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segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

RESENHA: Bom dia, Verônica

Bom dia, Verônica Andrea Killmore DarkSide Books
Para quem não sabe, sou formado em Direito e atuei por alguns anos como advogado criminalista, e por causa deste histórico não consegui levar a sério alguns livros policiais brasileiros, pois os autores pareciam desconhecer como se dá o trabalho investigativo em nosso país. Mas estava com expectativa em alta para conferir Bom dia, Verônica justamente pelo fato da autora contar com experiência policial e possuir conhecimento prático sobre o que escreve. 

Verônica Torres é uma escrivã de polícia que foi “promovida” a secretária pessoal do Delegado Carvana, titular do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa. Agora, suas funções limitam-se as tarefas burocráticas, sendo mantida a distância de qualquer investigação. Tudo muda quando Marta Campos — uma mulher que caiu no golpe “Boa noite, Cinderela” — se suicida no departamento. Contrariando a orientação de engavetar o caso, Verônica parte em uma investigação particular para capturar o homem que enganou Marta. E por causa da repercussão do caso, Veronica é contatada por Janete, que acusa o marido da prática de crimes bárbaros e implora por ajuda. 

Demorei a me envolver com a estória e creio que em boa parte isso se deva a protagonista e narradora, que não é muito carismática. Entretanto, reconheço que tal característica é compatível com o perfil de Verônica, uma pessoa atormentada pelos fantasmas do passado, que convive com a violência e a impunidade diariamente. 

“O ser humano é podre e egoísta, prefere o problema que já conhece a enfrentar o desconhecido com honra.” (KILLMORE, 2016, p. 191). 

Admito que me causou um certo estranhamento o fato de Verônica embarcar quase que simultaneamente em duas investigações distintas por conta própria após permanecer relegada ao trabalho burocrático por tanto tempo. Apesar da motivação da protagonista não ser das mais fortes, ambas as investigações se justificam para o desenvolvimento da trama. 

Quanto a investigação, fica claro que a autora tem conhecimento de causa, porém, é preciso dizer que algumas atitudes de Verônica deram a impressão de ser um tanto amadoras, enquanto outras me pareceram contar com um aparato tecnológico avançado demais (pelo menos julgando a partir do contexto que conheço). 

O livro apresenta um clima sombrio e tenso que vai apenas escalando com o desenvolver da estória. Andrea Killmore não tem medo de mostrar o que há de pior no ser humano e sua escrita visceral é um reflexo disso. A autora também descreve com precisão as cenas mais cruéis, transportando o leitor para dentro do livro, mas em nenhum momento utiliza da violência como um mero recurso para chocar o leitor. 

O que realmente fez o livro valer a pena são as últimas cem páginas, quando as investigações avançam mais rapidamente e as pontas da trama começas a ser costuradas. O desfecho é genial, sendo extremamente original e surpreendente, mas sem deixar a verossimilhança de lado. 

Apesar de alguns percalços no caminho, Bom dia, Verônica conta com uma estória brutal, personagens vívidos e uma trama criativa. Eis a prova cabal de que a literatura policial brasileira tem muito mais a oferecer. 

Título: Bom dia, Verônica
Autora: Andrea Killmore
N.º de páginas: 251
Editora: DarkSide Books
Exemplar cedido pela editora

Compre: Amazon
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sábado, 21 de janeiro de 2017

[Literatura Brasileira] para quem não gosta de [Literatura Brasileira]

Todo leitor se identifica com alguns gêneros literários mais do que com outros. Mas existem alguns livros que são capazes de abrir os olhos dos leitores para gêneros dos quais ele nunca gostou, justamente por mostrarem uma faceta diferente do gênero, por terem algo a mais. Livros que fazem o leitor que diz “Não gosto deste tipo de livro” se apaixonar justamente por um livro deste tipo.

Foi pensando nisso que o Além da Contracapa criou uma nova coluna: “[...] para quem não gosta de [...]”, na qual faremos uma seleção de livros de um determinado gênero ou temática que podem agradar até mesmo quem costuma fugir deles. 

1. Dom Casmurro

Talvez um dos livros mais icônicos da Literatura Brasileira, “Dom Casmurro” pode fazer muitos torcerem o nariz graças a traumas de escola, mas é um livro sensacional. Eu poderia dizer aqui que a narrativa de Machado de Assis é, provavelmente, a mais engraçada e irônica que você vai encontrar em um clássico. Eu poderia dizer que Bentinho e Capitu são personagens espetaculares (e eu só não a considero a melhor personagem da literatura brasileira porque Erico Verissimo nos presenteou com o Capitão Rodrigo Cambará). Mas “Dom Casmurro” também é um ótimo livro para quem gosta de desvendar um bom mistério. Não importa quantas vezes você leia, simplesmente não há como ter uma opinião definitiva sobre a possível traição de Capitu. Já li três vezes, quero ler outras, e em todas terminei acreditando que a traição ocorreu. Mas como saber ao certo? Já vi até mesmo professores de literatura manterem suas dúvidas. Um comentou inclusive que só depois de várias releituras percebeu um comentário de Capitu que iria totalmente contra a hipótese de Bentinho de que ela o traía. Até então, ele também era do time dos que acreditam que houve traição. É por isso que mesmo que você não goste dos clássicos da nossa literatura, “Dom Casmurro” pode conquistar você por ser um quebra-cabeças no qual você procura novas peças escondidas a cada linha para tentar desvendar o insolúvel mistério.
Cresci ouvindo minha mãe falar sobre “O Tempo e o Vento” e, quando li a saga, não foi difícil entender porque a história se mantinha viva em sua memória após tantos anos. Você não lê “O Tempo e o Vento”, você vive “O Tempo e o Vento”, isso porque Verissimo cria alguns dos personagens mais vívidos que eu já encontrei na literatura e não é difícil sentir que você os conhece (não é à toa que certa vez um leitor disse a Verissimo que ficou em luto e não foi trabalhar no dia seguinte ao ler a morte do Capitão Rodrigo Cambará ou que minha mãe chorou por dias quando Rodrigo Cambará – bisneto do capitão – também morreu). Em uma história tão extensa e com tantos personagens surpreende que até o menor dos coadjuvantes ganhe essa faísca de vida. É verdade que a história é longa (três livros divididos em sete volumes), mas quando você termina a sensação não é de conclusão e sim de fazer parte de uma nova família: a dos Terra Cambará. “O Tempo e o Vento” tem aventuras, batalhas, amores, decepções, personagens fortes e é uma aula de história, tanto do Rio Grande do Sul, quanto do Brasil. Por ter de tudo um pouco é capaz de agradar leitores dos mais variados gêneros.

3. Capitães de Areia 


Capitães de Areia foi meu primeiro contato com a obra de Jorge Amado e um dos melhores livros que já li (inclusive estando entre minhas 5 melhores leituras de 2015). A estória gira em torno de um grupo de meninos abandonados, que vive de pequenos furtos e mora nas ruas. Jorge Amado conviveu com meninos de rua para escrever o livro e o conhecimento de causa do autor fica claro desde o início, pois vemos um “olhar de dentro”. Com muita sensibilidade, Amado desenvolve personagens complexos — cada um vivenciando dramas particulares — e que encontram no grupo não apenas aceitação, mas também o sentimento de pertencimento e, principalmente, uma identidade. O autor ainda aborda temas como amizade, companheirismo, lealdade, amor, integridade, vingança, abandono e violência de forma sútil, mas contundente. Capitães de Areia consegue ser uma mescla de romance de formação e crítica social, que não apenas faz o leitor refletir, mas que também emociona. Certamente, um livro atemporal e que merece ser visto com um verdadeiro clássico da literatura brasileira. 


quarta-feira, 13 de abril de 2016

RESENHA: A morte e a morte de Quincas Berro D'água

“Viu o sorriso. O sorriso cínico, imoral, de quem se divertia. O sorriso não havia mudado, contra ele nada tinham obtido os especialistas da funerária. Também ela, Vanda, esquecera de recomendar-lhes, de pedir uma fisionomia mais a caráter, mais de acordo com a solenidade da morte. Continuara aquele sorriso de Quincas Berro D’água e, diante desse sorriso de mofa e gozo, de que adiantavam sapatos novos (...) de que adiantavam roupa negra, camisa alva, barba feita, cabelo engomado, mãos postas em oração? Porque Quincas ria daquilo tudo (...). (AMADO, p. 43, 2014)

Nenhum leitor brasileiro que se preze pode passar a vida sem ler Jorge Amado. Eu tive meu primeiro contato com o autor nos tempos de colégio, mas por razões que não me recordo, não cheguei a concluir a leitura de “Mar Morto”. De forma que “A Morte e a morte de Quincas Berro D’água” foi meu novo ponto de partida.

Durante muitos anos, Joaquim Soares da Cunha foi funcionário público e exemplar homem de família. Até que um dia, abandonou a vida que levava para se tornar Quincas Berro D’água, um vagabundo que mora em meio a bêbados e prostitutas, mas tem a liberdade como seu guia. Na ocasião de sua morte, a família espera poder, finalmente, lhe restaurar a dignidade, enquanto os amigos querem lhe dar uma despedida digna do herói que ele sonhava ser.

Com uma narrativa leve e até mesmo irônica, Jorge Amado dá a seu narrador ares de quem não leva muito a sério a história que tem para contar, o que, além de cativar o leitor imediatamente, se revela perfeito para os contornos fantásticos que a história ganhará. Além disso, esse tom impele o leitor a ver aquela sociedade da mesma forma que o protagonista a via, ou seja, como indigna de ser levada a sério, com todas as suas hipocrisias. Eu diria que é até mesmo impossível não glorificar a segunda vida de Quincas e desprezar a primeira, já que, pelo menos, ela é vivida com toda a vontade e transparência.

Há dois grupos de personagens: de um lado, a família, que de certa forma se alegra com a morte de Quincas, já que isso significa o fim da vida vergonhosa que vinha levando, e que prefere se agarrar a uma versão idealizada de quem ele era; e do outro, os amigos e parceiros de farra, que lamentam profundamente a perda de Quincas, a quem tinham em grande estima e viam quase como a um pai. Nesse contexto, as figuras individuais perdem a importância, sendo significativas pelo seu papel dentro do grupo a que pertencem.

Jorge Amado não deixa de ressaltar sua Bahia, usando de lugares e elementos da cultura local (como a capoeira e o candomblé) para ambientar a sua obra.

Vale um destaque para a edição preparada pela Companhia das Letras que além de cronologia do autor, posfácio assinado por Affonso Romano de Sant’Anna comentando o livro, breve comentário de Zélia Gattai sobre como a história surgiu e foi escrita por seu marido (em apenas uma semana e em meio a escrita de Vasco Moscoso) ainda apresenta fotos, entre elas das primeiras páginas do texto original (com direito a correções a punho) e capas de diversas edições (inclusive internacionais) recebidas pela história.

“A Morte e a morte de Quincas Berro D’água” foi adaptado para o teatro e a televisão. É uma narrativa breve, que não está entre as obras mais sérias e de cunho político do autor, mas nem por isso deixa de gerar reflexões. Até que ponto vivemos a vida que queremos viver e até que ponto nossas escolhas são determinadas pelo que é esperado de nós? As pessoas que nos cercam nos apreciam pelo que realmente somos ou apenas pela imagem que fazem do que elas gostariam que fossemos? Essas são, para mim, as principais perguntas do livro. Um novo ponto de partida que me fez querer explorar um pouco mais a extensa obra de Jorge Amado.

Título: A Morte e a morte de Quincas Berro D’água (exemplar cedido pela editora)
Autor: Jorge Amado
N° de páginas: 120
Editora: Companhia das Letras


quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

RESENHA: O Centauro no Jardim

“Eu habito a fronteira de dois mundos, dois mundos que me rechaçam, estou condenado a vagar pela vida como alma penada...” (SCLIAR, 2004, p. 41).

***

De um tempo para cá tenho me sentido em falta com a literatura brasileira e Moacyr Scliar dispensa apresentações. Assim, sabendo que estava procurando algum livro do autor, um amigo me indicou O Centauro no Jardim e sua premissa imediatamente me interessou. 

Em 1935, no interior do Rio Grande do Sul, nasce Guedali, um bebê-centauro. Após o choque inicial, a família aceita o destino e faz de tudo para proteger seu novo membro. O centauro cresce, preso em casa e sem companhia que não a família, muitas vezes se perguntando por que é do jeito que é. Quando não aguenta mais, foge e conhece uma centaura, Tita, por quem se apaixona. Anos depois, os dois embarcam em um navio rumo a Marrocos, onde serão submetidos a uma cirurgia que os transformará em pessoas normais. 

A narrativa é feita em primeira pessoa por Guedali que, ao completar trinta oito anos de idade, rememora todos os capítulos de sua vida. Apesar da linguagem um tanto rebuscada, a narrativa é fluida e de fácil entendimento. Me causou certa estranheza a pouca utilização de diálogos, mas nada que o leitor não se acostume com o passar de algumas páginas. 

O fato do protagonista iniciar suas divagações no presente e então voltar no tempo tem como consequência a eliminação de algumas surpresas, visto que, de certa forma, já sabemos como a estória termina. Ainda assim, O Centauro no Jardim é o tipo de livro que se lê para acompanhar a jornada do protagonista e entender seus conflitos e lutas, e não para descobrir como a jornada irá acabar. 

O que me chamou atenção ao ler a sinopse do livro foi o potencial de reflexão que premissa oferecia. Qual seria a identidade de um ser metade homem, metade cavalo? E o que aconteceria após a cirurgia que o transformaria em um homem? Ao extirpar a parte equina, não estaria extirpando parte de sua identidade? Não estaria negando a natureza do seu ser? 

Embora tais questões estejam presentes, mesmo que nas entrelinhas, a meu ver Scliar deixou de aproveitar o que a estória tinha de melhor. Fiquei frustrado ao perceber que o autor não as abordaria diretamente, mesmo quando o protagonista se encontrava em uma profunda crise de identidade, momento ideal para isso. Fiquei ainda mais frustrado quando vi que tal crise se resolveu de forma superficial, sendo que todas as suas dúvidas existenciais desaparecem de uma hora para outra. 

Por outro lado, me ocorreu que a intenção do Scliar, ao não se aprofundar nestas questões, tenha sido permitir que cada leitor tirasse suas próprias conclusões, o que seria uma opção interessante. Mas, a meu ver, a crise existencial de Guedali somente seria resolvida se enfrentasse seus conflitos internos abertamente, e não é o que acontece. 

O final apresenta uma deliciosa ambiguidade, sendo possível fazer duas interpretações distintas do livro, ficando a cargo do leitor escolher qual delas seria a verdadeira. Entretanto, não espere encontrar reviravoltas ou grandes surpresas, pois se trata de uma trama simples e linear, com um desfecho coerente com o desenvolvimento do livro. 

O Centauro no Jardim se encontra no limiar da realidade com a fantasia, contando com inúmeras metáforas e personagens intrigantes. Apesar de ter me decepcionado em determinados aspectos, certamente lerei outros livros de Moacyr Scliar. 

Título: O Centauro no Jardim (exemplar cedido pela editora)
Autor: Moacyr Scliar
N.º de páginas: 233
Editora: Companhia das Letras

quinta-feira, 10 de abril de 2014

RESENHA: Budapeste

Budapeste Chico Buarque
Li a sinopse de Budapeste há alguns anos e o livro imediatamente entrou na minha lista de leituras, embora nem lembre exatamente o que me atraiu. Além dos inúmeros elogios, a obra ganhou importantes prêmios da literatura nacional, de modo que minha expectativa estava em alta. 

José Costa é um talentoso ghost-writter que, após terminar de escrever a biografia de um empresário alemão, embarca rumo a Budapeste. Em sua jornada, Costa divide-se entre cidades, amores e palavras, enquanto enfrenta uma crise criativa e até mesmo existencial. 

Inicialmente, a narrativa de Chico Buarque me pareceu absolutamente singular e incomparável com a de qualquer outro autor. Porém, a partir de certo momento, fiquei com a impressão que a narrativa em si era mais importante do que a estória, o que de fato fez sentido no contexto da obra, mas ao findar da leitura fiquei com uma sensação de vazio. 

Em sendo narrado em primeira pessoa, é esperado que o texto esteja em consonância com o espírito do narrador-protagonista. O problema é que José se vê em um impasse existencial e seus pensamentos se mostram confusos e, muitas vezes, desconexos. Outra coisa que estranhei é a ausência absoluta de "diálogos tradicionais" (leia-se: marcados com travessão ou aspas), os quais foram inseridos na narrativa. 

Há uma dualidade que permeia todo o livro, a qual foi, inclusive, muito bem representada na capa. Budapeste e Rio de Janeiro. Húngaro e Português. Kriska e Vanda. Pisti e Joaquim. Porém, fiquei com a sensação de que esta dicotomia apenas está presente, mas que nada agrega a obra.

"Tenho esse ouvido infantil que pega e larga línguas com facilidade, se perseverasse poderia apreender o grego, o coreano, até o vasconço. Mas o húngaro, nunca sonhara em apreender." (BUARQUE, 2011, p. 08). 

Admito que cheguei ao final do livro sem entender exatamente o que havia acontecido, sendo que foram necessários alguns dias para que eu entendesse a moral do livro, ou para, pelo menos, criar uma teoria que a explicasse. 

Apesar de extremamente bem recebido pela crítica, Budapeste me soou pretensioso e audacioso. Mesmo contando com uma estória relativamente simples, o autor, de alguma forma, a complicou desnecessariamente, com a intenção de criar um livro cult e profundo. Tenho dúvidas se funcionou. 

Título: Budapeste 
Autor: Chico Buarque 
N.º de páginas: 113 
Editora: Companhia das Letras

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

RESENHA: As Palavras

“Você de repente não estranha de ser você?” (LISPECTOR, pag. 21, 2013)

Clarice Lispector é uma das autoras cujas frases mais se fazem presentes quando o que se quer são citações interessantes, inteligentes e reflexivas. Não é por menos, já que Clarice era mestre na arte de construir filosofias inteiras com poucas linhas e manipulava as palavras como ninguém.

“As Palavras” exprime se não toda, grande parte da genialidade da autora – que não era pouca. O livro é composto por trechos de textos de Clarice, configurando-se um livro cuja história o leitor pode construir por conta própria, com a evocação de suas experiências e os sentimentos que cada frase - habilmente construída - de Clarice provoca.

“Escrevo com o corpo. E o que escrevo é uma névoa úmida.” (LISPECTOR, pag.69, 2013)

São quatorze textos, entre romances, contos, crônicas entre outros, dissecados para se tornarem frases soltas que fazem o leitor ler, refletir e extrair delas inúmeras possibilidades. Não temos os textos na íntegra, mas temos sua essência fragmentada.

Para aqueles que se interessam pela obra de Clarice Lispector, “As Palavras” é uma ótima introdução ao mundo da autora. Eu confesso ter lido até o momento apenas seu livro de crônicas – “A Descoberta do Mundo”, responsável pelo encerramento de “As Palavras” – e mesmo que ele tenha me atiçado a conhecer mais de sua obra e que na ocasião eu tenha destacado inúmeras frases que desde lá li e reli, eu nunca havia feito. “As Palavras” me permitiu ter um apanhado geral do que é Clarice Lispector e do fascínio que provoca em tantos leitores. Escolher alguns poucos quotes para essa resenha foi um grande desafio e tenho certeza que fazer isso em alguns meses implicaria em outras escolhas, pois as mesmas palavras provocariam novas sensações. Essa é, para mim, a grande riqueza da obra de Clarice Lispector.

“Viver tem dessas coisas: de vez em quando se fica a zero. E tudo isso é por enquanto. Enquanto se vive.” (LISPECTOR, pag. 195, 2013)

Recomendado tanto para aqueles que desejam um mergulho rápido antes de se entregar às águas profundas desta escritora, quanto para aqueles que já tiveram a oportunidade de ler esses textos na íntegra e que na certa reconhecerão estas frases e as absorverão com novos olhos igualmente admirados.

Eu, particularmente, manterei o livro na minha mesa de cabeceira e, de quando em quando, abrirei uma página aleatória na expectativa de ver o que Clarice me reserva, ciente da surpresa e do encanto que a autora pode me colocar diante. Um risco a se correr sem medo.

“Acontece que sou tão ávida da vida, tanto quero dela e aproveito-a tanto e tudo é tanto – que me torno imoral. Isso mesmo: sou imoral” (LISPECTOR, pag. 229, 2013)


Título: As Palavras (exemplar cedido pela Editora Rocco)
Autora: Clarice Lispector (curadoria Roberto Corrêa dos Santos)
Nº de páginas: 308
Editora: Rocco

terça-feira, 10 de setembro de 2013

RESENHA: O Alienista / Casa Velha

“Assim vai a vida humana: um nada basta para complicar tudo.” (ASSIS, pag. 132, 2012)

Sei que algumas pessoas fogem ao ver o nome de Machado de Assis estampado na capa de um livro - um trauma que provavelmente venha das aulas de literatura do ensino médio - e por isso deixam de conferir algumas das melhores obras da literatura nacional. Eu, que só tive boas experiências com esse autor (e, por sorte, não fui traumatizada pelo meu professor), fico feliz a cada nova oportunidade de ler seus livros.

Em “O Alienista”, Simão Bacamarte decide se dedicar ao estudo e cura da mente humana criando o primeiro hospital psiquiátrico da cidade de Itaguaí. Aos poucos o médico descobre tantos exemplos de loucura nos habitantes da cidade que trancafia a maior parte da população no sanatório, deixando apenas alguns poucos sãos soltos nas ruas.

Tenho sempre a impressão de que os textos de Machado de Assis se reciclam. É por isso quando releio alguma de suas histórias, sinto que o faço com outro par de olhos. Exemplo disso é que li “O Alienista” há anos e esta releitura me proporcionou pequenas surpresas a cada virada de página, mesmo que eu ainda pudesse lembrar dos acontecimentos em geral, e até mesmo do desfecho deste conto (classificado por alguns críticos como novela).

“O Alienista” apresenta sucintamente tudo que Machado de Assis sabe fazer de melhor. Personagens cativantes, análise psicológica, uma narrativa que esbanja ironia – e rende muitas risadas – um final inesperado e um texto impecável. Devido a isso, se me fosse pedido para recomendar um texto do autor a alguém que nunca leu nenhuma de suas obras, e acha começar por um de seus romances uma meta muito ousada, “O Alienista” seria a minha dica.

Em “Casa Velha”, um cônego - na intenção de fazer uma pesquisa que resultará em um livro - passa a conviver com uma família rica. Não demora para que ele perceba que Felix - filho da dona da casa - está apaixonado por Lalau - protegida de sua mãe – e que ela retribui seus sentimentos. O casamento, porém, encontra um empecilho em Dona Antônia, a mãe de Felix, que mesmo gostando muito da moça não aceita que o filho se case com alguém de uma classe inferior.

“Casa Velha” adota ares mais sérios e críticos que “O Alienista” e mesmo abordando um tema menos inusitado – poderia até dizer menos original – que o a história protagonizada pelo doutor Bacamarte, é conduzida pelo autor de forma que a expectativa pelo desfecho é crescente, mesmo que o narrador personagem já indique nas primeiras frases que essa não é uma história de final feliz.

Se em “O Alienista” o autor cria uma situação que aos poucos vai se tornando absurda e ainda assim fácil de compreender e na qual o grande destaque é a situação em si, em “Casa Velha” o destaque é o relacionamento dos personagens e os sentimentos que surgem ali tanto entre eles quanto do leitor para com eles, tornando o próprio leitor um aliado de suas histórias.

Esta edição conta ainda com um interessante prefácio que faz um rápido resumo do realismo – incluindo contexto histórico – uma breve biografia de Machado de Assis e ainda uma análise dos contos apresentados no livro.

“O Alienista / Casa Velha” é uma ótima dica para quem ainda não conhece Machado de Assis. Para quem já conhece, é um ótimo lembrete do porquê este é considerado, ainda hoje, o melhor escritor da literatura brasileira.

Título: O Alienista / Casa Velha (exemplar cedido pela Editora Martin Claret)
Autor: Machado de Assis
Nº de páginas: 147
Editora: Martin Claret 

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

RESENHA: Sal

“As palavras reunidas ano após ano, livro após livro, de repente se alinharam, assumindo uma inexplicável dimensão. Ao sabor dos seus sortilégios eu deixava esta vida, este mundo, e penetrava num outro lugar. Um lugar onde não existia o tempo, nem os outros. Um lugar onde eu exercia um papel fundamental, uma espécie de deus eufórico e afoito: ao sabor das minhas palavras as coisas aconteciam, gentes nasciam e morriam feito flores, vinha a água e cobria tudo, cresciam trepadeiras, erguiam-se sonhos, havia o amor e havia a vingança, e tudo era segundo a minha vontade. Não que isso fosse isento de trabalho e esforço, até mesmo de uma intensa dose de angústia, mas era de um egoísmo maravilhoso.” (WIERZCHOWSKI, p. 88, 2013)

O farol sempre fez parte da família Godoy quase como um parente de sangue. Nos corredores de sua casa, Ivan se apaixona por Cecília, mesmo sob a sombra e recriminação de sua mãe que anos mais tarde viria a assombrar Julieta, uma das filhas do casal. O farol - testemunha de seu romance – é testemunha também dos romances e vontades de seus outros filhos - Lucas, Tiberius, Orfeu e as gêmeas Flora e Eva – e acompanha suas vidas enquanto crescem na pequena ilha de La Duvia. Lucas é parecido com o pai, Tiberius gosta de estrelas e ocupa um lugar especial do coração da mãe, Orfeu gosta de poesia e é dotado de uma beleza que atrai olhares onde quer que vá, Eva e seus cabelos vermelhos também realizam suas conquistas enquanto Flora – sua gêmea em nada parecida – faz amizade com livros e descobre o poder das palavras, escrevendo o seu próprio. Quando o livro de Flora chega às mãos de Julius Templeman, um professor europeu que parte para La Duvia em busca da autora do livro que lhe arrebatou, tem início um romance que mudará o destino dos membros da família Godoy. Tudo isso é registrado por Cecília que escolhe uma cor para representar a si mesma, o marido e cada um de seus filhos e tece um tapete que conta suas histórias.

“Sal” é aquele tipo de livro que fisga o leitor sem que ele saiba determinar em que momento ou porquê. As primeiras frases já despertam interesse, mas a experiência com “Sal” vai além de um mero interesse. É uma leitura que absorve o leitor para dentro de seu mundo de modo que ele quase consegue sentir a maresia de La Duvia.

Os membros da família Godoy se revezam para nos apresentar a família sob diferentes perspectivas e cada um dá um tempero único à trama. Nesses momentos, conhecemos tanto do personagem que narra quanto daqueles que fazem parte de sua narração e somos conduzidos ao cerne de seus conflitos, passeando por passado e presente. Embora alguns personagens recebam mais destaque, todos foram bem construídos e a autora soube dosar a participação de cada um na história, não forçando tramas paralelas desnecessárias.

O livro é dividido em três partes e os dramas dos personagens são tão vívidos que cada parte poderia constituir um livro isolado. As histórias contadas por Flora e Tiberius, por exemplo, poderiam facilmente serem o todo de algum livro (como o caso de “Ana Terra” ou “Um Certo Capitão Rodrigo” em “O Tempo e o Vento” de Erico Verissimo – resenha em breve).

Se a princípio a trama parece ser sobre algo, na metade ela parece ter seu foco alterado e depois mais uma vez e mais outra, se tornando tão cheia de nuances e linhas interligadas quanto o tapete de Cecília. Por essa razão, acho que dificilmente uma mera sinopse dá ao leitor um panorama claro do que ele encontrará em “Sal” então, a meu ver, ler as primeiras páginas é a melhor maneira para saber se esse livro o agradará ou não. Confesso, inclusive, que se já não tivesse lido alguns livros de Leticia Wierzchowski provavelmente não teria lido “Sal”. A premissa – pura e simples - da história não me interessou, mas, ao ler o livro, apreciei cada aspecto da trama, da construção dos personagens e me deliciei com a maneira como a autora contou essa história. Penso que “Sal” poderia facilmente ser um livro tedioso dependendo do modo como fosse conduzido, mas Leticia o conduz suave e intensamente ao mesmo tempo, mantendo-o envolto por uma áurea poética e deixando o leitor encantado em cada página. Eu já era fã da narrativa da autora devido as minhas leituras prévias, mas “Sal” veio a reforçar para mim que Leticia Wierzchowski é uma das escritoras brasileiras mais talentosas e habilidosas da atualidade.

“Sal” foi o livro escolhido pela Intrínseca para dar início às publicações nacionais da editora e a escolha não poderia ter sido melhor. É um livro lindo que consegue ser intenso e sublime ao mesmo tempo. Repleto de sentimentos e poesia. Amores, pesares e contradições. Como as melhores histórias. Como as melhores vidas.


Título: Sal (exemplar cedido pela Editora Intrínseca)
Autora: Leticia Wierzchowski
Nº de páginas: 239
Editora: Intrínseca

domingo, 14 de julho de 2013

RESENHA: Neptuno

“Jurava para si mesmo que, na volta, sequer ergueria os olhos para a casa esquisita onde June vivia.
Mas, duas quadras adiante, ele quebrou a promessa. Nós, homens, somos especialistas em quebrar promessas, grandes ou pequenas, isso é um fato. Assim. Na frente da ridícula casa com seu desproporcional telhado vermelho, M. ergueu os olhos. Eu diria que estava até mesmo afoito, que seu coração acelerava-se um pouco. Ele vasculhou a fachada e espiou pela janela; encontrou as persianas pacificamente cerradas, como as pálpebras de uma inocente criança que dorme.” (WIERZCHOWSKI, p.56, 2012)

Ao visitar a cidade de Neptuno para passar um veraneio na casa dos avós, M. - um belo rapaz de 19 anos - conhece June – uma moça atrevida e muito sensual apesar dos seus meros 15 anos – e se apaixona loucamente. O relacionamento dura poucas semanas, mas é o suficiente para fazer M. perder a cabeça.

Em uma sexta-feira solitária, Key – um advogado de divórcios, amante da literatura e amigo do ausente pai de M. – recebe uma ligação do jovem que confessa: “Matei alguém.”. Ao ouvir o relato de M., Key se apega ao rapaz e também acaba se envolvendo com a história e decide embarcar na aventura de narrá-la.

O ponto alto de “Neptuno” é, sem dúvida, a sua narrativa. Feita em primeira pessoa, mas não pelo protagonista e sim por Key que nos conta uma história que já aconteceu e cujo desfecho já conhecemos desde o início. Em um perfeito exemplo de como uma narração em primeira pessoa deve ser feita, o narrador contamina cada frase com a sua personalidade e nos entrega muito de quem é, mesmo que não tenha essa intenção (afinal, ele acredita que a história que realmente importa é a que se dispôs a contar, ou seja, o trágico assassinato de June por M. – não se preocupe, isso não é um spoiler), e vai conquistando o leitor tanto quanto (às vezes até mais) do que os personagens que considera importantes. Ele sabe (ou julga) que sua história particular não é importante, mas isso não o impede de se espalhar pelo relato, de forma que sua vida absolutamente comum acaba sendo contada nas entrelinhas, deixando espaços que o leitor pode vir a preencher por conta própria. Ele também se permite certas liberdades narrativas, como supor o que os personagens estavam sentindo, e esbanja figuras de linguagem.

Em muitos momentos, o narrador conversa diretamente com o leitor, o que acabava por me remeter ao estilo de Machado de Assis (em especifico a Dom Casmurro, que, diga-se de passagem, eu adoro) especialmente por se tratar de um personagem bastante desiludido da vida.

Letícia Wierzchowski é uma escritora maravilhosa e sua habilidade é tal que parece que ela sentou e escreveu o livro em um dia. Além disso, ela acerta em fazer de “Neptuno” um livro curto (apenas 174 páginas, mesmo incluindo uma letra grande e imensos espaços nos cortes que ocorrem dentro de um mesmo capítulo), pois a história não tinha muito para ser desenvolvida.

Já ficou claro que eu adorei a narrativa do livro, e a razão porque destaco isso mais do que normalmente faço em minhas resenhas é porque não pude evitar a sensação de que a história de “Neptuno” era uma mera coadjuvante de sua narrativa. Para ser sincera, a história e seus personagens não chegaram a me cativar muito e mesmo tendo lido o livro em pouco tempo, foram raras às vezes em que sentei e li várias páginas de uma vez, mas isso não desmerece de forma alguma a obra da autora. “Neptuno” é um livro bem composto, muito bem escrito, mas que deve ser lido em pequenas doses. É um livro fácil de se deixar encantar, mas não tão fácil de se envolver.

Em 2012, “Neptuno” venceu o Prêmio Açorianos de Literatura na categoria Narrativa Longa.

Título: Neptuno
Autora: Letícia Wierzchowski
Nº de páginas: 174
Editora: Record

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

RESENHA: Um Lugar na Janela

“Se por um acaso, lá pelas tantas, eu colocasse a mão na testa e me perguntasse ‘que raios estou fazendo aqui?’, teria a resposta na ponta da língua: vivendo” (MEDEIROS, p. 96, 2012)

No ano passado, ao resenhar “Feliz por nada”, revelei que sou fã de Martha Medeiros. Nunca li suas poesias, mas li todos os seus livros de crônicas e cada vez que termino um, fico ansiosa pelo lançamento do próximo. O mais recente, “Um Lugar na Janela” parte de uma proposta diferente que Martha tempera com as mesmas características que encontramos em seus outros trabalhos. Os textos que compõe esse livro são relatos de algumas das viagens vivenciadas pela escritora para os mais fascinantes lugares. Europa, sozinha, aos 24 anos; Japão com uma de suas filhas; Grécia com o marido; Istambul; Marrocos; Peru são alguns dos lugares para onde a escritora leva seus leitores através de suas experiências que são, muitas vezes, inusitadas. Nas palavras da autora: “Viajar é a arte do improviso.” (MEDEIROS, p. 40, 2012)

“Um Lugar na Janela” não é um guia turístico. É uma compilação de relatos que tentam expressar em palavras a vivência da autora em cada um desses lugares. Característica marcante de Martha, o livro é leve e divertido. Você vai rir em vários momentos e vai se controlar para não ligar para uma agência de viagens ao final de cada capítulo (minto, cada capítulo não. Eu só não fiquei com vontade de ir para o Japão, mas fiquei com uma vontade imensa de viajar). Vai se controlar também para não devorar o livro de uma única vez. Aliás, convém dizer que o único defeito de “Um Lugar na Janela” é ser curtinho e deixar aquele gostinho de quero mais depois da última página.

Em grandes letras verdes, o leitor vê o nome de Martha Medeiros estampado na capa do livro. Como já disse anteriormente, isso é o suficiente para ele querer ler e saber que vai adorar a leitura.

Título: Um Lugar na Janela
Autora: Martha Medeiros
Nº de páginas: 191
Editora: L&PM

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

RESENHA: Os Espiões

“Por que não ir a Frondosa? Absurdamente, pensei: porque o meu encontro com Ariadne tem que ser o clímax dessa história, o fim do labirinto. Porque eu vou salvá-la, e me salvar, e até lá tudo é prólogo.” (VERISSIMO, p. 44, 2009)

Um editor de livros, com pouca fé na humanidade, fica absolutamente fascinado pela misteriosa autora de um manuscrito que recebe em uma certa segunda-feira. Essa é a premissa de “Os Espiões”: um livro delicioso de Luis Fernando Verissimo.

Mas aquelas primeiras páginas não eram simplesmente o início de um romance. Eram um testamento, uma carta suicida. Nelas, Ariadne – a autora que não usa vírgulas e assina seu nome com uma florzinha em cima do i – promete contar sua história e seu romance com um “Amante Misterioso” e depois se suicidar. O editor – bêbado de final de semana e fã de histórias de espionagem (principalmente as de John Le Caré) - envolve a si mesmo e a seus curiosos amigos em uma história de espionagem real na tentativa de salvar Ariadne.

“Os Espiões” é um livro que pode facilmente ser lido de uma vez só. Narrado em primeira pessoa, a voz do narrador conquista nas primeiras páginas, nas primeiras linhas, na primeira frase: “Formei-me em Letras e na bebida procuro esquecer”. Mas não pense com isso que esse é um livro para ser levado a sério. Sem abandonar o humor que lhe é característico, Luis Fernando Verissimo cria uma história misteriosa no seu absurdo, repleta de personagens memoráveis e os mais divertidos acontecimentos envolvendo esse grupo de “espiões” na cidadezinha de Frondosa que, como toda cidade pequena que se preza, tem seus tipos únicos e inusitados.

Antes de comprar o livro, tive a oportunidade de ler o que viriam a ser as quatro primeiras páginas desta edição de bolso e com elas eu já estava fisgada pela história que aquele narrador tinha para me contar. Terminada a leitura, a verdade é que eu não consigo pensar em um único aspecto que não funcione bem no livro.

Um desfile de personagens engraçados, cada um a seu modo, em situações tanto reais quanto absurdas permeiam as páginas de “Os Espiões”. Um livro leve e divertido. Entretenimento puro.

Título: Os Espiões
Autor: Luis Fernando Verissimo
Nº de páginas: 174
Editora: Ponto de Leitura

quinta-feira, 12 de julho de 2012

RESENHA: "Missa do Galo", seguido dos contos “O Espelho”, “A Cartomante”, “O Caso da Vara”, “Pai contra mãe” e “Capítulo dos chapéus”

"Tudo nela era atenuado e passivo. O próprio rosto era mediano, nem bonito, nem feio. Era o que chamamos de uma pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar.” (ASSIS, 2012, p.5)

Eu me apaixonei por Machado de Assis na primeira vez que li Dom Casmurro. Impossível ter reação diferente aos seus personagens tão reais, tão cheios de defeitos e contradições que vem a conhecimento do público através de uma narrativa tão impecável como a do autor. Isso é apresentado em seus romances, que vem a ser alguns dos melhores exemplares da nossa literatura, e também em seus contos de forma mais concisa, mas igualmente beirando a perfeição.

Fazia anos que eu não lia nada de Machado de Assis, mas não por falta de interesse. Pelo contrário. Por isso, quando a coleção 64 páginas da L&PM chegou aqui em casa o primeiro livro que agarrei foi a coletânea de seis contos deste que é o maior escritor brasileiro.

O livro apresenta os contos “Missa do Galo”, “O Espelho”, “A Cartomante”, “O Caso da Vara”, “Pai contra mãe” e “Capítulo dos chapéus”. Destes, eu já havia lido “A Missa do Galo” e “A Cartomante”, que continua sendo um dos favoritos, diga-se de passagem. Dos que me foram inéditos, meu preferido é “O Espelho” e sua história das duas almas.

É incrível observar, em qualquer um dos seis contos, como o autor consegue fazer com que os personagens soem tão reais e que conheçamos tão bem seus pensamentos, suas dúvidas e seus desejos em apenas 10 páginas. Eu poderia citar todos os contos, e sem dúvida teria algo para falar sobre cada um deles, mas isso tornaria essa resenha absurdamente longa, assim opto por citar apenas “A Cartomante” como exemplo. Nesse conto, conhecemos Camilo e Rita - os amantes - e Vilela - o marido de Rita e melhor amigo de Camilo. Ficamos sabendo tudo que aconteceu entre esses personagens, desde a amizade de longa data entre Camilo e Vilela até o início do relacionamento dos dois amantes. Vemos o cético Camilo debochar ao descobrir que Rita visitou uma cartomante e vemos também ele passar por cima de seu próprio ceticismo graças à ansiedade e ao desespero, culminando no impactante, irônico, e extremamente racional, desfecho do conto. Tudo isso em nove páginas. Detalhado e conciso ao mesmo tempo.

Não é preciso dizer que esse é um livro que deve ser lido por todos. Por aqueles que gostam de Machado de Assis e ainda não leram esses seis contos. Por aqueles que gostam do autor e já leram os contos (até porque essas pessoas sabem que ler Machado de Assis nunca é demais – eu li “Dom Casmurro” três vezes e pretendo ler outras ainda e “Memórias Póstumas de Brás Cubas” está na minha lista de releituras há tempos) e, claro, por aqueles que nunca leram nada do autor. Se você é daqueles que tem trauma das aulas de literatura do ensino médio (não é o meu caso, mas como é o de vários ex-colegas acredito possa ser o de muitas pessoas) esqueça as leituras obrigatórias e enfadonhas. Quando se trata de Machado de Assis, saiba que seus personagens, suas tramas e sua escrita são inesquecíveis e deixam sempre um gostinho de quero mais. Só lendo para entender porque esse é um dos maiores escritores de todos os tempos.

Título: "Missa do Galo", seguido dos contos “O Espelho”, “A Cartomante”, “O Caso da Vara”, “Pai contra mãe” e “Capítulo dos chapéus”
Autor: Machado de Assis
Nº de páginas: 64
Editora: L&PM

sexta-feira, 6 de abril de 2012

ESPECIAL: Sugestões para a Páscoa

Feriados são sempre ótimas oportunidades para colocar as leituras em dia, não é mesmo? Seja você um leitor ávido que pretende ler vários títulos ou um leitor mais modesto que pretende ler apenas um, ou ainda terminar aquele livro cuja leitura iniciou há tempos, o feriado prolongado de páscoa é perfeito para todas essas ambições literárias.

Se você acompanha o blog há algum tempo sabe que fizemos a primeira edição desse especial de sugestões literárias para feriados no carnaval. E se você é um leitor atento, percebeu que todas as nossas dicas foram de livros clássicos, independente do gênero literário. Então, dessa vez, nos preocupamos em selecionar apenas livros de autores contemporâneos. Esperamos que gostem das sugestões e não deixem de nos dizer quais foram suas escolhas para o feriado, afinal, nós também gostamos de dicas.

Começando com suspense policial, indicamos “O Poeta” de Michael Connelly, um dos melhores autores do gênero da atualidade. Com uma narrativa de tirar o fôlego e um protagonista extremamente bem construído, “O Poeta” é um dos melhores livros do autor, apesar de seu final um tanto frustrante. Explicação: muitas perguntas ficam sem respostas e são esclarecidas (assim esperamos) apenas em outro livro do autor “Correntezas da Maldade” (resenha em breve). Mas o leitor não sai perdendo com essa ousada decisão do autor. Se um livro de Connelly é bom, dois, é melhor ainda.

No campo da fantasia, não tem como falar em literatura fantástica contemporânea sem mencionar o nome de George R. R. Martin e a memorável saga “As Crônicas de Gelo e Fogo”. O primeiro volume, “A Guerra dos Tronos”, é uma excelente escolha para aqueles que desejam se aventurar em um mundo medieval, repleto de lordes, donzelas, bastardos, conspirações e traições. Martin consegue encantar o leitor tanto pela escrita quanto pela trama complexa e concatenada com maestria.


Se o que você quer é literatura nacional, uma boa dica é o mais recente livro de crônicas de Martha Medeiros “Feliz por nada”, onde são abordados os mais diversos temas do nosso cotidiano. Se você gosta da autora e ainda não leu, sabe que está perdendo um ótimo livro. E se você já leu, pode ler de novo. Afinal, crônicas podem adquirir novos significados a cada nova leitura.


Se você prefere se envolver com intensas paixões, romances e decepções, a dica é o romance histórico “A Casa das Sete Mulheres”. A obra narra a Revolução Farroupilha a partir do ponto de vista das sete mulheres da família de Bento Gonçalves que ficaram aprisionadas na Estância da Barra. É com muita originalidade e com uma narrativa envolvente que Letícia Wierzchowski nos conduz pelos dez longos anos que a guerra durou.


Mas se você está com pouco tempo para se envolver com uma trama extensa e seus personagens, indicamos a antologia de contos “Extraneus, volume 1 – Medieval Sci-FI” (resenha em breve). Uma premissa incomum (ou até mesmo inusitada), mas que entrega o que promete: a mescla entre elementos medievais e de ficção científica. E não somente entrega o que promete, mas surpreende pela qualidade, criatividade e ousadia dos contos que compõe a antologia.

Bom feriado e boas leituras!

domingo, 19 de fevereiro de 2012

ESPECIAL: Sugestões para o carnaval.

Se para você, assim como para nós, o feriadão de carnaval é mais feriadão do que carnaval, ou seja, uma excelente oportunidade de ficar em casa colocando a leitura em dia, eis aqui algumas dicas literárias para que você possa aproveitar estes dias da melhor forma possível.

Se você é daqueles que gosta de Literatura Clássica, normalmente narrada com aquela linguagem maravilhosamente rebuscada e ambientada em cenários capazes de transportar o leitor para outra época, uma boa dica é “O Morro dos Ventos Uivantes” de Emily Brontë. Uma das belezas desse livro é que ele pode ser apreciado por pessoas que gostam dos mais diferentes gêneros. É um clássico, é um romance, mas não é um romance comum. É sombrio e trágico. Ainda assim, a história de amor de Catherine e Heathcliff é bela e inesquecível.

Mas se você não está no clima para apreciar a beleza dos clássicos e quer mesmo um bom Suspense Policial, nada melhor do que um livro de Agatha Christie. O selecionado da vez foi “O caso dos dez negrinhos” (também publicado sob o título “E não sobrou nenhum”), uma das obras mais conhecidas da Dama do Crime. Some dez estranhos, acusações e mortes sucessivas. O resultado desta equação é uma trama eletrizante e tensa, repleta de mistério e que irá prender você na leitura até a última página.

Se o que você quer é esquecer o carnaval nas ruas e se aventurar em um outro mundo, a Literatura Fantástica tem muito para lhe oferecer, como em “O Hobbit”, livro que introduz a épica saga de “O Senhor dos Anéis”. O livro narra as peripécias vivenciadas por um Bilbo Bolseiro mais jovem, contando como este encontrou o anel de poder que se tornou o centro da obra-prima de Tolkien. Se você é daqueles que não se anima a ler os livros deste autor, a sugestão é ainda mais indicada, pois “O Hobbit” é um livro acessível — seja pela trama mais simples, pelo menor número de personagens, ou ainda por ter uma linguagem menos rebuscada —, o que não reduz em nada a qualidade da obra, registre-se.

Porém, se o que você deseja é ler um Romance com intensas paixões, encontros e desencontros, e um final feliz, a dica é “Orgulho e Preconceito” de Jane Austen. O título descreve de forma precisa as barreiras que Elizabeth e Mr. Darcy deverão enfrentar até descobrirem o amor. Trata-se de uma trama envolvente e bem concatenada somada a personagens marcantes, a uma escrita hábil e a uma narrativa que aborda temas universais.

E se você é daqueles que adoram Literatura Nacional, a dica é um dos melhores exemplares da nossa literatura, de um autor cujos livros são sempre impecáveis. É claro que estamos falando de Machado de Assis e o seu “Dom Casmurro”. A história de Bentinho e o relato de sua vida desde a infância, principalmente de seu romance com Capitu, é um livro que simplesmente não pode deixar de ser lido. Além do ciúme e das incertezas que atormentam o personagem / narrador e que podem ser acompanhados de perto pelo leitor, “Dom Casmurro” apresenta ainda uma das melhores personagens femininas da literatura nacional e, é claro, deixa eternamente no ar a pergunta que o leitor pode apenas tentar responder, mas sobre a qual nunca se terá certeza: “Capitu traiu ou não traiu Bentinho?”

Se a sua ambição literária para esse feriado já estava grande e não sobrou tempo para acrescentar na lista as nossas sugestões, ficam as dicas para a próxima oportunidade, afinal, um bom livro nunca é demais. Esperamos que tenham gostado das sugestões. Bom feriado, e boas leituras, a todos.

 

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