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terça-feira, 13 de março de 2018

RESENHA: A Quinta Testemunha

A Quinta Testemunha Michael Haller
Já considerei Michael Connelly um dos melhores autores policiais da atualidade, principalmente depois da leitura de livros como O Poeta e O Poder e a Lei. Porém, de uns tempos para cá, seus livros têm sido decepcionantes ou até mesmo ruins, como foi o caso de A Queda. Assim, determinado a dar uma última chance ao autor, decide ler A Quinta Testemunha, o quarto livro da série com Mickey Haller. 

Com a crise mobiliaria que assola o país, Haller teve que tomar uma medida drástica: abandonar a advocacia criminal e tentar aproveitar a enxurrada de processos de despejo. Quando uma cliente entra em contato, ele sequer imagina que Lisa está sendo acusada de ter matado um funcionário do alto escalão do banco, o qual está cobrando a hipoteca de sua casa. 

Como sempre, a narrativa de Connelly é bastante fluida e instigante, sendo que em poucas páginas já estamos envolvidos com a estória. O autor também soube estruturar bem a trama, adicionando novos elementos e plot twists na medida certa, de modo a manter o interesse do leitor. 

Outro fator que me impressionou é a facilidade que o autor tem em pensar como um verdadeiro advogado criminalista, o que torna a estória extremamente verossímil. O protagonista criado por Connelly é baseado na vida real, e não nos clichês de filmes e séries jurídicas.

“— Não, quem não está entendendo é você. Se você é inocente ou não, não tem nada a ver com o que está em jogo aqui. O importante é o que podemos provar ou contestar no tribunal.” (CONNELLY, 2013, p. 53)

O caso em si é muito interessante e rende diversas reflexões. Por um lado, uma mulher abandonada pelo marido, com um filho para cuidar e que não consegue pagar a hipoteca da casa. Por outro, uma grande corporação que está executando todos os seus devedores. Mais do que falar em certo ou errado, o autor embarca na nebulosa área da moral, mas de forma sútil e sem a pretensão de dar lições de vida. 

Entretanto, creio que o autor estendeu demais a estória. Sinceramente, não me pareceu que as mais de quatrocentas páginas fossem realmente necessárias para o desenvolvimento do livro. Está impressão ficou ainda mais nítida na reta final do livro, quando o julgamento de Liza parecia não acabar e nada de novo acontecia. 

O desfecho foi bom, sendo que todas as pontas da trama foram devidamente amarradas. Entretanto, saliento que o final não foi exatamente uma surpresa. Além disso, outro detalhe da estória revelado no final me pareceu um pouco forçado. 

Encerro admitindo que entre minhas últimas experiências com os livros do autor, A Quinta Testemunha foi a melhor. Porém, ainda não alcançou o mesmo nível dos livros que citei no início desta resenha. 

Título: A Quinta Testemunha
Autor: Michael Connelly
N.º de páginas: 419
Editora: Suma

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

RESENHA: Tempo de Matar

Tempo de Matar John Grisham
Li apenas um livro de ficção de John Grisham e admito que não gostei muito da experiência. Mas o tempo passou, conclui a faculdade de direito e me tornei um advogado criminalista, com a ambição de publicar um thriller jurídico em um futuro próximo. Como li poucos livros desse gênero, e sendo Grisham um dos maiores expoentes, resolvi que era hora de ler uma de suas obras de maior sucesso: Tempo de Matar.

No Mississipi ainda em fase de integração racial, dois homens brancos estupram uma menina negra. Carl Lee, o pai da vítima, inconformado com a situação, decide fazer justiça com as próprias mãos, matando os dois meliantes e sendo detido logo em seguida. O massacre envolvendo a questão racial logo chama atenção da mídia nacional e as opiniões se dividem rapidamente. Caberá a Jack Brigance, jovem advogado, defender Lee em busca de justiça. 

O grande mérito de Grisham foi explorar temas complexos e polêmicos, que fazem parte do cotidiano forense, mas que nem sempre são percebidos pelo público. Assim, temas como preconceito, racismo, justiça, vingança, imparcialidade, influência da mídia em processos criminais, coerção de jurados, e tantos outros assuntos surgem naturalmente na trama e fazem o leitor refletir. 

Para destacar tais reflexões, o autor optou por criar um caso simples e com poucas reviravoltas, que não roubasse a atenção das questões suscitadas ao longo da obra, sobretudo, a influência da raça para um julgamento justo. O problema é que, por mais interessante que estas indagações sejam, a meu ver, o ponto alto de um thriller jurídico é, necessariamente, o tribunal. Mas com uma estória simples, tudo o que se desenrolou no tribunal era previsível. E mais: o autor fez questão de inserir detalhes jurídicos de pouca importância, mas não se deu ao trabalho de narrar o interrogatório do réu, tampouco as alegações finais do promotor de justiça, deixando de aproveitar alguns dos momentos de maior destaque em um julgamento. Em resumo, temos um livro estável, sem altos e baixos, que caminha sempre com o mesmo ritmo, não chegando a entediar, mas tampouco empolgando.

— [...]. Se você fosse branco, o mais provável seria que fosse a julgamento e inocentado. O estrupo de uma criança é um crime horrível e quem pode culpar um pai por retificar o erro? Um pai branco, quero dizer. Um pai negro gera a mesma simpatia entre os negros, mas há um problema. O júri vai ser branco. Desse modo, um pai negro e um pai branco não têm chances iguais com o júri.” (GRISHAM, 1994, p. 247)

A verdade é que Tempo de Matar é um thriller jurídico que se desenvolve em razão de fatores extraprocessuais, visto que a cobertura da mídia, os ataques da Ku Klux Klan, as manifestações dos negros e a manipulação dos jurados são eventos externos, mas que acabam por determinar, de uma forma ou de outra, como o julgamento se dará. Por este motivo, creio que o primeiro livro de Grisham constitui muito mais um drama tendo como pano de fundo um julgamento, do que verdadeiramente um thriller jurídico.

É comum livros desse gênero comportarem uma certa dose de romance policial. Afinal, temos um crime que será levado a julgamento, e as investigações podem ser tão interessantes quanto o desenrolar do processo criminal. Além disso, inquéritos policiais, por melhores que sejam, dificilmente esclarecem completamente o que ocorreu. Grisham, ao criar um caso policial em que se sabe absolutamente tudo o que aconteceu (o que, diga-se de passagem, dificilmente acontece no mundo real), eliminou sua melhor chance de fazer suspense. Como já disse, entendo a opção do autor, mas ainda assim me pareceu um tiro no pé. 

Não aprovei a visão maniqueísta que Grisham imbuiu em seus personagens relacionados ao mundo jurídico sobre o direito penal. Nada no direito, e muito menos no direito criminal, é preto no branco, bom ou mau, culpado ou inocente. Advogados se preocupam (ou deveriam se preocupar) em garantir que o réu tenha uma defesa justa e que as provas sejam suficientes para condenar, afastando qualquer dúvida. Os personagens de Grisham eram, a meu ver, 8 ou 80, sempre defendendo os extremos: ou tem que abolir a pena de morte ou tem que matar todo mundo. 

A narrativa em terceira pessoa funcionou adequadamente, e se mostrou ideal para mostrar os inúmeros pontos de vista da estória, embora tenha exagerado, em alguns momentos, nas descrições. Infelizmente, os diálogos soaram superficiais, pois o autor utilizou a mesma voz para todos os personagens. Convenhamos que é estranho que um homem sem instrução fale exatamente igual a um homem culto.  

Admito que nesta resenha a opinião do advogado sobrepôs a opinião do leitor. A estória em si é boa e admiro a coragem do autor em criar um livro em cima de discussões e não de eventos. Mas, creio que uma estória mais intrincada e com mais reviravoltas empolgaria mais o leitor, e nem por isso perderia o brilho das reflexões a que o autor se propôs.

Título: Tempo de Matar 
Autor: John Grisham
Tradutor: Aulyde Soares Rodrigues
N.º de páginas: 591
Editora: Rocco
Exemplar cedido pela editora

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quinta-feira, 7 de novembro de 2013

RESENHA: Reviravolta

“Já passei por vários bons momentos no tribunal. Estive ao lado de homens no momento em que souberam que iam ficar livres graças ao meu bom trabalho. Já estive de pé diante de um júri e senti o estremecimento da verdade e da justiça percorrendo minha espinha. E já destruí mentirosos no banco das testemunhas, sem misericórdia. É por momentos como esse que vivo minha vida profissional.” (CONNELLY, 2012, p. 335)

***

Todo mundo já sabe que Michael Connelly é um dos meus escritores favoritos, e entre os personagens por ele criados, meu queridinho é o advogado criminalista Michael Haller. Reviravolta é o terceiro livro protagonizado por Haller, porém, não alcançou o nível de qualidade do primeiro.

Jason Jessup foi condenado pelo estupro e assassinato de uma criança, porém, vinte e quatro anos depois, surge uma nova prova que pode inocentá-lo. Com toda a atenção da mídia no caso, o advogado Michael Haller é convidado a assumir uma nova missão: atuar na posição de Promotor de Justiça a fim de manter Jessup atrás das grades.

Uma das características mais marcantes das obras de Connelly é sua narrativa envolvente e que prende a atenção do leitor logo no primeiro capítulo. Assim, mesmo que o caso em si demore um pouco para empolgar o leitor, é impossível não se envolver. Apesar de o caso criminal ser interessante, imagino que este poderia ter sido melhor explorado, pois os ganchos que pareciam ser os mais promissores não foram usados.

A narrativa alternada entre primeira e terceira pessoa, dos pontos de vista de Haller e Bosh, respectivamente, não funcionou. Particularmente, não gosto de narrativa alternada, todavia, a intenção do autor em utilizar tal artifício era clara: poder mostrar tanto o seguimento do processo criminal assim como o avanço das investigações.  

Após o excelente O Poder e a Lei e o mediano O Veredicto de Chumbo, começo a pensar se Connelly não teria feito melhor se tivesse “aposentado” Haller. Não me entenda mal, o advogado criminalista continua sendo um grande protagonista, mas suas estórias não estão chegando aos pés do potencial do autor.

Na posição de apaixonado por direito penal, o livro foi um ótimo entretenimento para mim. Entretanto, para aqueles que não gostam tanto assim de thrillers jurídicos, fiquei com a impressão de que Connelly pode ter apresentado mais do mesmo.

Encerro salientando que Reviravolta não faz jus a habilidade de Michael Connelly, que escreveu os memoráveis O Poeta e Echo Park. Agora, talvez você esteja a se perguntar se lerei A Quinta Testemunha, o quarto livro da série. E a resposta é afirmativa. Mas creio ter chegado a hora do ou vai ou racha.

Título: Reviravolta
Autor: Michael Connelly
N.º de páginas: 379
Editora: Suma de Letras

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

RESENHA: O Veredicto de Chumbo

“Meu sangue gelou nas veias. O instinto de lutar ou fugir invadiu meu cérebro. O resto do mundo deixou de importar. Havia apenas o momento e eu tinha de fazer uma escolha. Meu cérebro avaliou a situação mais rapidamente que qualquer computador IBM teria feito. E o resultado dos cálculos foi que eu sabia que o homem vindo em minha direção era o assassino e que estava armado.” (CONNELLY, 2009, p. 230).

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Depois de ler O Poder e a Lei, mal podia esperar para ler a continuação da saga do advogado criminalista Michael Haller (especialmente após ter lido um spoiler sobre este livro em Nove Dragões). Embora não tenha sido tão bom quanto seu antecessor, O Veredicto de Chumbo é a prova derradeira de que Michael Connelly é um excelente escritor de thrillers jurídicos.

Após dois anos longe da advocacia, Michael Haller retorna aos tribunais após assumir os casos do advogado Jerry Vincent, incluindo o processo de Walter Eliot, magnata da indústria do cinema, acusado de assassinar a esposa e o amante. Por sua vez, o detetive Harry Bosch é encarregado de investigar a misteriosa morte de Jerry. 

Connelly novamente me impressionou por seu domínio sobre advocacia criminal, retratando de maneira fidedigna o trabalho deste profissional. O caso de Walter Eliot, aparentemente simples, se desdobra nas mais inimagináveis ramificações. Aliás, este é um dos méritos do autor: conseguir prever o que o leitor espera que irá acontecer, de modo que faz o oposto, levando a estória para um rumo inesperado.

Paralelamente ao caso de Eliot, o detetive Bosch está disposto a investigar o quanto for necessário para descobrir quem foi o responsável pela morte do advogado, o que implica em obter a cooperação de Haller, para descobrir se o assassinato pode estar relacionado com os casos que Jerry trabalhava.

A relação entre os dois personagens foi muito bem explorada por Connelly. Embora o livro seja narrado em primeira pessoa, do ponto de vista de Haller, o leitor se identifica e gosta de ambos os personagens, de modo que fica difícil tomar o lado de um deles quando há interesses conflitantes.

Como era de se esperar do autor, o livro é repleto de muita ação, com uma trama sem pontas soltas, reviravoltas inimagináveis, final surpreendente e uma narrativa perfeita. Minha única crítica ao autor é a sua desagradável mania de dar spoiler de suas obras anteriores, então sugiro que você não leia este livro antes de O Poder e a Lei.

De todo modo, Connelly é um autor que sabe o que está fazendo e que sabe para que lado quer conduzir sua estória. Ou seja, estou ansioso para ler o próximo volume da série, Reviravolta, recentemente publicado pela Editora Suma de Letras.

Título: O Veredicto de Chumbo
Autor: Michael Connelly
N.º de páginas: 420
Editora: Suma de Letras

domingo, 12 de agosto de 2012

RESENHA: O Poder e a Lei

“As noções da faculdade de direito acerca da virtude do sistema adversário, dos controles e equilíbrios do sistema, da busca pela verdade, tinham há longo tempo erodido como os rostos das estátuas de outras civilizações. A lei não tratava da verdade. Tratava de negociação, aperfeiçoamento, manipulação. Eu não tratava com culpa e inocência, porque todo mundo era culpado. De alguma coisa.” (CONNELLY, 2011, p. 33).

***

Não é segredo para ninguém que Michael Connelly é um dos autores preferidos deste que vos fala. Confio tanto em seu potencial como escritor que para comprar o livro basta ver seu nome impresso na capa. Mas com a recente adaptação de O Poder e a Lei para o cinema, admito que minha curiosidade estava um pouco mais acentuada para ler este livro.

Michael Haller, advogado criminalista, é contratado para defender Louis Roulet, acusado de tentativa de estupro e agressão de Regina Campo. Após conseguir libertar seu cliente mediante o pagamento de fiança, Haller começa a investigar o caso, dando início a um thriller jurídico eletrizante.

Após ter chegado ao fim da leitura, conclui que Connelly é mestre em criar protagonistas. Assim como Harry Bosh e Jack McEvoy (dos livros Echo Park e O Poeta, respecitvamente), Michael Haller consegue cativar o leitor e conduzir a estória de forma hábil.

A narrativa, em primeira pessoa, flui com naturalidade, sendo que nem mesmo as cenas que ocorrem no tribunal são cansativas. Além disso, o autor criou uma trama crível (leia-se: sem reviravoltas mirabolantes), mas que não deixa de ser instigante e empolgante. Assim, a narrativa impecável somada a uma trama bem concatenada criaram um livro impossível de ser largado.

Outro fator que merece destaque é a verossimilhança da estória criada por Connelly que, mesmo sendo jornalista, conseguiu descrever de forma precisa os nuances do sistema criminal e do trabalho de um advogado criminalista. Ou seja, não espere encontrar aquelas tramas “jurídicas” (leia-se: fajutas) que inspiram inúmeros filmes de Hollywood. Connelly foi incisivo ao retratar a vida real. E talvez, por isso, não agrade a todos.

De minha parte digo — na condição de fã do gênero policial, de graduando em Direito e de apaixonado pelo Direito Penal — que este livro foi um dos melhores que já li, e que não me desapontou na parte literária, nem na parte técnica.

E se você está a se perguntar a respeito do filme, lhe aconselho: não veja! Não sei explicar exatamente o porquê, mas a estória criada por Connelly não funcionou na telona.

Como já disse em outras resenhas dos livros de Michael Connelly, sinto-me obrigado a dizer novamente: leitura obrigatória para fãs do gênero policial.

Título: O Poder e a Lei
Autor: Michael Connelly
N.º de páginas: 404
Editora: Record
 

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