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domingo, 9 de fevereiro de 2020

RESENHA: Sagrado

Dennis Lehane - Sagrado - Patrick Kenzie & Angela Genaro
No terceiro livro de sua série detetivesca, Dennis Lehane se mostra extremamente afiado.

A bela e deprimida Desiree Stone desapareceu. Seu pai, o milionário Trevor Stone contrata a dupla de detetives Patrick Kenzie e Angela Genaro para descobrir o seu paradeiro, mas o caso não é tão simples quanto parece. Antes da dupla, o detetive Jay Becker, com quem Patrick tem laços de amizade, foi contratado para o caso, mas, assim como Desiree, ele também desapareceu.

Como característico da série, “Sagrado” é narrado por Patrick Kenzie e mostra claramente a evolução de Lehane neste seu terceiro livro. Não só o personagem encontrou sua voz e o carisma que lhe faltaram nos dois primeiros livros (ao menos a meu ver), mas sua ironia é o ponto alto dos diálogos da trama. Incrível como nas cenas mais tensas o autor consegue fazer o leitor rir do atrevimento do personagem sem que isso soe deslocado diante das situações.

A trama de “Sagrado” brinca com o leitor como os melhores livros policiais sabem fazer. Tudo parece mal contado. A sensação é de que todos estão mentindo o tempo todo e que mesmo a verdade não é totalmente verdadeira. São milhares de reviravoltas e tudo muda a todo instante. Em “Sagrado” em nenhum momento é possível afirmar quem são os mocinhos e quem são os bandidos porque qualquer um pode se revelar qualquer coisa a qualquer momento.

“Eu sabia muito bem aonde podiam nos levar todas essas investigações, todas essas descobertas, todas essas revelações: à fria consciência de que não estávamos bem, nem um nem outro. Nossos corações e nossas mentes estavam guardados porque eram frágeis, mas também porque sempre supuravam algo sinistro e depravado demais para os olhos dos outros.” (LEHANE, 2004, p.39)

Algo que me agrada muito em Patrick e Angela é que eles são detetives totalmente das ruas. Já viram coisas horríveis e estão preparados para verem outras tantas. Eles conhecem as escalas de cinza. Sabem melhor do que rotular as pessoas como boazinhas ou malvadas, mas isso não os impede de ter seu senso moral sempre ativado. Sim, existe o certo e o errado, mas também existe o que algumas pessoas merecem como retribuição às suas ações.

Um acerto da série é o relacionamento entre a dupla de protagonistas. Tendo se conhecido desde a infância e tido um breve relacionamento amoroso há muitos anos, Patrick e Angela são aquele casal que, mesmo não sendo um casal, sabemos que serão em algum momento e Lehane dosa com maestria a evolução deste relacionamento de maneira que soa natural para o leitor, sem esquecer que estamos dentro de um livro policial e que a investigação deve ser sempre o carro chefe da trama.

Li os livros da série Kenzie-Genaro fora de ordem: comecei com os dois primeiros, pulei para o quarto, para o sexto (último da série) e então voltei para o terceiro (este “Sagrado”). Alguns são mais sanguinários (como “Apelo às Trevas”), outros mais dramáticos e pesados (como “Gone, baby, gone”), mas “Sagrado” é simplesmente um exemplar do que um livro policial deve ser: uma trama envolvente, cheia de mentiras e meias-verdades, personagens de almas podres, ritmo acelerado e diálogos afiados. Um Dennis Lehane em excelente forma que me deixou o tempo todo com aquele gostinho de “só mais um capítulo”. Uma das minhas melhores experiências dentro da série.

Título: Sagrado
Autor: Dennis Lehane
N° de páginas: 354
Editora: Companhia das Letras
Exemplar cedido pela editora

quinta-feira, 11 de julho de 2019

RESENHA: A caixa-preta

Por muito tempo considerei Michael Connelly um dos nomes de destaque da literatura policial, especialmente em virtude de livros como O Poeta e O Poder e a Lei. Porém, minhas últimas experiências com o autor foram um pouco decepcionantes, de modo que estava mantendo uma certa distância de suas obras. Mas, como recebi este livro por engano, decidi dar uma nova chance ao autor. 

Em 1992, Harry Bosch investiga de forma superficial o assassinato de Anneke, uma jornalista holandesa, durante uma onda de protestos, caos e violência que tomaram conta de Los Angeles. Vinte anos depois, o caso retorna às mãos de Bosch, que fará de tudo para solucionar o mistério. 

O livro é narrado em terceira pessoa, mas acompanhamos o detetive Bosch de perto, de modo que sentimos estar ao seu lado, seguindo pistas, interrogando suspeitos e tentando encaixar as peças. Como sempre, Connelly consegue nos fazer mergulhar de cabeça na estória, nos envolvendo completamente com o caso. 

Outro fator que merece destaque é a originalidade e a criatividade do autor. O caso tem início com com poucas pistas e fiquei surpreso com o fato de Harry conseguir aprofundar a investigação partindo de uma base tão superficial. Além disso, a estória por trás da morte de Anneke também me surpreendeu e evidencia o talento do autor em criar boas estórias policiais. 

"Ele acreditava que todo caso tinha sua caixa-preta. Alguma evidência, alguém, algum encaixe dos fatos capaz de lançar um pouco de luz e ajudar a explicar o que acontecera e por quê. Com Annake Jespersen, no entanto, não havia caixa-preta. Apenas um par de caixas de papelão emboloradas tiradas dos arquivos, que lhe renderam pouca orientação ou esperança." (CONNELLY, 2017, p. 28)

A investigação segue um ritmo ágil, o que torna a leitura extremamente fluída. Todavia, alguns momentos da estória dedicados a outros aspectos da vida de Bosch me pareceram um pouco maçantes. Já o final conta com um ritmo mais intenso, repleto de adrenalina e tensão. Connelly sabe dosar todos os ingredientes com precisão, de forma a deixar o leitor com o coração na mão e completamente absorto na estória.  

No entanto, continuo achando Bosch um personagem desagradável. Creio que desde que li A Queda, a conduta arrogante e de superioridade do detetive em relação às normas me desagradou. Desta vez, tal característica mais uma vez se sobressaí. Minha impressão é de que o autor exagera tentando mostrar um detetive durão, que não liga para as burocracias, pois está ocupando demais combatendo o crime. Porém, em seu afã de combater o crime, pratica diversas irregularidades.  

Apesar de ter sido uma boa experiência de leitura, A caixa-preta não é o tipo de livro que impressiona ou empolga. A meu ver, faltou aquele algo a mais, que transforma uma estória mediana em memorável. Assim, A caixa-preta é um bom livro policial, com todos os elementos esperados do gênero, mas não é bom o suficiente a ponto de se destacar. 

Título: A Caixa-preta
Autor: Michael Connelly
N.º de páginas: 303
Editora: Suma de Letras
Exemplar cedido pela editora

quinta-feira, 20 de junho de 2019

RESENHA: Os Impunes

os impunes
Billy é um policial do turno da noite, acostumado a lidar com todas as encrencas da madrugada. Mas antigamente ele patrulhava as regiões mais violentas de Nova York na companhia de seus amigos, um grupo de policiais que se auto-intitulava Gansos Selvagens. Ao longo dos anos, cada Ganso ganhou uma Branca: um criminoso que escapou impune e que atormentaria para sempre a consciência do policial que não conseguiu puni-lo. Agora que a Branca de um dos Gansos foi encontrada morta, uma trilha de vingança e redenção tem início. 

“Os Impunes” é um livro de rua. O autor deixa os personagens viverem de acordo com a rotina do dia e não pensando nas funções que deveriam assumir a favor da trama. Assim, a história se molda de maneira orgânica e imprevisível. 

Ainda dentro dessa abordagem “de rua”, a característica mais marcante de “Os Impunes” é, sem sombra de dúvida, os diálogos. Vívidos, fortes, coloquiais e totalmente fieis à verdade desses personagens que vivem a tensão das ruas. Esse pode, facilmente, ser um tiro que sai pela culatra, mas que Harry Brandt desenvolve com maestria. Eu considero extremamente irritante quando um autor tenta forçar uma coloquialidade nos diálogos que fere os ouvidos que leitor que, afinal de contas, está lendo e não ouvindo em uma mesa de bar. É preciso que haja um equilíbrio entre as características do texto escrito e o diálogo falado nas ruas e nisso “Os Impunes” é uma aula sobre como deve ser feito. 

“Fico aqui mandando gente três ou quatro vezes por semana se encontrar com Jesus Cristo ou sei lá quem, mas...sabe no que eu acredito? Na terra. No chão. Nisto aqui mesmo. O resto é historinha.” (BRANDT, 2017, p. 342)

A narrativa acompanha Billy na maior parte de tempo. É através dele que iremos conhecer sua família e também cada um dos Gansos. Mas mesmo que Billy seja o protagonista, eu consigo enxergar facilmente a história pelo ponto de vista de cada um dos outros personagens, pois eles parecem reais a esse ponto. É aqui que entra novamente a questão da organicidade da trama. Sim, Billy está no centro de tudo, mas apenas porque as lentes estão focadas nele. Ele não é o centro da história porque a história em si é a vida. São as ruas. Cada um é o centro de acordo com o ângulo que se olha. Neste caso, o autor escolheu Billy. 

A trama é composta de vários pequenos casos, mas usa deles não como fonte de mistério para ser desvendado e sim como uma forma de mostrar o impacto que os crimes podem ter na vida dos policiais. 

Uma jogada interessante é que, de tempos em tempos, a narrativa introduz capítulos intitulados como Mário Ramos, cujo enfoque está neste personagem. O curioso é que não sabemos como Ramos será inserido nos acontecimentos já que, mesmo sendo policial, não faz parte do grupo nem parece conhecer nenhum dos Gansos, vivendo uma trama totalmente paralela. É aos poucos que vamos entendendo o que está por trás deste personagem e o que leva Harry Brandt a construir duas tramas diferentes dentro da mesma história. 

Confesso que “Os Impunes” não é um livro tão eletrizante quanto eu esperava (parte da minha expectativa vinha de saber que Dennis Lehane, um dos meus autores favoritos, é fã de Richard Price, o nome por trás do pseudônimo Harry Brandt), mas é uma narrativa vivida como poucas vezes encontramos por aí. Um livro policial não só pela trama que desenvolve, nem pelos personagens a que dá vida, mas também por fazer o leitor se sentir nas ruas, no frio da madrugada, ouvindo os barulhos dos disparos, pronto para correr a qualquer momento, caso necessário. 

Título: Os Impunes 
Autor: Richard Price, sob o pseudônimo de Harry Brandt 
Nº de páginas: 426
Editora: Companhia das Letras

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sexta-feira, 26 de abril de 2019

RESENHA: O Longo Adeus

O Longo Adeus / Raymond Chandler
O Longo Adeus” foi o primeiro livro que li de Raymond Chandler e bastou para me fazer querer conferir outras obras do autor, mesmo que não tenha feito com que eu virasse sua fã. Apenas anos depois, quando já havia lido outros romances e me apaixonado pelo seu estilo que descobri que este era considerado não apenas o seu melhor trabalho como um dos melhores livros da literatura policial de todos os tempos. Imediatamente eu soube que precisava reler. Afinal, eu provavelmente não havia aproveitado a primeira leitura tanto como poderia por ainda não estar familiarizada com o protagonista das histórias do autor, o detetive Philip Marlowe.

Terry Lennox surge no caminho de Philip Marlowe por acidente: bêbado, caindo pelas calçadas, prestes a perder a consciência. Quando Marlowe o recolhe e o leva para casa, os dois iniciam uma estranha relação de amizade. Mas o mais estranho ainda estava por vir. Quando a esposa promíscua de Lennox é assassinada, ele sabe que as suspeitas cairão sobre ele e pede a ajuda do seu novo amigo para deixar o país. A partir disso, outros tipos como gângsters, milionários, escritores best sellers depressivos, médicos trambiqueiros e mulheres fatais cruzarão o caminho do detetive.

Marlowe é um cara das ruas. Justamente por isso seus casos começam do nada ou de algo muito pequeno. Isso se repete em “O Longo Adeus”. Pode se dizer até que o livro se divide em duas partes, já que os primeiros capítulos giram em torno de Lennox, mas a partir de um certo momento é como se uma nova trama tivesse início quando Marlowe é chamado por uma mulher para encontrar seu marido alcoólatra.

“O tempo transforma tudo em coisa vil, miserável e enrugada. A tragédia da vida, Howard, não é que coisas bonitas morrem jovens, mas que fiquem envelhecidas e más.” (CHANDLER, p.333, 2007)

Apesar de manter o estilo do autor, no qual a trama vai se formando de maneira orgânica, esta não chega a ter tantas ramificações o que a torna até mais fácil de acompanhar. No geral, “O Longo Adeus” é simplesmente muito bem escrito e são tantas passagens sensacionais que perdemos a vontade de desvendar a trama (que seria o mais importante em um livro detetivesco) querendo apenas apreciar a leitura e o texto. A prova disso é que em alguns momentos o detetive interage com personagens que têm pouca ou quase nenhuma importância para os casos. Mas Raymond Chandler é tão genial e seus diálogos tão brilhantes que ficamos fissurados querendo mais. Se nessas passagens a trama não avança, o autor aproveita para nos revelar um pouco mais sobre o seu protagonista e até mesmo fazer críticas à sociedade americana do pós-Segunda Guerra Mundial, desde comentários sobre política até sobre o mercado editorial. As escolhas dos personagens e a maneira como levam suas vidas ganham uma importância que vai além de encontrar as respostas para os crimes da trama.

Descrito como “um clássico sobre solidão e amizade” (duas palavras dificilmente associadas a tramas detetivescas), “O Longo Adeus” é, acredito, o resultado do crescimento de um maravilhoso personagem. Este é o sexto livro protagonizado por Marlowe e por mais que suas aventuras anteriores não sejam mencionadas, nem tenham importância para a trama, é possível ver como elas foram moldando o personagem. Marlowe é um cara solitário. Um cara que cruza com tipos desprezíveis em quem não pode confiar nem quer ter por perto. Um cara que sabe esperar o pior das pessoas. Um cara durão, de língua afiada e moral impecável. Mas Marlowe é humano e quer se conectar com alguém (o que explica sua amizade quase instantânea com Lennox). Impossível não ficar tocado ao constatar que o detetive está fadado a ficar sozinho e se despedir de todos.

“O Longo Adeus” é um livro profundo, sem perder a ironia. Sua trama avança lentamente, sem que por isso suas cenas percam a agilidade. Já não lembro exatamente como foi a minha primeira leitura, mas a segunda reforçou a genialidade de seu autor, o caráter de Marlowe e deixou a certeza de que uma terceira, em um futuro distante, não estaria fora de cogitação.

Título: O Longo Adeus
Autor: Raymond Chandler
N de páginas: 384
Editora: L&PM

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segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

RESENHA: A Mão Misteriosa

Certa vez li uma reportagem que incluía uma lista dos dez livros que Agatha Christie considerava seus melhores. Entre eles, clássicos como “O Assassinato de Roger Ackroyd”, “O Caso dos Dez Negrinhos”, “Assassinato no Expresso do Oriente” e livros não tão famosos como “A Mão Misteriosa”. Sendo este o único dentre os eleitos pela Dama do Crime que eu ainda não havia lido, tratei de tirá-lo logo da estante e conferir mais um exemplar de sua engenhosidade.

Após um acidente, Jerry Burton e sua irmã, Joana, se mudam para a pequena cidade de Lymstock, onde se supõe que nada de emocionante acontece. Mas pouco tempo após a sua chegada, um deles recebe uma misteriosa carta anônima de tom bastante ofensivo e logo descobrem que há tempos o mesmo tem acontecido com vários moradores locais. Quando um suicídio decorre de uma das cartas, o assunto na cidade já não é outro que a identidade do maldoso escritor.

Cartas anônimas em uma cidade pacata onde todos se tornam suspeitos. Esse é o tipo de premissa que Agatha Christie sabe explorar melhor do que ninguém, transformando uma fórmula simples em um livro que faz o leitor elaborar mil teorias e não querer largá-lo até descobrir se alguma delas está certa.

A autora narra a história pelo ponto de vista de Jerry Burton que revisita os acontecimentos depois que o mistério já teve fim. A visão de Jerry é perfeita para a história já que, como recém-chegado em Lymstock, o personagem não tem vínculos anteriores com os moradores do local, permitindo ao leitor ter suas primeiras impressões sobre eles com base nas dele.

“Nesse caso, meu conselho à polícia seria: estudem a personalidade. Deixem de lado suas impressões digitais, o estudo da caligrafia e seus microscópios. Em vez disso, observem o que as pessoas fazem com as mãos, seus pequenos tiques, o modo como se alimentam, e se às vezes riem sem motivo aparente.” (CHRISTIE, p.154, 2012)

Já li mais livros de Agatha Christie do que posso contar, mas sempre me admira como não consigo evitar terminar essas leituras sem um sorriso no rosto. Não importa quantas de suas tramas já tenhamos lido, de alguma forma Agatha sempre surpreende porque é impossível prever todos os seus truques. Em “A Mão Misteriosa” desenvolvi uma teoria por volta da página 70 e ao longo da leitura fui me convencendo de que a autora tentava desviar a minha atenção daquilo, mas que eu estava sendo esperta e captando suas artimanhas. Nem sei se posso chamar de surpresa ver Agatha revelar nas últimas páginas algo que eu nem havia cogitado, tão envolvida estava com a minha própria teoria (que em nada estava certa, diga-se de passagem).

A revelação, como quase sempre nos livros de Agatha Christie, é simples e estava ali para ser vista desde o início. Em um dado momento, Miss Marple diz que cometer um assassinato é como realizar um truque de mágica: tudo gira em torno de fazer a pessoa olhar para a coisa errada, no lugar errado. Alguma dúvida de que a Dama do Crime conhecia alguns truques de ilusionismo?

E por falar em Miss Marple, a participação da personagem foi a única coisa que me desagradou na história. Só o fato de ela aparecer pela primeira vez depois da página 160 mostra sua irrelevância para a trama. Miss Marple não participa dos acontecimentos, apenas aparece para desvendar o mistério graças ao seu conhecimento da natureza humana. Me pareceu uma participação desnecessária, pois a história funcionava muito bem sem a personagem e o mistério poderia ter sido descoberto de outras maneiras.

Não considero “A Mão Misteriosa” uma das melhores histórias de Agatha Christie, mas é uma típica história da autora, recheada com muito do que ela sabe fazer melhor do que ninguém.

Título: A Mão Misteriosa
Autora: Agatha Christie
Nº de páginas: 223
Editora: L&PM

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quinta-feira, 28 de junho de 2018

RESENHA: A Sede

A Sede / Jo Nesbø / Harry Hole
No décimo primeiro livro da série Harry Hole, o lendário detetive está de volta em mais um acerto de Jo Nesbø.

Um assassino que mata suas vítimas com mordidas de uma dentadura de ferro e bebe seu sangue, dando um novo sentido a expressão "sede de sangue". Um criminoso tão sem precedentes que obriga a polícia de Oslo a chamar Harry Hole para ajudar nas investigações, colocando de novo em seu caminho o único criminoso que escapou de suas mãos há anos.

Já falei muito aqui sobre como gosto de Harry Hole. Tendo lido todos os livros da série, com exceção do segundo, acompanhei a jornada do inspetor em seus tempos mais sombrios e também mais leves (aspas generosas em “leves”) e há alguns livros acredito que esta jornada esteja se aproximando do fim. Isso não tem a ver com a qualidade das tramas e sim com a história do próprio personagem que sempre foi um protagonista para a série mais do que apenas um investigador de casos policiais.

Neste livro vemos um Harry casado com a mulher que ama, sendo um pai para o menino que ele viu crescer e que hoje, homem adulto, escolhe seguir seus passos na polícia. Vemos Harry direcionar seus talentos para o ensino, se tornando professor da academia de polícia, ao invés de portar seu distintivo. Mas também vemos Harry continuar sendo Harry, atormentado por seus demônios que sempre estarão ali, não importa o que aconteça. Ainda assim, como é bom vê-lo tendo um porto seguro para voltar ao final do dia. Como é bom poder ve-lo encontrar com Rakel uma forma de serem felizes, nem que seja entre brechas de escuridão.

“É claro que perdemos todas as pessoas a quem tentamos nos agarrar, o destino faz pouco-caso de nós, nos torna pequenos, patéticos. Quando choramos pelas pessoas que perdemos não é por compaixão, porque é claro que sabemos que elas finalmente estão livres da dor. Mas ainda assim choramos. Choramos porque estamos sozinhos outra vez. Choramos por sentirmos pena de nós mesmos.” (NESBØ, 2018, p. 370)

Outra coisa que gosto na série é que, aos poucos, alguns personagens se despedem e outros surgem para ocupar lugares de destaque. É o caso, por exemplo de Trulls Berntsen (e seu eterno complexo de inferioridade e paixão impossível por Ulla Bellman), da inspetora Katrine (que agora lidera a equipe de investigação) e de Michael Bellman (o ambicioso e desprezível chefe de polícia contra quem qualquer leitor vai gostar de torcer). Todos rendem subtramas envolventes e isso acorre porque, ao criar um personagem consistente como Harry Hole, Nesbø fez dele um terreno fértil para que outros pudessem se desenvolver ao seu redor.

Quanto ao caso em si, confesso que o autor soube me conduzir direitinho, de forma que não previ a surpresa que ele guardava para o final. Os crimes, como sempre, são grotescos e Nesbø não tem medo de criar imagens fortes na mente do leitor. A condução da trama acelera o ritmo com o avançar dos capítulos, enredando cada vez mais os personagens, até colocá-los todos em um mesmo lugar para um desfecho doentio.

Três anos após os eventos de “Polícia, a trama de “A Sede” usa o cliffhager deixado pelo livro anterior para trazer de volta o vilão Valentin Gjertsen, algo que Nesbø parece planejar fazer novamente com Svein Finne, “o noivo”. Apesar disso, as tramas dos livros são independentes e podem ser lidas fora de ordem.

“A Sede” é a décima primeira trama de uma série que não mostra sinais de cansaço. Mais uma vez, Jo Nesbø entrega uma trama bem amarrada, inteligente e capaz de surpreender o leitor.

Título: A Sede
Autor: Jo Nesbø
N° de páginas: 531
Editora: Record
Exemplar cedido pela editora

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terça-feira, 5 de junho de 2018

RESENHA: O Morcego

O Morcego / Jo Nesbø / Harry HoleQuando a Editora Record deu início à publicação da série Harry Hole no Brasil, o primeiro livro lançado foi “Garganta Vermelha”, o terceiro da série. Depois, a publicação seguiu a ordem dos lançamentos, até o oitavo livro, “O Leopardo”. Foi apenas em 2016 que os leitores tiveram a oportunidade que conhecer “O Morcego” e “Baratas” as duas primeiras histórias desse personagem fascinante.

Inger Holter, uma jovem norueguesa, foi encontrada estuprada e assassinada no fundo de um penhasco em Sydney. Harry Hole foi o escolhido para representar a polícia de Oslo e ajudar nas investigações na Austrália. Logo ele descobre que a morte de Inger pode não ser um crime isolado e que um assassino pode estar à solta, atacando mulheres loiras em todo o país.

Fã confessa que sou de Nesbø e de seu investigador, e tendo lido todos os livros da série, fiquei empolgadíssima para saber como a história de Hole teve início, em especial porque o personagem passa por uma palpável evolução de uma trama para a outra, não estando ali apenas para encabeçar as investigações. Além disso, o caso de “O Morcego” é frequentemente mencionado no decorrer da série já que atuar na busca de um serial killer dá uma espécie de status a Hole dentro da polícia norueguesa que tem pouca experiência no assunto devido à pouca ação de serial killers no país.

Com tanta expectativa, e já familiarizada com o que o futuro reserva para o personagem, tive uma boa experiência com “O Morcego”. O tom das histórias, os crimes violentos, o ritmo (sempre lento no começo) característicos das histórias de Nesbø já estão presentes nesse primeiro livro, assim como a essência da personalidade de Hole. Essa, talvez, fosse a minha principal curiosidade: teria Harry Hole já nascido um personagem problemático e angustiado ou teriam sido os casos que o deixaram assim? E a resposta é: Harry Hole já é Harry Hole desde o primeiro livro. É claro que há muito caminho a percorrer e o personagem se tornará cada vez mais sombrio e seu fardo cada vez mais pesado. O fascínio que provoca irá crescer, mas sua personalidade já estava desenhada em “O Morcego”. Harry já é assombrado pelo fantasma de um amor que ficou para trás (mesmo que nos livros seguintes ele venha a perder a importância), já carrega o peso da morte de um colega nas costas, já enfrenta problemas com alcoolismo (sob controle neste momento) e já dá indícios de que está disposto a burlar as regras sempre que achar que isso é o certo a fazer. Nesbø também já apresenta, através de breves comentários, um pouco da história familiar de Harry (o pai, a morte da mãe, a irmã com Síndrome de Down) algo em que irá se aprofundar nos livros seguintes.

“A alma humana é uma grande floresta escura, e todas as decisões são tomadas na solidão.” (NESBØ, 2016, p. 346)

Quanto à trama, o caso de Inger e das loiras é interessante e bem amarrado, mas não me envolveu tanto quanto poderia. Antes que a investigação se aprofunde na morte da norueguesa, descobrimos os outros casos. A partir desse momento, não se trata de uma vítima e sim de várias vitimas, de forma que a individualidade delas perde a importância porque o relevante passa a ser o conjunto e a pergunta “quem é o homem que tem esse tipo de mulher como alvo?” passa a ser o cerne da trama. Assim, a investigação se torna um pouco genérica, o que impede o leitor se de envolver profundamente.

Outro fator que contribui para isso é que essa não é uma típica caçada a um serial killer na qual uma nova vítima pode surgir a qualquer momento e a investigação é uma luta contra o tempo. Aqui não se tem a menor ideia de onde e quando um novo ataque poderá ocorrer e a maioria dos casos já é antiga. Assim, por mais que a investigação flua bem e que o desfecho seja satisfatório, confesso que não senti urgência em descobrir as respostas. Por outro lado, não posso dizer que fiquei decepcionada porque vejo a trama de “O Morcego” como uma introdução, uma apresentação do estilo de casos da série, e isso ela consegue fazer muito bem. Nesbø mostra cenas violentas, deixa claro que nenhum personagem está a salvo, que qualquer um pode ter motivações ocultas e que sempre há um preço a se pagar.

“O Morcego” apresenta com competência um autor promissor, que não tem medo de criar tramas violentas e intrincadas, e um personagem que, nos livros seguintes, se revelará um dos melhores detetives da literatura policial contemporânea. Como quase toda estreia, ainda não é o melhor do seu autor, mas me deixa cada vez mais segura em dizer que Jo Nesbø não erra nunca.

Título: O Morcego
Autor: Jo Nesbø
N° de páginas: 346
Editora: Record
Exemplar cedido pela editora

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terça-feira, 17 de abril de 2018

RESENHA: Encarcerados

Encarcerados John Scalzi
Desde que li Guerra do Velho, me tornei fã incondicional de John Scalzi e estava extremamente curioso para conferir Encarcerados, uma promissora mescla de ficção científica e policial. 

A Síndrome de Haden matou mais de 400 milhões de pessoas e os sobreviventes precisaram lidar com uma terrível sequela: o encarceramento, ou seja, suas mentes saudáveis ficaram presas em corpos incapazes de se movimentar. A situação é contornada pela tecnologia, que permite que os hadens transfiram suas consciências para corpos robóticos e assim possam viver em sociedade. É neste contexto que conhecemos o haden Cris Shane que, em seu primeiro dia de trabalho no FBI, começa a investigar o assassinato de um homem em um quarto de hotel em Washington.

Como esperado de Scalzi, a narrativa é extremamente fluída e envolvente. Em poucas páginas o leitor já está completamente fascinado por este novo mundo e suas infinitas possibilidades. Aliás, é impossível não se impressionar com a originalidade do pano de fundo criado pelo autor. 

Outros dois aspectos também se destacaram. O primeiro deles é o bom humor presente na narrativa, que em diversos momentos me fez rir alto. O segundo é a quantidade de reflexões que a estória provoca, tais como identidade, evolução e os limites entre a moral e a tecnologia.

"— Estamos trabalhando em pesquisas para desencarcerar os acometidos pela Haden. [...]. Para libertar os corpos e trazê-los de volta ...
— Trazer-nos de volta de quê, exatamente? — questionou Hubbard. — De uma comunidade de 5 milhões de pessoas nos Estados Unidos e 40 milhões em todo o mundo? De uma cultura emergente que interage com o mundo físico, mas é independente dele, com preocupações, interesses e economia próprios? Você tem ciência de que um grande número de haddens não tem lembrança nenhuma do mundo físico?"(SCALZI, 2018, p. 96)

O protagonista é extremamente cativante, sendo um excelente condutor da estória. É através de seu olhar que entendemos o funcionamento deste universo, bem como acompanhamos a evolução da investigação policial e seus desdobramentos. 

A estória de Scalzi é um típico “whodunit”, ou seja, o livro gira em torno de descobrir quem é o responsável pelo assassinato. Apesar da identidade do assassino não ter me surpreendido, fiquei impressionado com a forma como a trama foi construída e amarrada. Além disso, saliento que o autor preferiu manter a verossimilhança do que forçar reviravoltas na estória apenas para surpreender o leitor. 

Encerro afirmando que John Scalzi partiu de um conceito interessantíssimo, mas também acertou em cheio no desenvolvimento da estória. Encarcerados é uma mistura bem sucedida de ficção científica e policial, que me prendeu do início ao fim e que provou que Scalzi é um dos autores mais criativos e originais da atualidade.  

Após encerrada a leitura, obviamente fiquei com um gostinho de quero mais e para minha alegria descobri que há uma continuação (Head On, lançado este mês nos Estados Unidos). Mas fique tranquilo, pois a estória de Encarcerados tem início, meio e fim, não ficando ganchos para o segundo livro. Na verdade, creio que as estórias dos livros serão independentes entre si, apenas dividindo o mesmo contexto e protagonista. 

Título: Encarcerados
Autor: John Scalzi
N.º de páginas: 326
Editora: Aleph
Exemplar cedido pela editora

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terça-feira, 13 de março de 2018

RESENHA: A Quinta Testemunha

A Quinta Testemunha Michael Haller
Já considerei Michael Connelly um dos melhores autores policiais da atualidade, principalmente depois da leitura de livros como O Poeta e O Poder e a Lei. Porém, de uns tempos para cá, seus livros têm sido decepcionantes ou até mesmo ruins, como foi o caso de A Queda. Assim, determinado a dar uma última chance ao autor, decide ler A Quinta Testemunha, o quarto livro da série com Mickey Haller. 

Com a crise mobiliaria que assola o país, Haller teve que tomar uma medida drástica: abandonar a advocacia criminal e tentar aproveitar a enxurrada de processos de despejo. Quando uma cliente entra em contato, ele sequer imagina que Lisa está sendo acusada de ter matado um funcionário do alto escalão do banco, o qual está cobrando a hipoteca de sua casa. 

Como sempre, a narrativa de Connelly é bastante fluida e instigante, sendo que em poucas páginas já estamos envolvidos com a estória. O autor também soube estruturar bem a trama, adicionando novos elementos e plot twists na medida certa, de modo a manter o interesse do leitor. 

Outro fator que me impressionou é a facilidade que o autor tem em pensar como um verdadeiro advogado criminalista, o que torna a estória extremamente verossímil. O protagonista criado por Connelly é baseado na vida real, e não nos clichês de filmes e séries jurídicas.

“— Não, quem não está entendendo é você. Se você é inocente ou não, não tem nada a ver com o que está em jogo aqui. O importante é o que podemos provar ou contestar no tribunal.” (CONNELLY, 2013, p. 53)

O caso em si é muito interessante e rende diversas reflexões. Por um lado, uma mulher abandonada pelo marido, com um filho para cuidar e que não consegue pagar a hipoteca da casa. Por outro, uma grande corporação que está executando todos os seus devedores. Mais do que falar em certo ou errado, o autor embarca na nebulosa área da moral, mas de forma sútil e sem a pretensão de dar lições de vida. 

Entretanto, creio que o autor estendeu demais a estória. Sinceramente, não me pareceu que as mais de quatrocentas páginas fossem realmente necessárias para o desenvolvimento do livro. Está impressão ficou ainda mais nítida na reta final do livro, quando o julgamento de Liza parecia não acabar e nada de novo acontecia. 

O desfecho foi bom, sendo que todas as pontas da trama foram devidamente amarradas. Entretanto, saliento que o final não foi exatamente uma surpresa. Além disso, outro detalhe da estória revelado no final me pareceu um pouco forçado. 

Encerro admitindo que entre minhas últimas experiências com os livros do autor, A Quinta Testemunha foi a melhor. Porém, ainda não alcançou o mesmo nível dos livros que citei no início desta resenha. 

Título: A Quinta Testemunha
Autor: Michael Connelly
N.º de páginas: 419
Editora: Suma

sábado, 9 de dezembro de 2017

RESENHA: Polícia

Quando o assunto é Jo Nesbø eu não penso duas vezes: qualquer livro do autor é bem vindo. Ainda mais se tratando de uma historia de Harry Hole: meu detetive favorito da literatura policial contemporânea.

Alguém está matando policiais, atraindo-os para cenas de crimes que eles mesmos investigaram, mas que ficaram sem solução. Agora, a polícia de Oslo tenta encontrar o assassino antes que ele faça novas vítimas entre seus colegas. Eles gostariam de poder contar com a ajuda de Harry Hole. Mas não podem.

Hello Harry Hole! Enfim nos encontramos novamente. E é sempre um prazer revê-lo Mas....cadê você? Algo inusitado nesse livro é que Hole demora 175 páginas até aparecer. Isso, claro, é extremamente angustiante levando em consideração que o livro anterior ("O Fantasma") terminou em um cliffhanger, deixando o detetive mais perto da morte do que da vida. É claro que sabemos que, dificilmente, Hole nos deixaria - afinal é em torno dele que a série gira -, mas algo que os leitores de Nesbø sabem é que o autor não teve medo de matar personagens importantes ao longo da jornada (algo que, inclusive, volta a fazer nesse livro), então como ter certeza de que se está pisando em território seguro? Mas o que mais impressiona é como o autor consegue levar esses 15 primeiros capítulos, deixando o leitor cada vez mais interessado e avançando com segurança e ritmo pela trama. Mesmo sem a presença de seu protagonista, isso é uma coisa que apenas autores que sabem mesmo o que fazem são capazes de conseguir.

Eu sempre digo que as histórias da série são para mais para contar a vida do próprio Harry do que para desvendar o caso, por isso também me surpreendeu que o detetive mantenha-se fora de tantas páginas.

Sou uma leitora que perde a conexão com a história quando demoro muito a ler um livro. Essa foi outra coisa que me surpreendeu em "Polícia" já que levei três vezes o tempo que deveria para um livro desse tamanho, mas me mantive interessada até o último momento, mesmo que em alguns dias eu lesse apenas 5 páginas, o que dificultava avançar na trama.

Quanto à investigação, Nesbø acerta mais uma vez, construindo a trama de forma que coisas aparentemente sem conexão acabam se cruzando e espalhando suspeitas. Havia um momento em que eu suspeitava de três personagens ao mesmo tempo, apenas para descobrir mais tarde que isso se devia apenas a habilidade do autor (e que eu estava errada em todas elas).

Se ela pudesse passar cinco segundos em sua mente, se visse quem ele era de verdade, será que ela teria saído correndo dali horrorizada? Ou seria que todos somos igualmente doentes dentro de nossas cabeças? Será que a diferença reside apenas em quem solta o monstro que existe dentro de si e quem não faz isso? (NESBO, 2017, p.226)

Para aqueles que leem fora de ordem (coisa que eu mesma fiz com vários livros da série), essa é a primeira vez que vejo um empecilho, já que "Polícia" traz um spoiler de "O Fantasma".

A bagagem de "O Fantasma" também aparece em personagens secundários como Michael Bellman e Trulls Berntsen que continuam a desempenhar os papéis do livro anterior, desenvolvendo mais a sua complexa relação de obsessão, rancor, cumplicidade, autoridade e submissão. Aliás, isso também é outra coisa que gosto muito nos livros de Nesbø: os personagens não surgem e saem dos livros apenas porque o caso acabou. Eles chegam para ficar, para desempenhar um papel.

Assim como "O Fantasma", a trama de "Polícia" termina em um cliffhanger que, mesmo sem envolver o detetive, deixa o leitor curioso para o próximo livro. Uma sacada inteligente de Nesbø que mostra que esteve alinhavando a trama do próximo livro enquanto contava a deste. Com que frequência vemos isso em uma série policial?

Para os que acompanham o personagem há vários livros, um momento sensacional (e que eu nunca imaginei que veria) os aguarda nos últimos capítulos. O que o torna sensacional não é apenas o que acontece, mas a maneira como acontece. Pontos para Nesbø mais uma vez.

Já vi Jo Nesbø declarar em uma entrevista que o futuro de Harry Hole não seria muito longo. Depois de "Polícia" o autor já publicou mais um livro (The Thirst - ainda sem previsão no Brasil). Quando conclui a leitura de "Polícia", percebi que o fim, provavelmente, está se aproximando. Até porque, Harry é uma espécie de Jack Bauer norueguês: há coisas que ninguém vai fazer melhor do que ele, mas ele já está cansado de ser quem é, de ter que fazer o que faz. Ele já perdeu coisas demais, correu riscos demais por estar sempre disposto a fazer o precisava ser feito. Agora ele quer paz, mas algo sempre o puxa de volta. E é esse "trazer o detetive à ação quando tudo que ele quer é se afastar" que tem se tornado cada vez mais complicado desde o final do excelente "Boneco de Neve". Sejam quantos livros ainda nos restem na companhia desse personagem complexo e apaixonante, que venham mantendo a qualidade que os 10 livros da série apresentaram até o momento.

Título: Polícia
Autor: Jo Nesbø
N° de páginas: 546
Editora: Record 
Exemplar cedido pela editora

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segunda-feira, 20 de novembro de 2017

RESENHA: Assassinato no Expresso Oriente

Assassinato no Expresso Oriente / Agatha Christie / Hercule Poirot
Hercule Poirot planejava tirar uns dias de férias quando recebe um chamado para voltar com urgência a Londres. O detetive embarca às pressas no Expresso Oriente, mas sua viagem é interrompida devido a uma nevasca que impede a passagem do trem. No dia seguinte, um dos seus colegas de viagem é encontrado morto, apunhalado 12 vezes.

Um caso do sempre ótimo Hercule Poirot, “Assassinato no Expresso Oriente” é um dos livros mais famosos da extensa (e recheada de grandes sucessos) obra de Agatha Christie. Isso se deve ao desfecho, absolutamente inusitado, considerado um dos mais surpreendentes propostos pela autora. E não é para menos. Ao criar a trama desse livro, Agatha deve ter pensado: “O que eu ainda não fiz? Já sei! Um caso em que o assassino…..”. Até Raymond Chandler disse (embora seu comentário passe bem longe de parecer um elogio) que nenhum leitor em sã consciência desvendaria o mistério porque a resposta não passaria pela cabeça de ninguém.

A trama se divide em três partes: na primeira, conhecemos rapidamente os personagens e os vemos em situações que antecedem o crime; na segunda, Poirot conduz os interrogatórios; e na terceira, é chegado o momento em que o detetive, tendo em mãos todas as informações, coloca suas células cinzentas para trabalhar e encontrar a resposta.

Ninguém desenvolve a premissa “um grupo de pessoas confinadas em um mesmo lugar, todas sendo suspeitas de um crime” melhor do que Agatha Christie. Nesse caso, todos estão presos no trem e Poirot não pode ao menos confirmar as informações que recebe, tendo que confiar estritamente no seu discernimento e na palavra daqueles desconhecidos.

“O impossível não pode ter acontecido, assim sendo o impossível deve ser possível apesar das aparências." (CHRISTIE, p. 213 – edição britânica) Tradução livre

Por contar com um elenco grande de personagens, o ritmo acaba se tornando um pouco mais lento já que boa parte do desenvolvimento da história consiste nas entrevistas que o detetive faz (o passageiro chega, é entrevistado, o passageiro sai, entra outro e assim por diante), mas Agatha consegue manter o interesse do leitor.

Além do desfecho, outra coisa inusitada em “O Assassinato no Expresso Oriente” é a posição que Poirot se encontra ao desvendar o crime. Pela primeira vez o detetive se pergunta o que fazer diante da verdade e se deve, ou não, deixar que o criminoso fique impune. A decisão, de um jeito ou de outro, lhe parecerá errada.

Eu já havia lido “O Assassinato no Expresso Oriente” há muitos anos e dessa vez aproveitei a oportunidade para reler em inglês. Foi a primeira vez que li um texto de Agatha Christie no original e embora ler em outro idioma seja sempre um processo mais lento, ainda é possível encontrar nele a fluidez que costumamos encontrar no texto traduzido.

Além de ser um ótimo entretenimento, fica de “O Assassinato no Expresso Oriente” a satisfação de constatar, mais uma vez, que uma autora que conta com uma obra que ultrapassa os 80 livros, consegue sim ser muito original.

“Quanto a mim, eu suspeito de todo mundo até o último minuto.” (CHRISTIE, p. 78 – edição britânica) Tradução livre

Em 1974, o livro ganhou uma adaptação cinematográfica considerada a mais bem sucedida adaptação de uma obra de Agatha Christie. No elenco, nomes como Lauren Bacall, Jacqueline Bisset, Sean Connery, Anthony Perkins, Vanessa Redgrave, Ingrid Bergman e Albert Finney (os dois últimos vencedores do Oscar na categoria melhor atriz coadjuvante e melhor ator, respectivamente, por suas atuações no longa). Assisti o filme há alguns anos, mas não tenho condiçõess de comentar sua fidelidade à obra original já que assisti muito após minha primeira leitura e muito antes da segunda.

Na TV, a série "Agatha Christie's Poirot" (que traz o nada menos que perfeito David Suchet no papel do detetive Belga) também apresentou sua versão do livro. E se nunca comentei aqui antes, comento agora: o adjetivo perfeito não é um exagero para Suchet. Não só o ator adota os trajeitos, a maneira afetada falar, de andar, as obsessões de Poirot em cada gesto, como parece ter saído fisicamente da mente da Dama do Crime. Com exceção dos olhos verdes, é incrível que até a cabeça em formato de ovo Suchet tenha. Aliás, fica a dica: “Agatha Christie’s Poirot” é um pouco difícil de encontrar, mas vale a pena conferir (em especial a partir da quarta temporada quando os episódios passam a ser como filmes de 90 minutos de duração, cada um apresentando um livro). Todos os casos de Poirot foram contemplados pela série.

Em 2017, Kenneth Branagh assume a direção e o papel de Hercule Poirot, com direito a um bigode indescritível e a companhia de um elenco de peso que conta com Johnny Depp, Judi Dench, Michele Pfeiffer, Penélope Cruz e Williem Dafoe. O filme chega aos cinemas no final de novembro.

Título: Assassinato no Expresso Oriente
Autora: Agatha Christie
N de páginas: 248
Editora: L&PM

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sexta-feira, 13 de outubro de 2017

13 companhias caveirosas para a sua sexta-feira 13

Conversa de Contracapa é coluna off topic do blog Além da Contracapa. Sem limitação temática, iremos explorar todo e qualquer assunto relacionado ao mundo da literatura. 

Quem gosta de suspense sabe o valor de uma sexta-feira 13. Quando a data chega, é impossível não ficar com vontade de conferir um filme de terror ou ler um livro que o fará querer dormir com as luzes acesas.

A convite da Editora Darkside, preparamos um post para celebrar a data e sugerir para vocês 13 companhias para uma sexta-feira 13 bem caveirosa. 

1. Norman Bates - Psicose

Norman Bates é o tímido gerente do Motel Bates, um estabelecimento à beira de estrada. Mas caso você cogite se hospedar lá nesta sexta-feira 13, saiba que os Bates guardam alguns esqueletos no armário.


2. A Família Lutz - Amtyville

George e Kathleen Lutz são um tipo azarado para você convidar para a sua casa, já que eles não tiveram experiências muito boas com o que parecia a casa dos sonhos de qualquer família e fugiram 28 dias depois da mudança. Mas quem pode culpá-los? Caso você queira ouvir algumas histórias realmente assustadoras nessa sexta-feira 13, acenda uma fogueira e chame os Lutz para sentar com você.

3. Victor Frankenstein - Frankenstein

Todo mundo já ouviu falar do "Monstro" de Frankenstein, mas você já conheceu Victor Frankenstein? Ele é um jovem talentoso, cheio de ambição e obcecado por descobrir a centelha da vida. E quando a descobre, ele não percebe que a criatura que trouxe a existência é essencialmente humana, apesar da aparência grotesca. Essa sexta-feira 13 também pode ser uma oportunidade para você descobrir quem é o verdadeiro monstro desta clássica estória: a criatura ou o criador?

4. Rhoda Penmark - Menina Má

Rhoda Penmark parece uma adorável menina de oito anos, mas apenas parece. Por trás do rosto angelical se esconde uma mente fria e manipuladora, capaz de atos perversos. Se você quiser ficar de babá de Rhoda nesta sexta-feira 13, é bom ficar atento.

5. Dr. Vincent Di Maio - O Segredo dos Corpos

Se você prefere o terror do mundo real, sugerimos que você aproveite a sexta-feira 13 para fazer uma visita ao necrotério. Seu guia será o Dr. Vincent Di Maio, um conceituado médico legista que irá lhe mostrar de perto como acontece uma necropsia e qual a sua importância para a investigação e o julgamento.

6. "Ogro" - Diário de uma Escrava

"Ogro" é o pior tipo de monstro com o qual você pode se deparar. Um pedófilo. Um homem que caça meninas e as mantém em cativeiro como escravas sexuais. Se você for dar um passeio nesta sexta-feira 13, fique atento a tipos suspeitos.


7. Verônica - Bom dia, Verônica

Você pode aproveitar a sexta-feira 13 para acompanhar a policial Verônica Torres pelas ruas de São Paulo. Mas não se engane: os crimes que ela investiga são brutais e mostram o que há de pior na humanidade. Se você acha que aguenta, esteja preparado para testemunhar torturas, violência e diversas formas de abuso.

8. Bryan Clauser - Noturno

Sexta-feira 13 não é um bom dia para descobrir que existe um culto em São Francisco. Muito menos que suas vítimas são barbaramente assassinadas. Mas se você não tem medo do que se esconde nas sombras, talvez queira acompanhar o detetive Bryan Clauser nesta aventura sobrenatural.

9. Corvo - conto O Corvo

Poderia haver algo mais sinistro que um corvo do lado de fora da sua janela no meio da noite enquanto você lamenta a perda da sua amada? Caso você decida ficar em casa nesta sexta-feira 13, é melhor fechar bem as portas e as janelas para não atrair companhias indesejadas.

10. Louis Cypher - Coração Satânico

Louis Cypher é um tipo misterioso. Ele quer que o detetive Harry Angel localize o famoso cantor Jhonny Favorite, desaparecido há anos. Mas quais os verdadeiros motivos que movem Cypher? Se você estiver pensando em aceitar um servicinho extra nesta sexta-feira 13, pense bem antes de assinar o contrato.

11. Arcebispo da Cantuária - Abominação

O arcebispo da Cantuária descobriu feitiços que poderiam impedir a invasão dos vikings. Os velhos pergaminhos detalham uma poderosa magia que seria capaz de criar um exército invencível. Mas há um preço a ser pago. E garanto que você não quer ficar no caminho do arcebispo para descobrir que preço é esse, especialmente numa sexta-feira 13.

12. Frank Cauldhame - Fábrica de Vespas

Um menino de 16 anos que já matou três pessoas (incluindo seu irmão mais novo e sua prima) e que gosta de fazer pequenos experimentos violentos com animais e registrá-los em um diário, a fim de aplacar o tédio do seu dia a dia em vilarejo afastado em uma ilha escocesa. Se você não tiver medo de brincar com fogo, um passeio com Frank é uma boa pedida para a sua sexta-feira 13.

13. Stephen King 

Para encerrar, quem poderia ser uma companhia mais caveirosa que o homem que criou mundos, medos e monstros e nos mostrou que os piores costumam viver dentro de nós? Uma receita infalível para a sua sexta-feira 13, sem dúvida, é a companhia do mestre Stephen King.

sábado, 7 de outubro de 2017

RESENHA: A Vida Que Enterramos

A Vida que Enterramos // Allen Eskens
Para quem não sabe, atuei por alguns anos na área da advocacia criminal e posso até mesmo dizer que fui parar nesse ramo, em parte, por causa dos livros policiais que eu lia. Porém, nos últimos anos comecei a evitar o gênero, pois já estava cansado de encontrar estórias rasas e que beiravam ao absurdo. Mas quando li a sinopse de A Vida Que Enterramos, logo percebi o potencial da estória e decidi que o livro merecia uma chance. 

Joe é um estudante universitário que precisa escrever uma biografia sobre uma pessoa de idade para a disciplina de inglês. Sem nenhum familiar a quem recorrer, Joe procura ajuda em um asilo, porém, não esperava que o único paciente que ainda estivesse em posse de suas faculdades mentais fosse um criminoso. Carl Iverson foi condenado pelo estupro e assassinato de uma jovem há trinta anos e conseguiu liberdade condicional apenas por ter sido diagnosticado com câncer. Com pouco tempo de vida, ele aceita participar do projeto, tornando Joe seu confessor. 

O primeiro aspecto que merece destaque é a fluidez da narrativa. Eskens apresenta um texto ágil, direto e envolvente, de modo que o leitor começa a devorar os capítulos e sequer cogita interromper a leitura. Para se ter uma ideia, a habilidade do autor é tanta que li cerca de duzentas páginas em apenas um dia e admito que sequer senti as páginas serem viradas. 

Eskens também soube desenvolver muito bem os personagens e trabalhar os diversos arcos da estória, que não se centrou apenas na estória que Carl tinha para contar, mas também na investigação que Joe empreendeu a fim de descobrir a verdade, nas conturbadas relações familiares do protagonista e em seu envolvimento com Lila, sua vizinha. Cada arco tem sua relevância para o desenvolvimento da estória e o mais interessante é reparar no impacto que causam umas às outras.

“Dos três homens na foto, somente Carl olhava para a câmera. Eu não sabia o que esperava ver em seu rosto. Como alguém mantém a calma e a sanidade depois de cometer um assassinato? A pessoa estufa o peito e anda de forma pomposa pelos destroços pretos como carvão do galpão onde carbonizou um cadáver?  Usa uma máscara de indiferença e passa pelas ruínas com o mesmo desinteresse de alguém que caminha até a loja da esquina para comprar um litro de leite? Ou surta de medo ao saber que foi pego, que deu seu último suspiro de liberdade e que vai passar o resto da vida em uma cela?” (ESKENS, 2017, p. 33).

A investigação que Joe e Lila fazem segue uma linha de raciocínio lógica e clara, sem contar com deduções improváveis. Aliás, registro aqui que o autor é advogado criminalista e seu conhecimento sobre como ocorrem os crimes no mundo real fica claro, pois a estória se mantém verossímil do início ao fim, sem contar com reviravoltas surreais. 

Outro ponto alto do livro é a estruturação da trama, que demonstrou o completo domínio do autor sobre a estória e os personagens. Além de amarrar com maestria todas as pontas da trama, o que mais me impressionou foi como o autor conseguiu transmitir a motivação de todos os personagens, mesmo para ações pequenas. 

O desfecho, apesar de não ter sido tão surpreendente quanto eu esperava, é repleto de ação e adrenalina. Nas últimas páginas, quando o mistério em si já está praticamente solucionado, o livro toma ares de thriller, de modo que ficamos completamente sem fôlego e tudo o que queremos é saber qual será o fim da estória. 

Com um mistério intrigante, uma narrativa envolvente e uma trama perfeitamente concatenada, A Vida Que Enterramos foi uma das melhores leituras policiais que fiz nos últimos tempos. Assim, mal posso esperar para conferir os próximos livros de Allen Eskens. 

Título: A Vida Que Enterramos
Autor: Allen Eskens
N.º de páginas: 270
Editora: Intrínseca
Exemplar cedido pela editora

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