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terça-feira, 26 de abril de 2016

Conexões Além da Contracapa #23

Jorge Amado é uma das vozes mais importantes da literatura nacional, tendo criado personagens de destaque como Gabriela, Tereza Batista e Tieta. Suas histórias por vezes adquirem contornos de crítica politica e social, por outras tendem para a sensualidade e a irreverência. Um dos melhores exemplos desta última, é “A Morte e a Morte de Quincas Berro D’água”, considerada por alguns críticos como um dos melhores trabalhos do autor. Nele, a família do protagonista quer acreditar que sua morte se deu por causas naturais, mas os amigos sabem que um homem como ele jamais teria uma morte tão comum e o levam para uma última noite de farra para lhe dar a morte heroica com a qual sempre sonhou. Mortos voltando à vida e causando confusão entre os vivos é um tema que também aparece em...


...“Incidente em Antares”, no qual os ilustres mortos da cidade de Antares se unem para reclamar seu direito a um enterro digno, algo que não lhes foi dado graças a uma greve dos coveiros. O romance foi o último escrito por Érico Verissimo, cuja obra-prima sem dúvida é “O Tempo e o Vento” saga que retrata 200 anos da história do Rio Grande do Sul e da família Terra-Cambará e na qual Veríssimo introduz Floriano Cambará, o narrador por trás de toda a história e considerado seu alter-ego, assim como Nathan Zuckerman é considerado o alter-ego de...


...Philip Roth, figurando em alguns dos romances mais importantes do autor como “Pastoral Americana” e “A Marca Humana”. Neste último, um professor universitário se vê obrigado a se afastar de suas atividades depois de uma acusação de racismo por usar uma palavra pejorativa em sala de aula. Racismo também é tema de...



...“O Sol é Para Todos”, um dos mais populares romances norte-americanos de todos os tempos, no qual o advogado branco Atticus Finch é condenado pela sociedade por defender um homem negro acusado de estuprar uma mulher branca. A história é narrada pelo ponto de vista da pequena Scout, filha de Atticus, e foi o único livro publicado por Harper Lee que durante anos se recusou até mesmo a deixar que o público conhecesse a história de Scout adulta (que foi, na verdade, o embrião a partir do qual o editor sugeriu que a autora explorasse os anos da infância da menina). Porém, em 2015, quando Lee estava com 89 anos e a saúde debilitada, o livro “Vá, coloque um vigia” veio à tona, cercando sua publicação de controvérsias, como também aconteceu com...


...“O Original de Laura”, livro no qual Vladimir Nabokov trabalhava na ocasião de sua morte. Sua intenção era que o manuscrito fosse destruído por seus herdeiros caso ele não conseguisse finalizar a obra. O desejo do autor não foi respeitado e o livro foi publicado, não fazendo jus às suas obras aclamadas, como “Lolita”, mas ainda assim mostrando algumas de suas características como a precisão e a ironia, que também podem ser observadas na obra de...


...John Banville, considerado “um herdeiro de Proust, via Nabokov”. Banville, vencedor de prêmios importantes como o Franz Kafka e o Man Booker, é o autor de “Os Infinitos”, uma história na qual deuses do Olimpo tomam formas humanas e criam confusões em meio a uma família. A temática também aparece em...


...“O Sumiço da Santa: uma história de feitiçaria” na qual uma imagem de Santa Bárbara ganha vida e sai pelas ruas de Salvador em uma das últimas histórias escritas por Jorge Amado.


domingo, 8 de novembro de 2015

RESENHA: Vá, Coloque um Vigia

“Ela ouviu a voz do pai, uma vozinha vinda do cálido e acolhedor passado: ‘Senhores, se tem uma coisa no mundo na qual eu acredito é nisto: Direitos iguais para todos, privilégios para ninguém.’” (LEE, 2015, p. 101).

***

Após a leitura do fantástico O Sol é Para Todos, estava com expectativa em alta para conferir sua inesperada continuação Vá, Coloque um Vigia. Porém, logo após descobri toda a controvérsia sobre o lançamento do livro e fiquei um tanto receoso. Ainda assim, imaginei que mesmo que o novo livro não estivesse à altura do primeiro, seria interessante entender qual futuro a autora tinha planejado para personagens tão queridos. 

Com vinte e seis anos e morando em Nova York, Scout é uma jovem mulher que todos os anos retorna a Maycomb para visitar sua família durante as férias. É em uma dessas viagens que descobre que seu pai, o advogado Atticus Finch, está envolvido com o Conselho dos Cidadãos da cidade, organização que defendia a supremacia branca.

Quando li a sinopse de Vá, Coloque um Vigia, o que mais me chamou atenção foi Atticus. Um personagem que esbanja sabedoria, paciência e integridade em O Sol é Para Todos, que defendeu um negro acusado de estuprar uma jovem branca, que sempre ensinou aos filhos lições sobre direito e justiça. O que teria acontecido com ele? O que o teria feito mudar de posição? Ou será que ele sempre foi assim, mas o olhar parcial de Scout nos impedia de ver sua verdadeira personalidade?

Por outro lado temos Scout, que apesar de não ser mais aquela menina “sapeca”, mantém sua essência: ainda é teimosa, desbocada e com opiniões fortes. E o ponto alto do livro é justamente ver o conflito entre pai e filha, tendo como pano de fundo a decisão da Suprema Corte em proibir a segregação racial nas escolas. 

Como era de se esperar, o livro continua girando em torna de temas como preconceito e justiça. Entretanto, a autora não se sai tão bem quanto no livro anterior. Isso por que a reflexão surge dos debates entre Scout e Atticus, em que cada um defende seu ponto de vista. A grande beleza de O Sol é Para Todos foi justamente a gama de assuntos abordados tão somente através das situações que aqueles personagens viviam, as quais provocavam reflexões no leitor. 

É sabido que inicialmente Harper Lee escreveu a estória de Vá, Coloque um Vigia e depois de apresentá-la ao seu editor, este lhe sugeriu voltar no tempo e contar a estória da família Finch pelos olhos de uma Scout ainda criança, tendo como apíce o julgamento do caso de estupro no qual Atticus estava envolvido, dando origem ao livro que conhecemos pelo título de O Sol é Para Todos. Em 2014 foi anunciado que o manuscrito do "livro original", escrito na década de 50, havia sido encontrado pela advogada da autora e é então que chegamos a controvérsia. 

A autora, hoje com oitenta e nove anos de idade, sempre afirmou não ter interesse em publicar outros livros. Sua irmã, que cuidava dos direitos autorais e zelava por suas vontades, declarou que a saúde de Harper estava fragilizada a tal ponto de que assinaria qualquer documento posto em sua frente por qualquer pessoa que ela confiasse. Meses após o falecimento desta irmã, a Editora Harper Collins veio a público, informando que Lee concordou em publicar o primeiro rascunho de O Sol é Para Todos. Como se vê, as circunstâncias da publicação são, no mínimo, estranhas. 

Sem entrar no mérito da possível manipulação e abuso da autora por seus advogados e agentes, o fato é que Vá, Coloque um Vigia é claramente um rascunho. Há contradições com a estória de O Sol é Para Todos, falta coesão à trama, em vários momentos a narrativa patina entre memórias e eventos irrelevantes e o próprio estilo narrativo de Lee é diferente. A meu ver, a autora tinha uma vaga ideia em mente e ainda estava procurando o cerne de sua estória. Assim, não hesito em afirmar que Vá, Coloque um Vigia não é a continuação de O Sol é Para Todos. Nos dez anos seguintes, Lee continuou a dar a forma aos seus personagens e suas estórias de modo que, no fim das contas, as obras guardam uma conexão tênue. Ou seja, um livro não pode ser considerado sequer uma complementação do outro. 

Encerro dizendo que Vá, Coloque um Vigia não é um livro ruim. É interessante ver a estória como originalmente concebida pela autora, o embrião que anos depois originaria um dos maiores clássicos da literatura norte-americana. Entretanto, após a leitura de um clássico da magnitude de O Sol é Para Todos, estaria mentindo se não admitisse ter me decepcionado com o “novo” livro da autora. 

Para quem tiver interesse em saber mais sobre a controvérsia sugiro a matéria do Canal RT (em inglês). 

Título: Vá, Coloque um Vigia (exemplar cedido pela editora)
Autor: Harper Lee
N.º de páginas: 251
Editora: José Olympio 

terça-feira, 7 de julho de 2015

RESENHA: O Sol é Para Todos

“— Mas antes de ser obrigado a viver com os outros, tenho de conviver comigo mesmo. A única coisa que não deve se curvar ao julgamento da maioria é a consciência de uma pessoa.” (LEE, 2015, p. 135).

***

O Sol é Para Todos é um dos maiores clássicos da literatura americana e sempre tive muita curiosidade para conferir a obra prima de Harper Lee, mas tinha dificuldades em encontrar a edição brasileira. Quando a autora anunciou que o livro iria ganhar uma continuação, a editora José Olympio relançou o livro para a felicidade dos leitores brasileiros. 

No início de 1930, Atticus é o advogado designado pelo juiz Taylor para defender Tom Robinson, negro acusado de estuprar uma mulher branca. Enquanto todos aguardam o julgamento, vemos os conflitos e tensões oriundos deste caso sobre os moradores da cidade de Maycomb, e especialmente sobre os filhos de Atticus, Jem e Scout. 

O livro é narrado em primeira pessoa, por Scout, uma menina de seis anos de idade. É através de seu olhar inocente que vemos todos os conflitos de Maycomb, e mesmo quando ela não entende as implicações dos acontecimentos, todos os fatos são narrados de forma que o leitor acompanhe o desenvolver da estória. A narrativa de Lee é extremamente fluída e faz com que o leitor seja tragado para dentro da estória logo nos primeiros capítulos. 

Merece destaque que O Sol é Para Todos não é um thriller jurídico. O caso em que Atticus está envolvido não é tão relevante quanto as consequências que o mesmo irá causar na vida daquela família e daquela cidade. Ou seja, o processo serve como pano de fundo, e não como cerne da estória. Ainda assim, impossível não elogiar o trabalho da autora nas cenas que ocorrem no tribunal, pois além de muito bem executadas, são de tirar o fôlego. 

Os personagens são um capítulo à parte, pois extremamente bem construídos, sendo impossível não se apegar a eles. Seu desenvolvimento e evolução ao longo da trama é palpável, especialmente no tocante as crianças. De certa forma, O Sol é Para Todos até poderia ser classificado como um romance de formação, pois a sucessão de eventos irá moldar a vida e o caráter de Jem e Scout de forma indelével. 

A proposta da autora era discutir temas como justiça, preconceito, perda da inocência, amadurecimento, integridade, coragem, violência e tantos outros. Mas seu trabalho é tão impecável que as reflexões surgem na mente do leitor de forma natural, a partir das situações criadas no livro. Ou seja, mesmo abordando assuntos complexos, em nenhum momento Lee dá lições de moral. Além disso, é incrível como tais discussões permanecem atuais e relevantes, mesmo fazendo mais de cinquenta anos da publicação do livro. A verdade é que O Sol é Para Todos é um livro atemporal, e não é por menos que foi laureado com o prêmio Pulitzer da literatura em 1963.

Com personagens profundamente humanos, uma narrativa sensível e temas universais, O Sol é Para Todos se tornou um dos meus livros de cabeceira, e reconheço que minhas singelas palavras nesta resenha não fizeram justiça ao livro. Encerro dizendo que em tempos em que o preconceito, em todas as suas formas, continua arraigado em nossa sociedade e se manifestando em proporções homéricas, creio que esta obra deveria ser considerada leitura obrigatória. 

O livro foi adaptado para o cinema em 1962, sendo indicado ao Oscar em oito categorias, das quais ganhou a estatueta em três.  

Go Set a Watchman, a inesperada continuação de O Sol é Para Todos, será lançado nos Estados Unidos no dia 14 de julho de 2015. Este livro também será publicado no Brasil pela Editora José Olympio. 

Título: O Sol é Para Todos (exemplar cedido pela editora)
Autora: Harper Lee
N.º de páginas: 349
Editora: José Olympio
 

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