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quinta-feira, 10 de outubro de 2019

RESENHA: A Última Colônia

A série A Guerra do Velho me surpreendeu e encantou desde o primeiro livro. Scalzi é um daqueles autores com o raro talento de criar estórias que se tornam experiências de imersão, pois uma vez que você inicia a estória simplesmente não consegue interromper a leitura. E por isso mesmo estava ansioso para conferir A Última Colônia, o terceiro livro da saga. 

Atenção: o parágrafo abaixo contém spoilers. O restante da resenha é livre de spoilers

A União Colonial decidiu criar uma nova colônia, mas em vez de terráqueos, são os povos de planetas já colonizados que habitarão Roanoke. Por ser um empreendimento inédito, a UC convoca John Perry e Jane Sagan para administrar a colônia. Porém, o que eles não sabem é que a União Colonial tem planos muito maiores e mais complexos. 

A Última Colônia certamente é o turning point da saga. Apesar de ser mais uma aventura eletrizante, Scalzi continua expandido os horizontes e limites do universo que criou. Assim, a estória vai muito além das estruturas militares e da luta por planetas, passando a explorar o aspecto político da estória e suas consequências

É comum dizer que as relações internacionais são anárquicas e caóticas, uma vez que não há hierarquia entre os atores internacionais e nem regras determinando suas condutas. E Scalzi mostra exatamente isso: na corrida pela colonização do universo, o que vale é a lei do mais forte. Ou do mais inteligente. 

“Somos corpos estranhos quando pousamos em novos mundos e sabemos o que qualquer sistema de vida faz com um corpo estranho em seu meio: tenta matá-lo o mais rápido possível.” (SCALZI, 2019, p. 61)

Além desse pano de fundo intrigante, o autor consegue trazer à tona uma profunda discussão a respeito da importância da informação e dos riscos que a falta dela ou sua distorção podem causar na sociedade. Outro tema de reflexão é o conceito de humanidade: o que nos faz humanos e o que nos rouba a humanidade? Assim, Scalzi consegue mostrar que a ficção científica, por mais futurística que seja, consegue dialogar com os desafios e dilemas que vivenciamos na atualidade. 

Desta vez, a narrativa volta a ser feita em primeira pessoa do ponto de vista de John Perry e tive aquela gostosa sensação de voltar para casa. Não que o autor não tenha sido bem sucedido quando narrou em terceira pessoa, porém, Perry é um personagem tão carismático que é impossível o leitor não se conectar com ele e com sua jornada logo nos primeiros capítulos. 

Como esperado, o final é empolgante e deixa ganchos inesperados para o futuro da saga. Quando iniciei a leitura do primeiro livro, jamais imaginei que o autor seguiria por rumos tão inusitados e mal posso esperar para descobrir o que os próximos volumes da saga reservam.

Mais uma vez Scalzi acerta em cheio e entrega tudo o que um leitor pode esperar: bons personagens, trama bem construída e altas doses de aventura e adrenalina. Resta-me reconhecer, mais uma vez, que A Guerra do Velho é a melhor série de ficção científica da atualidade

Título: A Última Colônia
Autor: A Guerra do Velho
Editora: Aleph
N.º de páginas: 357
Exemplar cedido pela editora

terça-feira, 17 de abril de 2018

RESENHA: Encarcerados

Encarcerados John Scalzi
Desde que li Guerra do Velho, me tornei fã incondicional de John Scalzi e estava extremamente curioso para conferir Encarcerados, uma promissora mescla de ficção científica e policial. 

A Síndrome de Haden matou mais de 400 milhões de pessoas e os sobreviventes precisaram lidar com uma terrível sequela: o encarceramento, ou seja, suas mentes saudáveis ficaram presas em corpos incapazes de se movimentar. A situação é contornada pela tecnologia, que permite que os hadens transfiram suas consciências para corpos robóticos e assim possam viver em sociedade. É neste contexto que conhecemos o haden Cris Shane que, em seu primeiro dia de trabalho no FBI, começa a investigar o assassinato de um homem em um quarto de hotel em Washington.

Como esperado de Scalzi, a narrativa é extremamente fluída e envolvente. Em poucas páginas o leitor já está completamente fascinado por este novo mundo e suas infinitas possibilidades. Aliás, é impossível não se impressionar com a originalidade do pano de fundo criado pelo autor. 

Outros dois aspectos também se destacaram. O primeiro deles é o bom humor presente na narrativa, que em diversos momentos me fez rir alto. O segundo é a quantidade de reflexões que a estória provoca, tais como identidade, evolução e os limites entre a moral e a tecnologia.

"— Estamos trabalhando em pesquisas para desencarcerar os acometidos pela Haden. [...]. Para libertar os corpos e trazê-los de volta ...
— Trazer-nos de volta de quê, exatamente? — questionou Hubbard. — De uma comunidade de 5 milhões de pessoas nos Estados Unidos e 40 milhões em todo o mundo? De uma cultura emergente que interage com o mundo físico, mas é independente dele, com preocupações, interesses e economia próprios? Você tem ciência de que um grande número de haddens não tem lembrança nenhuma do mundo físico?"(SCALZI, 2018, p. 96)

O protagonista é extremamente cativante, sendo um excelente condutor da estória. É através de seu olhar que entendemos o funcionamento deste universo, bem como acompanhamos a evolução da investigação policial e seus desdobramentos. 

A estória de Scalzi é um típico “whodunit”, ou seja, o livro gira em torno de descobrir quem é o responsável pelo assassinato. Apesar da identidade do assassino não ter me surpreendido, fiquei impressionado com a forma como a trama foi construída e amarrada. Além disso, saliento que o autor preferiu manter a verossimilhança do que forçar reviravoltas na estória apenas para surpreender o leitor. 

Encerro afirmando que John Scalzi partiu de um conceito interessantíssimo, mas também acertou em cheio no desenvolvimento da estória. Encarcerados é uma mistura bem sucedida de ficção científica e policial, que me prendeu do início ao fim e que provou que Scalzi é um dos autores mais criativos e originais da atualidade.  

Após encerrada a leitura, obviamente fiquei com um gostinho de quero mais e para minha alegria descobri que há uma continuação (Head On, lançado este mês nos Estados Unidos). Mas fique tranquilo, pois a estória de Encarcerados tem início, meio e fim, não ficando ganchos para o segundo livro. Na verdade, creio que as estórias dos livros serão independentes entre si, apenas dividindo o mesmo contexto e protagonista. 

Título: Encarcerados
Autor: John Scalzi
N.º de páginas: 326
Editora: Aleph
Exemplar cedido pela editora

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