“Queriam-na não pelo bem que pudessem fazer a ela, mas pelo mal que, com a ajuda inconsciente dela, cada um poderia fazer ao outro. Ela serviria a seus ódios e selaria suas vinganças (...)” (JAMES, pag. 35, 2010)
Uma história contada pelo ponto de vista de uma criança que mesmo sendo o personagem central para o leitor, não é exatamente o centro dos acontecimentos da trama. Foi isso o que me atraiu em “Pelos Olhos de Maisie”, clássico de Henry James.
Após o divorcio dos pais, fica determinado que a guarda de Maisie não caberá a um nem a outro e sim aos dois alternadamente. A menina deverá passar seis meses na casa da mãe (onde ouve os maiores insultos a respeito do pai) e depois seis meses na casa do pai (onde ouve sobre a mãe tantos insultos quanto a mesma profere sobre o ex-marido) até que volte para a casa da mãe novamente. Mas o ex-casal está muito mais preocupado em ferir um ao outro do que em cuidar da filha.
Existem exemplares maravilhosos na literatura onde o personagem que nos conta a história não é o centro dela. É o caso, por exemplo, de “O Grande Gatsby”, de F. Scott Fitzgerald, cujo narrador em primeira pessoa, Nick Carraway, é apenas uma testemunha da história principal, o romance de Jay Gatsby e Daisy Buchanan. O que “Pelos Olhos de Maisie” traz é algo diferente e muito interessante de ser acompanhado. É o caso de uma narrativa em terceira pessoa, realizada por um narrador que por vezes dialoga com o leitor - se referindo a Maisie como “nossa amiga” ou até “nossa heroína˜ - mas que se propõe a contar a história pelo olhar da menina, de forma que o leitor só tem conhecimento daquilo que ela tem conhecimento, das cenas e diálogos que ela presencia. É por isso que o título do livro é tão apropriado, pois o que acompanhamos é a história dos relacionamentos entre os adultos - mais do que a história da própria Maisie - mas pelo olhar dela.
De fato, é admirável o que Henry James alcançou dentro desta proposta, visto que mesmo mostrando apenas o que Maisie vê, o autor consegue fazer com o que o leitor saiba muito mais do que ela. Maisie vê, mas seu olhar inocente de criança não lhe permite compreender tudo. Já o leitor, adulto, processa as informações com outra mente.
E existe muito o que processar, já que depois do divórcio a vida de Maisie vira uma verdadeira bagunça. Esta é uma história de personagens cheios de defeitos vivendo relacionamentos complicados e tortuosos. Tanto o pai quanto a mãe da menina (duas pessoas completamente sem noção) voltam a se casar, de forma que entra em cena também um padrasto, uma madrasta e governantas (que acabam sendo para a menina mais mãe do que a sua própria). Não tendo ao menos certeza de ser amada pelos pais, Maisie vai se afeiçoando a quem lhe dá atenção e nesse jogo de relacionamentos todos tentam virar a menina uns contra os outros. Logo nas primeiras páginas já se percebe que essa é uma histórias de muitos conflitos e, justamente por isso, muito promissora. Embora não nos afeiçoemos a nenhum dos personagens, ainda assim queremos saber como suas histórias irão se desenvolver. Suas fraquezas, conflitos morais, e batalha de egos aliados a uma boa narrativa, temperada com a dose certa de ironia, fazem com que os primeiros capítulos passem ligeiro.
Porém, se a opção de contar a história pela visão da menina rendeu alguns dos pontos altos da parte inicial, depois fez com que o livro deixasse a desejar, pois se o leitor só sabe o que Maisie sabe é de se esperar que ele não tenha a oportunidade de acompanhar o desenrolar de todos os acontecimentos, afinal, Maisie é uma criança e por isso é natural que não saiba tudo o que acontece entre aqueles personagens. O livro é coerente com a proposta da primeira à última página, mas paga um preço por isso, tornando-se enfadonho em alguns momentos e desanimando a partir da metade. A meu ver, o problema não esteve nos personagens ou nas relações entre eles, menos ainda na narrativa do autor, e sim nos episódios que constituem a trama, pois é chegado um ponto em que ver as coisas acontecerem em segundo plano deixa de ser tão atrativo e em alguns momentos parece que o que vemos é mais do mesmo.
Tendo sido publicado em 1897, é claro que o impacto que “Pelos Olhos de Maisie” tem hoje é diferente do que na época de seu lançamento, visto que as configurações familiares já não são como naquele tempo. Mas nem por isso a proposta da história (e a trama em si, mesmo com altos e baixos) deixa de ser interessante.
Em uma edição que todo o clássico deveria receber, “Pelos Olhos de Maisie” apresenta uma série de textos que contextualizam e enriquecem a obra do autor, entre eles uma introduçāo (que tem o cuidado de avisar o leitor não familiarizado com a história que contém spoilers sobre o enredo. Registro aqui meus parabéns, e agradecimentos, à editora); cinco resenhas escritas à época do lançamento, mostrando a recepção da história em 1897; e uma espécie de diário do próprio Henry James falando sobre as primeiras ideias e a concepção deste livro.
Neste mês, chegou aos cinemas a adaptação cinematográfica de “Pelos Olhos de Maisie” com uma abordagem contemporânea da história. O filme conta com Julianne Moore e Alexander Skarsgard como a mãe e o padrasto da menina.
Autor: Henry James
N de páginas: 412
Editora: Penguin Companhia


