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quinta-feira, 22 de junho de 2017

Quem vem para o jantar? #29

Ninguém mais ouviu falar neles depois daquilo. Ninguém soube como tudo havia começado. Bom, ninguém a não ser eu. E Tabitha. Mas talvez eu devesse começar pelo começo. Pelo jantar daquela noite. Se eu soubesse o que iria acontecer, nunca teria dado início àquela jornada maluca. Parecia tão emocionante e tão simples ao mesmo tempo. Se ao menos eu soubesse...

Ali estávamos nós. Depois do jantar, apenas rindo e estendendo um pouco mais a conversa. Isaac Asimov, Agatha Christie, Georges Simenon, David Lynch, Thomas Harris, Suzane Collins, Emily Brontë, Pierre Boileau e eu. Tabitha àquela hora já havia se retirado, dizendo que não queria testemunhar a loucura que eu estava prestes a propor aos nossos convidados. Eis que esse infeliz episódio serviu para provar, mais uma vez, que eu devo escutar a minha mulher. Sempre!

Mas em minha defesa, todos pareceram achar a ideia estimulante. Bom, todos menos Simenon. “Com certas coisas não se brinca”, disse ele. “Não existia disso no meu tempo.” Houve também o bizarro comportamento de Lynch, que eu tinha certeza que seria o primeiro a embarcar na aventura, mas que saltou fora alegando estar com muitos compromissos graças ao retorno de Twin Peaks. Aliás, estou devendo a ele a minha opinião sobre os novos episódios, mas quem tem cabeça para assistir séries quando se está vivendo sob a sombra de ter feito o que eu fiz? Voltando ao assunto, foi assim que nosso grupo se formou: Asimov, Agatha, Tom, Pierre, Suzane, Emily e eu.

Mas me desculpe, Leitor Fiel. Eu ainda não lhe contei o que deu início a essa confusão toda. Talvez eu esteja apenas envergonhado. Ou talvez você deva estar, afinal, você pode ter sido um dos que me alfinetaram a buscar isso, então talvez possamos dividir a culpa. O que você acha? Porque tudo começou quando muitos de vocês criticaram o final de “Sob a Redoma”. Tantos foram os argumentos de vocês que até eu mesmo passei a acreditar que era melhor se eu não tivesse explicado as origens da redoma, afinal, vocês tem razão: ninguém se importa com a tal redoma. O que importa são os personagens. São sempre os personagens. Então é por isso que a minha intenção naquela noite era a seguinte: entrar em uma realidade paralela que me permitisse alterar o final da história. Tabitha disse que era perigoso e que não daria certo, mas para mim aquela era uma chance única de fazer algo que poucos fizeram antes. A turma concordou e por isso aceitaram vir junto. Pierre, inclusive, disse que aproveitaria para tentar fazer alterações em “Vertigo – Um Corpo que Cai” porque acabou gostando mais da abordagem de Hitchcock do que daquela que ele e Narcejac propuseram originalmente.

Foi no dia seguinte que partimos. Não darei detalhes sobre a caixa, sua localização ou sobre como tivemos acesso a ela porque não me foi permitido revelar essas informações. Tudo o que posso dizer é que, quando entramos naquele corredor imenso, para onde olhávamos, o que víamos era o nada. Um longo corredor, tão iluminado que ofuscava a visão, cercado de portas e paredes envidraças, porém opacas, de forma que tudo o que tínhamos eram vislumbres incompreensíveis do que estava do outro lado.

Como a coisa toda havia sido minha ideia, eles deixaram que eu escolhesse a porta que cruzaríamos. E eu escolhi. Eu devia ter previsto. Devia saber que aquele era o melhor momento para voltar para casa.

Assim que a porta se fechou atrás de nós, a confusão começou. A primeira a constatar isso foi Agatha, por puro acidente. Sempre agarrada em um livro, a dama do crime estava relendo “O Morro dos Ventos Uivantes” e com espanto perguntou para Emily se havia mais de uma versão da história. Surpresa, a senhorita Brontë deu a resposta óbvia: “Não”.
– Mas então como Catherine e Heathcliff estão se casando? - perguntou Agatha realmente confusa - Eu já li a história antes e não é isso que acontece.
– É claro que não é isso que acontece. Do que você está falando?
– Está aqui, na página 122. Cathy e Heathcliff estão se casando.
– Mas eu não entendo – disse Emily mais para si mesma do que para o grupo.
Atento, Asimov se aproximou de mim, mas ele nem precisou dizer nada para que eu entendesse o que se passava naquela mente que tantas vezes imaginou realidades alternativas. Tudo o que eu queria era alterar o final de “Sob a Redoma”, mas jamais havia me ocorrido que, ao cruzarmos aquela porta, os romances dos que estavam comigo poderiam sofrer mudanças consideráveis.

Espantada, Agatha fez uma leitura dinâmica e logo compartilhou conosco que o destino do casal criado por Emily continuava trágico: Heathcliff morreria de uma queda de cavalo e Cathy se tornaria tão amarga quanto seu amado fora na versão original da história.

Foi Pierre quem sugeriu que fossemos embora e eu concordei. Então voltamos para o corredor e eu escolhi uma nova porta. A nova realidade que se abriu diante de nós não era nada melhor do que a anterior. Nela, Will Graham se tornava aprendiz de Hannibal Lecter e dava continuidade ao seu legado sanguinário quando o doutor estava atrás das grades. Clarice, aliás, nem chegava a ter acesso a Lecter, já que Graham, obsessivo em continuar sendo o preferido de seu mentor, impedia que qualquer mente promissora chegasse perto de Hannibal.

A essas alturas, Leitor Fiel, você já entendeu o cenário de horror que se formou diante de nós? Não importa quantas vezes voltássemos, quais portas eu escolhia, sempre nos deparávamos com as nossas melhores obras totalmente distorcidas. Agatha viu seu lendário Hercule Poirot não embarcar para uma de suas viagens de férias e, consequentemente, ninguém foi assassinado na história, pois todos os leitores sabem que é a presença do pequeno Belga que atrai os crimes. O livro foi um fracasso! Quase arruinou a carreira da grande Dama do Crime. Asimov viu sua fantástica série dos robôs se tornar uma história de horror de quinta categoria em que os robôs escravizavam os humanos e os colocavam uns contra os outros, descartando-os sempre que não serviam ao seu propósito, ou seja, eliminar outros seres humanos a serviço da supremacia dos robôs.
- Isso é terrível – disse Asimov – É contra tudo o que eu quis propor com as 3 Leis Fundamentais da Robótica.

Suzane Collins viu Prim servir como tributo nos Jogos Vorazes, o que deixou Katniss desolada, principalmente depois que a irmã foi morta ainda no segundo desafio dos jogos. Sem uma personagem forte à frente da série, a trilogia foi reduzida a um único livro, sem espaço nem mesmo para desenvolver o triângulo amoroso que Suzane tanto havia preservado até as últimas páginas.

Quando achamos que não haviam mais livros para sofrerem da maldição da realidade paralela, foi a minha vez de vivenciar o horror que meus amigos vinham experimentando. No meu caso, a nova realidade foi buscar minha primeira história e transformou “Carrie” em um dramalhão no qual a mãe era quem descobria ter poderes telecinéticos, matava todos os adolescentes da cidade que ela considerava serem más influências para a sua filha que, por sua vez, acaba sendo injustamente culpada pelos assassinatos que todos acreditavam serem cometidos por ela em vingança ao bulliyng de anos. Da prisão ela escrevia a sua história em um diário e jurava guardar para sempre o segredo da mãe.

Se antes eu já estava apavorado, ver minha Carrie ser reduzida a uma mártir novelesca fez com que eu me arrependesse amargamente de ter dado início àquilo tudo. Mas agora não tinha mais volta. Tudo ficaria bem se eu conseguisse cumprir o meu propósito. Eu mudaria o final, todos voltaríamos para casa e nossas histórias ficariam bem.

Foi por isso que, pela última vez, eu levei todos para o corredor, mas dessa vez o que encontramos não foram as paredes envidraçadas e sim cortinas vermelhas por todos os lados. Um longo corredor vermelho, uma torta de cereja e o número exato de xícaras de café, uma para cada um de nós. Emily, que estava precisando de uma bebida forte, se contentou com o café e correu para a xícara mais próxima. Eu tentei impedi-la, mas ela foi mais rápida do que eu e, quando a alcancei, ela já havia bebido. Parecia apenas um inocente café, mas eu tinha minhas dúvidas. Aquilo só podia ser coisa do David. Estaria ele ali em algum lugar? Teria entrado conosco sem que percebêssemos? Eu sabia que ele não ficaria de fora de uma experiência como essa, mas o que ele estaria tramando?

Enquanto todos discutiam a respeito do que havia levado o nosso corredor a se transformar em um cenário de Twin Peaks, fiz o que acreditava ser o melhor para todos: deixei meus amigos onde estavam, escolhi uma nova porta e a cruzei sozinho. Assim, pelo menos, o meu seria o único trabalho em risco.

Sentei para trabalhar e meu desespero só aumentou. Eu já não sabia para qual história eu deveria reescrever um final! Era como se ela nunca tivesse existido na minha mente. Entrei em uma livraria e perguntei pelo meu próprio livro, mas ele nunca havia sido lançado. E eu não tinha a menor ideia de como escrevê-lo. Tudo que eu tinha era um título. Nada mais.

Decidi que o melhor a fazer era deixar essa ideia absurda de lado, mas quando voltei para o corredor, qual não foi o meu espanto ao ver que nenhum dos meus amigos se encontrava ali, que a torta de cereja estava espatifada no chão e todas as xícaras haviam desaparecido? Apavorado, entrei nas portas mais próximas, mas não consegui encontrá-los. Entrei em todas as livrarias e perguntei se haviam visto algum deles, mas em algumas situações nem mesmo seus nomes eram conhecidos. Eu estava sozinho e sem ideias.

E é assim que continuo agora. De alguma forma consegui voltar para casa. Tabitha está aqui do meu lado, dizendo coisas em sua cabeça que eu sei que ela não irá verbalizar. Não há necessidade. Sei exatamente o que ela quer me dizer. Se ao menos eu a tivesse ouvido quando ela tentou me alertar.

David também está aqui tentando me ajudar a encontrar uma solução. Ele jura que não teve nada a ver com o que aconteceu e eu acredito nele. Mas às vezes, quando o olho com atenção, posso jurar que seu cabelo está ficando mais branco e que sua risada não está soando como sempre. “Onde eles estão?”, ele repete histérico. “Onde eles estão? Onde eles estão? Onde eles estão?”


quarta-feira, 22 de abril de 2015

Conexões Além da Contracapa #19

Jane Austen foi uma importante escritora inglesa que usava de personagens femininas fortes, diálogos sagazes e ironia em seus livros. Austen jogava de acordo com as regras da época: quase sempre as mulheres precisam casar para garantir o seu sustento, mas o que diferencia suas personagens das demais dos romances clássicos é a personalidade marcante (algumas são determinadas, outras não se dobram às vontades alheiras e algumas são até mesmo manipuladoras). Uma de suas obras mais importantes é...

...“Orgulho e Preconceito”, o romance entre Elizabeth Bennett e Mr.Darcy que supera as barreiras sociais e os equívocos das primeiras impressões, fazendo ainda hoje (mais de 200 anos após a sua publicação) muitos leitores suspirarem. Apesar de ser ambientada na sociedade provinciana inglesa do século XVIII, a história conta com tantos elementos atemporais que continua inspirando novas adaptações e releituras, entre elas...

...a web serie “The Lizzie Bennet Diaries” que traz para os dias de hoje o romance de Elizabeth e Darcy, conseguindo manter de maneira admirável a essência da história e dos personagens apesar de usar de uma ambientação e situações completamente diferentes. A web série (que também deu origem ao seu próprio livro - “O Diário Secreto de Lizzie Bennet”) tem início quando a protagonista começa um vlog e foi criada por...

...Hank Green que tem uma experiência pessoal com vlogs, já que, em 2007, começou o canal do Youtube “Vlogbrothers” com seu irmão...

...o escritor John Green, autor de vários best-sellers, entre eles “O Teorema Katherine” que conta a história de Colin Singleton, um jovem prodígio que acabou de levar o seu décimo nono pé da bunda, momento a partir do qual ele decide criar um teorema para prever os términos dos relacionamentos. Katherine é o nome de todas as 19 ex-namoradas de Colin e é também o nome da protagonista do clássico...

...“O Morro dos Ventos Uivantes”, a intensa, infeliz e trágica história de amor de Catherine e Heathcliff, ele um órfão adotado pelo pai dela que, por sua vez, é uma menina de família rica. A autora de “O Morro dos Ventos Uivantes” é Emily Brontë, irmã de Charlotte Brontë, autora de...

...“Jane Eyre”, outro clássico da literatura inglesa, que conta a história de uma jovem órfã que se torna preceptora na casa de um homem rico e se apaixona por ele. “Jane Eyre” foi um marco importante da literatura pelas características feministas da obra, abordando temas como a emancipação da mulher, fazendo de sua protagonista uma das mulheres mais fortes e de personalidade marcante da literatura clássica, característica que compartilha com algumas das personagens de Jane Austen.

domingo, 29 de setembro de 2013

Lista de Releituras # 01

Lista de Releituras é a nova coluna mensal do Além da Contracapa. Como o nome sugere, são livros que já lemos e temos muita vontade de ler novamente, mas que, por diversas razões, não chegaram a ser resenhados no blog

Título: O Morro dos Ventos Uivantes
Autora: Emily Brontë
Sinopse:
"Em busca de repouso e tranquilidade, o sr. Lockwood muda-se para uma agradável cada no campo, onde parece ter encontrado a paz e o isolamento que tanto ansiava. No entanto, o misterioso proprietário do imóvel e morador da fazenda vizinha, o sr. Heathcliff, possui por trás de sua amargura e aspereza um passado tortuoso e perturbador, que está prestes a assolar Lockwood... Aos poucos o passado de Heathcliff e do Morro dos Ventos Uivantes se revela, uma história de desilusões e tragédias, em que as convenções sociais e as perversidades inerentes ao homem constituem uma força contra a qual não se pode lutar, num ciclo incessante de ofensa e vingança." (Editora Martin Claret - 5ª edição)

Ocasião da primeira leitura: não sei precisar, mas foi nos meus primeiros anos de faculdade, então entre 2004 e 2006.

Por que está na lista de releituras: Pelo mais óbvio dos motivos. “O Morro dos Ventos Uivantes” se tornou um dos meus livros favoritos. Porém, confesso que tenho certo receio de relê-lo. A verdade é que ter gostado tanto da primeira leitura me faz temer que uma segunda tire o brilho daquela, afinal, não é sempre que ao termos a oportunidade de acompanhar novamente uma história a apreciamos tanto quanto a nossa lembrança.

Comentários: Li “O Morro dos Ventos Uivantes” após ter sido cativada pela primeira adaptação cinematográfica que o filme recebeu em 1939 (com o lendário Laurence Olivier no papel de Heathcliff) e qual não foi a minha surpresa ao constatar que o filme contava apenas a metade da história e que o melhor ficara reservado apenas ao papel? Nunca esquecerei minha confusão ao ler um dos últimos eventos retratados no filme tendo ainda mais de 200 páginas pela frente. Comento isso para ressaltar o nível de riqueza da história criada por Emily Brontë: mesmo uma abordagem que faz uso de apenas metade dos eventos escritos pela autora rende uma excelente versão.

Já disse anteriormente que considero Heathcliff um dos melhores personagens da literatura. Há quem leia o livro e o odeie por ter se tornado o homem mesquinho e vingativo que se tornou, capaz de transformar a vida de todos ao seu redor em um verdadeiro inferno. Mas são justamente esses defeitos que fazem com que eu goste tanto do personagem, porque tudo que ele faz é compatível com o que viveu e pode ser compreendido. Minha revolta nesse livro fica reservada a Catherine - a verdadeira vilã da história, na minha opinião - pois foi ela quem transformou Heathcliff nesse homem detestável. Ela fez com que ele descobrisse o que tinha de melhor ao amá-lo, mas ao rejeitá-lo - por orgulho e egoísmo - também despertou nele o que tinha de pior.

É uma surpresa para mim que a história de Heathcliff e Catherine seja um dos meus livros favoritos, afinal, eu não costumo gostar de histórias de amor. Mas é impossível não se deixar cativar pela complexidade desses personagens, amar e odiar junto com eles. “O Morro dos Ventos Uivantes” é uma história intensa e inesquecível.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Conexões Além da Contracapa # 04

Conexões Além da Contracapa é uma coluna em que estaremos mostrando que o mundo literário está mais conectado do que imaginamos e mesmo dando voltas e mais voltas, todas as pontas acabam se unindo, de um jeito ou de outro.

Jane Austen, autora reconhecida por criar personagens femininas fortes, alcançou o ápice do sucesso com o inesquecível romance Orgulho e Preconceito, que narra a estória de Elizabeth Bennet e Mr. Darcy. Esta obra inspirou ...

... Helen Fielding em seu segundo livro, O Diário de Briget Jones, no qual narra as aventuras da desastrada Bridget em Londres. Esta cidade também compôs o cenário utilizado por ...

... J.K. Rowling na saga Harry Potter, que utiliza a estação King's Cross como ponto de partida para a viagem dos alunos até Hogwarts. Adaptada para o cinema, a saga conta com a participação de Ralph Fiennes no papel de Lord Voldemort, sendo que o ator também participa da adaptação cinematográfica da obra de ...

... Emily Brontë, o Morro dos Ventos Uivantes, interpretando o atormentado Heathcliff. Brontë, considerada uma das maiores escritoras inglesas, nasceu no ano de 1818, um ano após o falecimento de outra grande escritora inglesa: Jane Austen.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

ESPECIAL: Sugestões para o carnaval.

Se para você, assim como para nós, o feriadão de carnaval é mais feriadão do que carnaval, ou seja, uma excelente oportunidade de ficar em casa colocando a leitura em dia, eis aqui algumas dicas literárias para que você possa aproveitar estes dias da melhor forma possível.

Se você é daqueles que gosta de Literatura Clássica, normalmente narrada com aquela linguagem maravilhosamente rebuscada e ambientada em cenários capazes de transportar o leitor para outra época, uma boa dica é “O Morro dos Ventos Uivantes” de Emily Brontë. Uma das belezas desse livro é que ele pode ser apreciado por pessoas que gostam dos mais diferentes gêneros. É um clássico, é um romance, mas não é um romance comum. É sombrio e trágico. Ainda assim, a história de amor de Catherine e Heathcliff é bela e inesquecível.

Mas se você não está no clima para apreciar a beleza dos clássicos e quer mesmo um bom Suspense Policial, nada melhor do que um livro de Agatha Christie. O selecionado da vez foi “O caso dos dez negrinhos” (também publicado sob o título “E não sobrou nenhum”), uma das obras mais conhecidas da Dama do Crime. Some dez estranhos, acusações e mortes sucessivas. O resultado desta equação é uma trama eletrizante e tensa, repleta de mistério e que irá prender você na leitura até a última página.

Se o que você quer é esquecer o carnaval nas ruas e se aventurar em um outro mundo, a Literatura Fantástica tem muito para lhe oferecer, como em “O Hobbit”, livro que introduz a épica saga de “O Senhor dos Anéis”. O livro narra as peripécias vivenciadas por um Bilbo Bolseiro mais jovem, contando como este encontrou o anel de poder que se tornou o centro da obra-prima de Tolkien. Se você é daqueles que não se anima a ler os livros deste autor, a sugestão é ainda mais indicada, pois “O Hobbit” é um livro acessível — seja pela trama mais simples, pelo menor número de personagens, ou ainda por ter uma linguagem menos rebuscada —, o que não reduz em nada a qualidade da obra, registre-se.

Porém, se o que você deseja é ler um Romance com intensas paixões, encontros e desencontros, e um final feliz, a dica é “Orgulho e Preconceito” de Jane Austen. O título descreve de forma precisa as barreiras que Elizabeth e Mr. Darcy deverão enfrentar até descobrirem o amor. Trata-se de uma trama envolvente e bem concatenada somada a personagens marcantes, a uma escrita hábil e a uma narrativa que aborda temas universais.

E se você é daqueles que adoram Literatura Nacional, a dica é um dos melhores exemplares da nossa literatura, de um autor cujos livros são sempre impecáveis. É claro que estamos falando de Machado de Assis e o seu “Dom Casmurro”. A história de Bentinho e o relato de sua vida desde a infância, principalmente de seu romance com Capitu, é um livro que simplesmente não pode deixar de ser lido. Além do ciúme e das incertezas que atormentam o personagem / narrador e que podem ser acompanhados de perto pelo leitor, “Dom Casmurro” apresenta ainda uma das melhores personagens femininas da literatura nacional e, é claro, deixa eternamente no ar a pergunta que o leitor pode apenas tentar responder, mas sobre a qual nunca se terá certeza: “Capitu traiu ou não traiu Bentinho?”

Se a sua ambição literária para esse feriado já estava grande e não sobrou tempo para acrescentar na lista as nossas sugestões, ficam as dicas para a próxima oportunidade, afinal, um bom livro nunca é demais. Esperamos que tenham gostado das sugestões. Bom feriado, e boas leituras, a todos.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Quem vem para o jantar? #3

"Quem vem para o jantar?" é a coluna mensal do Além da Contracapa em que um jantar fictício se torna a ocasião em que personagens e autores interagem em encontros inusitados. 

Para o jantar desse mês decidi convidar dois personagens fascinantes que, apesar de ganharem vida em diferentes gêneros literários, tem muito em comum: são pessoas atormentadas, angustiadas e que tornam a vida dos que estão a sua volta um tanto complicada. Ainda assim, ou talvez justamente por isso, são personagens inesquecíveis.

Porém, antes de dar inicio, preciso explicar que, ao contrario do que havia sido comentado em “Quem vem para o jantar?” #2, não irei me ater apenas a personagens de livros lidos nos últimos tempos e comentados aqui no blog. Revendo esta regra passamos a acreditar que ela representaria a exclusão de ricos personagens que poderiam ser abordados, ou melhor, convidados. Tendo esclarecido isto, vamos ao jantar desse mês:

O primeiro deles é um personagem que conheci há pouco o sobre o qual já comentei aqui no blog: o detetive Harry Hole, criado por Jo Nesbo e protagonista dos livros “Garganta Vermelha”, “A Casa da Dor” e “A Estrela do Diabo” (cuja resenha você pode conferir AQUI). Algo que eu gostaria de deixar claro é que eu li apenas “A Estrela do Diabo” então os meus comentários a respeito de algumas das atitudes de Hole se baseiam nesse livro e não nos três como um todo.

A primeira coisa que você precisa saber sobre Harry Hole é que ele é alcoólatra e não, ele não está lutando contra o vicio, pelo contrario. Ele está se entregando a ele devido a recentes traumas. Apesar disso, quando está em condições físicas e psicológicas de realizar seu trabalho, Hole é um excelente detetive e tem até certa fama por casos antigos. Mas ele tem uma personalidade difícil e uma inimizade com seu colega Tom Waaler que dificulta bastante a vida de seus superiores. Mas, como eu já disse na resenha de “A Estrela do Diabo” Harry Hole é um personagem que tem vida, e por isso é fácil para o leitor se apegar a ele, pois vive todos os conflitos junto ao detetive. Conflitos esses que não se resumem apenas ao alcolismo e aos casos de policia, mas também a traumas de infância e outros mais recentes.


O segundo convidado desse jantar é um personagem extremamente complexo e um dos mais fascinantes com que já me deparei: Heathcliff, de “O Morro dos Ventos Uivantes”.

Antes de falar do personagem em si, eu preciso dizer àqueles que ainda não leram a obra de Emily Brontë que não sabem o que estão perdendo. “O Morro dos Ventos Uivantes” é um livro maravilhoso (um dos meus favoritos, na verdade, e olha que eu não costumo gostar de histórias de amor) que trata da trágica historia entre Heathcliff e Catherine.

Heathcliff e Catherine se conhecem ainda crianças quando o pai de Catherine traz Heathcliff para casa e ele passa a morar com a família. Por ser órfão, e devido à falta de conhecimento sobre sua origem, Heathcliff fica sendo assim chamado por toda a vida, sem se saber ao certo se esse seria seu nome ou sobrenome.

Heathcliff é um homem orgulhoso que sempre teve um temperamento difícil e depois de se sentir trocado e abandonado pela mulher que ama, que também vinha a ser única pessoa que sempre o tratou com gentileza, se torna infeliz e vingativo, passando a concentrar todos os seus esforços em fazer com que a vida de todos ao seu redor seja tão miserável quanto a sua. Ainda assim, ele é um homem cada vez mais apaixonado.

É difícil falar de Hearhcliff sem entrar nos pormenores da trama de “O Morro dos Ventos Uivantes” porque o livro nos dá a oportunidade de acompanhar o personagem desde a infância até a velhice e por isso somos capazes de entender tudo o que se passa em sua perturbada mente. Mais que isso, somos capazes de odiar, amar e até sentir pena dele, tudo ao mesmo tempo, e reconhecemos que nada justifica sua maneira cruel de agir mesmo sabendo qual é a origem de cada um de seus conflitos e, consequentemente, de suas ações.

Mas que jantar depressivo esse. Dois homens tão infelizes não podem sentar juntos a mesma mesa de jantar. Não sozinhos pelo menos. É por isso que trago um terceiro personagem para esse jantar. Alguém que tem um espírito leve e conseguirá, talvez, trazer algumas risadas para a mesa: Rony Weasley!


O melhor amigo do bruxinho mais famoso do mundo é o meu personagem preferido da saga Harry Potter. Rony é divertido, engraçado e totalmente medroso (o que faz com que ele se torne ainda mais divertido e engraçado). Rony tem tão pouco juízo quanto Harry e é extremamente leal ao amigo. De espírito leve, é sempre capaz de proporcionar boas risadas, seja na sala de aula, no salão comunal ou no meio de uma aventura perigosa. Rony Weasley é um personagem adorável.

Romance, suspense policial e aventura se juntaram ao jantar desse mês. Tenho consciência de que coloquei o bruxinho em um ambiente bastante tenso, mas acredito que mesmo estar entre dois homens amargurados deve ser melhor do que estar cercado por milhares de aranhas gigantes.
Até o próximo jantar.
 

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