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quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

RESENHA: Vermelho, Branco e Sangue Azul

Alex é filho da presidenta dos Estados Unidos e, juntamente de sua irmã, é enviado para acompanhar o casamento do príncipe britânico Phillip. O problema é que lá ele precisa encontrar seu inimigo de longa data, Henry, o irmão mais novo do noivo. E quando os dois caem em cima do bolo de casamento, os tabloides logo anunciam a existência de desavenças. Assim, para evitar uma crise diplomática, eles começam a passar finais de semana juntos posando como melhores amigos diante das câmeras. Mas o que será que vai acontecer quando ninguém está olhando?

Vermelho, Branco e Sangue Azul me chamou atenção logo que foi lançado por sua premissa inusitada: um romance homoafetivo entre a Casa Branca e o Palácio de Buckingham. Minha expectativa era encontrar um romance leve, divertido e que fugisse dos dramas geralmente associados a personagens LGBT. E foi exatamente isso que encontrei. 

O livro é narrado em terceira pessoa e conta com o tom certo, alternando entre momentos de leveza com outros mais sérios e reflexivos. Inclusive, merece destaque o humor da autora, que em diversas passagens do livro conseguiu me levar as gargalhadas. Apesar da obra contar a estória dos dois, eu diria que Alex é o protagonista, pois vemos muito mais de perto seus conflitos e desafios, desde a aceitação de sua sexualidade e de seus sentimentos até as indecisões sobre o futuro. 

“O problema do beijo é esse: Alex não consegue parar de pensar nele.” (McQUISTON, 2019, p. 107)

Outro aspecto positivo foi o desenvolvimento de um personagem bissexual, uma orientação que raramente é abordada na literatura LGBT. Porém, em alguns momentos senti que a autora quis inserir representantes das diversas siglas da comunidade, mas sem desenvolver de forma mais profunda suas estórias. Assim, fiquei com a sensação de que eles estavam ali apenas para assegurar que havia diversidade suficiente e não porque a estória exigisse isso.

Como não poderia deixar de ser, Vermelho, Branco e Sangue Azul também dialoga sobre a política e quase que serve como uma válvula de escape para a realidade em que vivemos, com governos de extrema direita que tem se levantado no mundo todo. Mesmo sendo um mundo alternativo, a estória tem os pés no chão e não deixa de mostrar o lado feio da humanidade.

Apesar de ser previsível em alguns momentos e usar de alguns clichês, a verdade é que nada disso importa. Vermelho, Branco e Sangue Azul é um romance adorável entre dois personagens carismáticos e marcantes, e que irão fazer o leitor rir e se emocionar em medidas iguais. 

Título: Vermelho, Branco e Sangue Azul
Autora: Casey McQuiston
N.º de páginas: 386
Editora: Seguinte

sábado, 7 de dezembro de 2019

RESENHA: Star Wars - Estrelas Perdidas

star wars estrelas perdidas
Entre os livros canônicos de Star Wars, confesso que Estrelas Perdidas nunca esteve no topo da minha lista de prioridade. Mas com a aproximação da estreia do episódio IX, a vontade de ler algum livro do universo expandido da saga me dominou e, sendo o único livro que eu tinha em mãos, me joguei na leitura e me surpreendi do início ao fim. 

Thane e Ciena se conhecem quando criança e os dois compartilham o sonho de voar nas naves do Império Galáctico. Porém, quando crescem, um deles se junta a Aliança Rebelde, enquanto o outro permanece fiel ao imperador. O problema é que a amizade que nutriam um pelo outro nunca foi apenas amizade. 

Um dos aspectos que logo chamou minha atenção foi como Gray consegue nos mostrar o outro lado da moeda, uma perspectiva que não vemos no filme. Thane e Ciena cresceram em um mundo da Orla Exterior que foi anexado pelo Império, portanto, a verdade que conhecem é a verdade ditada por Palpatine. Um mundo onde o Imperador é um messias em busca da paz, os Jedis uma ameaça derrotada e a Aliança Rebelde um grupo de terroristas. E nesse mundo, servir ao Império é uma das maiores honras. 

Depois que Thane e Ciena se formam na Academia Imperial e recebem suas missões, percebemos que Estrelas Perdidas é um livro escrito por um verdadeiro fã de Star Wars, que conhece todos os detalhes do universo. Isso porque vemos outros ângulos dos acontecimentos retratados na trilogia original e é impressionante ver como Gray consegue amarrar a estória de seus protagonistas à estória dos filmes. 

É apenas quando estão dentro das fileiras do império que os amigos percebem que a utopia que imaginavam está longe de ser verdade. Porém, cada um deles reage de uma forma: enquanto um vê no Império uma fonte de maldade que deve ser destruída, o outro enxerga um poder que foi corrompido, mas que pode ser restaurado para servir a propósitos mais nobres. É com esta dicotomia como pano de fundo que Gray nos faz refletir sobre temas como justiça, poder, moral, fanatismo e lealdade

“Era assim que o mal ganhava mais espaço: criava raízes nos jovens e crescia junto com eles. Cada geração elevava o abuso a outro nível.
— Estamos ensinando crianças a aprovar a escravidão. Estamos ensinando a elas que crueldade é uma virtude.”
(GRAY, 2015, p. 177) 

Outro ponto alto do livro certamente é a construção dos protagonistas. A autora criou personagens tão profundos e multifacetados que entendemos exatamente o que os motiva a agir de um jeito ou de outro. Outros personagens também se destacam, em especial um dos coadjuvantes que nos deixa apavorado por mostrar como uma boa pessoa pode ser corrompida pelo mal. 

O final deixa um gostinho de quero mais. Mesmo sendo uma estória de amor em meio a um cenário caótico, Gray conseguiu fugir dos clichês do gênero e entregar um desfecho que, embora não coloque um ponto final na estória, deixa claro o que irá acontecer com os personagens. 

Este foi o terceiro livro de Star Wars que li e certamente foi o meu preferido. Para quem é fã da saga, trata-se de uma experiência enriquecedora conhecer pontos de vista que não aparecem nos filmes e que mostram que a galáxia não se divide entre vilões e mocinhos. Além disso, ficou cristalino o talento de Claudia Gray e seu domínio sobre a saga, de modo que mal posso esperar para ler outros livros de sua autoria.

Título: Star Wars – Estrelas Perdidas
Autora: Claudia Gray
N.º de páginas: 444
Editora: Seguinte

Compre: Amazon
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sexta-feira, 14 de junho de 2019

[Temática LGBT] para quem não gosta de [temática LGBT]

Todo leitor se identifica com alguns gêneros literários mais do que com outros. Mas existem alguns livros que são capazes de abrir os olhos dos leitores para gêneros dos quais ele nunca gostou, justamente por mostrarem uma faceta diferente do gênero, por terem algo a mais. Livros que fazem o leitor que diz “Não gosto deste tipo de livro” se apaixonar justamente por um livro deste tipo.

Foi pensando nisso que o Além da Contracapa criou a coluna: “[...] para quem não gosta de [...]”, na qual faremos uma seleção de livros de um determinado gênero ou temática que podem agradar até mesmo quem costuma fugir deles. 

Para comemorar o Mês do Orgulho LGBT, separamos três livros com essa temática que tem tudo para agradar até mesmo aqueles que não gostam do assunto. 

As Fúrias Invisíveis do Coração

Quem acompanha o blog sabe que John Boyne é um dos meus escritores preferidos e creio que quando se trata da temática LGBT, seus livros são os melhores. Isso por que o autor constrói personagens que são pessoas completas e complexas, que não são definidas por sua orientação sexual, sendo esta apenas um dos traços de suas personalidades. Em As Fúrias Invisíveis do Coração, acompanhamos a jornada de vida de Cyril, passando por todos os momentos marcantes de sua vida, ao mesmo tempo em que testemunhamos a evolução da luta e dos direitos LGBT na Irlanda. É verdade que Boyne explora muitos dos clichês do gênero, discutindo temas como preconceito, descoberta e aceitação. Porém, ele aborda tais assuntos com profundidade e, principalmente, não se limita a eles. Muito mais do que uma estória LGBT, creio que As Fúrias Invisíveis do Coração é uma estória sobre os mais variados laços de amor que desenvolvemos ao longo da vida e sobre suas consequências.  E, por isso mesmo, é um livro que dialoga sobre o que é ser humano. 

O Quarto de Giovanni

Publicado originalmente em 1956, o Quarto de Giovanni certamente é um dos precursores quando falamos em literatura LGBT. A estória de David — um americano que está aguardando o retorno de sua namorada em Paris e que acaba se envolvendo com Giovanni — pode parecer novelesca em um primeiro momento, mas garanto que não é. Através desse triângulo amoroso, Baldwin consegue mostrar uma conexão tão genuína e bela entre dois homens, mas que ao mesmo tempo tem o poder de atormentar e destruir. Creio que O Quarto de Giovanni é, acima de tudo, um livro que fala sobre como o medo pode nos paralisar e fazer viver uma vida de dor. Uma estória triste, mas com uma mensagem profunda, que vai muito além da temática LGBT. 

Aristóteles e Dante descobrem os segredos do universo

Um dos livros mais doces que eu já li, “Aristóteles e Dante descobrem os segredos do universo” é uma história sensível, cativante e divertida sobre dois meninos que estão descobrindo o que o mundo é e como eles se inserem nele. Sim, a descoberta da sexualidade faz parte da trama, mas a história vai muito além disso podendo agradar também aqueles que não se interessam pela temática LGBT, pois as reflexões e os questionamentos de Ari e de Dante dizem respeito a quem eles são enquanto pessoas. Além disso, a trama apresenta um forte núcleo familiar e uma narrativa deliciosamente poética que é impossível de largar.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

RESENHA: À Primeira Vista

a primeira vista levithan
Mark e Kate são colegas de escola e apesar de sentarem um ao lado do outro na aula de cálculo, nunca trocaram mais do que uma palavra. Isso muda quando eles se encontram em uma festa durante a semana do Orgulho LGBT, e logo descobrem que a amizade não se define pelo tempo que você conhece alguém.

Livros que contam estórias LGBT tem a tendência de explorar temas como preconceito e aceitação, o que é compreensível visto que estes assuntos são vivenciados com frequência pelos membros desta comunidade. No entanto, o grande diferencial de À Primeira Vista é justamente este: trata-se de uma estória com protagonistas que se aceitam e que vivem suas vidas sem grandes dramas causados por sua orientação sexual. 

Outro aspecto que merece destaque é que À Primeira Vista, ao contrário da maioria dos livros Young Adults, enfoca em uma estória sobre o poder da amizade. É claro que também há romances, desencontros e desentendimentos, mas o cerne da obra diz respeito ao fato de como podemos impactar a vida dos nossos amigos e de como somos impactados por eles.

Apesar da amizade entre Mark e Kate surgir de uma forma absurdamente inesperada, os autores conseguiram construir um laço profundo e verdadeiro entre eles. Assim, não causa espanto perceber que o apoio que cada um representa para o outro é fundamental para que eles sigam sua vidas em momentos tão delicados. 

“A maioria das vidas é longa, e a maioria das dores é curta. Os corações não se partem de verdade; eles sempre continuam batendo.” (LEVITHAN; LA COUR, 2017, livro digital)

Os capítulos são alternados entre os pontos de vista de Mark e Kate e cada um explora arcos distintos: Mark não sabe como lidar com a paixão que sente por seu melhor amigo; já Kate se sente insegura em relação a seu futuro e a uma garota que deseja há anos, mas agora se vê sem coragem para dar o próximo passo. 

Admito que me envolvi mais com a estória de Mark, pois achei esta parte um pouco mais madura e verossímil. Já a estória de Kate, mesmo tendo suas qualidades, me incomodou por ter alguns detalhes mais forçados e, principalmente, por sua personalidade um pouco infantil. Sinceramente, foi difícil acreditar que algumas de suas atitudes correspondiam com a sua idade. 

Além da estória ser muito envolvente, a narrativa de Levithan e La Cour é extremamente fluída, de modo que é difícil interromper a leitura. Outro aspecto que merece destaque são as reflexões sobre relacionamentos, de todos os tipos, bem como sobre as incertezas do futuro.

À Primeira Vista não é apenas uma celebração sobre a amizade, mas também uma celebração sobre ser LGBT. Apesar de alguns clichês, À Primeira Vista é o tipo de livro que aquece o coração e nos deixa com um sorriso no rosto. 

Dados da edição física
Título: À Primeira Vista
Autores: David Levithan e Nina La Cour
N.º de páginas: 294
Editora: Galera Record 

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sábado, 13 de outubro de 2018

RESENHA: Para todos os garotos que já amei

Para todos os garotos que já amei
Confesso que não tenho o costume de assistir muitos filmes. E, para minha surpresa, um trailer que me chamou atenção foi o de Para todos os garotos que já amei, que anunciava uma estória leve, engraçada e inteligente. Dei uma chance para o filme, que me surpreendeu demais. Em seguida, vi que John Green em pessoa estava elogiando a obra de Jenny Han, de modo que também decidi dar uma chance para o livro. 

Lara Jean já se apaixonou cinco vezes. E a cada nova paixão ela escreve uma carta, onde pode deixar fluir todos os seus sentimentos. Após escrevê-las, Lara as guarda em uma caixa e então segue sua vida, sem ser consumida por aquela paixão avassaladora. Porém, um dia, todas as cartas são enviadas aos seus destinatários e Lara não sabe como lidar com a situação. 

O livro é narrado em primeira pessoa por Lara Jean, de modo que o leitor tem um contato muito próximo com a protagonista. Entretanto, um dos aspectos que me desagradou um pouco foi perceber a imaturidade da personagem em diversas situações. Eram ações ou pensamentos que me pareciam em dissonância com a idade da protagonista. 

Entretanto, preciso reconhecer que Lara é uma protagonista complexa e multifacetada, sendo que as experiências que vive ao longo da estória acarretam em um vívido amadurecimento da personagem. Aos poucos, vemos que ela fica mais segura de si mesma, mais independente e corajosa. 

“Margot diria que pertence a si mesma. Kitty diria que não pertence a ninguém. E acho que eu diria que pertenço às minhas irmãs a ao meu pai, mas isso nem sempre será verdade. Pertencer a alguém ... Eu não tinha percebido, mas, agora que estou pensando no assunto, parece que é tudo o que eu sempre quis. Ser de alguém de verdade, e que essa pessoa fosse minha.” (HAN, 2015, p. 172)

Além disso, também achei o ritmo um pouco lento e arrastado. Há diversas cenas que pouco acrescentam e que não servem para o desenvolvimento da trama. A meu ver, ficou claro que a autora não precisava das mais de trezentas páginas para contar a estória e fico me perguntando porque ela decidiu escrever uma trilogia. 

Infelizmente, Han optou por desenvolver um triangulo amoroso que, além de absolutamente clichê, não é verossímil. Além de uma paixão que parece surgir do nada, fica claro que o personagem em questão apenas desenvolve esse súbito interesse por Lara Jean em virtude das consequências que isto causará na estória. 

A adaptação corrigiu esses defeitos, então encontramos uma protagonista mais madura e com uma personalidade mais cativante, sendo que tanto os eventos desnecessários quanto o triangulo amoroso forçado são excluídos da estória. No fim das contas, o filme acabou sendo leve, divertido e despretensioso como eu esperava que fosse ser o livro.

Para assistir ao trailer, clique aqui

Título: Para todos os garotos que já amei
Autora: Jenny Han
N.º de páginas: 315
Editora: Intrínseca
Exemplar cedido pela editora

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quinta-feira, 9 de agosto de 2018

RESENHA: Leve-me com você

Leve-me com você Catherine Ryan Hyde
August planejava fazer uma road trip por reservas naturais para deixar cinzas do seu filho, que morreu em um acidente. O que ele não esperava é que seu caminho iria cruzar com duas crianças, Seth e Henry, e como sua vida seria impactada pelo convívio com os garotos. 

A narrativa da autora é bastante envolvente, de modo que a leitura flui com rapidez. Entretanto, admito que em algumas passagens, especialmente nos momentos em que os personagens estavam em meio a natureza, a autora exagerou no uso de descrições. 

Os personagens são bem desenvolvidos e a relação entre eles é muito natural. Apesar da improbabilidade que os reuniu, percebemos que as crianças não apenas precisam de uma figura paterna, mas o próprio August precisava deste contato para superar a perda do filho. Para mim, o destaque vai para Henry, personagem que ganha menos espaço na trama, mas que me pareceu o mais cativante, curiosamente. 

O livro aborda diversos temas, como redenção, amadurecimento, solidão, amizade, superação, injustiça, luto, perdão, recomeços, e muitos outros. Apesar desses assuntos serem pesados e complexos, a autora teve bastante sensibilidade ao abordá-los

“O que você sente é o que você sente, e, por mais que pense que devia sentir outras coisas, não pode mudar seus sentimentos. Tem coisas na vida que podemos mudar e outras que não.” (HYDE, 2018, p. 158)

O alcoolismo é outro tema abordado ao longo do livro, tendo afetado os três personagens de formas diferentes e profundas. Porém, me pareceu que a autora pesou a mão, forçando o assunto inúmeras vezes na trama, de modo que me deixou com o gosto de ser mais uma lição de moral do que uma reflexão. Além disso, fica claro que o assunto era algo pessoal para a escritora e pesquisando sobre sua vida descobri que ela de fato enfrentou tal problema.

Durante a road trip, fiquei com a impressão que não ocorrem muitos eventos. A viagem em si parece não ter muita importância para a estória, pois basicamente vemos os personagens indo de um ponto a outro. E muitas das situações que ocorrem na viagem servem para trazer à tona a discussão sobre o alcoolismo.  

A última parte do livro me surpreendeu bastante, pois a autora seguiu um rumo inesperado. É neste momento que conseguimos ver o impacto que os personagens causaram na vida uns dos outros. Entretanto, o desfecho em si não empolgou muito, visto que deu a impressão de ficar no lugar comum. 

Leve-me com você foi uma boa leitura, que conta com personagens interessantes e reflexões profundas. Apesar de ter batido desnecessariamente na mesma tecla, a autora consegue encantar o leitor e prender sua atenção do início ao fim.

Título: Leve-me com você
Autora: Catherine Ryan Hyde
N.º de páginas: 331
Editora: DarkSide Books
Exemplar cedido pela editora

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segunda-feira, 16 de julho de 2018

RESENHA: Um Ano Solitário

Um ano solitario / Alice Oseman“Meu nome é Victoria Spring. Acho que você precisa saber que eu invento uma porção de coisas e depois me lamento. Gosto de dormir e de bloggar. Um dia, vou morrer.” O quote na contracapa de “Um Ano Solitário” imediatamente me fez querer conhecer Tori Spring.

Victoria Spring está de saco cheio de tudo. O colégio é um tédio, as pessoas não se importam com nada, sua mãe parece não gostar muito dela (o que está tudo bem porque ela também não gosta muito da mãe), seus professores e seu pai insistem para que leia livros que ela detesta, protagonizados por personagens irreais (como “Orgulho e Preconceito” e sua irritante Elizabeth Bennet) e o irmão que ela adora passou por sérios problemas. A única coisa que ela gosta de fazer é escrever em um blog que não divulga para ninguém que a conhece. De resto, ela só quer se manter afastada de todos porque se envolver com as pessoas simplesmente não vale a pena. Elas não valem a pena. Ela não vale a pena. Até que um misterioso blog chamado Solitarie começa a pregar peças no colégio.

A voz de Tori é única e transborda toda a alma adolescente. Sua narrativa não é uma fala e sim uma sequência de pensamentos (embora não se trate de Fluxo de Consciência) e é a sua desconexão de ideias que a torna humana. Os pensamentos simplesmente vêm e é na maneira como eles surgem em sua mente, como ela associa as coisas, que entendemos quem ela é. Sim, Tori é um pouco irritante e faz muito drama em cima de pouca coisa, mas o que mais salta das páginas é que ela está um pouco perdida (e que adolescente não está?) e que evita ao máximo sentir as coisas para não as sentir demais. A adolescencia é a fase do mecanismo de autoproteção e Tori passa todos os momentos dos seus dias tentando fazer exatamente isso.

“Nao é como nos filmes nem nos seriados de drama adolescente, onde tudo perde a intensidade e fica em câmera lenta, as luzes piscando, as pessoas pulando com as maos levantadas. Nada é assim na vida real. As pessoas ficam paradas ao redor.” (OSEMAN, 2018, p. 2018)

Tori é a melhor coisa do livro. Arrisco dizer, inclusive, que a personagem merecia mais do que a trama que Alice Oseman cria para ela. A verdade é que, apesar do pano de fundo do Solitarie, “Um Ano Solitário” é um livro um tanto sem história e o mistério de quem está por trás das pegadinhas não move o leitor. Para mim, o que me fazia virar as páginas era descobrir se Tori se tornaria uma das mocinhas das histórias que ela tanto detestava, se teria um destino trágico ou se encontraria uma forma de viver sem odiar tanto a si mesma e a tudo ao seu redor (não porque tivesse motivo, mas sim porque não conseguia ver motivos para se sentir diferente).

Acredito que “Um Ano Solitário” seja um livro com que adolescentes terão facilidade de se identificar. Não é uma historia que busca dar lições, nem mesmo provocar grandes emoções, mas busca conectar o que, em alguns momentos, é tudo o que se precisa.

Título: Um Ano Solitário
Autora: Alice Oseman
N° de páginas: 382
Editora: Rocco Jovens Leitores
Exemplar cedido pela editora

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quarta-feira, 20 de junho de 2018

RESENHA: Dias de Despedida

dias de despedida jeff zentner
Em Dias de Despedida conhecemos Carver, que perdeu seus três melhores amigos em um acidente de trânsito. Além do luto, ele também precisa lidar com a culpa: afinal, se não tivesse enviado uma mensagem de texto, talvez seus amigos ainda estivessem vivos. E para completar, ainda é possível que ele seja alvo de uma investigação criminal. 

Dias de Despedida é narrado em primeira pessoa por Carver, o que coloca o leitor em contato direto com os medos e aflições do protagonista. Apesar da narrativa ser fluida, a temática abordada pelo autor é pesada, de modo que em alguns momentos a leitura se torna mais densa. 

Carver é um ótimo personagem, a quem o leitor rapidamente se apega, sendo que conseguimos entender suas motivações e atitudes desde a primeira página. Entretanto, o mesmo não pode ser dito sobre os amigos de Carver. Por boa parte da estória, tive a sensação de que os amigos que morreram no acidente eram apenas nomes, e não personagens palpáveis. Apenas da metade para o final que me pareceu que eles ganharam contornos mais definidos. 

O livro conta com diversos flashbacks, mostrando eventos na vida dos quatro amigos antes do acidente. E admito que por diversas vezes fiquei com a impressão de que estas cenas soaram um tanto artificiais, além de não me parecerem muito significativas para o desenvolvimento da trama

“— Nossa mente busca causa e efeito porque isso sugere uma ordem no universo que talvez não exista, mesmo se você acreditar em algum poder superior. Muita gente prefere aceitar uma parcela indevida da culpa por alguma tragédia do que aceitar que não existe ordem nas coisas. O caos é assustador. É assustadora uma existência inconstante em que coisas ruins acontecem a pessoas boas sem nenhum motivo lógico.” (ZENTNER, 2017, p. 229)

Outro aspecto que não gostei foi a questão judicial. Carver acaba sendo investigado por que, supostamente, sua mensagem teria causado o acidente. Para quem não sabe, atuei por alguns anos como advogado criminalista e nunca vi uma tese jurídica mais estapafúrdia do que essa. É claro que há diferenças enormes entre o direito brasileiro e o americano, mas ainda assim achei que o autor forçou a barra neste aspecto. 

A meu ver, o ápice do livro é a própria jornada de Carver. Uma perda como esta é insuperável e o que o autor faz muito bem é mostrar que a vida pode seguir em frente, mesmo que este vazio criado pela ausência sempre esteja presente. Assim, vemos como o protagonista se apoia na família, nas amizades e inclusive na terapia para enfrentar a dor. 

Dias de Despedidas foi uma boa experiência de leitura, que abordou temas pesados com sensibilidade, e que provocou ótimas reflexões. Entretanto, confesso que estava esperando por um livro mais impactante e emocionante.

Título: Dias de Despedida
Autor: Jeff Zentner
N.º de páginas: 385
Editora: Seguinte
Exemplar cedido pela editora

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terça-feira, 29 de maio de 2018

RESENHA: Todas as Coisas Belas

Todas as Coisas Belas Matthew Quick
Foi com a leitura de Perdão, Leonardo Peacock que Matthew Quick entrou na lista de autores que eu confiava cegamente. Porém, quando li Quase Uma Rockstar, minha confiança no autor despencou. Foi por causa deste livro que mantive distância dos últimos lançamentos do autor, mas fiquei intrigado quando li a sinopse de Todas as Coisas Belas e resolvi dar mais uma chance para o autor.

Nanette é uma aluna exemplar e filha comportada. Mas tudo muda quando seu professor preferido lhe presenteia com um exemplar do livro "O Ceifador de Chicletes". Nanette logo se identifica com a estória e acaba se tornando amiga de seu recluso autor, Nigel Booker. É através dele que Nanette conhece Alex, e encontra neles dois a força que precisava para ser quem realmente é. 

Todas as Coisas Belas é narrado em primeira pessoa por Nanette. A narrativa de Quick é extremamente envolvente e o leitor se apega a protagonista rapidamente. Fazia tempo que eu não sentia uma identificação tão forte com um personagem e creio que isso se explique por que Nanette está em uma fase da vida pela qual todos já passamos ou passaremos. 

A jornada da protagonista é inspiradora. Vemos que ela, em um primeiro momento, não sabe quem realmente é e não tem o controle sobre a própria vida. É no seu relacionamento com Booker e Alex que ela começa a descobrir suas verdadeiras aspirações e para de tentar satisfazer as expectativas alheias. Outro aspecto interessante e original é que Nanette, nessa busca intensa por si mesma, acaba se perdendo (por mais paradoxal que isso possa soar).

“Eu soube que tinha chegado ao fim da infância quando percebi que os adultos na minha vida não conheciam mais do que eu sobre a vida — então, como um flash, entendi que tudo o que havia se passado até aquele exato momento era uma espécie de jogo organizado pelos supostos adultos, que piscavam uns paro os outros quando ninguém estava olhando...” (QUICK, 2018, p. 123)

Alex também é um personagem interessantíssimo. Ele não é apenas alguém insatisfeito com a injustiça do mundo, mas também está decidido a agir e a fazer a diferença. O mais interessante é perceber que esta sua paixão por mudar as coisas, por mais bem intencionada que seja, revela traços de egoísmo. A relação entre os dois adolescentes é muito complexa e vital para a jornada de autodescobrimento e amadurecimento de Nanette. 

Em determinado momento, a narrativa muda de primeira pessoa para terceira pessoa. E apesar de haver um motivo incrível para esta alteração, preciso reconhecer que na prática está não foi uma boa opção. Não sei explicar exatamente o porquê, mas a narrativa em terceira pessoa me soou estranho e, para mim, não funcionou. De certa forma, fiquei com a impressão de que a estória perdeu força com essa mudança. 

Ainda assim, Todas as Coisas Belas foi uma leitura incrível, que conta com personagens bem desenvolvidos, uma trama bem amarrada e uma estória com a qual todos os leitores irão se conectar. Encerrei a leitura com um sorriso no rosto e feliz por ter dado uma nova chance ao autor. Felizmente, fizemos as pazes e mal posso esperar para ler outros livros de sua autoria. 

Título: Todas as Coisas Belas
Autor: Matthew Quick
Editora: Intrínseca
N.º de páginas: 270
Exemplar cedido pela editora

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segunda-feira, 30 de abril de 2018

RESENHA: O Último Adeus

Após o suicídio do irmão, Lex não sabe como continuar vivendo sua vida. É Dave, seu terapeuta, quem sugere que ela escreva um diário para servir como válvula de escape. Aos poucos, ela vai enfrentando a dor e o vazio deixados pela perda, bem como restaurando suas relações com os pais e amigos. 

O primeiro aspecto que preciso destacar é que a estória do livro tem início após o suicídio do Ty. Ou seja, a trama gira em torno das consequências deste ato na vida de Lex, mostrando seu processo de cura

A narrativa é em primeira pessoa, de modo que o leitor está em contato direto com Lex. Os capítulos são alternados entre os eventos que ocorrem após a morte de Ty com o diário de Lex, os quais geralmente são dedicados a lembranças do irmão. Apesar dessa proximidade com a protagonista, devo confessar que demorei a desenvolver uma conexão mais forte com ela.

Como esperado, o livro dialoga com diversos temas importantes. Além do suicídio, a autora discute assuntos como culpa, luto, superação, amizade, saudade, relacionamentos, entre outros. Vale registrar que apesar da temática pesada, Cynthia Hand teve sensibilidade e sutileza para abordá-los. 

O tempo passa. É a regra. Independentemente do que aconteça, por mais que pareça que tudo em sua vida está congelado em um determinado momento, o tempo segue em frente. Depois que meu irmão morreu, o tempo passou devagar, e eu me arrastei para fazer todas as atividades obrigatórias que ainda tinha que realizar: estudar, comer, dormir, escovar os dentes, secar os cabelos, fingir que me importava.” (HAND, 2016, p. 164)

Os arcos paralelos são interessantes, embora alguns tenham me deixado a impressão de estarem ali para preencher espaços em branco. O mesmo pode ser dito sobre alguns personagens coadjuvantes que, a meu ver, poderiam ter sido melhor desenvolvidos e aproveitados. 

O desenvolvimento da estória tem uma progressão natural e linear, não contando com grandes reviravoltas ao longo do caminho, o que tornou a obra mais verossímil. Além disso, Hand fez um bom trabalho ao costurar a trama, sem deixar pontas soltas. O desfecho é satisfatório, deixando claro a evolução de Lex ao longo da estória. 

O Último Adeus é uma leitura interessante e, sobretudo, reflexiva. Porém, preciso confessar que não achei a estória tão emocionante quanto esperava. Assim, creio que entre os livros que exploram essa temática, há outros que se destacaram mais.

Título: O Último Adeus
Autora: Cynthia Hand
N.º de páginas: 344
Editora: DarkSide Books

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sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

RESENHA: Um de nós está mentindo

Um de nós está mentindo - Karen M.McManusUm grupo de alunos de ensino médio e um deles acaba morto. A premissa não é exatamente original, mas pode render uma ótima história quando bem executada. Quando a prova cedida antecipadamente pela Editora Galera Record chegou para nós, foi com esse pensamento que dei uma chance à leitura e, por sorte, Karen M. McManus soube executar muito bem a premissa em “Um de nós está mentindo”.

No colégio, todo mundo conhece Simon, especialmente porque a maioria já teve o azar de ter seus segredos revelados no aplicativo “Falando Nisso”, criado e editado por ele. Bronwyn é a nerd que sonha com as maiores universidades; Addy, a menina popular por ser namorada de um atleta popular; Cooper, outro dos atletas populares, que coleciona olhares de recrutadores de times de baseball; e Nate é o bad boy que está em liberdade condicional por ser pego traficando drogas. Os cinco estão longe de formar um grupo de amigos, mas se encontram um dia na detenção tendo certeza de que foram falsamente incriminados. Mas durante a detenção algo terrível acontece: Simon morre devido a uma reação alérgica (algo que todos na escola sabiam que ele tinha). Imediatamente, os quatro se tornam suspeitos e suas vidas viram de cabeça para baixo.

A história é narrada intercalando os pontos de vista de Bronwyn, Cooper, Nate e Addy e não demora para percebermos que há mais camadas nesses personagens do que julgamos à primeira vista. Conforme conhecemos suas relações familiares, seus segredos e a maneira como lidam com toda a tragédia, vamos aos poucos nos importando com eles (algo, de certa forma, angustiante já que um deles pode ser um assassino).

É claro que existem os velhos clichês das histórias de adolescentes, mas ao invés de fugir deles, McManus os abraça e extrai o melhor que podem oferecer, manipulando bem os estereótipos. Addy acaba se tornando aquela menina com quem você quer fazer amizade apenas para poder aconselhá-la; Nate é aquele de quem você sabe que deve ficar longe, mas talvez tudo o que ele precisa é que alguém não pense isso sobre ele; Cooper é aquele que quer fazer a coisa certa, mas não sabe escolher o que é mais importante; e Bronwyn se mostra forte e determinada quando necessário.

“Algumas pessoas são tóxicas demais para viver. Simplesmente são.” (McMANUS, 2018, p. 103)

Em meio a tudo isso, o desfecho se revela criativo e bastante satisfatório. Eu devo confessar que fiquei surpresa com a resolução do caso da morte de Simon e que a ideia jamais havia passado pela minha cabeça, embora todas as pistas estivessem ali para serem captadas. Esse foi outro ponto em que a autora me ganhou, pois eu adoro quando um autor consegue me fazer dizer: “Estava ali o tempo todo! Como é que eu não percebi?

A narrativa é fluida e envolvente, tanto que li o livro em apenas dois dias. Eu poderia dizer que as vozes narrativas dos personagens deveriam ser mais diferentes entre si, mas “Um de nós está mentindo” não é o tipo de livro que se lê para encontrar um grande texto e sim um bom entretenimento e esse papel ele cumpre muito bem.

Mesmo se tratando de uma história de assassinato não é só de suspense que se faz “Um de nós está mentindo”. Há ainda espaço para romance e para pensarmos sobre o quanto o que as pessoas esperam de nós é responsável por aquilo que fazemos e nos tornamos.

Usando de “lugares comuns” totalmente a seu favor, Karen M. McManus cria uma história que não vai virar a sua cabeça, mas que sabe fisgar desde as primeiras páginas e manter o leitor cada vez mais interessado e cativado. Uma deliciosa e viciante surpresa.

O lançamento do livro está previsto para fevereiro

Título: Um de nós está mentindo
Autora: Karen M. McManus
N° de páginas: 384
Editora: Galera Record
Prova cedida pela editora

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quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

RESENHA: Lembra Aquela Vez

Lembra Aquela Vez Adam Silvera
Em Lembra Aquela Vez conhecemos Aaron, um garoto de 16 anos com um passado conturbado: tentou o suicídio após encontrar o corpo do pai, que se matou na banheira de casa. Para superar o passado, Aaron encontra apoio em sua namorada, Genevieve, e em sua recente amizade com Thomas. Mas quando ele se sente sufocado por sentimentos que não entende, cogita ser submetido a tecnologia do Instituo Leteo: apagar lembranças dolorosas. 

O início do livro me pareceu bastante monótono. Somos apresentados ao protagonista e aos demais personagens, bem como ao contexto da estória. O problema é que fiquei com a impressão de que o autor narrou muitos episódios comuns e de pouca importância para o desenvolvimento da estória. 

Foi somente depois das primeiras cem páginas que senti a estória engrenar de verdade, porém, outro aspecto me desagradou: Aaron parece se tornar outra pessoa de forma extremamente abrupta. Ou seja, não houve uma progressão natural nos pensamentos, sentimentos e atitudes do protagonista. 

Fui fisgado pela estória apenas na metade do livro, quando um plot twist surpreendente me fez pular da cama. Silveira teve o cuidado de planejar esta reviravolta, deixando pistas ao longo da estória, porém, admito que não consegui ligar os pontos. É partir deste momento que entendemos todo o contexto da trama e que percebemos a complexidade da estória. 

O ponto alto do livro certamente são as reflexões proporcionadas pelo cenário da estória. Vale a pena apagar memórias dolorosas? E sem elas, poderemos ser verdadeiramente felizes? Ou nos tornaríamos outras pessoas? Estaríamos apagando uma parte de quem somos? 

“Memórias: algumas nos atinges de surpresa, outras nos levam adiante; algumas ficam conosco para sempre, outras esquecemos sozinhos. Não podemos saber de verdade a quais sobreviveremos se não continuarmos no campo de batalha, com os momentos ruins disparando em nossa direção como projéteis. Mas, se tivermos sorte, teremos momentos bons o bastante para nos proteger.” (SILVERA, 2017, p. 285)

A temática LGBT também está presente e assuntos como aceitação, preconceito, identidade e autodescobrimento também são abordados. Porém, um aspecto que me incomodou durante toda a leitura foi a incapacidade de Aaron em aceitar a verdade de outra pessoa. Sou da opinião que cada pessoa tem sua verdade e ninguém tem o direito de questionar ou duvidar disso. 

O desfecho da estória também me surpreendeu e mostrou que o autor tem coragem para se manter fiel a estória que desejava contar, mesmo correndo o risco de desagradar alguns leitores. É um final que nos deixa com o coração na mão e que não coloca todos os pingos nos is, mas me pareceu a forma certa de encerrar o livro. 

Lembra Aquela Vez conta com uma premissa criativa e original, além de ótimas reflexões, porém, preciso admitir que não me conectei o suficiente com o protagonista, de modo que a leitura não foi tão marcante quanto esperava. 

Título: Lembra Aquela Vez
Autor: Adam Silvera
N.º de páginas: 331
Editora: Rocco Jovens Leitores
Exemplar cedido pela editora

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sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

RESENHA: Fraude Legítima

Fraude Legítima - E.Lockhart
Depois de “O Histórico Infame de Frankie Landau-Banks” (um livro divertido com uma protagonista cheia de personalidade) e “Mentirosos” (um suspense surpreendente) confiei que E. Lockhart me daria uma boa experiência com seu novo livro, “Fraude Legítima”. Confiei sem nem ler sinopse.

Imogen e Jule são boas amigas. Se parecem fisicamente, mas vivem em realidades opostas. Imogen, filha adotiva de um casal rico, quer sua liberdade mais do que qualquer coisa que os pais sonhem para ela. Jule é uma moça sem família, determinada a fugir do passado e ser quem quiser ser no futuro. Mas desde que Imogen decidiu cometer suicídio pulando de uma ponte, as coisas tem sido complicadas para Jule.

A história é contada de trás para frente. No primeiro capítulo, vemos Jule sozinha em um hotel luxuoso no México, mentindo sobre si mesma, sem que tenhamos ideia do porquê. Aos poucos as cortinas vão se abrindo, mas quanto mais vemos sobre as duas amigas, menos certezas temos. A cada semana que retrocedemos, as verdades vão se contorcendo, e tudo que acreditamos ser verdadeiro nos primeiros capítulos vai adquirindo novos contornos. Não sabemos no que reside o suspense porque não sabemos qual é a resposta que procuramos, tampouco qual a pergunta que nos move. Isso porque a autora desenvolve a história de forma que não sabemos em que terreno estamos pisando, apenas que ela está nos levando mais e mais fundo.

Assim como em "Frankie Landau-Banks", Lockhart dá vida a personagens femininas cheias de atitude. A princípio, é Imogen quem intriga. Devido ao suicídio, demora alguns capítulos até que a encontremos. Até lá, tudo o que temos são as lembranças de Jule e não sua verdadeira personalidade. Mas conforme a trama se desenrola fica evidente que Jule é a personagem complexa dentre as duas. Ainda mais enigmática e imprevisível que sua amiga. Quanto mais a trama retrocede, mais descobrimos camadas dessas duas mulheres (suas personalidades e seus históricos de vida) e dessa amizade que talvez não seja exatamente como acreditávamos que era. Difícil saber se gostamos ou odiamos essas mulheres.

“Não tinha mais certeza de onde traçar a linha entre elas. Jule usava perfume de jasmim como Imogen, falava como Imogen, amava os livros que Imogen amava. Aquelas coisas eram verdadeiras. Jule era órfã como Immie, uma pessoa que se inventou sozinha, com um passado misterioso. Havia tanto de Imogen em Jule, e tanto de Jule em Imogen. (LOCKHART, 2017, p.114)

Durante toda a leitura, estive desconfiada de que sabia o que estava por vir. Isso não se concretizou, mas fiquei me perguntando se a autora quis brincar com o leitor, o fazendo acreditar que sabia qual poderia ser a reviravolta da trama, quando na verdade era algo bem diferente que o aguardava.

Sobre o desfecho, confesso que esperava mais. Não tanto pelo que acontece, mas porque o ápice da história (pelo menos para mim) acontece alguns capítulos antes do final. O que vem depois é apenas o necessário para preencher as lacunas.

Também não posso deixar de comentar que a história me remeteu a "O Talentoso Ripley". Por isso, não me surpreendeu que em seus agradecimentos a autora tenha citado o clássico de Patrícia Highsmith como uma influência para a história de Imogen e Jule.

Li "Fraude Legítima" em um único dia. Sem desespero de chegar ao final, mas também sem forçar um volume de leitura. Isso prova que a história é capaz de manter o interesse e que Lockart entrega uma narrativa envolvente. Um bom livro, e provavelmente o mais ambicioso da autora, embora para mim tenha sido a mais fraca das três experiências. Ainda assim, na próxima vez que vir o nome de E.Lockhart na capa, vou confiar mais uma vez.

Título: Fraude Legítima
Autora: E.Lockhart
N° de páginas: 280
Editora: Seguinte
Exemplar cedido pela editora 

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terça-feira, 12 de dezembro de 2017

RESENHA: Sangue por Sangue

Sangue por Sangue Ryan Graudin
Desde que li Lobo por Lobo, estava extremamente curioso para conferir a continuação da estória: Sangue por Sangue. O primeiro livro da duologia foi uma surpresa empolgante e que me deixou com a expectativa em alta para conhecer o desfecho da estória. 

ATENÇÃOa sinopse (parágrafo abaixo) CONTÉM SPOILERS do livro anterior. O restante da resenha é spoiler free. 

Yael cumpriu sua missão: atirou em Adolf Hitler diante das câmeras. Mas logo em seguida ela descobriu que aquele homem não era Hitler, e sim um metamorfo como ela. Agora, ela precisa fugir das garras do serviço secreto para se juntar a resistência e descobrir qual será o próximo passo da luta. 

A primeira observação que preciso fazer diz respeito a habilidade da autora em explorar absolutamente todos os detalhes do universo que criou. Graudin soube aproveitar ao máximo cada uma das possibilidades da estória, criando uma trama complexa e sem deixar pontar soltas pelo caminho.

Mais uma vez, temos uma narrativa bastante dinâmica e ágil, que envolve o leitor na saga de Yael. Porém, desta vez também acompanhamos os pontos de vista de Luka e Felix, uma vez que a estória ganha uma dimensão maior. Nem preciso dizer que ao mostrar os três pontos de vista, a autora conseguiu desenvolver ainda mais os personagens, mostrando diversas facetas de suas personalidades. 

"— Monstros abrem o corpo de crianças e chamam isso de progresso. Monstros matam grupos inteiros de pessoas sem pestanejar, mas ficam irritados quando têm que limpar as cinzas humanas dos morangos de seus jardins. Monstros veem as pessoas cometerem isso tudo e não fazem nada para impedir." (GRAUDIN, 2017, p. 291)

A estória criada por Graudin é extremamente original e criativa, sendo que também desperta diversas reflexões, principalmente sobre a temática da identidade. Porém, preciso registrar que em alguns momentos o livro se mostrou um pouco previsível. 

O final —  mesmo contando com uma revelação bastante surpreendente — não me pareceu impactante o suficiente. Não sei explicar exatamente o porquê, mas minha sensação foi que o desenvolvimento do desfecho pareceu um tanto morno quando comparado com o restante da jornada. 

Para quem tem receio de séries e da famosa “maldição do 2º livro”, garanto que não há nada a temer. Os dois livros se justificam, sendo que seria impossível contar toda a estória em apenas um volume. Além disso, em nenhum momento fiquei com a impressão de que a Graudin estava enrolando o leitor. 

A duologia escrita por Graudin é uma mistura inusitada de young adult e ficção científica, contando com doses generosas de ação, drama e romance. Apesar dos diferentes elementos, a autora soube utilizar os melhores elementos de cada gênero para compor uma estória verossímil e coesa. 

Mesmo esperado por um final mais marcante, preciso reconhecer que a série foi uma excelente experiência de leitura e o saldo certamente foi positivo. 

Título: Sangue por Sangue 
Autora: Ryan Graudin
N.º de páginas: 467
Editora: Seguinte
Exemplar cedido pela editora

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segunda-feira, 6 de novembro de 2017

RESENHA: Quando Tudo Faz Sentido

Quando Tudo Faz Sentido Amy Zhang
Em Quando Tudo Faz Sentido, conhecemos Liz Emerson, a garota mais popular da escola. Mas apesar de sua vida aparentemente perfeita, ela está convicta de que o mundo seria um lugar melhor sem ela e por isso joga seu carro contra uma árvore. Mas o que teria levado Liz a este ato de desespero? E qual seria a reação que este acidente causaria na vida das pessoas mais próximas dela? 

Liz Emerson é uma ótima personagem. A autora conseguiu desenvolver a fundo a protagonista, de modo que entendemos exatamente quem ela é como pessoa, o que motiva suas ações e o porquê de querer colocar um fim em sua vida. Também merece destaque o fato de que ao contrário de outros livros, como Os 13 Porquês, Liz não é aluna que sofre bullying, mas sim aquela que o pratica

E por isso mesmo, Liz não é o tipo de personagem que conquista a empatia do leitor, pois ela passa por cima de tudo e de todos para alcançar seus objetivos. E o mais frustrante é perceber que Liz sabe que está errada, que está magoando pessoas e destruindo sonhos. Porém, mesmo assim, ela continua fazendo o que sempre fez, sabendo que não pode justificar suas maldades e perdendo sua humanidade a cada dia. 

E é justamente este um dos melhores aspectos do livro: Amy Zhang mostrou o outro lado da moeda. A prática do bullying para se autoafirmar ou garantir o status de “popular” não é apenas uma agressão contra a vítima, mas também contra a própria alma do agressor. A maldade desmedida e sem sentido degrada a todos os envolvidos. 

“Nunca fora punida por nada daquilo. Nunca tinha levado uma suspensão, sido expulsa ou deportada, embora provavelmente merecesse tudo aquilo. Liz Emerson tinha causado muita tristeza em sua vida curta e catastrófica, e ninguém nunca fizera nada a respeito.
Ela não percebia que a reação igual e oposta era a seguinte: todas as coisas terríveis, cruéis e escrotas que Liz fizera tinham voltado para ela.” (ZHAN, 2017, p. 270)

Porém, preciso registrar que fiquei com a impressão de que a autora se excedeu em alguns aspectos. Isso por que algumas das ações de Liz e de suas amigas eram “pesadas" demais para alunas de ensino médio, como esconder maconha no armário de outro estudante e fazê-lo ser flagrado pela polícia.

Apesar de ter gostado do desenvolvimento da protagonista e das reflexões que Zhang trouxe à tona, preciso admitir que meu principal problema com o livro diz respeito à narrativa. O livro é narrado em primeira pessoa por algum personagem onisciente e que conhece detalhadamente a vida de todos os atores da estória. Assim, a autora acabou “atirando para todos os lados”, contando a estória de vários personagens de maneira superficial, em vez de focar naqueles que eram relevantes para a estória. A identidade do narrador é revelada apenas no final do livro e me pareceu uma opção forçada demais. 

Outro ponto negativo da narrativa é que a autora não seguiu uma ordem cronológica. Assim, como são vários pequenos eventos acerca da vida de um grande número de personagens, percebi que em alguns momentos fiquei um pouco confuso, sem saber qual tinha sido a ordem dos acontecimentos. 

No fim das contas, Quando Tudo Faz Sentindo mostra adolescentes que vivem uma vida sem sentido e com prioridades completamente deturpadas e que precisam de um encontro com a morte para se darem conta disso. Um livro triste, mas necessário para ilustrar como toda ação realmente tem uma reação. 

Título: Quando Tudo Faz Sentido
Autora: Amy Zhang
N.º de páginas: 316
Editora: Rocco
Exemplar cedido pela editora

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sábado, 21 de outubro de 2017

RESENHA: Tartarugas Até Lá Embaixo

Tartarugas Até Lá Embaixo John Green
Quem acompanha o blog já sabe que somos fãs assumidos e incondicionais de John Green. E considerando que o último livro do autor publicado no Brasil foi lançado há três anos, estávamos contando os dias para a chegada de Tartarugas Até Lá Embaixo. 

Aza Holmes é uma jovem de 16 anos diagnosticada com transtorno obsessivo-compulsivo e por isso ela muitas vezes sente que não está no controle de seus pensamentos. É então que Daisy, sua melhor amiga, insiste que as duas investiguem o desaparecimento de um bilionário acusado de corrupção a fim de botarem a mão na polpuda recompensa. Mesmo a contragosto, Aza aceita participar da investigação e para isso precisará entrar em contato com um velho amigo: Davis, o filho do bilionário desaparecido. 

Tartarugas Até Lá Embaixo é narrado em primeira pessoa pela protagonista e Green fez um trabalho incrível em colocar o leitor na pele dela. Assim, sentimos de perto a ansiedade de Aza e vemos o que acontece quando ela é dominada por pensamentos intrusivos, tais como: Você trocou o band-aid? Tem certeza? Passou antisséptico? É melhor passar um pouco mais. O que você está esperando? Testemunhando a luta entre Aza e estes pensamentos é que percebemos o quanto é fácil julgar alguém quando não sabemos o que se passa na vida e na mente da pessoa. 

Registro aqui que eu tinha um conhecimento irrisório sobre este transtorno e fiquei apavorado ao mergulhar na mente de Aza e perceber como os pensamentos intrusivos se instalam e se recusam a ir embora. Em certo ponto a protagonista descreve essa sensação como uma prisão e este aprisionamento é sentido até mesmo pelo leitor. Para quem não sabe, o autor também foi diagnosticado com TOC, sendo cristalino que ele descreve tudo com conhecimento de causa.

“Em teoria, todo mundo tem pensamentos assim. Você está cruzando uma ponte, digamos, e, quando olha lá de cima, do nada lhe ocorre que poderia simplesmente pular. Se for como a maioria das pessoas, vai pensar: cruzes, que troço macabro e seguir sua vida, mas para algumas pessoas o invasor pode assumir o controle, expulsando todos os outros pensamentos até ser o único a ocupar sua mente, de tal modo que você estará perpetuamente presa àquela ideia — seja pensando naquilo, seja tentando não pensar naquilo.” (GREEN, 2017, p. 50) 

Além da própria Aza ter que lidar com as consequências do TOC, vemos como seus próprios relacionamentos são afetados pelo transtorno. Aliás, este é outro aspecto importante do livro, pois mostra que até mesmo pessoas próximas não compreendem por completo o transtorno, de modo que não sabem lidar a situação. 

Os outros arcos da trama — como o relacionamento entre mãe e filha, a amizade com Daisy e a investigação pelo bilionário desaparecido — são bem desenvolvidos e vemos que todos eles exercem uma função na estória, não sendo utilizados apenas para “encher linguiça”. 

Como era esperado, John Green mais uma vez entrega um prato cheio para reflexões abordando assuntos como empatia, injustiça e amizade. Mas creio que a reflexão de maior destaque no livro seja a temática da identidade, pois vemos Aza se debater com questões existenciais. Isso por que a protagonista se sente refém de pensamentos que não são seus, mas que ocupam tanto espaço e lhe sugam tanta energia que fazem com que ela se sinta perdida e sem rumo. 

O texto de Green continua maravilhoso como sempre. Além da fluidez e da agilidade da narrativa, somos cativados por Aza logo nos primeiros capítulos e tragados para dentro da estória, de modo que interromper a leitura se torna uma tarefa impossível. Aliás, registro aqui que li o livro em apenas um dia. 

Apesar de não ter se tornado meu livro preferido do autor, Tartarugas Até Lá Embaixo foi uma excelente leitura e que, além de provocar reflexões, também tem um importante papel de conscientização quanto ao transtorno obsessivo-compulsivo. Encerro dizendo mais uma vez que, quando se trata se John Green, basta ver seu nome impresso na capa, pois é sinal de uma leitura enriquecedora. 

Título: Tartarugas Até Lá Embaixo
Autor: John Green
N.º de páginas: 269
Editora: Intrínseca
Exemplar cedido pela editora

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