Depois de “O Histórico Infame de Frankie Landau-Banks” (um livro divertido com uma protagonista cheia de personalidade) e “Mentirosos” (um suspense surpreendente) confiei que E. Lockhart me daria uma boa experiência com seu novo livro, “Fraude Legítima”. Confiei sem nem ler sinopse.
Imogen e Jule são boas amigas. Se parecem fisicamente, mas vivem em realidades opostas. Imogen, filha adotiva de um casal rico, quer sua liberdade mais do que qualquer coisa que os pais sonhem para ela. Jule é uma moça sem família, determinada a fugir do passado e ser quem quiser ser no futuro. Mas desde que Imogen decidiu cometer suicídio pulando de uma ponte, as coisas tem sido complicadas para Jule.
A história é contada de trás para frente. No primeiro capítulo, vemos Jule sozinha em um hotel luxuoso no México, mentindo sobre si mesma, sem que tenhamos ideia do porquê. Aos poucos as cortinas vão se abrindo, mas quanto mais vemos sobre as duas amigas, menos certezas temos. A cada semana que retrocedemos, as verdades vão se contorcendo, e tudo que acreditamos ser verdadeiro nos primeiros capítulos vai adquirindo novos contornos. Não sabemos no que reside o suspense porque não sabemos qual é a resposta que procuramos, tampouco qual a pergunta que nos move. Isso porque a autora desenvolve a história de forma que não sabemos em que terreno estamos pisando, apenas que ela está nos levando mais e mais fundo.
Assim como em "Frankie Landau-Banks", Lockhart dá vida a personagens femininas cheias de atitude. A princípio, é Imogen quem intriga. Devido ao suicídio, demora alguns capítulos até que a encontremos. Até lá, tudo o que temos são as lembranças de Jule e não sua verdadeira personalidade. Mas conforme a trama se desenrola fica evidente que Jule é a personagem complexa dentre as duas. Ainda mais enigmática e imprevisível que sua amiga. Quanto mais a trama retrocede, mais descobrimos camadas dessas duas mulheres (suas personalidades e seus históricos de vida) e dessa amizade que talvez não seja exatamente como acreditávamos que era. Difícil saber se gostamos ou odiamos essas mulheres.
“Não tinha mais certeza de onde traçar a linha entre elas. Jule usava perfume de jasmim como Imogen, falava como Imogen, amava os livros que Imogen amava. Aquelas coisas eram verdadeiras. Jule era órfã como Immie, uma pessoa que se inventou sozinha, com um passado misterioso. Havia tanto de Imogen em Jule, e tanto de Jule em Imogen. (LOCKHART, 2017, p.114)
Durante toda a leitura, estive desconfiada de que sabia o que estava por vir. Isso não se concretizou, mas fiquei me perguntando se a autora quis brincar com o leitor, o fazendo acreditar que sabia qual poderia ser a reviravolta da trama, quando na verdade era algo bem diferente que o aguardava.
Sobre o desfecho, confesso que esperava mais. Não tanto pelo que acontece, mas porque o ápice da história (pelo menos para mim) acontece alguns capítulos antes do final. O que vem depois é apenas o necessário para preencher as lacunas.
Também não posso deixar de comentar que a história me remeteu a "O Talentoso Ripley". Por isso, não me surpreendeu que em seus agradecimentos a autora tenha citado o clássico de Patrícia Highsmith como uma influência para a história de Imogen e Jule.
Li "Fraude Legítima" em um único dia. Sem desespero de chegar ao final, mas também sem forçar um volume de leitura. Isso prova que a história é capaz de manter o interesse e que Lockart entrega uma narrativa envolvente. Um bom livro, e provavelmente o mais ambicioso da autora, embora para mim tenha sido a mais fraca das três experiências. Ainda assim, na próxima vez que vir o nome de E.Lockhart na capa, vou confiar mais uma vez.
Autora: E.Lockhart
N° de páginas: 280
Editora: Seguinte
Exemplar cedido pela editora
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