Todo leitor se identifica com alguns gêneros literários mais do que com outros. Mas existem alguns livros que são capazes de abrir os olhos dos leitores para gêneros dos quais ele nunca gostou, justamente por mostrarem uma faceta diferente do gênero, por terem algo a mais. Livros que fazem o leitor que diz “Não gosto deste tipo de livro” se apaixonar justamente por um livro deste tipo.
Foi pensando nisso que o Além da Contracapa criou uma nova coluna: “[...] para quem não gosta de [...]”, na qual faremos uma seleção de livros de um determinado gênero ou temática que podem agradar até mesmo quem costuma fugir deles.
1. Dom Casmurro
Talvez um dos livros mais icônicos da Literatura Brasileira, “Dom Casmurro” pode fazer muitos torcerem o nariz graças a traumas de escola, mas é um livro sensacional. Eu poderia dizer aqui que a narrativa de Machado de Assis é, provavelmente, a mais engraçada e irônica que você vai encontrar em um clássico. Eu poderia dizer que Bentinho e Capitu são personagens espetaculares (e eu só não a considero a melhor personagem da literatura brasileira porque Erico Verissimo nos presenteou com o Capitão Rodrigo Cambará). Mas “Dom Casmurro” também é um ótimo livro para quem gosta de desvendar um bom mistério. Não importa quantas vezes você leia, simplesmente não há como ter uma opinião definitiva sobre a possível traição de Capitu. Já li três vezes, quero ler outras, e em todas terminei acreditando que a traição ocorreu. Mas como saber ao certo? Já vi até mesmo professores de literatura manterem suas dúvidas. Um comentou inclusive que só depois de várias releituras percebeu um comentário de Capitu que iria totalmente contra a hipótese de Bentinho de que ela o traía. Até então, ele também era do time dos que acreditam que houve traição. É por isso que mesmo que você não goste dos clássicos da nossa literatura, “Dom Casmurro” pode conquistar você por ser um quebra-cabeças no qual você procura novas peças escondidas a cada linha para tentar desvendar o insolúvel mistério.
Cresci ouvindo minha mãe falar sobre “O Tempo e o Vento” e, quando li a saga, não foi difícil entender porque a história se mantinha viva em sua memória após tantos anos. Você não lê “O Tempo e o Vento”, você vive “O Tempo e o Vento”, isso porque Verissimo cria alguns dos personagens mais vívidos que eu já encontrei na literatura e não é difícil sentir que você os conhece (não é à toa que certa vez um leitor disse a Verissimo que ficou em luto e não foi trabalhar no dia seguinte ao ler a morte do Capitão Rodrigo Cambará ou que minha mãe chorou por dias quando Rodrigo Cambará – bisneto do capitão – também morreu). Em uma história tão extensa e com tantos personagens surpreende que até o menor dos coadjuvantes ganhe essa faísca de vida. É verdade que a história é longa (três livros divididos em sete volumes), mas quando você termina a sensação não é de conclusão e sim de fazer parte de uma nova família: a dos Terra Cambará. “O Tempo e o Vento” tem aventuras, batalhas, amores, decepções, personagens fortes e é uma aula de história, tanto do Rio Grande do Sul, quanto do Brasil. Por ter de tudo um pouco é capaz de agradar leitores dos mais variados gêneros.
3. Capitães de Areia
Capitães de Areia foi meu primeiro contato com a obra de Jorge Amado e um dos melhores livros que já li (inclusive estando entre minhas 5 melhores leituras de 2015). A estória gira em torno de um grupo de meninos abandonados, que vive de pequenos furtos e mora nas ruas. Jorge Amado conviveu com meninos de rua para escrever o livro e o conhecimento de causa do autor fica claro desde o início, pois vemos um “olhar de dentro”. Com muita sensibilidade, Amado desenvolve personagens complexos — cada um vivenciando dramas particulares — e que encontram no grupo não apenas aceitação, mas também o sentimento de pertencimento e, principalmente, uma identidade. O autor ainda aborda temas como amizade, companheirismo, lealdade, amor, integridade, vingança, abandono e violência de forma sútil, mas contundente. Capitães de Areia consegue ser uma mescla de romance de formação e crítica social, que não apenas faz o leitor refletir, mas que também emociona. Certamente, um livro atemporal e que merece ser visto com um verdadeiro clássico da literatura brasileira.














