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terça-feira, 21 de maio de 2019

Game of Thrones e como o final influencia a percepção de toda estória

Conversa de Contracapa é coluna off topic do blog Além da Contracapa. Sem limitação temática, iremos explorar todo e qualquer assunto relacionado ao mundo da literatura. 

O Além da Contracapa é e sempre foi um blog exclusivamente dedicado a literatura. Porém, abri uma exceção para o final de Game of Thrones, não apenas por ser uma série inspirada em livros que adoro, mas também por conta da repercussão que o mesmo teve. A essa altura do campeonato, você já deve saber que muita gente não gostou do final. E isso me levou a questionar: até que ponto o desfecho influencia na nossa percepção da história?

Depois de oito anos, 73 episódios, inúmeros reis e rainhas, batalhas sangrentas e mortes terríveis, o fenômeno da HBO chegou ao fim. Porém, a última temporada de Game of Thrones não foi ovacionada como as anteriores, pelo contrário, fãs e crítica não esconderam sua decepção, principalmente em relação ao último episódio da série.

Se alguém me perguntasse se aquele era o final que eu queria, admito que não era. Ainda assim, o desfecho não me pegou desprevenido. Ao longo da temporada, fica claro o caminho que os personagens estão trilhando e qual será o resultado dele. A meu ver, foram pelo menos três episódios (de uma temporada com seis) que focaram exclusivamente nos personagens, mostrando seus relacionamentos, suas ambições, seus medos, suas qualidades e defeitos. Dessa forma, o episódio final manteve a coerência não apenas da temporada, mas da série inteira.

Talvez, tenha sido essa mudança de enfoque que desagradou os fãs. Game of Thrones sempre foi a série que nos empolgou com as reviravoltas mais inesperadas, com batalhas de prender o fôlego, com alianças inusitadas e traições que alteravam todo o curso da estória. E creio que na última temporada a dinâmica era outra. As alianças já estavam formadas, as batalhas já estavam desenhadas, as reviravoltas já não faziam mais sentido. Mais do que nunca, a série investiu nos personagens, no passado que carregavam e no futuro que desejavam construir. E isso é visível até mesmo nos episódios que giram em torno de batalhas.

Creio que o sucesso e o engajamento que a série alcançou também tenha sido um dos motivos para críticas tão duras. Nos envolvemos tanto com a estória e com os personagens que chegamos a criar teorias, tomar lados e até mesmo discutir. Game of Thrones foi tão intenso que, de certo modo, também vivemos naquele universo e nada mais natural do que criar expectativas. E a partir do momento que a expectativa foi rompida, não importava o rumo que os produtores seguissem, nada iria agradar uma parcela dos fãs, nada iria aplacar sua frustração, por mais que a coerência tivesse sido mantida.

Apesar de ter desejado desesperadamente outro final, achei as críticas injustas. Não sabemos até que ponto os produtores seguiram o final planejado por Martin mas, de qualquer forma, creio que ele seja um dos autores mais brilhantes da nossa geração. Ele teve coragem, ousadia e genialidade para criar uma saga tão complexa que duvido muito que qualquer outro autor conseguisse chegar perto de sua criação. Criticar sua estória é criticar um homem que deu à luz a estes personagens há quase trinta anos, que convive com eles diariamente e que certamente os conhece melhor do ninguém.

Se você acha que o erro recai sobre os produtores, ressalto que eles também tiveram a tarefa hercúlea de adaptar para a televisão uma saga épica. Era impossível adaptar tudo o que estava nos livros, tanto é que ao longo da série diversos aspectos foram alterados. E, sinceramente, aprovei a maioria das alterações: elas tornaram a série mais ágil e dinâmica, deixando de fora alguns detalhes que não eram tão importantes para o desenvolvimento da estória. Outro desafio enorme deve ter sido encerrar uma estória criada por outra pessoa, tendo apenas uma noção do final, mas sem saber exatamente como chegar lá. De qualquer forma, se você está no grupo que não gostou da adaptação, lembre-se que ela é apenas isso: uma adaptação. Procure pela obra original e aguardemos pelo desfecho que Martin está desenvolvendo.

Para encerrar, creio que Game of Thrones pode nos servir de lição em dois aspectos. Primeiro, temos que aprender a controlar nossas expectativas, mesmo quando o próprio seriado ou livro estabelece para si um padrão muito alto. Como disse antes, se a expectativa não for atendida, a frustração é o único resultado garantido. Além disso, não acho justo menosprezar toda a genialidade e originalidade do seriado por causa de um episódio ou até mesmo de uma temporada. Game of Thrones nos mostrou que a jornada importa sim, afinal, foi somente por causa dela que chegamos até o capítulo final. E sejamos sinceros: foi uma jornada gloriosa.

Apesar de não ter sido o final apoteótico que muitas esperavam, aprovei o desfecho de Game of Thrones e entendi todas as opções trilhadas pelos produtores. E mais importante que isso: ao longo dos 73 episódios, vivi em uma montanha russa de emoções, chorei, ri, pulei do sofá, me surpreendi e gritei mais vezes do que poderia imaginar. E não há nada que vai apagar as emoções vivenciadas até aqui.


PS: em respeito aos leitores que não assistiram ao ultimo episódio, favor não dar spoilers nos comentários. Comentários com spoilers serão apagados. Caso queira discutir sobre algum aspecto específico do final, você é mais do que bem vindo a nos contatar em nossas redes sociais ou email. 


domingo, 28 de maio de 2017

[Fantasia] para quem não gosta de [fantasia]

Todo leitor se identifica com alguns gêneros literários mais do que com outros. Mas existem alguns livros que são capazes de abrir os olhos dos leitores para gêneros dos quais ele nunca gostou, justamente por mostrarem uma faceta diferente do gênero, por terem algo a mais. Livros que fazem o leitor que diz “Não gosto deste tipo de livro” se apaixonar justamente por um livro deste tipo.

Foi pensando nisso que o Além da Contracapa criou uma nova coluna: “[...] para quem não gosta de [...]”, na qual faremos uma seleção de livros de um determinado gênero ou temática que podem agradar até mesmo quem costuma fugir deles. 

1. Harry Potter

Sim, a série Harry Potter é a primeira da minha lista de indicações para quem não gosta de fantasia. Isso por que a saga do bruxinho mais famoso da literatura não é apenas uma estória sobre feitiços, poções e magia. J.K. Rowling criou um mundo fantástico — extremamente complexo e repleto de possibilidades, diga-se de passagem — que serve de pano de fundo para discutir questões muito mais importantes, tais como amizade, amor, ódio, integridade, preconceito, justiça, e tantos outros. Então, muito mais do que um mero livro juvenil ou de fantasia, vejo Harry Potter como a saga de três jovens amigos que crescem em um cenário conturbado e que optam não apenas por resistir ao mal, mas combatê-lo com todas as suas forças. Sinceramente, se eu tivesse que fazer uma aposta sobre qual livro da nossa geração tem mais chances de se tornar um clássico, meu dinheiro certamente estaria na obra-prima de J.K. Rowling. Isso por que Harry Potter fala de temas universais, com os quais todos podem se identificar, e tenho certeza que as aventuras desse trio continuará inspirando e emocionado leitores por muito tempo.

A premissa de pessoas comuns que descobrem superpoderes e fazem enormes sacrifícios pessoais para garantir a segurança do mundo já foi usada tantas vezes que me surpreendo em continuar vendo livros, séries e filmes explorarem esta ideia. Felizmente, Brandon Sanderson inverteu o clichê: e se as pessoas comuns que recebessem superpoderes se tornassem ditadores maquiavélicos e não se importassem com nada além da satisfação de suas vontades? Como se não bastasse a lufada de originalidade, o primeiro livro da série, Coração de Aço, mescla ação, aventura e suspense com muito humor, uma narrativa extremamente fluída e envolvente, além de personagens extremamente bem construídos. A literatura fantástica sempre me empolgou por ser um mundo de infinitas possibilidades, mas, infelizmente, o que eu estava encontrando nos últimos tempos era mais do mesmo. Creio que justamente por isso apreciei ainda mais a obra de Sanderson, que conseguiu explorar todo o potencial que sua estória tinha a oferecer. E a boa notícia é que o segundo livro da trilogia, Tormenta de Fogo, tem previsão de lançamento para junho. 

Também não poderia deixar de citar a obra épica de George Martin, embora seja a série que indico com reservas. Sim, Martin é audacioso, cria tramas complexas, nos surpreende com reviravoltas empolgantes e não tem medo de um banho de sangue. Mas seus livros são densos, alguns são extremamente descritivos e chegam a ser monótonos, então não irão agradar a todos. Mas por que indico estes calhamaços para quem não gosta de fantasia? Por que a meu ver As Crônicas de Gelo e Fogo são, acima de qualquer outra coisa, uma estória sobre os jogos de poder e os elementos fantásticos apenas fazem parte daquele mundo, mas não constituem o cerne da obra. Eu li apenas os quatro primeiros livros e achei que os elementos fantásticos foram explorados de forma bem superficial até o momento, o que apenas reforça minha teoria. Então, se você não tem medo de livros grandes e gosta da temática de jogos de poder, creio que As Crônicas de Gelo e Fogo é uma boa pedida. 



sábado, 30 de maio de 2015

RESENHA: O Festim dos Corvos

“ — No jogo dos tronos, até as peças mais humildes podem ter vontade própria. Por vezes, recusando-se a fazer as jogadas que planejei para elas.” (MARTIN, 2012, p. 291)

***

ATENÇÃOa resenha CONTÉM SPOILERS dos livros anteriores da série As Crônicas de Gelo e Fogo. 

Ano passado li o terceiro volume da série As Crônicas de Gelo e Fogo, e o livro não apenas foi uma das minhas melhores leituras do ano, como se tornou meu livro preferido da saga. Por isso mesmo, na hora de escolher as maiores expectativas literárias para esse ano, não tive dúvida nenhuma em acrescentar O Festim dos Corvos

Mais um rei caiu e outro foi substituído, e agora restam apenas Tommem e Stanis na Guerra dos Cinco Reis. Porém, nas Ilhas de Ferro os homens escolhem um novo líder e estão decididos a continuar na guerra. Em Porto Real, Cersei faz de tudo para proteger seu filho e sua pretensão a coroa. São poucos os focos de resistência que precisam ser abafados, de modo que a guerra começa a caminhar em direção ao final, porém, novas alianças estão sendo forjadas. Será que a balança do poder irá pender novamente? A Guerra dos Cinco Reis pode estar chegando a um final, mas não o jogo dos tronos. 

Já falei inúmeras vezes e repito mais uma vez que Martin sabe criar personagens como poucos autores. Nada da dualidade mocinhos e vilões. Todos eles apresentam várias facetas e evoluem com o desenrolar da guerra, sendo que suas ações sempre são compreendidas pelo leitor. O problema é que os melhores, mais interessantes e promissores personagens ou não aparecem ou fazem pequenas participações. Para se ter uma ideia, dos meus cinco personagens favoritos, apenas um deles tem presença constante na estória, e para meu desgosto, tal personagem virou uma mala. 

Desse problema decorre outro: não tendo a presença de tais personagens, o leitor dá de cara com uma infinidade de novos pontos de vista. Para se ter uma ideia, dos doze pontos de vista utilizados para narrar a estória, seis são de novos personagens, com os quais o leitor sente pouca ou nenhuma afinidade. O fato de Martin não tratar os novos personagens pelo nome mas por títulos (O Profeta, O Afogado, O Pirata, O Capitão de Ferro, etc), que as vezes eram alterados de um capítulo para outro, serviu apenas para confundir ainda mais o leitor. 

Por outro lado, ficou claro que O Festim dos Corvos é um livro de transição. Se no livro anterior tivemos batalhas empolgantes, dessa vez temos a calmaria que segue a tempestade. O ritmo é lento e fica claro que Martin está tecendo a trama, trazendo os personagens para o ponto em que a estória irá continuar, havendo a ausência dos elementos que consagraram a série. 

Apenas nas últimas cem páginas pude exclamar “esse é o Martin que conheço”. Foi a partir daí que senti que algo realmente estava acontecendo e que não estava dando voltas e mais voltas sem chegar a lugar nenhum. Apesar das implicações propostas por Martin serem interessantes, seu desenvolvimento é deixado para os próximos livros, o que também me desagradou. Afinal, pouco acontece do início ao fim do livro, e quando acontece simplesmente não há tempo para explorar. Assim, reputo que O Festim dos Corvos, além de um livro de transição, também seja um livro de promessas, mas cuja essência se resume a quase nada. 

Ao final do livro, Martin explica que o presente livro estava tomando proporções homéricas de modo que havia duas alternativas: ou deixar todos os personagens e contar a estória pela metade, ou contar a estória inteira da metade dos personagens. Foi essa última abordagem que o autor optou, e embora eu concorde com suas razões em um plano teórico, a verdade é que na pratica O Festim dos Corvos não funcionou. 

Apesar de ser o livro mais fraco da saga, Martin é habilidoso em construir jogos de poder a partir de personagens ambiciosos, manipuladores e vingativos. E mesmo que não tenha sido um livro empolgante, O Festim dos Corvos certamente é um livro necessário para as continuações.

Título: O Festim dos Corvos
Autor: George Martin
N.º de páginas: 586
Editora: LeYa

sexta-feira, 21 de março de 2014

RESENHA: A Tormenta de Espadas

“— Mantenha sempre seus inimigos confusos. Se nunca estiverem seguros de quem é ou do que quer, não podem saber o que é provável que faça em seguida. Às vezes, a melhor maneira de confundi-los é fazer coisas que não tem propósito, ou que parecem prejudicar você. Lembre-se disso, [...], quando começar a jogar o jogo.
— Que ... que jogo?
— O único jogo. O jogo dos tronos.” (MARTIN, 2011, p. 630)
***


Procrastinei a leitura de A Tormenta de Espadas por mais de dois anos em virtude do tamanho do livro. O primeiro e o segundo volume levaram, em média, três semanas para serem lidos, e quando se é blogueiro isso é muito tempo por dois motivos: o blog precisa ser atualizado, sendo quase imprudente investir tanto tempo em apenas um livro; e além disso, livros que recebemos de parceria tem preferência sobre os demais. Admito que comecei a ler A Tormenta de Espada por impulso, sem pesar as consequências, por que se pensasse demais iria adiar a leitura mais uma vez. Hoje só me arrependo de não ter agido por impulso antes.

ATENÇÃO: a sinopse (parágrafo abaixo) CONTÉM SPOILERS. O restante da resenha é SPOILER FREE.

A guerra pelo trono continua. Um rei foi derrotado, mas Joffrey, Robb e Stannis continuam com a espada na mão, prontos para continuarem as batalhas, e neste momento fazer alianças se mostra ainda mais fundamental. Enquanto isso, a Patrulha da Noite está determinada a enfrentar os selvagens e a proteger a Muralha de quaisquer invasores; e do outro lado do mar Daenerys se prepara para retornar a sua terra natal.

Na resenha de A Fúria dos Reis mencionei que George Martin deveria ser um exímio jogador de xadrez, pois demonstrava uma habilidade fora do comum ao montar as estratégias de cada rei. Mais uma vez usarei tal metáfora, mas com um enfoque diferente: o terceiro volume da saga é como um jogo de xadrez, começa um pouco lento, mas quando chega a seu ápice cada jogada o torna ainda mais emocionante.

Atribuo o “problema” da primeira metade do livro a narrativa com múltiplos pontos de vista. Enquanto algo muito interessante está acontecendo com um personagem, a narrativa é interrompida e o “rodízio de narradores” nos leva para outro canto do reino, onde algo menos significante acontece. Não é que tais capítulos sejam ruins, mas apenas mais lineares, contando com doses modestas de ação e poucas surpresas.

Todavia, a partir da segunda metade do livro esse ritmo mais lento é deixado de lado. Cada ponto de vista se apresenta melhor do que o anterior, e muitas vezes se complementam, revelando diferentes facetas do mesmo acontecimento. Não seria exagero afirmar que as últimas trezentas páginas viram sozinhas, pois além de muitos eventos de tirar o fôlego, não faltam intrigas e manipulações.


Impossível falar sobre
As Crônicas de Gelo e Fogo sem mencionar a construção dos personagens. Martin sabe como criar personagens reais e profundos, que agem por motivos plausíveis, e que geram a empatia ou a repulsa do leitor. E não apenas isso: o autor não mantém os personagens inertes, mas os faz evoluir em consonância com o decorrer da estória. 

A narrativa é fluída e envolvente, mas nela também reside minha única crítica: em alguns momentos ela se torna descritiva em excesso. Afinal, por que razão eu teria interesse em saber qual é o estado de uma estalagem, em uma aldeia saqueada e incendiada, pela qual os personagens estão apenas de passagem?

Também comentei nas resenhas do livro anterior ter sentido falta da fantasia em si. Neste volume os elementos fantásticos estão mais presentes, mas não chegam a permear toda a estória. Na verdade, cheguei a conclusão que o verdadeiro cerne da obra sejam os jogos de poder e o quê as pessoas estão dispostas a fazer para alcança-lo. A fantasia é utilizada apenas como um meio para que as batalhas pelo domínio do reino sejam ainda mais acentuadas.

Para mim, A Tormenta de Espadas é o melhor livro da saga. O primeiro volume é mais introdutório, enquanto o segundo parece ter menos ação e um ritmo mais lento. Iniciei a leitura do terceiro livro com receio de demorar tempo demais, e no fim das contas foi o livro que li mais rápido, mesmo sendo o maior dos três.

Encerro salientando que As Crônicas de Gelo e Fogo constituem uma obra prima da literatura fantástica, e são incomparáveis a qualquer outro livro ou série do gênero. Sei que já disse duas vezes, mas sinto-me obrigado a repetir pela terceira: épico e magistral!


Título: A Tormenta de Espadas
Autor: George R. R. Martin
N.º de páginas: 840
Editora: LeYa

sexta-feira, 6 de abril de 2012

ESPECIAL: Sugestões para a Páscoa

Feriados são sempre ótimas oportunidades para colocar as leituras em dia, não é mesmo? Seja você um leitor ávido que pretende ler vários títulos ou um leitor mais modesto que pretende ler apenas um, ou ainda terminar aquele livro cuja leitura iniciou há tempos, o feriado prolongado de páscoa é perfeito para todas essas ambições literárias.

Se você acompanha o blog há algum tempo sabe que fizemos a primeira edição desse especial de sugestões literárias para feriados no carnaval. E se você é um leitor atento, percebeu que todas as nossas dicas foram de livros clássicos, independente do gênero literário. Então, dessa vez, nos preocupamos em selecionar apenas livros de autores contemporâneos. Esperamos que gostem das sugestões e não deixem de nos dizer quais foram suas escolhas para o feriado, afinal, nós também gostamos de dicas.

Começando com suspense policial, indicamos O Poeta de Michael Connelly, um dos melhores autores do gênero da atualidade. Com uma narrativa de tirar o fôlego e um protagonista extremamente bem construído, “O Poeta” é um dos melhores livros do autor, apesar de seu final um tanto frustrante. Explicação: muitas perguntas ficam sem respostas e são esclarecidas (assim esperamos) apenas em outro livro do autor “Correntezas da Maldade” (resenha em breve). Mas o leitor não sai perdendo com essa ousada decisão do autor. Se um livro de Connelly é bom, dois, é melhor ainda.

No campo da fantasia, não tem como falar em literatura fantástica contemporânea sem mencionar o nome de George R. R. Martin e a memorável saga “As Crônicas de Gelo e Fogo”. O primeiro volume, A Guerra dos Tronos, é uma excelente escolha para aqueles que desejam se aventurar em um mundo medieval, repleto de lordes, donzelas, bastardos, conspirações e traições. Martin consegue encantar o leitor tanto pela escrita quanto pela trama complexa e concatenada com maestria.


Se o que você quer é literatura nacional, uma boa dica é o mais recente livro de crônicas de Martha MedeirosFeliz por nada, onde são abordados os mais diversos temas do nosso cotidiano. Se você gosta da autora e ainda não leu, sabe que está perdendo um ótimo livro. E se você já leu, pode ler de novo. Afinal, crônicas podem adquirir novos significados a cada nova leitura.


Se você prefere se envolver com intensas paixões, romances e decepções, a dica é o romance histórico A Casa das Sete Mulheres. A obra narra a Revolução Farroupilha a partir do ponto de vista das sete mulheres da família de Bento Gonçalves que ficaram aprisionadas na Estância da Barra. É com muita originalidade e com uma narrativa envolvente que Letícia Wierzchowski nos conduz pelos dez longos anos que a guerra durou.


Mas se você está com pouco tempo para se envolver com uma trama extensa e seus personagens, indicamos a antologia de contos “Extraneus, volume 1 – Medieval Sci-FI” (resenha em breve). Uma premissa incomum (ou até mesmo inusitada), mas que entrega o que promete: a mescla entre elementos medievais e de ficção científica. E não somente entrega o que promete, mas surpreende pela qualidade, criatividade e ousadia dos contos que compõe a antologia.

Bom feriado e boas leituras!

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

RESENHA: A Fúria dos Reis

"Nesta altura não sente as feridas ou a dor nas costas por causa do peso da armadura, ou o suor que escorre para os seus olhos. Deixa de sentir, deixa de pensar, deixa de ser você, só existe a luta, o inimigo, este homem, e logo o seguinte, e o outro, e o outro, e sabe que eles têm medo e estão cansados, mas você não, você está vivo, e a morte está por todo o lado a sua volta, mas as espadas deles movem-se tão devagar que pode dançar por entre elas, rindo." (MARTIN, 2011, p. 551).

***

Finalmente consegui terminar a leitura do segundo volume d’As Crônicas de Gelo e Fogo. E eis meu primeiro conselho: leia com tempo! Havia me programado para ler nas férias da faculdade justamente para ter tempo para ler, porém, de última hora, resolvi estudar para um concurso público. Resultado: demorei mais de três semanas p
ara conseguir findar a leitura. Parecia que eu lia, lia, e lia, mas estava sempre no mesmo lugar. E essa sensação de não avançar na leitura é muito frustrante. E, só para esclarecer, são 624 folhas, em uma letra miúda, em páginas com pouca margem.

Agora atenção: se você não leu o primeiro volume, A Guerra dos Tronos, sugiro que NÃO leia a resenha. CONTÉM SPOILERs.

A Fúria dos Reis é exatamente uma continuação da estória que havia terminado de forma tão prometedora no primeiro volume. Como o título sugere, os reis agora guerreiam furiosamente pelo trono de ferro. São eles Joffrey, Robb, Stannis e Renly, e é neste pano de fundo que a trama se desenvolve.

Tenho a nítida impressão que George Martin jogue xadrez. Digo isto porquê ele é um estrategista nato. Não consigo deixar de imaginar que o autor tenha um grande mapa dos Sete Reinos sobre uma mesa em seu escritório, este é o seu tabuleiro e os personagens são seus peões. A única diferença é que ele se permite jogar com quatro reis.

E, como no xadrez, paciência é uma virtude. Por isso, Martin investe uma boa parte da trama narrando os preparativos de todos os reis e exércitos para as batalhas. Nada do que foi escrito é súbito ou repentino, pois tudo ocorre em uma sucessão de eventos lógicos. Mas não me entenda mal, os eventos são lógicos, mas nem todos são previsíveis.

A idéia de trazer os Greyjoy em mais uma revolta foi simplesmente genial. Martin já havia mencionado a revolta no livro anterior, explicando como Robert e Ned silenciaram o pai de Theon há mais de dez anos. Diz o ditado que a vingança é um prato que se come frio, e vejo que não poderia ser mais verdadeiro.

Como sempre a trama, a estória e os personagens são muito bons. Porém, devo confessar que Ned Stark, mesmo não sendo meu personagem favorito, fez muita falta a estória. Creio que em Ned encontrávamos uma certa estabilidade/cadência para a estória, o que faltou em pouco em A Fúria dos Reis.

As participações de Daenerys e Jon Snow poderiam ter sido mais exploradas. Eu particularmente gosto destes dois personagens desde o volume anterior, e gostaria de ter visto mais deles neste livro. Porém, imagino que Martin esteja guardando suas estórias para os próximos volumes.

Ainda sinto um pouco de falta da ausência da fantasia em si. Das 624 folhas, creio que nem dez por cento faz referencias diretas a fantasia. Tire alguns capítulos (ok, um mais do que alguns) e o livro seria sobre uma guerra civil em um reino medieval. Também imagino que Martin esteja preparando tais elementos para os próximos episódios.

Achei A Guerra dos Tronos melhor, pois parece que tem mais estória sendo contada, e o livro não gira somente em torno das batalhas e afins, mas do reino, dos personagens, das traições, etc. Em A Fúria dos Reis, por ser um livro maior, creio que pode dar a impressão que o autor esteja enrolando, pois ele é minucioso em relatar o que acontece em cada canto dos Sete Reinos, mostrando um pouco da estória a partir de pontos de vista diferentes.

Como já disse, repito: pelos livros que já li da sega, resumo-a em duas palavras. Épico e magistral. E Martin não tem pressa nenhuma em contar a estória. Então minha sugestão é que você não a leia, mas a saboreie com tempo e da forma apropriada.

Título: A Fúria dos Reis
Autor: George R. R. Martin
N.º de páginas: 624
Editora: LeYa

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

RESENHA: A Guerra dos Tronos

Após a estréia da série “Game of Thrones” no canal HBO, a divulgação e venda dos livros cresceram exponencialmente. Aliás, eu mesmo comecei a ler o livro somente depois de já ter visto a metade dos episódios da série. E o resumo da ópera é que tanto livro, quanto série são fantásticos.

Para os fãs do gênero épico, que nunca encontraram nada a altura após Senhor dos Anéis, o livro é uma boa pedida. A meu ver, o primeiro livro das Crônicas de Gelo e Fogo foi a introdução, o ponta-pé inicial. Isso porque o autor vai desenvolvendo as tramas e os personagens, sendo que com o decorrer da estória o leitor percebe como tudo está interligado. E só posso imaginar como será o final.

Martin conta a estória dos Sete Reinos — aliás, fiquei com a impressão de que o reino é o verdadeiro protagonista da estória — a partir do ponto de vista de alguns personagens, ou seja, cada capítulo é escrito a partir dos eventos que ocorrem com um personagem. Talvez você pense que tal estrutura possa deixar o livro confuso, mas garanto-lhe que não.

Trata-se de um livro complexo, repleto de minúcias e que exige muita atenção, sendo completamente inviável lê-lo com sono ou pensando no almoço. Por ser denso, apresentando uma gama enorme de personagens e de estórias diversas que ocorrem simultaneamente em locais diferentes, o início da leitura pode ser um pouco difícil.

Confesso que este é um dos pontos negativos: muitos personagens, muitos nomes. Se eu já não conhecesse os personagens da série, creio que teria muita dificuldade em identificar quem era quem. Porém, isso não reduz a qualidade do livro.

Por fim, sinto-me obrigado a mencionar como o Martin compôs personagens profundos, e até mesmo reais. Dois deles me chamaram muita atenção, em face de sua evolução ao longo da estória. As circunstâncias e as novas situações exigiam que tais personagens amadurecessem o que, de fato, aconteceu, mas não de forma abrupta, inesperada. Foi gradual, demonstrando o cuidado do autor em criar uma estória verossímil.

Enfim, sou obrigado a tirar o chapéu e reconhecer que George Martin é um mestre na arte de escrever, contar estórias e criar tramas.

Uma última observação: a Editora Leya comprou a tradução feita pela editora de Portugal, e adaptou para o português brasileiro. Em alguns trechos as falhas são evidentes. Se tiver curiosidade, o tradutor Jorge Candeias comentou sobre o assunto em seu
blog.

Autor: George R. R. Martin
Título: A Guerra dos Tronos
N.º de páginas: 592
Editora: LEYA
 

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