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sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Conversa de Contracapa # 31

Conversa de Contracapa é coluna off topic do blog Além da Contracapa. Sem limitação temática, iremos explorar todo e qualquer assunto relacionado ao mundo da literatura. 

Em novembro, a Editora Intrínseca lançou Unidos Somos Um, último livro da série Os Legados de Lorien. E para comemorar a conclusão da saga, fomos convidados a participar da Semana Especial de posts relacionados ao universo da série. Como li o primeiro livro no início de 2013, ou seja, há quase quatro anos, achei que seria interessante fazer um balanço geral da série. Para quem ainda não leu algum livro, fique tranquilo: o post é livre de spoilers. 

O primeiro fator que destaco é a narrativa de Pittacus Lore, que consegue fazer o leitor mergulhar completamente na obra e se desligar do mundo ao seu redor. Para se ter uma ideia de quão envolvente o texto de Lore é, dos sete livros que compõe a saga li três deles em menos de vinte e quatro horas. 

Além da narrativa, é preciso elogiar a originalidade do autor. Já falei em várias resenhas como é surpreendente a mistura de gêneros que vemos em Os Legados de Lorien. Mesmo sendo, predominantemente, uma série de ficção científica, também há elementos de young adult, aventura, drama e suspense. Apesar da combinação parecer um pouco excêntrica, o resultado é fantástico.

Apesar da originalidade, é preciso mencionar que a saga também tem seus clichês, especialmente nos dois primeiros livros. Entretanto, creio que a partir do terceiro livro a estória se torna mais robusta — pois o enfoque é no conflito como um todo e não em tramas individuais —, se tornando menos dependente de artifícios daquele tipo.

Um dos pontos que me incomodou bastante no início da leitura da série foi a personalidade imatura de John. O protagonista aparentava ter uma incapacidade crônica de entender o que estava em jogo, bem como de prever as consequências que suas ações impensadas poderiam provocar. Felizmente, seu amadurecimento ao longo da série é palpável. Aliás, a evolução dos personagens é surpreendente, sendo impossível não reparar como esta jornada os afetou profundamente, tornando-os pessoas diferentes daquelas que conhecemos nos primeiros livros.

Quem olha para a série e acha que os sete livros podem ser desnecessários para o desenvolvimento da estória, garanto que este não é o caso. Cada livro tem seu propósito, não estando ali apenas para enrolar o leitor. E mais: a trama é perfeitamente concatenada, mostrando que o autor sabia desde o início que estória tinha para contar e qual rumo iria seguir.

Apesar de ser uma escolha difícil, creio que O Destino da Número Dez seja o livro da série que mais gosto. Essa escolha se deve não apenas ao enfoque na minha personagem preferida, Ella, mas também pela quantidade de respostas que o autor fornece. Foi apenas neste livro que me dei conta de como o universo da série é riquíssimo, e não por menos haverá um spin-off: Lorien Legacies Reborn. 

Quando encerrei a leitura do último livro, percebi que Os Legados de Lorien não se trata apenas de uma série de entretenimento. Temas como amizade, amor, sacrifício, lealdade, identidade, perda, e tantos outros são abordados de forma sútil e reflexiva. Ou seja, mais do que acompanhar as aventuras de adolescentes com superpoderes, a saga conta com uma mensagem profunda por trás de toda ação.

Encerro esse balanço reconhecendo que não tinha grandes expectativas quando dei início a leitura da saga, imaginando que seria uma leitura leve, despretensiosa e divertida. No fim das contas, a saga Os Legados de Lorien superou minhas expectativas e se mostrou uma das melhores séries que acompanhei nestes últimos anos.


quarta-feira, 23 de novembro de 2016

RESENHA: Unidos Somos Um

“— Só espero que ainda reste algo das pessoas que costumávamos ser, que reste algo de nós para reconstruir, quanto tudo isso acabar — declara Marina.
— Também espero — admito.” (LORE, 2016, p. 120). 

***

ATENÇÃOa sinopse (parágrafo abaixo) CONTÉM SPOILERS do livro anterior. O restante da resenha é SPOILER FREE. 

Setrakus Rá foi gravemente ferido e agora a Garde tem apoio do governo americano para liderar uma ofensiva contra os mogadorianos. Mas as baixas foram de ambos os lados e John, embora devastado, não se permite prantear a morte de Sarah antes de chegar ao fim. Enquanto o inimigo convalesce, os preparativos são intensos e audaciosos. Mas agora é a hora: o Adorado Lider Mogadoriano pretende colonizar a terra e sobrepujar a raça humana. E nada impedirá a Garde de pôr um fim aos planos de Setrakus Rá. 

E chegamos ao fim da série Os Legados de Lorien. Mais uma vez, a narrativa de Lore é inebriante e envolve o leitor completamente na trama, sendo quase impossível interromper a leitura. Desta vez, acompanhamos apenas os pontos de vista de John e Seis, o que se mostrou uma decisão acertada, visto que o foco de ação era mais restrito. Ainda assim, confesso que gostaria de ter visto o ponto de vista de Ella mais uma vez, pois esta se mostrou uma das personagens mais interessantes da saga. 

E falando nisso, o que mais me impressionou em Unidos Somos Um foi justamente a evolução e o amadurecimento de todos os personagens. Olhando para a jornada deles, suas lutas e perdas, vemos que as cicatrizes são muito mais profundas do que aquelas provocadas nas batalhas. E apesar de todos os sacrifícios necessários na batalha contra Setrakus Rá e o Progresso Mogadoriano, é incrível perceber a humanidade que há em cada um deles. 

Diferentemente do livro anterior, O Destino da Número Dez, que foi responsável por fornecer uma variada gama de respostas sobre todo o universo da saga, o foco de Unidos Somos Um é o confronto final entre Setrakus Rá e a Garde. Na mesma medida em que a Garde, sobretudo John, desenvolveu seus Legados ao máximo; Setrakus Rá também aperfeiçoou seus poderes, tornando a batalha ainda mais intensa e empolgante. 

E empolgante seria a melhor palavra para descrever o final. A cada página, Lore consegue aumentar ainda mais os níveis de adrenalina, em um confronto de tirar o fôlego. Entretanto, é aqui que também reside minha única crítica: as cenas finais me pareceram um tanto anticlimáticas. A meu ver, o que deveria ter sido o grande ápice acabou sendo um pouco decepcionante. Entretanto, ressalto que isto não foi o suficiente para ofuscar a obra. 

Encerrada a leitura do último livro, fica claro não apenas que o autor sabia desde o início quais seriam os rumos da estória, mas também que os sete livros foram necessários para desenvolvê-la, de forma a explorar todos os seus ângulos e amarrar todas as pontas da trama. 

Já disse e repito: Os Legados de Lorien conseguiu fazer uma curiosa e bem sucedida combinação de ficção científica, aventura e young adult. Mais do que uma série sobre alienígenas adolescentes com poderes, Os Legados de Lorien fala sobre pessoas que abraçam suas verdadeiras identidades, descobrem a amizade, o amor e a perda, e que resistem ao mal com todas as forças. Unidos Somos Um encerrou com a chave de ouro uma série original e que deixará saudades. 

Felizmente, a série já tem um spin-off confirmado: Lorien Legacies Reborn. O primeiro livro da nova saga, Generation One, está previsto para junho de 2017. 

Título: Unidos Somos Um (exemplar cedido pela editora)
Autor: Pittacus Lore
N.º de páginas: 351
Editora: Intrínseca

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

RESENHA: O Destino da Número Dez

“— Eles não sabem que eu não tenho ideia do que estou fazendo. Não sei como lutar uma batalha dessa proporção. Nove está desaparecido, Ella foi capturada e está basicamente sendo torturada, não sei por que Seis e os outros estão demorando tanto para voltar do Santuário [...]. Enquanto isso, há vinte e cinco naves de guerra sobre vinte e cinco diferentes cidades.” (LORE, 2015, p. 132). 

***

ATENÇÃOa sinopse (parágrafo abaixo) CONTÉM SPOILERS do livro anterior. O restante da resenha é SPOILER FREE. 

A invasão mogadoriana teve início e agora Setrákus Ra exige que todos os líderes da Terra se curvem ao seu domínio. Mas agora a Garde não está mais sozinha: quando estavam no Santuário, Seis, Marina e Adam liberaram um poder que distribuiu legados aos seres humanos. O último obstáculo é resgatar Ella das mãos do líder mogadoriano e quebrar o feitiço que une as vidas deles, caso contrário, não será possível matar um sem matar o outro. 

Fica claro desde o início que O Destino da Número Dez é o começo do fim. Não apenas por ser o penúltimo livro da série, mas por começar a amarrar as pontas da trama, fornecendo respostas aos leitores. Aliás, creio que o fator mais marcante do sexto livro são as explicações sobre Lórien, os legados e a origem da batalha contra Setrákus Ra. 

A narrativa divide-se entre os pontos de vista de John, Seis e Ella, contando com um foco de ação mais restrito. Apesar disso, não faltam momentos de tensão e adrenalina ao longo da trama, bem como reviravoltas eletrizantes. Mais uma vez, a narrativa de Lore conta com um ritmo intenso, acelerado e envolvente, mesmo nos capítulos iniciais, quando há poucos acontecimentos.  

Como não poderia deixar de ser, quem rouba as luzes do palco neste livro é Ella, que apesar de ainda ser uma criança, se vê ligada pessoalmente a Setrákus Ra, presa em meio ao fogo cruzado. Ao mesmo tempo em que é empolgante ver Ella descobrindo novos legados, também é angustiante ver o sofrimento pelo qual ela passa, sendo impossível não se impressionar com sua evolução e amadurecimento. 

Apesar do desfecho não contar com um cliffhanger bombástico como foi o caso de alguns dos livros anteriores, O Destino da Número Dez certamente prepara o caminho para o último livro da série, prometendo não apenas uma batalha épica, mas também uma montanha-russa de emoções. 

Comentei na resenha de A Vingança dos Sete que não via a necessidade de mais dois livros para completar a série, porém, reconheço que estava enganado. O Destino da Número Dez tem estória própria, não se tratando de apenas uma ponte para o último livro. Além disso, fica claro que o autor tinha a estória bem planejada e que não a espichou desnecessariamente. 

O Destino da Número Dez é o tipo de livro que, ao encerrar a leitura, te deixa um pouco abalado, ainda absorvendo todas as informações, bem como conjecturando sobre os rumos que a estória irá tomar. Encerro dizendo que o sexto volume não decepciona e aumentou ainda mais minha expectativa para United as One, o último volume da série Os Legados de Lorien. 

United as One será lançado nos Estados Unidos em 28 de junho de 2016. 

Título: O Destino da Número Dez (exemplar cedido pela editora)
Autor: Pittacus Lore
N.º de páginas: 316
Editora: Intrínseca

sábado, 25 de julho de 2015

RESENHA: A Vingança dos Sete

“Imagino como será quando nos reencontrarmos, como será quando Setrákus Ra for derrotado e os mogadorianos forem expulsos para o frio espaço sideral. Imagino o futuro e abro um sorriso sombrio. Só existe uma forma de fazer isso acontecer. 
É hora de lutar.” (LORE, 2014, p. 39)

***

A série Os Legados de Lorien tem se mostrado uma jornada e tanto. A cada novo livro encontramos aventuras de tirar o fôlego, e em A Vingança dos Sete, quinto volume da saga, Pittacus Lore entrega mais uma obra empolgante. 

ATENÇÃOa sinopse (parágrafo abaixo) CONTÉM SPOILERS do livro anterior. O restante da resenha é SPOILER FREE. 

Após a traição de Cinco, a destruição da base em Chicago e o sequestro de Ella, a Garde precisa se reorganizar, e dessa vez conta com um auxilio inesperado, Adam, um mogadoriano que não concorda com as ações de seu povo. Agora, a nova estratégia é atacar o inimigo onde ele menos espera e se preparar para a próxima jogada de Setrákus Ra: a invasão da Terra. 

A característica mais marcante de A Vingança dos Sete é sua quantidade de respostas e novas informações, o que já era esperado considerado que estamos na reta final da série. Neste volume, Lore investe no desenvolvimento de seu vilão, Setrákus Ra, de modo a permitir que o leitor conheça um pouco mais de sua origem e suas motivações. 

Quanto aos membros da Garde, merecem destaque Marina, Ella e Cinco. É interessante ver como eles reagem aos acontecimentos do último livro, vendo novas facetas de suas personalidades aflorarem. 

Dessa vez, a narrativa fica a cargo de John, Seis e Ella, e mais uma vez o autor mostra sua habilidade e precisão em fazer as alterações de ponto de vista, de modo a deixar o leitor em um estado de permanente curiosidade. Tal efeito é potencializado pela ação ininterrupta, pois em algum núcleo da estória sempre haverá alguma reviravolta que fará seu coração pulsar mais rápido. 

Ainda me impressiono com a capacidade de Lore em fazer o leitor mergulhar completamente na estória e esquecer do mundo a sua volta. Para se ter uma ideia, li A Vingança dos Sete em cerca de dezoito horas, parando apenas para dormir, comer e tomar banho, tamanha era minha ânsia em continuar a leitura. 

O desfecho se divide em duas linhas de ação, e enquanto uma era bastante esperada, a outra se mostrou imprevisível, e suas consequências certamente serão determinantes para o desenrolar da estória. Apesar da surpresa, admito que nunca imaginei que o autor fosse seguir por este rumo.

Ao findar da leitura, fui pesquisar sobre o próximo livro e descobri que a série contará com mais dois volumes, enquanto eu aguardava por apenas mais um. Me surpreendi com a descoberta, pois não me parece que há necessidade de mais dois livros para o encerramento da estória. 

A Vingança dos Sete é como andar em uma montanha russa: emocionante do início ao fim, seja pelo amadurecimento dos personagens, seja pelas revelações e reviravoltas, seja pela ação contínua. 

The Fate of Ten, o sexto e penúltimo volume da série, será lançado nos Estados Unidos em setembro deste ano. 

Título: A Vingança dos Sete (exemplar cedido pela editora)
Autor: Pittacus Lore
N.º de páginas: 285
Editora: Intrínseca 

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

RESENHA: A Queda dos Cinco

“Entro no beco e vou direto até os mogadorianos. Seus olhos vazios se voltam para mim ao mesmo tempo. Por um instante, aquele velho e familiar calafrio me percorre, a sensação de ser um fugitivo. Eu o espanto; desta vez, escolho lutar em vez de fugir.” (LORE, 2013, p. 212).

***

Após os eventos auspiciosos do terceiro livro da saga Os Legados de Lorien, estava com a expectativa em alta para o volume seguinte, A Queda dos Cinco. Para minha satisfação, a expectativa não foi apenas alcançada, mas completamente superada. 

ATENÇÃOa sinopse (parágrafo abaixo) CONTÉM SPOILERS do livro anterior. O restante da resenha é SPOILER FREE. 

Os lorienos se reuniram e agora só falta encontrarem o Número Cinco. Mas se apreenderam alguma coisa com a última batalha, é que não estão prontos para a guerra com os mogadorianos, tampouco para derrotar seu líder supremo. Agora chegou a hora de treinarem, de desenvolverem seus legados, de apreenderem a trabalhar em equipe e de planejarem os próximos passos com cautela. 

Já mencionei o quanto a narrativa de Pittacus Lore é envolvente, e desta vez não foi diferente. Com três pontos de vista distintos, mas complementares, a estória é narrada em primeira pessoa por personagens-chaves, que possuem vozes marcantes e inconfundíveis. Diferentemente dos livros anteriores, a troca de ponto de vista acontece com menos frequência, deixando a narrativa menos picotada, condensando os eventos em sessões maiores. 

Como sempre, o autor sabe fazer uma sucessão de eventos empolgantes e que se tornam ainda mais empolgantes à medida que a estória avança. Esta ascensão, sempre marcada por muita ação, tensão e adrenalina, culmina em um final imprevisível e de tirar o fôlego. Para a minha surpresa, li o livro apenas em dezoito horas, e tenho certeza de que teria terminado antes se não tivesse outros afazeres. 

Apesar do livro ser uma mescla entre aventura e ficção científica, o autor soube dosar com perfeição outros elementos, como romance e drama, sem deixar de lado momentos mais descontraídos e engraçados, arrancando risadas do leitor. 

A evolução dos personagens é tremenda, pois todos, sem exceção, mostram sinais de amadurecimento e compreendem a situação em que se encontram. Finalmente minha crítica constante sobre a irresponsabilidade de John/Número Quatro deixa de existir, visto que o protagonista se conscientizou de sua missão e do perigo que suas ações impensadas podem acarretar. 

As interações dos personagens também foram bem desenvolvidas, pois  Lore aproveita os conflitos, receios e desejos de cada um para fortalecer as relações entre eles. Além disso, agora que estão unidos, a busca por respostas é maior do que nunca, então vemos os lorienos levando a sério não apenas seu treinamento, mas também a necessidade de descobrirem mais sobre si mesmos, seus legados e seus destinos. 

Como este livro ostenta o logotipo “Full Fathom Five” na contracapa, a curiosidade me instigou a pesquisar sobre o que se tratava. Foi então que descobri que James Frey, um dos autores da saga que escreve sob o pseudônimo de Pittacus Lore, fundou uma empresa, a "Full Fathom Five", que consiste em uma “fábrica de escrever livros” (book-writing factory). 

A justificativa de Frey é de que há muitas estórias que deseja contar e lhe faltaria tempo para escrevê-las, de modo que optou pela parceria com jovens escritores, supervisionando o trabalho destes. Jobie Hughes, coautor do primeiro livro, abandonou o projeto por discordar das regras de Frey. Não encontrei a informação sobre a autoria dos demais livros, se Frey continua com apenas um coautor, se os substitui a cada livro, ou se optou por trabalhar em equipe. Seja qual for a resposta, o fato é que a saga mantém-se coesa e coerente, e independentemente de quem seja a mente por trás das obras, não se percebe nenhuma mudança no estilo narrativo, tampouco falhas na trama. 

Controvérsias a parte, A Queda dos Cinco é, sem sobra de dúvidas, o melhor livro da série e seu único defeito é ser curto demais. Mais uma vez, os ganchos deixados para a sequência são promissores, e mal possa esperar para conferir A Vingança dos Sete

Título: A Queda dos Cinco (exemplar cedido pela editora)
Autor: Pittacus Lore
N.º de páginas: 287
Editora: Intrínseca 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

RESENHA: A Ascensão dos Nove

“Mas, na verdade, eu era uma mentirosa. É irônico. Mentir era tudo o que eu havia feito desde que chegara à Terra. Meu nome, minha origem, onde meu pai estava, por que eu não podia dormir na casa de outra menina... mentir era tudo o que eu sabia, era o que me mantinha viva.” (LORE, 2012, p. 12)

***

A Ascensão dos Nove era uma das minhas leituras mais aguardadas desse ano, e mesmo ocupando o quinto lugar na minha lista de Expectativas Literárias para 2014, o terceiro volume da saga Os Legados de Lórien me surpreendeu do início ao fim.

ATENÇÃOa sinopse (parágrafo abaixo) CONTÉM SPOILERS do livro anterior. O restante da resenha é SPOILER FREE. 

Número Seis, Marina/Número Sete e Ella, a até então desconhecida décima loriena enviada a terra, partem rumo a Índia para seguir os rumores de um provável membro de sua tropa. Nos Estados Unidos, John/Número Quatro e Número Nove se recuperam da última batalha e discutem quais serão seus próximos passos. Enquanto isso, a perseguição implacável dos mogadorianos continua. 

Creio que A Ascensão dos Nove pode ser considerado o turning point (ou momento de virada, se você preferir) da série, pois me parece que começamos a nos afastar de estórias e eventos isolados referentes a cada lorieno enviado a Terra, para vermos a saga como um todo. E isto não seria possível sem a entrada de novos personagens, que trouxeram um novo fôlego a série. 

Outro fator que merece destaque é que o autor não enrola, sendo que logo nos primeiros capítulos a ação já começa. Além da ação crescente, as reviravoltas e a narrativa ágil e dinâmica fazem com que seja difícil interromper a leitura. Para vocês terem uma ideia, comecei a ler A Ascensão dos Nove na quarta à noite e encerrei a leitura na madrugada de quinta para sexta.

Juntando-se a John/Número Quatro e Marina/Número Sete, que eram os narradores de O Poder dos Seis, desta vez também contamos com o ponto de vista da Número Seis. E mesmo que a narrativa seja em primeira pessoa, cada personagem tem personalidades tão distintas que suas vozes se tornam inconfundíveis.  

Já critiquei inúmeros autores por insistirem em usar múltiplos pontos de vista sem saber como utilizar corretamente tal recurso. Além de ser necessário que cada narrador tenha uma voz marcante e de que exista uma real necessidade para utilizar múltiplos pontos de vista, é fundamental que o autor saiba utilizar os cortes na narrativa em seu favor, fazendo com que o leitor fique em um estado contínuo de curiosidade sobre o que está acontecendo nos demais ângulos da estória. Em todos os aspectos que se analise, Lore acertou em cheio.  

Como já disse nas resenhas anteriores, não gosto de John/Número Quatro, tendo em vista sua personalidade impulsiva e sua linha de raciocínio adolescente. Felizmente (e já era sem tempo), John começa a mostrar sinais de amadurecimento, o que atribuo ao convívio com o Número Nove, um lorieno muito mais “pé-no-chão” e consciente de suas responsabilidades.  

Minha única crítica ao livro é que fiquei com a impressão de que o fator sorte parece estar ao lado dos lorienos com uma certa frequência, o que acaba por deixar o leitor com a sensação de que alguns “problemas” foram resolvidos com muita facilidade. De toda forma, não é nada que afete o envolvimento com a estória ou que retire o seu brilho. 

Com altas doses de adrenalina e tensão, A Ascensão dos Nove se mostrou o melhor livro da saga até o momento, e fiquei extremamente empolgado para as continuações, que prometem serem ainda melhores e mais imprevisíveis do que nunca. 

Livro: A Ascensão dos Nove
Autor: Pittacus Lore
N.º de páginas: 287
Editora: Intrínseca

sábado, 13 de setembro de 2014

Quem vem para o jantar? # 22

"Quem vem para o jantar?" é a coluna mensal do Além da Contracapa em que um jantar fictício se torna a ocasião em que personagens e autores interagem em encontros inusitados. 

Há meses planejávamos a festa do nosso aniversario de três anos. As histórias sobre os encontros históricos dos aniversários anteriores já circulavam no universo literário e muitos dos nossos convidados em potencial manifestavam interesse em comparecer. 

Um deles foi George R.R. Martin. Nos sentimos honrados com o interesse do escritor, porém, usando de muita diplomacia, encontramos um jeito de não convidá-lo. Entre nós, decidimos: É melhor deixá-lo em casa trabalhando no sexto livro. Se ele ficar indo em festas desse jeito, já pensou quando vai terminar a série? Além disso, todos sabemos o que Martin gosta de fazer com festas. Ainda assim, lhe mandamos uma mensagem carinhosa (e levemente chantagista):

Quando você terminar o último livro, sediaremos a festa em Westeros e você será o convidado de honra. 

Há algumas semanas, começamos a enviar os convites e foi com estranheza que recebemos inúmeras respostas de recusas. Eram as desculpas mais estapafúrdias vindas de pessoas que tinham tudo para inventar ótimos pretextos (afinal, é de inventar histórias que nossos convidados vivem). J.K. Rowling nos disse que fora informada que uma violenta espécie de gripe draconiana estava assolando a américa, enquanto Isaac Azimov alegou estar fazendo pesquisa de campo para seu próximo livro. E então uma das mensagens nos fez entender o porquê de tantas recusas (não revelaremos aqui o conteúdo para não entregar quem foi o autor), basta dizer que o local que escolhemos para sediar nosso tão aguardado evento estava assustando os nossos convidados (e eles ainda nem haviam chegado aqui!). Ora... e nós que pensamos que o Hotel Overlook seria, além de tudo, prático, já que os convidados poderiam se hospedar para passar a noite depois da festa e seguir para casa no dia seguinte. 

Mas já era tarde demais para mudar e muita gente interessante havia confirmado presença. 

Nossas primeiras convidadas chegaram juntas. Elas que nunca faltaram às nossas festas e nunca nos decepcionaram quando recorremos a elas como leitores: Agatha Christie e Jane Austen. Sabendo já serem “da casa”, ambas se ofereceram a ajudar nos bastidores do evento, mas recusamos a gentileza, pois queríamos que elas aproveitassem essa noite tanto quanto as outras.

E por falar nas outras noites, quem também faltou a nossa comemoração foi Michael Connelly, alegando que havíamos lido poucos livros dele nos últimos tempos. Uma pena, mas compreendemos já que realmente temos negligenciado o autor. Esperamos encontrar você ano que vem, Connelly. Entre nós, comentamos que Agatha e Jane poderiam ter usado o mesmo argumento e nos encheu de orgulho elas deixarem isso de lado e estarem conosco da mesma forma. Ambas sabem que não as esquecemos. É apenas a falta de tempo (não que isso aplaque nosso remorso).

Quem também chegou cedo foi Ernest Hemingway e foi logo pedindo pela localização do bar. Ele também nos disse que logo antes de sair de casa havia conversado com seu amigo de longa data F.Scott Fitzgerald que lhe dissera o quanto lamentava não vir a festa desse ano, pois a do ano passado havia sido “digna de Jay Gatsby”. 

Distraídos pelas poucas, porém precisas, palavras de Hemingway, não percebemos a presença de Guilhermo Del Toro e Chuck Hogan, que não apenas foram os primeiros a responder nosso convite, mas assim que chegaram começaram a explorar o hotel. Pelo que entendemos, os autores da Trilogia da Escuridão estavam empolgados com oportunidade de encontrar as meninas gêmeas que supostamente assombravam o local. Quando deram sua aventura por encerrada e retornaram à festa, narraram a empreitada:

— Estávamos no corredor do terceiro andar quando as luzes começaram a piscar, até apagarem por completo. — disse Del Toro, enquanto Hogan virava uma dose de tequila. — Ouvíamos murmúrios incompreensíveis e o ar parecia ficar mais frio a cada passo. 

Os convidados que ouviam a estória seguraram a respiração involuntariamente, enquanto Hogan continuava:

— De repente, um grito horripilante começou a ecoar. Vocês não ouviram daqui?

Todos menearam a cabeça, negativamente. O autor estava prestes a continuar sua narrativa, mas então Guilhermo não conseguiu mais segurar sua gargalhada:

— Não acredito que vocês caíram nessa. 

Todos pareciam estar se divertindo, mas estávamos preocupados. Nosso convidado de honra estava atrasado, o que era muito estranho sendo ele um suíço. Mas a partir do momento em que ele chegou, foi difícil distribuirmos a nossa atenção igualmente a todos os nossos maravilhosos convidados. Joel Dicker, como já fizera antes durante seu “A Verdade sobre o Caso Harry Quebert” soube nos envolver com suas palavras de maneira que esquecemos todo o resto. Eventualmente nos afastamos movidos por uma especial curiosidade em ver com quais autores Dicker interagiria já que seu livro mistura tantos gêneros tão habilmente.  

Não foi uma surpresa ver que o jovem autor buscou a companhia de Charles Dickens, dizendo ter adorado a jornada de Pip e que “Grandes Esperanças” era um de seus livros de cabeceira. Joel também confidenciou sua preocupação acerca da adaptação cinematográfica de seu livro, ao que Dickens retrucou:

— Nenhuma adaptação consegue suprir nossas expectativas. Se quer meu conselho, não assista e poupe-se do sofrimento. 

Não pudemos deixar de rir do comentário amargurado do escritor, visto que conferimos a malfadada série da BBC inspirada na obra. 

Deixamos Dicker se aconselhando sobre sua promissora carreira com o grande Dickens e fomos para outro canto do salão, onde encontramos o ancião Pittacus Lore falando com nostalgia sobre o planeta de Lorien para Richelle Mead e Suzanne Collins (que, por sua vez, não sentia falta alguma de Panem e estava muito bonita em um vestido desenhado por Cinna). Enquanto os autores se dedicaram a discutir os rumos da literatura fantástica, tivemos a impressão de ver um lírio discretamente tatuado no pescoço de Richelle. Curiosos e intrigados, tentamos averiguar se aquela seria a tatuagem que imaginávamos, mas a autora, ao perceber nosso interesse, jogou seu cabelo sobre o pescoço e piscou pra nós.

A noite estava querendo virar madrugada quando recebemos uma mensagem de um convidado que fez muita falta, mas não pode comparecer visto que na véspera fora sua própria festa de aniversário. Suas palavras eram inconfundíveis: 

“Lembrem-se de verificar a caldeira e aproveitem a festa. Nos vemos, qualquer dia desses, no escuro. Steve.”

Trocamos um olhar misto de divertimento e preocupação. Não custava nada verificar a caldeira...de novo. 

Agatha e Jane foram as primeiras a ir embora e Dickens fez questão de acompanhar as damas em segurança. Aos poucos, os outros convidados os seguiram, com exceção de Guilhermo e Chuck, que foram os únicos que aceitaram dormir no hotel. Esperamos que tenham sido deles os barulhos estranhos que ouvimos durante a noite.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Especial de Fim de Ano: Expectativa Literária 2014



Para encerrar o Especial de Fim de Ano, falamos um pouco sobre quais são os nossos livros mais desejados para 2014. Tivemos alguns problemas técnicos com a máquina, e por isso tivemos de trocar de câmera no final do vídeo (é o nosso segundo vídeo..ainda estamos pegando o jeito rsrs)

Esperamos que tenham gostado desse especial e nos digam quais são as maiores expectativas de vocês para 2014 e se assim como nós estão ansiosos para ler alguns dos livros que citamos. E não esqueçam de inscrever-se em nosso canal no YouTube.



Resenhas Citadas:

Eu Sou o Número Quatro - Pittacus Lore
O Poder dos Seis - Pittacus Lore
Marilyn e JFK - François Forestier
Branca Como o Leite, Vermelha Como o Sangue - Alessandro D'avenia
Criança 44 - Tom Rob Smith
Discurso Secreto - Tom Rob Smith
Garota Exemplar - Gillian Flynn
A Sombra do Vento - Carlos Ruis Zafón
Estrela do Diabo - Jo Nesbo
O Redentor - Jo Nesbo
Sob a Redoma - Stephen King

Outros posts citados:
Retrospectiva Literária: Melhores de 2012 - Lista da Mari
Lista de Releitura: Garganta Vermelha - Jo Nesbo
Conversa de Contracapa: Adaptação de Sob a Redoma
Retrospectiva Literária: Melhores de 2013

domingo, 24 de novembro de 2013

RESENHA: O Poder dos Seis

“Restam apenas seis de nós. Seis contra um número desconhecido deles. E nenhuma forma de sabermos como podemos nos encontrar. Somos a única esperança. A força dos números. O poder dos seis.” (LORE, 2011, p. 39)

***

O Poder dos Seis é o segundo livro da saga Os Legados de Lórien, iniciada por Eu Sou o Número Quatro. Após encontrar uma premissa original e criativa no primeiro livro da série, estava bastante curioso para saber o que seria guardado para sua continuação.

Após batalharem contra os mogadorianos, John, Sam e a Número Seis fogem de Paradise, e agora precisavam se preocupar não apenas com seus adversários, mas também com as autoridades norte americanas, que os consideram terroristas. Por sua vez, Marina, a Número Sete, está trancada em um convento na Espanha e — enquanto acompanha as notícias do garoto que imagina ser um dos lorienos pela internet — começa a desconfiar que seu paradeiro tenha sido encontrado.

A narrativa, em primeira pessoa, é dividida entre os pontos de vistas de John e Marina, e sempre que um "momento ápice" acontece com um dos protagonistas, o autor corta a narrativa, direcionando-a para o outro, mantendo o leitor no constante afã de desvendar o que está acontecendo. A editora, de maneira criativa, diferenciou os narradores utilizando fontes com diferenças gritantes, então no momento em que se começa a ler um novo capítulo, já se sabe quem é seu narrador.

John continua o mesmo adolescente imaturo, irresponsável e arrogante do livro anterior. Se ele fosse um adolescente qualquer, até aceitaria suas atitudes impensadas pelo simples fato de ele ser adolescente. Porém, as circunstâncias continuam a exigir mais maturidade, sendo ele incapaz de medir as conseqüências de suas ações. 

Felizmente, os demais personagens, como Sam, a Número Seis e Marina tem consciência do que está em jogo, e não agem de forma tão amadora como John. Além disso, creio que todos eles têm mais carisma e personalidade que o protagonista, e com certeza despertam a empatia do leitor.  

Apesar de faltar um pouco de ação no início da obra, da metade para o final o leitor é bombardeado com novas informações, revelações inesperadas e batalhas de tirar o fôlego. Ainda assim, o início mais vagaroso não impede o envolvimento do leitor, que se sente tragado desde o primeiro capitulo.

Neste volume surge um previsível e desnecessário triângulo amoroso (que é quase um quadrilátero, na verdade), que não empolgou, nem convenceu. Ainda assim, O Poder dos Seis é a prova de que a inusitada mistura de aventura, ficção cientifica e Young Adult, funciona muito bem, desde que conte com um autor competente. E isto Pittacus Lore já demonstrou cabalmente. 

Como esperado, o final do livro deixa uma gama de ganchos para o terceiro livro da série, A Ascensão dos Nove, que promete altas doses de emoção e adrenalina.

Título: O Poder dos Seis (exemplar cedido pela editora)
Autor: Pittacus Lore 
N.º de páginas: 319
Editora: Intrínseca

domingo, 19 de maio de 2013

RESENHA: Eu Sou o Número Quatro

“Respiro fundo, e nessa inspiração levo outras coisas para dentro de mim. Raiva. Determinação. Esperança e medo. Eu os deixo entrar, sinto cada um deles. Depois tomo impulso, corro e entro na casa.” (LORE, 2011, p. 251)

***

Sempre li comentários positivos sobre a série Os Legados de Lórien, porém, por algum motivo desconhecido estava com um pé atrás para iniciar a leitura da saga. A sinopse não me despertou atenção, por isso, decidi ver o filme antes, e ao constatar que a premissa era de fato interessante (mesmo não achando o filme em si aquilo tudo), aumentei minhas apostas para o livro. E não me decepcionei.

Momentos antes da destruição do planeta Lórien, nove crianças e seus guardiões fogem para a Terra. O plano era esperar estas crianças crescerem, desenvolverem seus poderes e então enfrentarem os mogadorianos, responsáveis pela dizimação de Lórien. Escondidos nos quatro cantos da Terra, os refugiados são caçados um a um por seus inimigos. Os três primeiros já foram mortos, e o próximo da lista é o numero quatro.

Se eu pudesse resumir a obra em algumas palavras, eu me veria obrigado a dizer: muito, muito criativa. Para quem está cansado de ler mais do mesmo, o primeiro livro da série é um prato cheio: uma mistura de ficção científica (afinal, estamos falando de aliens, não estamos?), aventura e uma pitada de drama adolescente. E por mais inusitada que seja esta mistura, não é que deu liga?!

A narrativa é extremamente envolvente, mantendo o interesse e atenção do leitor do início ao fim. Porém, fiquei com a impressão que alguns personagens poderiam ter sido melhores desenvolvidos, mas nada que ofusque o brilho da obra.

O Número Quatro, no momento conhecido pelo nome John Smith, é um adolescente um pouquinho irritante. Talvez, minha afirmação seja redundante, afinal, todo adolescente é irritante. Mas devo dizer que John superou o nível esperado. Impulsivo, dono da verdade, incapaz de medir as conseqüências e com a constante atitude “seja feita minha vontade”. Simplesmente irritante. Apenas não abandono a leitura da série pois a evolução do personagem neste primeiro livro é nítida, e tenho certeza que nos próximos volumes seu amadurecimento será ainda maior.

Encerrei a leitura com gostinho de quero mais, imaginando o rumo que a estória vai tomar e com a intenção de ler os demais volumes da série ainda neste ano.
 
Título: Eu sou o número quatro
Autor: Pittacus Lore 
N.º de páginas: 350
Editora: Intrínseca
 

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