“Enquanto eu olhava, meu eu interior se alterou; meu espírito sacudiu suas asas sempre acorrentadas e elas quase se soltaram; tive uma sensação súbita como se eu, que até então jamais vivera de verdade, estivesse finalmente prestes a saborear a vida.” (BRONTË, 2016, p.91)
Quando se gosta muito de um livro é praticamente impossível não querer ler outras obras do mesmo autor. Foi por isso que iniciei a leitura de “Villette” com altas expectativas, afinal, não apenas “Jane Eyre” foi uma das minhas melhores leituras de 2015, como o considero um dos melhores clássicos que já tive o prazer de ler.
Lucy Snowe não tem família ou qualquer coisa que a prenda. Por isso, a fim de construir sua vida por conta própria, ela se muda para Villette, onde se tornará professora de inglês em um internato para meninas.
Novamente me surpreende o quanto o texto de Brontë é fluido, mesmo se tratando de um livro clássico. Em nenhum momento a história se torna cansativa pela linguagem ou pelo ritmo, tendo como único ponto negativo as inúmeras expressões em francês que quebram o ritmo da leitura, tanto pela estranheza que causam, quanto por estarem traduzidas apenas no posfácio, obrigando o leitor a interromper a leitura em busca da tradução. Diga-se de passagem que foi uma orientação da autora que a tradução ocorresse dessa forma, algo que a editora Martin Claret optou por obedecer.
Mais uma vez, Charlotte Brontë cria uma personagem feminina independente que, diferente das mulheres da época, não vê no casamento a chave para a felicidade e subsistência. Assim como Jane Eyre, Lucy toma para si a responsabilidade sobre sua própria vida, tem opiniões fortes (através das quais a autora faz criticas ao catolicismo) e inclusive faz pouco das colegas cuja maior preocupação é encontrar pretendentes. Levando em consideração o que costumamos ver em romances clássicos, o final de “Villette” é bastante inusitado.
A narrativa é feita em primeira pessoa, por uma Lucy já idosa que relata sua vida para um leitor com o qual, de tempos em tempos, dialoga diretamente. Talvez por contar os acontecimentos tanto tempo depois de terem ocorrido, Lucy opta por deixar de fora alguns detalhes e esclarecimentos, importando apenas que as coisas tenham acontecido e não o que levou elas a acontecerem. Nesse sentido também, personagens secundários vão e voltam sem aparente razão, no que tanto podem ser coincidências forçadas ou situações sobre as quais a narradora não se deu ao trabalho de entrar em detalhes.
A verdade é que toda a postura de Lucy enquanto narradora é peculiar. Essa é uma personagem que está contando sua história de vida, chegando até a abordar diretamente o leitor, mas que parece não fazer questão de se deixar ser conhecida por ele. Isso até está de acordo com a personalidade da personagem (acostumada a estar por conta própria no mundo, ela prefere se preservar), mas prejudica o envolvimento do leitor com a sua jornada já que tudo que Lucy nos conta soa superficial. Além disso, no momento em que a própria protagonista não se apega aos personagens da trama, o leitor, tampouco.
Mas o que causa realmente estranheza em “Villette” é que a história de Lucy parece pertencer a todos menos a ela. Por um lado, sentimos que ela é a protagonista e que, portanto, são as coisas que acontecem a ela que importam para a história. O problema é que nada de significativo acontece a ela porque tudo que move a trama diz respeito aos personagens coadjuvantes. Dessa forma, temos uma protagonista que não protagoniza, pois as situações principais não lhe dizem respeito (o que leva o leitor a pouco se importar com a personagem) e temos coadjuvantes vivendo os principais arcos narrativos, sem que sintamos ligação nenhuma com eles. Assim, de qualquer ângulo que se olhe, o que o leitor recebe é insatisfatório. A verdade é que a vida de Lucy parece ser tão sem graça que ela prefere observar os outros (mas se é assim, porque ela decidiu contar essa história tantos anos depois?). Isso a tornaria uma boa narradora testemunha, o problema é que não é essa a sensação que ela transmite. É uma situação muito diferente de, por exemplo, Nick Carraway, de “O Grande Gatsby” que não deixa dúvida nenhuma sobre aquela história não ser sua e sim do misterioso Jay Gasby e sua amada Daisy, embora seja através dos olhos de Nick que a conhecemos. Quanto a Lucy Snowe, ao que tudo indica, era ela quem deveria estar no centro dos acontecimentos e era a sua jornada que deveríamos estar acompanhando (assim como fomos presenteados por Brontë com a jornada de Jane Eyre), mas tudo o que temos são eventos dispersos, mesmo que amarrados.
Sendo fruto de uma época em que romances eram sinônimo de textos rebuscados e mulheres eram donzelas indefesas, “Villette” tem seus méritos pela narrativa de Charlotte Brontë e por apresentar uma personagem feminina independente. Mas não é um livro que consegue cativar.
Autora: Charlotte Brontë
N° de páginas: 856Editora: Martin Claret










