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domingo, 2 de fevereiro de 2020

RESENHA: O Elefante Desaparece

O elefante desaparece - Haruki Murakami - contos
Muito se fala sobre Haruki Murakami e seu universo fantástico e peculiar. Até então, eu só havia tido a chance de ler um único livro do autor que me surpreendeu (justamente por não abordar nada de fantasioso) e me agradou muito. Depois de anos, decidi embarcar em uma coletânea de contos, o que, a meu ver, é sempre uma espécie de portfolio de um autor.

Em “O Elefante Desaparece” temos 17 contos com as mais variadas temáticas, mas sempre com a narrativa simples, cativante e, por vezes até, engraçada de Murakami. Além disso, as frases de abertura de cada conto são sempre intrigantes e nos lançam facilmente para dentro da história.

Sempre narrados por seus protagonistas, que falam como se realmente contassem uma história diretamente para o leitor, os contos abordam temas que surgem do cotidiano para logo depois se encaminharem para o inusitado, mas que nos fazem refletir sobre coisas que nós mesmos vivemos. É o caso, por exemplo, de “O segundo assalto à padaria”, quando um casal recém-casado sofre de uma fome avassaladora no meio da noite, que leva a uma história do passado e um inusitado desfecho para o que deveria ser uma noite comum.

Um aspecto que me chamou a atenção é a melancolia sutil que Murakami emprega em todos os contos. Há sempre um quê de questionamento, de saudade, de dúvidas. Anos se passaram entre o presente e um momento que foi importante e que nunca deixou o protagonista. Os personagens se perguntam se fizeram a coisa certa ou o quanto suas vidas poderiam ter sido diferentes caso tivessem agido de outra maneira. “Janela” e “Sobre a garota cem por cento perfeita que encontrei em uma manhã ensolarada de abril” (aliás, que título fenomenal!) são ótimos exemplos disso.

“No sonho só existe o silêncio. E pessoas sem rosto. O silêncio entra em todos os lugares como água fria. Tudo derrete na plenitude do silêncio. Quando eu também começo a me desintegrar, grito com todas as minhas forcas, mas ninguém me ouve.” (MURAKAMI, 2018, p. 282)

Temos também o ótimo “Silêncio”, o conto que traz a mais interessante relação entre personagens de toda a coletânea. Nele, o protagonista relembra sobre seus anos de escola, sobre quando começou a lutar boxe, e o detestável colega Aoki com quem conviveu durante alguns anos. A meu ver, Aoki é o melhor dos personagens apresentados. Um tipo vazio, falso, mas que sabe cativar e enganar a todos muito bem. Alguém que todos nós conhecemos um exemplar parecido, de alguma forma.

Também merece destaque o conto “O Anão Dançarino” (minha cabeça viajou até o mundo de Twin Peaks com essa), fantasioso desde o trabalho do protagonista em uma fábrica de elefantes (que contam sempre com uma parte real do animal enquanto as outras são criadas em um processo industrial) até o personagem do anão e a reflexão sobre o preço que estamos dispostos a pagar para conquistar as coisas que queremos.

Por fim menciono “Sono”, o conto mais longo da coletânea que já foi, inclusive, publicado isoladamente (e resenhado aqui no blog pelo Alê) e que acabou sendo um dos meus favoritos. A história da mãe de família que, entediada com sua rotina, não consegue mais dormir, mas acaba se tornando ainda mais disposta e ativa devido à insônia.

Dizem que contos são a pérola da ficção. É uma pena que muitos os confundam com histórias curtas. Ledo engano. Contos têm uma linguagem própria, uma brincadeira de revelar e esconder, a história oculta e a história aparente. Contos são o corte de uma história. Eles começam no meio e acabam no meio. Sem início e sem final. Mas tudo o que precisamos está ali, em suas poucas páginas. Justamente por isso não são todos os bons autores de romances que se revelam bons autores de contos (alguns nem mesmo arriscam, outros apenas escrevem algumas histórias curtas, mas elas nada mais são do que romances mais breves). Contos são pérolas e Murakami domina arte de escrevê-los.

Título: O Elefante Desaparece
Autor: Haruki Murakami
N° de páginas: 301
Editora: Alfaguara 
Exemplar cedido pela editora

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

RESENHA: Caçando Carneiros

Caçando Carneiros Haruki Murakami
Haruki Murakami é um dos autores japoneses mais aclamados da atualidade, contando com uma legião de fãs ao redor do mundo. E foi com o livro Caçando Carneiros que o autor se tornou conhecido no cenário internacional. 

O sócio de uma empresa de publicidade leva uma vida comum e banal até que utiliza a foto de carneiros em um trabalho. Por causa disso, ele é confrontado por um misterioso homem, que representa um poderoso grupo político, o qual exigirá um serviço diferente: que ele encontre o carneiro da foto. Assim, ele parte em uma jornada pelo Japão, seguindo pistas como se fosse um detetive. 

Em minhas experiências anteriores com as obras do autor, sempre me impressionei com a fluidez do texto. Porém, em Caçando Carneiros senti o oposto: a narrativa conta com um ritmo lento e monótono, de modo que não conseguia ler muitas páginas por vez. Além disso, a estória demora para engrenar, visto que a jornada do protagonista tem início apenas depois da metade do livro. 

Outro problema para meu envolvimento com a estória foi a ausência de uma conexão com o protagonista. Não fui cativado por ele, mas tampouco o odiei. E a meu ver, não existe sentimento pior que a indiferença quando estamos falando sobre o personagem que deve conduzir a estória. Registro também que os demais personagens foram tão insossos quanto o protagonista. 

A obra, de certa forma, aborda temas como amizade, relacionamentos, obsessão e identidade. Entretanto, creio que tais reflexões pareceram um pouco vazias, visto que partiam de personagens com os quais o leitor não se identifica, nem se importa. Ou seja, as reflexões, embora até fossem interessantes, não causam um impacto verdadeiro. 

“— Todo mundo tem uma ou duas coisas que não deseja perder. Isso vale também para você — disse o homem. — E nós somos profissionais em matéria de descobrir as referidas coisas. Em todo ser humano existe um ponto sensível, que se situa entre o desejo e o orgulho, isso é infalível.” (MURAKAMI, 2014, p. 153)

Mas o calcanhar de Aquiles do livro é outro: quanto mais avançava a leitura, mas sentia que não havia estória alguma para ser contada. No fim das contas, trata-se apenas de uma jornada que parece não ter propósito, nem sentido. Algumas resenhas que li afirmavam que o cerne do livro é a jornada de autoconhecimento do protagonista, porém, não vi nenhuma evolução significativa no personagem para que eu pudesse concordar com tal afirmação. 

O final do livro me deixou com um gosto amargo, pois a estória sequer parece ter um desfecho coerente. Assim, encerrada a leitura, fiquei com a impressão de que o Murakami não sabia o real cerne da estória que tinha para contar, de modo que atirou para todo os lados e falhou em acertar um único alvo. 

Do autor já li o conto Sono e o livro Após o Anoitecer, sendo que gostei de ambas as leituras, embora nenhuma delas tenha sido particularmente marcante. Mas depois da experiência catastrófica que tive com Caçando Carneiros, tenho dúvidas se terei coragem para ler outros livros do autor

Título: Caçando Carneiros
Autor: Haruki Murakami
N.º de páginas: 331
Editora: Alfaguara
Exemplar cedido pela editora

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sábado, 19 de agosto de 2017

Conexões Além da Contracapa #29

Em “Um tom mais escuro de magia”, V.E. Schwab cria mundos paralelos: as Londres Preta, Branca, Vermelha e Cinza que lidam com a magia cada uma a seu modo. Uma delas, a Londres Preta, acaba isolada das demais, assim como ocorre com...

...o Distrito 13 de “Jogos Vorazes”, trilogia de Suzanne Collins, no qual dois
jovens de cada distrito são levados a uma competição mortal na qual apenas um sairá vencedor. A autora já foi acusada de plágio, já que a premissa de sua trilogia é semelhante a de...


...“Battle Royale”, livro do escritor Koushun Takami. Takami é japonês, assim como...


...Haruki Murakami, autor de “O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação” no qual o autor usa cores para dar apelidos aos seus personagens, assim como Schwab faz com as Londres de “Um tom mais escuro de magia”.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

RESENHA: O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação

“Durante os cinco meses seguintes, Tsukuru viveu à beira da morte. Construiu um pequeno lugar para ficar na ponta do abismo escuro e sem fundo, e viveu completamente sozinho ali. Era um lugar perigoso, já na borda, e, se virasse o corpo uma vez enquanto dormia, corria risco de cair nas profundezas do vazio. Mas ele não sentia medo. Como é fácil cair, foi a única coisa que pensou.” (MURAKAMI, 2014, p. 40)

Há tempos tenho curiosidade de ler Haruki Murakami, mas nunca me senti atraída por algum livro em específico. Tanto que foi aleatoriamente que tirei “O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação” da prateleira da livraria e li suas primeiras páginas. O problema foi que depois delas eu já não queria largá-lo.

Tsukuru Tazaki é hoje um homem de 36 anos, mas nunca se livrou de um trauma da juventude. Aos 20 anos, seus quatro melhores amigos o cortaram de suas vidas sem a menor explicação, dando início ao que se tornou uma existência solitária. Agora, por incentivo da mulher com quem está iniciando um relacionamento, Tsukuru irá procurar esses amigos para encontrar respostas.

Um dos aspectos que mais vejo serem ressaltados a respeito de Murakami é o caráter fantástico (e por vezes até bizarro) de suas histórias, mas isso não acontece em “Tsukuru Tazaki”. Talvez justamente por isso haja a menção deste livro ser recomendado tanto para os leitores novos quanto para os fiéis, pois mostra uma nova faceta do autor.

A história é simples em essência, mas se revela complexa nos detalhes. Para mim, havia inclusive uma curiosa sensação de instabilidade temporal porque, mesmo que a história se dê no presente, o presente do protagonista pouco importa, de forma que eu sentia estar o tempo todo no passado. Para Tsukuru, é como se os melhores anos da sua vida, a época em que ele pertencia a algo, estivessem no passado. Já agora, mesmo que não haja motivos sérios para infelicidade, ele não parece feliz. Para ele, e para o leitor, consequentemente, o mais importante é entender o passado, mas fazemos isso através das suas reflexões e comentários no presente (embora a narrativa seja em terceira pessoa, Murakami é hábil em nos fazer ver o mundo pelos olhos de seu protagonista). Assim, mesmo que a trama aconteça no presente, ela é sobre o passado, para que ele possa finalmente ficar no passado e deixar de afetar o presente. Outra coisa interessante é o vácuo que se cria nesses 16 anos. Conhecemos o Tsukuru de hoje e o que tinha 20 anos, mas sabemos muito pouco sobre sua vida nesse intervalo de tempo.

São muitas as coisas que movem o leitor. A primeira, e mais óbvia, é o mistério do porquê os amigos o excluíram. As respostas não são simples e quanto mais sabemos sobre elas, mais detalhes queremos. O autor também é hábil em substituir um mistério por outro, já que a partir do momento em que entendemos as ações do grupo, outro mistério surge.

Existe também o amadurecimento pelo qual o protagonista precisa passar e que se revela o cerne da trama. Embora a intenção dele seja encontrar respostas, “O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação” se revela um livro não sobre isso e sim sobre abrir os olhos. Sobre cicatrizar feridas ainda abertas para poder começar a trilhar um novo caminho. Além disso é sobre entender quem somos e como as pessoas nos enxergam. Aliás, até certo ponto da narrativa, tudo o que temos é a visão do próprio Tsukuru sobre si mesmo. Depois passamos a ter a visão dos amigos, que é bastante diferente.

E existem ainda relacionamentos cujo papel na vida do protagonista queremos desvendar, como o início do namoro com Sara e a amizade com Haida, um amigo que faz parte da vida de Tsukuru durante um breve período nesses 16 anos. Sua importância na vida do protagonista é um tanto misteriosa e, justamente por isso, interessante.

Interessante também é simbolismo. No grupo de amigos, todos tinham nomes que remetiam a cores e, devido a isso, cada um ganhou um apelido: o vermelho, o azul, a branca e a preta. Tsukuru era o único incolor (e aqui vale destacar a simplicidade e a beleza da capa desta edição). Por um lado talvez ele seja o vazio, aquele que precisa ser preenchido. Por outro, talvez seja o único que esteja completo, não precisa de definição. Ele é ele. Apenas Tsukuru Tazaki.

O texto de Murakami é delicioso. Além de fluido, é belo e por vezes até poético, mas ao mesmo tempo também apresenta uma simplicidade cativante. É graças a ele que a carga dramática do livro parece leve, sem por isso perder sua intensidade ou os muitos momentos de reflexão que proporciona.  

Outra coisa que Murakami faz bem é criar personagens muito humanos. Ao acompanharmos Tsukuru, ficamos ao seu lado e esperamos que haja uma excelente justificativa para o que o grupo fez com ele, mas ainda assim não os vemos como vilões. O mesmo se aplica ao próprio protagonista que, apesar da aparente injustiça que sofreu, também está longe de ser um personagem cujas atitudes são todas aceitáveis (a começar por seu conformismo e apatia). Não é um livro de vilões ou de mocinhos. É um livro sobre erros. Sobre aceitá-los, corrigi-los e aprender a viver com eles.

“O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação” deixa muitas perguntas sem respostas e tem um final em aberto que pode não agradar a todos. Para mim, deixou um gostinho de que essa é apenas uma etapa na vida deste personagem. O que acontece com ele depois? Não se sabe. O mais estranho é que nem mesmo fiquei curiosa para descobrir. A questão é que a história não é sobre o que vai acontecer, da mesma forma que não é sobre o que aconteceu há 16 anos. É sobre deixar o passado para trás e abrir as portas para o futuro. Então talvez essa seja uma história de transição. Talvez não seja nem mesmo uma história. Talvez seja só uma ponte entre duas histórias. Convenhamos que só um autor brilhante para fazer um ótimo livro disso. Murakami conseguiu realizar o feito.

Título: O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação (exemplar cedido pela editora)
Autor: Haruki Murakami
N° de páginas: 328
Editora: Alfaguara

segunda-feira, 23 de maio de 2016

RESENHA: Após o Anoitecer

“Apesar do horário, as ruas ainda estão bem iluminadas e é grande o número de pessoas que vêm e vão. Pessoas que têm para onde ir e as que não têm. Pessoas que têm objetivos e as que não tem. Pessoas que tentam parar o tempo e as que querem acelerá-lo. Ela observa por algum tempo essa cidade sem nexo e procura concentrar-se em respirar com serenidade, para depois voltar as páginas do livro.” (MURAKAMI, 2009, p. 10).

***

Desde que li Sono tenho vontade de conferir outra obra de Haruki Murakami, um dos maiores expoentes da literatura japonesa, aclamado tanto pelo público quanto pela crítica internacional. E a sinopse de Após o Anoitecer foi a primeira a me chamar atenção. 

Mari decide passar a madrugada em uma lanchonete, acompanhada apenas de um livro. É lá que encontra Takahashi, um jovem músico que puxa conversa, lembrando-a de que já haviam se conhecido. Posteriormente, ela é abordada por Karou, gerente de um motel, que precisa de sua ajuda para lidar com uma prostituta que foi agredida. Em meio a tudo isso, ela reavalia seu relacionamento com a irmã, Eri, uma modelo de sucesso, mas que dormiu há dois meses e não consegue despertar.   

Após o Anoitecer é como uma janela na vida dos personagens, que dá ao leitor apenas um vislumbre de suas vidas. Não conhecemos seu passado, não temos ideia do que será do futuro. Acompanhamos suas trajetórias por apenas uma madrugada, vendo como suas vidas se cruzam e o impacto que causam uns nos outros. 

Uma das grandes habilidades de Murakami é na composição dos personagens. Apesar do leitor ver uma pequena parte da vida deles, isto não serviu como desculpa para cria-los de forma simplória. E este é um dos grandes baratos do livro: desvendar a personalidade deles, mesmo tendo poucas informações. 

O mais interessante é que Após o Anoitecer não é o tipo de livro que tenha um ápice. Não espere por uma grande paixão, reviravoltas emocionantes, ou impactantes lições. Murakami retrata a vida como nós a conhecemos, e por isso mesmo nem tudo terá respostas ou fará sentido. Talvez por este fator o livro seja um pouco frustrante para aqueles leitores que gostam de todos os pingos nos is. 

Claro que quando se fala de Haruki Murakami não se pode esperar um livro completamente “normal”. Se você já leu a sinopse de alguma obra dele sabe que geralmente há um quê de bizarro ali. Em Após o Anoitecer também há esse elemento, entretanto, ele não é o cerne da estória, mas utilizado como subterfúgio para provocar determinadas reações. 

A narrativa é cativante e rapidamente o leitor se vê envolvido com a estória. Merece destaque a técnica utilizada por Murakami: o leitor sente que está acompanhado milhares de câmeras que monitoram Tokio, dando zoom em determinadas pessoas e acompanhando suas trajetórias. É por isso que não sabemos o que se passa na mente dos personagens, mas apenas o que fazem, o que falam e com quem se envolvem. 

Após o Anoitecer é um livro extremamente humano, que dialoga com nossas fraquezas e incertezas, que revela como a vida de diferentes pessoas pode se conectar, mostrando a importância e a fragilidade dos relacionamentos.

Título: Após o Anoitecer (exemplar cedido pela editora)
Autor: Haruki Murakami
N.º de páginas: 204
Editora: Alfaguara

domingo, 12 de julho de 2015

RESENHA: Sono

“Eu não tenho sono e minha consciência está lúcida e em pleno estado de vigília. Arrisco dizer que ela está muito mais lúcida do que o normal. Meu corpo também não apresenta nenhuma anomalia. Eu tenho apetite e não me sinto cansada. Do ponto de vista prático, não há nada de errado comigo, a não ser o fato de não dormir.” (MURAKAMI, 2015, p. 12). 

***

Huraki Murakami é um dos mais aclamados autores japoneses da atualidade. Apesar de sempre ter curiosidade de ler algum de seus livros, suas premissas sempre me pareciam um pouco “estranhas”, o que me deixava com um pé atrás. Assim, para vencer o receio, resolvi começar pelo conto Sono

Ela está a dezessete dias sem dormir, mas apesar da insônia, sente-se física e mentalmente bem. Seu marido e filho não percebem nada de diferente. Mas apesar de saber que a ausência de sono não é normal, recusa-se a consultar um médico. E agora que tem as vinte e quatro horas do dia para si, passa a refletir sobre sua própria vida. 

A narrativa de Murakami é extremamente envolvente e em poucas páginas ele consegue prender a atenção do leitor. O conto é narrado em primeira pessoa pela protagonista, e o texto é um verdadeiro espelho de sua alma. Entendemos exatamente qual é sua visão de mundo, medos e anseios. 

Aliás, é impossível não ressaltar a precisão com que o autor constrói os personagens. Muitos escritores entendem que “construir o personagem” é um mero sinônimo para dar um nome e uma profissão aos atores da estória. Este certamente não é o caso de Murakami, que sequer batizou seus personagens, mas ainda assim consegue fazer com que o leitor entenda a personalidade de todos eles. 

Já havia sido alertado que este era um dos livros mais "loucos" de Murakami. E de fato, o autor se recusa a oferecer muitas explicações sobre o que levou a protagonista a esta crise de insônia ou sobre os eventos subsequentes. Até mesmo porque, a meu ver, o cerne da estória, ao contrário do que possa parecer, não era a insônia, e sim a vida daquela mulher, sua apatia, seu desencantamento com a vida e, sobretudo, seu despertamento justamente a partir do momento que deixa de dormir. 

O desfecho é realmente estranho e permite várias conclusões. Creio que a intenção do autor ao limitar as respostas que forneceria era permitir que cada leitor pudesse ter sua própria interpretação sobre os fatos. A meu ver, tal abordagem funcionou, mas imagino que não irá cair no agrado de todos os leitores. 

O único fator que me desagradou foram as constantes menções ao livro Anna Karenina. Como a protagonista estava lendo o clássico russo, compartilhava suas impressões com o leitor. Infelizmente, ainda não tive a oportunidade de conferir a obra prima de Liev Tolstói, então, peguei alguns spoilers durante a leitura. 

Sono é um conto curto, mas impactante, tanto pela estória, quanto pelo tom melancólico e reflexivo. Mesmo não tendo o costume de ler contos, admito que gostei da experiência e mal posso esperar para ler outros livros do autor. Afinal, se Sono é o mais “estranho” ou “louco” que Murakami consegue, creio que não teremos problemas no futuro. 

A edição conta com capa dura e belíssimas ilustrações de Kat Menschik. 

Título: Sono (exemplar cedido pela editora)
Autor: Haruki Murakami
N.º de páginas: 115
Editora: Alfaguara
 

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