Laranja Mecânica é um clássico da literatura inglesa e um dos livros mais importante do gênero distópico, pois passados mais de cinquenta anos de sua publicação, a obra continua mais atual e relevante do que nunca.
Em uma sociedade futurista, comanda por um governo totalitário, conhecemos Alex, um adolescente de quinze anos, e seus amigos. Mas o que os une não é a amizade e sim o gosto pela violência. Certo dia um assalto não sai como planejado e Alex é deixada para trás por seus amigos, sendo levado à prisão. Lá ele é submetido a uma técnica para torná-lo uma pessoa avessa a maldade.
A narrativa de Laranja Mecânica é densa em virtude do linguajar próprio utilizado por Alex e sua gangue. Apesar desta edição contar com um glossário ao final, optei por ler o livro sem a ajuda de tal recurso, pois esta era a intenção de Burges: jogar o leitor nesse mundo distópico e fazê-lo sentir na pele o estranhamento de mergulhar em uma cultura desconhecida. Apesar dessa dificuldade inicial, creio que a partir da segunda parte do livro já estava acostumado com esta linguagem.
Alex é um protagonista e tanto. Narrando em primeira pessoa suas aventuras, temos um olhar honesto, de quem não tem nada a esconder e que revela seus defeitos sem pudor, principalmente sua personalidade perversa, egoísta e aproveitadora. Mas chega um momento que o leitor se apega a ele, e mesmo não concordando com suas ações ou forma de pensar, queremos vê-lo superar a situação em que se encontra.
Os demais personagens também foram bem desenvolvidos, mesmo que suas aparições na estória sejam mais restritas. O desfecho, mesmo não sendo o ápice da obra, é extremamente interessante em virtude do amadurecimento do protagonista. E foi só ao final da leitura que percebi que a jornada de Alex pode ser interpretada tanto literalmente, quanto metaforicamente. Ou ainda de ambas as formas.
“— [...]. Será que um homem que escolhe o mal é talvez melhor que um homem que teve o bem imposto a si?” (BURGESS, 2012, p. 156)
Laranja Mecânica conta com uma trama simples, mas que impressiona pela quantidade de reflexões que provoca. A mais interessante delas é o tratamento ao qual Alex é submetido, que é baseado na terapia da aversão: Alex passa a sentir um mal-estar físico ao ser exposto ou a imaginar qualquer forma de violência. É daí que surge o cerne do livro: onde fica a liberdade do ser humano e seu poder de escolha? Ser forçado a escolher o bem é ser realmente uma boa pessoa?
Em um outro nível de análise, podemos ver uma crítica à sociedade e a forma como esta condiciona as pessoas. É impossível não se questionar até que ponto o convívio social não tolhe parte da nossa identidade e livre-arbítrio. Exemplifico: uma criança que sofre bullying por ser diferente. O grupo social em que convive está lhe dizendo que sua forma de ser não é aceitável. Ou seja, não se precisa chegar ao extremo da lavagem cerebral para que tenhamos um cerceamento de escolha. E quem nunca fez ou deixou de fazer algo por considerar, em primeiro lugar, o que os outros iriam pensar, que atire a primeira pedra.
Para além das reflexões sobre o condicionamento comportamental, Burgess também aborda temas como a eficácia do sistema prisional, a adolescência e o processo de amadurecimento, a vida em sociedade, os jogos de poder e de manipulação. E esta é uma das maiores belezas de Laranja Mecânica: seu infindável potencial para discussões sobre os mais variados assuntos.
Laranja Mecânica é um livro universal e atemporal pois dialoga diretamente com a essência do que é ser humano. Um livro que impacta tanto por sua estória, quanto por suas reflexões, e que certamente merece ser lido e relido.
O livro foi adaptado para o cinema em 1971 por Stanley Kubrick.
Autor: Anthony Burgess
N.º de páginas: 352
Editora: Aleph
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