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sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

RESENHA: Fraude Legítima

Fraude Legítima - E.Lockhart
Depois de “O Histórico Infame de Frankie Landau-Banks” (um livro divertido com uma protagonista cheia de personalidade) e “Mentirosos” (um suspense surpreendente) confiei que E. Lockhart me daria uma boa experiência com seu novo livro, “Fraude Legítima”. Confiei sem nem ler sinopse.

Imogen e Jule são boas amigas. Se parecem fisicamente, mas vivem em realidades opostas. Imogen, filha adotiva de um casal rico, quer sua liberdade mais do que qualquer coisa que os pais sonhem para ela. Jule é uma moça sem família, determinada a fugir do passado e ser quem quiser ser no futuro. Mas desde que Imogen decidiu cometer suicídio pulando de uma ponte, as coisas tem sido complicadas para Jule.

A história é contada de trás para frente. No primeiro capítulo, vemos Jule sozinha em um hotel luxuoso no México, mentindo sobre si mesma, sem que tenhamos ideia do porquê. Aos poucos as cortinas vão se abrindo, mas quanto mais vemos sobre as duas amigas, menos certezas temos. A cada semana que retrocedemos, as verdades vão se contorcendo, e tudo que acreditamos ser verdadeiro nos primeiros capítulos vai adquirindo novos contornos. Não sabemos no que reside o suspense porque não sabemos qual é a resposta que procuramos, tampouco qual a pergunta que nos move. Isso porque a autora desenvolve a história de forma que não sabemos em que terreno estamos pisando, apenas que ela está nos levando mais e mais fundo.

Assim como em "Frankie Landau-Banks", Lockhart dá vida a personagens femininas cheias de atitude. A princípio, é Imogen quem intriga. Devido ao suicídio, demora alguns capítulos até que a encontremos. Até lá, tudo o que temos são as lembranças de Jule e não sua verdadeira personalidade. Mas conforme a trama se desenrola fica evidente que Jule é a personagem complexa dentre as duas. Ainda mais enigmática e imprevisível que sua amiga. Quanto mais a trama retrocede, mais descobrimos camadas dessas duas mulheres (suas personalidades e seus históricos de vida) e dessa amizade que talvez não seja exatamente como acreditávamos que era. Difícil saber se gostamos ou odiamos essas mulheres.

“Não tinha mais certeza de onde traçar a linha entre elas. Jule usava perfume de jasmim como Imogen, falava como Imogen, amava os livros que Imogen amava. Aquelas coisas eram verdadeiras. Jule era órfã como Immie, uma pessoa que se inventou sozinha, com um passado misterioso. Havia tanto de Imogen em Jule, e tanto de Jule em Imogen. (LOCKHART, 2017, p.114)

Durante toda a leitura, estive desconfiada de que sabia o que estava por vir. Isso não se concretizou, mas fiquei me perguntando se a autora quis brincar com o leitor, o fazendo acreditar que sabia qual poderia ser a reviravolta da trama, quando na verdade era algo bem diferente que o aguardava.

Sobre o desfecho, confesso que esperava mais. Não tanto pelo que acontece, mas porque o ápice da história (pelo menos para mim) acontece alguns capítulos antes do final. O que vem depois é apenas o necessário para preencher as lacunas.

Também não posso deixar de comentar que a história me remeteu a "O Talentoso Ripley". Por isso, não me surpreendeu que em seus agradecimentos a autora tenha citado o clássico de Patrícia Highsmith como uma influência para a história de Imogen e Jule.

Li "Fraude Legítima" em um único dia. Sem desespero de chegar ao final, mas também sem forçar um volume de leitura. Isso prova que a história é capaz de manter o interesse e que Lockart entrega uma narrativa envolvente. Um bom livro, e provavelmente o mais ambicioso da autora, embora para mim tenha sido a mais fraca das três experiências. Ainda assim, na próxima vez que vir o nome de E.Lockhart na capa, vou confiar mais uma vez.

Título: Fraude Legítima
Autora: E.Lockhart
N° de páginas: 280
Editora: Seguinte
Exemplar cedido pela editora 

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quarta-feira, 12 de novembro de 2014

RESENHA: Mentirosos

“Você entende, Cady? O silêncio é uma camada protetora sobre a dor.” (LOCKHART, 2014, p.43)

Descobri “Mentirosos” em uma das minhas pesquisas pela Amazon e fiquei imediatamente interessada. Primeiro, pela sinopse em si; segundo, por ser um livro de E.Lockhart (autora de “O Histórico Infame de Frankie Landau-Banks”, leitura que gostei muito no ano passado); terceiro, pelos inúmeros elogios que o livro recebeu, inclusive de ninguém mais, ninguém menos que John Green. Para a minha alegria, a Editora Seguinte (que tem caprichado na escolha de títulos YA) já havia adquirido os direitos de publicação da obra no Brasil.

A família Sinclair preza pelas tradições acima de tudo. Uma delas é os filhos e netos do patriarca Harris passarem o verão na ilha Beechwood onde a família tem quatro casas. Cadence – neta mais velha e, portanto, principal herdeira –, seus primos Jhonny e Mirren cresceram dividindo verões e aventuras na ilha e, juntamente com o amigo Gat, ganharam o apelido de Mentirosos. Os quatro são inseparáveis e, ao longo dos anos, Cadence e Gat vêem sua amizade caminhar para algo mais. Porém tudo muda no verão dos quinze anos do quarteto quando Cadence sofre um acidente que a afasta da ilha por dois anos. Ela não lembra o que aconteceu e ninguém se esforça para fazer com que se recorde. Tudo que ela sabe é que a amnésia veio acompanhada de insuportáveis dores de cabeça e de um período de depressão. Quando ela volta para ilha, sua intenção é juntar as peças do quebra-cabeça e descobrir o que lhe aconteceu.

A princípio, “Mentirosos” parece ser uma simples história que gira em torno dos verões da adolescência, das aventuras e amores típicos dessa idade, mas aos poucos se revela um suspense familiar, apresentando uma trama que consegue se adequar a dois gêneros dificilmente associados um ao outro (enfoque esse que talvez seja o principal responsável por diferenciar “Mentirosos” dos outros livros do gênero que consagrou sua autora).

Narrando em primeira pessoa, pela perspectiva de Cadence, Lockhart apresenta uma escrita fluida e cativante que alia metáforas inteligentes a frases objetivas que tanto enriquecem como agilizam a leitura. Dessa forma, se torna muito fácil se envolver com a história dos Sinclair pelo simples fato de que não se tem vontade de largar o livro.

Algo que, a meu ver, deu um toque especial à narrativa foi os paralelos com contos de fadas – várias versões de uma história sempre enraizadas nos mesmos fatos. Outro recurso bem empregado pela autora foi o intercalar de verões, o que contribuiu para aumentar o suspense sobre o que aconteceu no “Verão dos 15” e como as lembranças soltas da protagonista irão se encaixar.

O núcleo adolescente é o responsável por cativar o leitor. O destaque fica para Cadence, uma menina apaixonada, agora atormentada pelas coisas que esqueceu; e Gat, o forasteiro que vê os Sinclair por quem são e não por quem foram criados a acreditar que são. Já os adultos se mostram contaminados por uma visão de mundo que se propaga há gerações e que valoriza as posses e as tradições acima dos relacionamentos, os levando a acreditar que ser um Sinclair é mais importante do que ser a pessoa que se é.

Muitas vezes tive a sensação de que a história não estava sendo de fato contada e sim cada vez mais escondida, mas que se eu buscasse enxergar, veria todos os elementos estavam ali (ao melhor estilo dos bons romances policiais). Para a minha satisfação era exatamente isso, com exceção de que eu não passei nem perto de encontrar as respostas e fui pega completamente de surpresa pela revelação. E foi assim que o clima da minha leitura mudou. A partir do momento em que Cadence consegue juntar as peças sobre o fatídico verão, eu me vi lendo página por página, ao mesmo tempo em que a história toda passava em retrospecto pela minha cabeça e só então eu enxergava tudo que devia ter enxergado antes, gerando aquela deliciosa sensação de ter sido bem manipulada por uma boa autora e uma boa trama. E então, no instante em que fechei o livro, a minha vontade foi rele-lo. Eram tantos detalhes que eu só percebia naquele momento, que quanto mais eu pensava sobre eles, mais conexões e respostas encontrava. “O que mais estou deixando escapar?”, eu me perguntava. E você não vai ficar mais surpreso do que eu fiquei quando, uma hora depois de haver concluído a leitura, eu a começava novamente. Assim, essa resenha é feita com base em duas leituras que me permitem dizer com segurança que Lockhart arma muito bem o espetáculo que “Mentirosos” se revela e faz desse um ótimo livro (daquele tipo que deixa você querendo comentar ele com alguém, mas temeroso de dar spoiler e estragar a experiência da pessoa).

Uma história sobre o que se esconde por trás das dinâmicas familiares, sobre a diferença entre fazer o que é o certo e o que lhe é esperado, sobre escolhas e consequências. Uma história de amor, amizade e aceitação protagonizada personagens humanos que, por vezes, não gostam de ser quem são.

Título: Mentirosos (exemplar cedido pela editora)
Autora: E.Lockhart
Nº de páginas: 271
Editora: Seguinte
 

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