“Às vezes, ele se perguntava o que era pior: o fato de a pessoa amada ser outra com outro ou exatamente aquela com quem se partilha uma intimidade. Ou então as duas situações eram igualmente ruins? Pelo fato de que, de uma maneira ou de outra, alguma coisa é roubada – algo que nos pertence ou algo que deveria nos pertencer?” (SCHLINK, p. 18, 2009)
Quando “Mentiras de Verão” caiu nas minhas mãos, eu não imaginava que a leitura despretensiosa de um rápido livro de contos se tornaria uma das minhas melhores de 2015. Foi ela que me apresentou a Bernhard Schlink e me deixou querendo ler qualquer outro livro do autor.
Após a lenta e dolorosa morte da esposa, Bengt está tentando reencontrar o rumo de sua vida quando recebe uma carta, endereçada a ela, de alguém que não sabia do falecimento. Alguém com quem ela tivera um romance há anos. Bengt responde à carta, mas O Outro o confunde por Lisa, já que a inicial “B” também se aplica à Bela, o apelido que ele tinha para a amante. Assim, os dois passam a se corresponder até que Bengt não resiste a curiosidade de conhecer o homem com quem sua mulher teve um caso.
Schlink domina a arte de extrair histórias do cotidiano. Pessoas normais e situações corriqueiras viram grandes dramas nas palavras desse autor que sabe expor seus personagens de forma que com poucas linhas já parece que somos velhos conhecidos e que estamos dentro de suas almas. Essa habilidade fez com que eu, que costumo fugir de histórias com triângulos amorosos, fosse atraída pela premissa de “O Outro” devido à ideia de ver uma pessoa que conviveu tantos anos com outra em uma relação de intimidade descobrir que talvez não soubesse tanto sobre ela como pensava. Eu imaginava que Schlink não se ateria às circunstâncias e consequências do caso, mas sim focaria nos milhares de questionamentos que surgem a partir da descoberta: por que essa mulher foi diferente com o amante do que foi com ele? Por que havia coisas que ela conseguia compartilhar com o amante e não com ele? Se havia um outro lado nela que ele desconhecia, até que ponto foi verdadeiro o que viveram juntos? O que eu encontrei foi ligeiramente diferente, mas não me desagradou.
Com capítulos muito breves e uma narrativa direta ao extremo, Schilink não perde tempo com informações que poderiam rotular seus personagens e sim nos expõe aos seus sentimentos. Demoramos até saber qual era o emprego de Bengt, de Lisa, suas idades e até mesmo a saber os seus nomes, mas entendemos imediatamente o que a mulher e a perda dela significam para este homem. O mesmo acontece com o amante, mesmo que ele tão pouco apareça. Isso porque o autor nos joga na rotina dos personagens e, ao invés de perder tempo com contextualizações, nos permite testemunhar esses personagens apenas serem quem são. É até engraçado perceber essa falta de informações concretas e ainda assim sentir que se sabe tudo sobre eles. Em uma determinada cena, um diálogo entre pai e filha, que se estende por apenas uma página, acaba sendo profundamente revelador de toda a dinâmica familiar (muito mais do que capítulos e capítulos de informações seriam) porque Schlink é o tipo de autor que trata de “quems” não de “o quês”.
Por ter poucas páginas e também pela narrativa fluida e direta, li “O Outro” em poucas horas e, em um primeiro momento, estranhei já ter chegado ao fim. Pensei que a história poderia ter sido mais detalhada, mas depois percebi o quão desnecessário isso era. A verdade, é que “O Outro” não é sobre o affair de Lisa, não é sobre o amante, sobre ela, nem mesmo sobre o casamento de Lisa e Bengt. Essas são apenas as janelas que farão Bengt enxergar coisas sobre si mesmo que ele nunca viu antes.
“O Outro” se revela um livro sobre como, algumas vezes, podemos nos acostumar com as coisas, sobre como nos cegamos e esquecemos que existem outros ângulos para serem vistos e outras possibilidades para serem exploradas. Não é uma história sobre encontrar respostas ou resolver pendências. É sobre enxergar o que há para ser visto e aceitar.
Autor: Bernhard Schlink
N° de páginas: 95
Editora: Record





