“Imagine que tudo o que já viu, sua vida toda, sempre tivesse sido em tons de cinza. Aí, um dia você pisca os olhos, e, de repente, passa a enxergar o mundo como é, com todas as cores: azul, vermelho, amarelo. Como iria reagir? Como iria lidar com o fato de literalmente não ter palavras para descrever essa experiência nova?” (MEAD, 2016, p. 91).
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Desde que li a saga Bloodlines, passei a admirar o trabalho de Richelle Mead. Apesar dos clichês e de alguns deslizes na trama, a autora sabe tragar o leitor para dentro da estória fazendo-o esquecer de todo o resto. Esta habilidade da autora, associada a sua criatividade, tornam suas obras o tipo ideal de leitura quando se procura algo mais descontraído e empolgante. E foi nesse estado de espírito que comecei a leitura de Silêncio.
Fei e sua irmã, Zhang, são aprendizes no Paço do Pavão e dedicam suas vidas a observar a pacata vila onde habitam e a registrar os fatos em pinturas. Isolados do resto do mundo no alto de uma montanha, os habitantes vivem através do escambo, trocando metais preciosos por comida por um sistema de polias. O problema é que, além de terem perdido a audição há centenas anos, os moradores começam a apresentar sinais de perda da visão, o que afeta sua produtividade nas minas e diminui as remessas de comidas. Mas Fei está inquieta, não apenas com o repentino surgimento de sua audição, mas também com a situação no vilarejo que está cada vez mais crítica, restando apenas uma coisa a ser feita: se arriscar na perigosa descida da montanha e ir até a cidade que lhes fornece suprimentos.
O primeiro aspecto que me desagradou em Silêncio foi a previsibilidade da trama. Em poucos capítulos já fica claro que tipo de situação a autora criou e os gatilhos que serão utilizados para provocar uma mudança na atitude dos personagens. E não deu outra: do início ao fim Silêncio não empolga, visto que não consegue surpreender o leitor em nenhum momento.
Outro fator que me incomodou foi a falta de um maior desenvolvimento dos personagens. Todos eles me pareceram meros nomes, a quem foram atribuídas funções e que agem de forma programada. Faltou profundidade, faltou vida, faltou cor. Creio que Richelle pode ser o tipo de autora que faz um melhor trabalho no desenvolvimento dos personagens quando escreve uma série, como foi o caso de Bloodlines, em que vemos personagens bem definidos e que possuem vida própria.
Já mencionei em outras resenhas que Mead sabe como fazer clichês funcionarem, de modo que o leitor não se importava com sua utilização. Entretanto, em Silêncio a autora não conseguiu repetir tal proeza. Os muitos clichês saltam aos olhos, não surtem o efeito desejado e apenas causam a indignação do leitor.
A parte mais interessante da obra certamente reside no mundo criado pela autora. Partindo de uma forma viver silenciosa — com as inúmeras alterações que a surdez provoca na vida pessoal e da comunidade — e chegando a um mundo de sons, o estranhamento da protagonista é palpável e traz consigo várias reflexões. Mead também fez um interessante trabalho no tocante a cultura e mitologia deste povoado, entretanto, gostaria de ter conhecido melhor alguns aspectos.
Cheguei ao final da leitura com a sensação de que Mead tinha uma estória potencialmente boa em mãos, mas que faltou vontade em desenvolvê-la. A verdade é que Silêncio me pareceu um livro de uma autora iniciante, que não tinha certeza do que estava fazendo, e que acabou se limitando a fazer mais do mesmo.
Autora: Richelle Mead
N.º de páginas: 279
Editora: Galera Record














