Li apenas um livro de ficção de John Grisham e admito que não gostei muito da experiência. Mas o tempo passou, conclui a faculdade de direito e me tornei um advogado criminalista, com a ambição de publicar um thriller jurídico em um futuro próximo. Como li poucos livros desse gênero, e sendo Grisham um dos maiores expoentes, resolvi que era hora de ler uma de suas obras de maior sucesso: Tempo de Matar.
No Mississipi ainda em fase de integração racial, dois homens brancos estupram uma menina negra. Carl Lee, o pai da vítima, inconformado com a situação, decide fazer justiça com as próprias mãos, matando os dois meliantes e sendo detido logo em seguida. O massacre envolvendo a questão racial logo chama atenção da mídia nacional e as opiniões se dividem rapidamente. Caberá a Jack Brigance, jovem advogado, defender Lee em busca de justiça.
O grande mérito de Grisham foi explorar temas complexos e polêmicos, que fazem parte do cotidiano forense, mas que nem sempre são percebidos pelo público. Assim, temas como preconceito, racismo, justiça, vingança, imparcialidade, influência da mídia em processos criminais, coerção de jurados, e tantos outros assuntos surgem naturalmente na trama e fazem o leitor refletir.
Para destacar tais reflexões, o autor optou por criar um caso simples e com poucas reviravoltas, que não roubasse a atenção das questões suscitadas ao longo da obra, sobretudo, a influência da raça para um julgamento justo. O problema é que, por mais interessante que estas indagações sejam, a meu ver, o ponto alto de um thriller jurídico é, necessariamente, o tribunal. Mas com uma estória simples, tudo o que se desenrolou no tribunal era previsível. E mais: o autor fez questão de inserir detalhes jurídicos de pouca importância, mas não se deu ao trabalho de narrar o interrogatório do réu, tampouco as alegações finais do promotor de justiça, deixando de aproveitar alguns dos momentos de maior destaque em um julgamento. Em resumo, temos um livro estável, sem altos e baixos, que caminha sempre com o mesmo ritmo, não chegando a entediar, mas tampouco empolgando.
“— [...]. Se você fosse branco, o mais provável seria que fosse a julgamento e inocentado. O estrupo de uma criança é um crime horrível e quem pode culpar um pai por retificar o erro? Um pai branco, quero dizer. Um pai negro gera a mesma simpatia entre os negros, mas há um problema. O júri vai ser branco. Desse modo, um pai negro e um pai branco não têm chances iguais com o júri.” (GRISHAM, 1994, p. 247)
A verdade é que Tempo de Matar é um thriller jurídico que se desenvolve em razão de fatores extraprocessuais, visto que a cobertura da mídia, os ataques da Ku Klux Klan, as manifestações dos negros e a manipulação dos jurados são eventos externos, mas que acabam por determinar, de uma forma ou de outra, como o julgamento se dará. Por este motivo, creio que o primeiro livro de Grisham constitui muito mais um drama tendo como pano de fundo um julgamento, do que verdadeiramente um thriller jurídico.
É comum livros desse gênero comportarem uma certa dose de romance policial. Afinal, temos um crime que será levado a julgamento, e as investigações podem ser tão interessantes quanto o desenrolar do processo criminal. Além disso, inquéritos policiais, por melhores que sejam, dificilmente esclarecem completamente o que ocorreu. Grisham, ao criar um caso policial em que se sabe absolutamente tudo o que aconteceu (o que, diga-se de passagem, dificilmente acontece no mundo real), eliminou sua melhor chance de fazer suspense. Como já disse, entendo a opção do autor, mas ainda assim me pareceu um tiro no pé.
Não aprovei a visão maniqueísta que Grisham imbuiu em seus personagens relacionados ao mundo jurídico sobre o direito penal. Nada no direito, e muito menos no direito criminal, é preto no branco, bom ou mau, culpado ou inocente. Advogados se preocupam (ou deveriam se preocupar) em garantir que o réu tenha uma defesa justa e que as provas sejam suficientes para condenar, afastando qualquer dúvida. Os personagens de Grisham eram, a meu ver, 8 ou 80, sempre defendendo os extremos: ou tem que abolir a pena de morte ou tem que matar todo mundo.
A narrativa em terceira pessoa funcionou adequadamente, e se mostrou ideal para mostrar os inúmeros pontos de vista da estória, embora tenha exagerado, em alguns momentos, nas descrições. Infelizmente, os diálogos soaram superficiais, pois o autor utilizou a mesma voz para todos os personagens. Convenhamos que é estranho que um homem sem instrução fale exatamente igual a um homem culto.
Admito que nesta resenha a opinião do advogado sobrepôs a opinião do leitor. A estória em si é boa e admiro a coragem do autor em criar um livro em cima de discussões e não de eventos. Mas, creio que uma estória mais intrincada e com mais reviravoltas empolgaria mais o leitor, e nem por isso perderia o brilho das reflexões a que o autor se propôs.
Título: Tempo de Matar
N.º de páginas: 591
Editora: Rocco
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