leitor brasileiro que se preze pode passar a vida sem ler Jorge Amado. Eu tive meu primeiro contato com o autor nos tempos de colégio, mas por razões que não me recordo, não cheguei a concluir a leitura de “Mar Morto”. De forma que “A Morte e a morte de Quincas Berro D’água” foi meu novo ponto de partida.

Durante muitos anos, Joaquim Soares da Cunha foi funcionário público e exemplar homem de família. Até que um dia, abandonou a vida que levava para se tornar Quincas Berro D’água, um vagabundo que mora em meio a bêbados e prostitutas, mas tem a liberdade como seu guia. Na ocasião de sua morte, a família espera poder, finalmente, lhe restaurar a dignidade, enquanto os amigos querem lhe dar uma despedida digna do herói que ele sonhava ser.

Com uma narrativa leve e até mesmo irônica, Jorge Amado dá a seu narrador ares de quem não leva muito a sério a história que tem para contar, o que, além de cativar o leitor imediatamente, se revela perfeito para os contornos fantásticos que a história ganhará. Além disso, esse tom impele o leitor a ver aquela sociedade da mesma forma que o protagonista a via, ou seja, como indigna de ser levada a sério, com todas as suas hipocrisias. Eu diria que é até mesmo impossível não glorificar a segunda vida de Quincas e desprezar a primeira, já que, pelo menos, ela é vivida com toda a vontade e transparência.

Há dois grupos de personagens: de um lado, a família, que de certa forma se alegra com a morte de Quincas, já que isso significa o fim da vida vergonhosa que vinha levando, e que prefere se agarrar a uma versão idealizada de quem ele era; e do outro, os amigos e parceiros de farra, que lamentam profundamente a perda de Quincas, a quem tinham em grande estima e viam quase como a um pai. Nesse contexto, as figuras individuais perdem a importância, sendo significativas pelo seu papel dentro do grupo a que pertencem.

Jorge Amado não deixa de ressaltar sua Bahia, usando de lugares e elementos da cultura local (como a capoeira e o candomblé) para ambientar a sua obra.

Vale um destaque para a edição preparada pela Companhia das Letras que além de cronologia do autor, posfácio assinado por Affonso Romano de Sant’Anna comentando o livro, breve comentário de Zélia Gattai sobre como a história surgiu e foi escrita por seu marido (em apenas uma semana e em meio a escrita de Vasco Moscoso) ainda apresenta fotos, entre elas das primeiras páginas do texto original (com direito a correções a punho) e capas de diversas edições (inclusive internacionais) recebidas pela história.

“A Morte e a morte de Quincas Berro D’água” foi adaptado para o teatro e a televisão. É uma narrativa breve, que não está entre as obras mais sérias e de cunho político do autor, mas nem por isso deixa de gerar reflexões. Até que ponto vivemos a vida que queremos viver e até que ponto nossas escolhas são determinadas pelo que é esperado de nós? As pessoas que nos cercam nos apreciam pelo que realmente somos ou apenas pela imagem que fazem do que elas gostariam que fossemos? Essas são, para mim, as principais perguntas do livro. Um novo ponto de partida que me fez querer explorar um pouco mais a extensa obra de Jorge Amado.

Título: A Morte e a morte de Quincas Berro D’água (exemplar cedido pela editora)
Autor: Jorge Amado
N° de páginas: 120
Editora: Companhia das Letras


sábado, 17 de outubro de 2015

RESENHA: Capitães da Areia

Capitães da Areia Jorge Amado
Há anos me sinto em falta com a literatura nacional, e um dos autores que tinha curiosidade de conhecer mas que sempre deixava para depois era Jorge Amado. E após a leitura de Capitães da Areia, fiquei a me perguntar por que nunca li nenhuma obra de sua autoria antes. 

A estória gira em torno do grupo de meninos de rua conhecidos como Capitães da Areia, que vive nas ruas de Salvador, morando em um trapiche abandonado e sobrevivendo de furtos e assaltos. Sob a liderança de Pedro Bala, os meninos crescem sem saber o que é infância, fazendo o que for necessário para sobreviverem, descobrindo os sabores e dissabores da vida. 

O fator que mais chama atenção em Capitães da Areia é a crueza da narrativa. Jorge Amado não poupa palavras para mostrar como é a vida das crianças abandonadas, muitas vezes órfãos, que não recebem apoio do Estado, que são vistos pela sociedade com uma mistura de piedade e ojeriza e que, sem outra saída, juntam-se ao bando para a prática criminosa, a única opção que lhes restou. 

A obra é um verdadeiro romance de formação, pois acompanhamos a evolução destes meninos, sem família e sem educação, mas que anseiam por amor e carinho. Não é de surpreender que nesta busca, descobrem cedo a sexualidade, seja com prostituas, seja com “negrinhas no areal”, seja nos braços um dos outros. Tudo o que querem é o sentimento de pertencimento, e ante o desamparo da sociedade, encontram isto no grupo, que não lhes dá apenas uma identidade, mas também um motivo para viver e lutar. Marginalizados, não é de se surpreender que criem suas próprias leis e que tenham a lealdade como o maior mandamento.

“O que ele queria era felicidade, era alegria, era fugir de toda aquela miséria, de toda aquela desgraça. Havia, é verdade, a grande liberdade das ruas. Mas havia também o abandono de qualquer carinho, a falta de todas as palavras boas.” (AMADO, 2008, p. 38). 

Capitães da Areia não seria o livro impactante que é se não fosse pela habilidade de Jorge Amado em criar personagens complexos, verossímeis e que despertam a empatia do leitor. Pedro Bala, o líder destemido, que faria de tudo por seu grupo, e que olha para o futuro com incertezas; Professor, o único adolescente alfabetizado e que aspira se tornar um artista; Pirulito, que encontrou forças em sua fé e que vive entre a culpa dos furtos que comete e o regozijo de sua religião; Sem-Pernas, o aleijado que sente apenas o ódio pulsar em seu coração; e Dora, a garota que se junta ao grupo após perder a mãe, que inicialmente desperta o desejo dos meninos, mas que depois apreendem a vê-la como uma irmã. 

Embora a estória, a meu ver, não tenha um protagonista, quem se destaca é Sem-Pernas. Ele, que nunca teve perspectivas, que recebeu apenas desprezo da sociedade, que não teve uma família para amar e ser amado, que sofreu tantas injustiças, mesmo sendo tão novo. Embora a maioria daqueles adolescentes viva em situação semelhante, Sem-Pernas nunca conseguiu lidar com tais sentimentos e apenas o ódio, a raiva e o desprezo enchem seu coração. 

Como se vê, há uma cacofonia de personalidades e é através desta cacofonia que vemos estes garotos crescerem e serem confrontados com as mais adversas situações. Não é por menos que a estória dos Capitães acaba sendo um pano de fundo utilizado por Jorge Amado para abordar assuntos como ódio, amizade, vingança, companheirismo, piedade, violência, amor, abandono, lealdade, entre tantos outros. 

“Mesmo não sabendo que era amor, sentiam que era bom.” (AMADO, 2008, p. 193)

Fica claro desde o início que Jorge Amado sabe sobre o que está falando e que possui conhecimento sobre a dura vida dos menores abandonados. Ao final do livro, Zélia Gatai confirma que, para escrever o livro, seu marido viveu com crianças de rua, inclusive dormindo com elas no trapiche, o que além de explicar a riqueza de detalhes, elevou ainda mais o meu respeito e admiração pelo autor. 

Capitães da Areia foi publicado em 1937, e mesmo transcorridos mais de setenta anos, é impressionante como a obra permanece atual. Neste ano tem-se discutido a redução da maioridade penal, uma medida que na melhor das hipóteses servirá como um paliativo no curto prazo, mas que não resolverá o problema. Nossas prisões estão longe de ressocializar os condenados, e as condições degradantes apenas servem para instilar mais ódio e raiva naquelas pessoas. E como no Brasil não existe prisão perpétua, estamos criando uma população carcerária extremamente violenta e que daqui alguns anos estará nas ruas. Nossas crianças e adolescentes precisam de educação e oportunidades, não de descaso e repressão. 

O grande mérito de Jorge Amado é mostrar uma realidade dura, muitas vezes ignorada pela sociedade, que condena as crianças e adolescentes abandonados como se estivessem nestas condições por opção, e não por necessidade. Capitães da Areia é muito mais do que uma estória de um bando de adolescentes assaltantes, mas sim uma severa crítica social sobre como temos falhado constantemente em estender a mão a quem mais necessita. 

Título: Capitães da Areia 
Autor: Jorge Amado
N. de páginas: 281
Editora: Companhia das Letras
Exemplar cedido pela editora

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