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sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

RESENHA: Tempo de Matar

Tempo de Matar John Grisham
Li apenas um livro de ficção de John Grisham e admito que não gostei muito da experiência. Mas o tempo passou, conclui a faculdade de direito e me tornei um advogado criminalista, com a ambição de publicar um thriller jurídico em um futuro próximo. Como li poucos livros desse gênero, e sendo Grisham um dos maiores expoentes, resolvi que era hora de ler uma de suas obras de maior sucesso: Tempo de Matar.

No Mississipi ainda em fase de integração racial, dois homens brancos estupram uma menina negra. Carl Lee, o pai da vítima, inconformado com a situação, decide fazer justiça com as próprias mãos, matando os dois meliantes e sendo detido logo em seguida. O massacre envolvendo a questão racial logo chama atenção da mídia nacional e as opiniões se dividem rapidamente. Caberá a Jack Brigance, jovem advogado, defender Lee em busca de justiça. 

O grande mérito de Grisham foi explorar temas complexos e polêmicos, que fazem parte do cotidiano forense, mas que nem sempre são percebidos pelo público. Assim, temas como preconceito, racismo, justiça, vingança, imparcialidade, influência da mídia em processos criminais, coerção de jurados, e tantos outros assuntos surgem naturalmente na trama e fazem o leitor refletir. 

Para destacar tais reflexões, o autor optou por criar um caso simples e com poucas reviravoltas, que não roubasse a atenção das questões suscitadas ao longo da obra, sobretudo, a influência da raça para um julgamento justo. O problema é que, por mais interessante que estas indagações sejam, a meu ver, o ponto alto de um thriller jurídico é, necessariamente, o tribunal. Mas com uma estória simples, tudo o que se desenrolou no tribunal era previsível. E mais: o autor fez questão de inserir detalhes jurídicos de pouca importância, mas não se deu ao trabalho de narrar o interrogatório do réu, tampouco as alegações finais do promotor de justiça, deixando de aproveitar alguns dos momentos de maior destaque em um julgamento. Em resumo, temos um livro estável, sem altos e baixos, que caminha sempre com o mesmo ritmo, não chegando a entediar, mas tampouco empolgando.

— [...]. Se você fosse branco, o mais provável seria que fosse a julgamento e inocentado. O estrupo de uma criança é um crime horrível e quem pode culpar um pai por retificar o erro? Um pai branco, quero dizer. Um pai negro gera a mesma simpatia entre os negros, mas há um problema. O júri vai ser branco. Desse modo, um pai negro e um pai branco não têm chances iguais com o júri.” (GRISHAM, 1994, p. 247)

A verdade é que Tempo de Matar é um thriller jurídico que se desenvolve em razão de fatores extraprocessuais, visto que a cobertura da mídia, os ataques da Ku Klux Klan, as manifestações dos negros e a manipulação dos jurados são eventos externos, mas que acabam por determinar, de uma forma ou de outra, como o julgamento se dará. Por este motivo, creio que o primeiro livro de Grisham constitui muito mais um drama tendo como pano de fundo um julgamento, do que verdadeiramente um thriller jurídico.

É comum livros desse gênero comportarem uma certa dose de romance policial. Afinal, temos um crime que será levado a julgamento, e as investigações podem ser tão interessantes quanto o desenrolar do processo criminal. Além disso, inquéritos policiais, por melhores que sejam, dificilmente esclarecem completamente o que ocorreu. Grisham, ao criar um caso policial em que se sabe absolutamente tudo o que aconteceu (o que, diga-se de passagem, dificilmente acontece no mundo real), eliminou sua melhor chance de fazer suspense. Como já disse, entendo a opção do autor, mas ainda assim me pareceu um tiro no pé. 

Não aprovei a visão maniqueísta que Grisham imbuiu em seus personagens relacionados ao mundo jurídico sobre o direito penal. Nada no direito, e muito menos no direito criminal, é preto no branco, bom ou mau, culpado ou inocente. Advogados se preocupam (ou deveriam se preocupar) em garantir que o réu tenha uma defesa justa e que as provas sejam suficientes para condenar, afastando qualquer dúvida. Os personagens de Grisham eram, a meu ver, 8 ou 80, sempre defendendo os extremos: ou tem que abolir a pena de morte ou tem que matar todo mundo. 

A narrativa em terceira pessoa funcionou adequadamente, e se mostrou ideal para mostrar os inúmeros pontos de vista da estória, embora tenha exagerado, em alguns momentos, nas descrições. Infelizmente, os diálogos soaram superficiais, pois o autor utilizou a mesma voz para todos os personagens. Convenhamos que é estranho que um homem sem instrução fale exatamente igual a um homem culto.  

Admito que nesta resenha a opinião do advogado sobrepôs a opinião do leitor. A estória em si é boa e admiro a coragem do autor em criar um livro em cima de discussões e não de eventos. Mas, creio que uma estória mais intrincada e com mais reviravoltas empolgaria mais o leitor, e nem por isso perderia o brilho das reflexões a que o autor se propôs.

Título: Tempo de Matar 
Autor: John Grisham
Tradutor: Aulyde Soares Rodrigues
N.º de páginas: 591
Editora: Rocco
Exemplar cedido pela editora

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segunda-feira, 30 de abril de 2012

Conexões Além da Contracapa #1

Tendo como fonte de inspiração a coluna “Conexões Maníacas” do site Série Maníacos criamos uma nova coluna mensal, intitulada “Conexões Além da Contracapa”. Nela estaremos mostrando que o mundo literário está mais conectado do que imaginamos e mesmo dando voltas e mais voltas, todas as pontas acabam se unindo, de um jeito ou de outro.


Scott Turow, autor do best-seller “Acima de Qualquer Suspeita” - no qual o promotor Rusty Sabich luta para provar a sua inocência no assassinato da bela Carolyn Polhemus – é um dos mais conhecidos autores de thrillers jurídicos, gênero em que também se destaca...

... John Grisham, um dos autores mais populares da atualidade cujos livros são frequentemente adaptados para as telas de cinema. Entre seus muitos sucessos, podemos citar “Tempo de Matar”, “A Firma”, “O Dociê Pelicano” e “O Júri”. Este último, conta a história de um julgamento contra uma empresa fabricante de cigarros e aborda temas como a “compra” de jurados. No cinema, a trama sofreu uma pequena modificação, colocando em julgamento uma empresa fabricante de armas de fogo, porém conseguiu manter os elementos principais do livro. O elenco conta com nomes como Dustin Hoffman, Gene Hackman e John Cusack, que também estrelou o filme...

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...Michael Connelly, o criador do personagem Harry Bosch - um detetive motivado a encontrar a verdade, independente de qualquer circunstancia, demonstrando certo desprezo pelas regras quando elas interferem em sua busca - que aparece em aproximadamente vinte livros do autor. Em 2011, Michael Connelly participou da “15ª Bienal do Livro do Rio” que também contou com a participação de Scott Turow.

 

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