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segunda-feira, 26 de outubro de 2015

RESENHA: Ainda Estou Aqui

“Tudo mentira. O alto escalão do governo sabia que era mentira. Jornalistas sabiam que era mentira. Menos a minha mãe, que queria acreditar que ele estava vivo, que precisava acreditar, e conheceu senadores que não serviam para nada, deputados que não legislavam, um poder corroído pelo autoritarismo, corrompido até a alma, juízes que não julgavam, tribunais que mentiam, um poder de fachada, uma mentira para dar legitimidade a uma ditadura e a milicos que mandavam e desmandavam e metiam medo, lia uma imprensa vaga, sob censura ou, pior, condescendente, via uma TV que se omitia, acovardava-se.” (PAIVA, 2015, p. 157/8). 

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Quando soube que Feliz Ano Velho ganharia uma continuação passados trinta e três anos de sua publicação, não tive dúvidas que precisava ler a nova obra de Marcelo Rubens Paiva o quanto antes. 

Ao contrário do primeiro livro, que foca na vida do autor, sua recuperação do acidente que o deixou tetraplégico, falando apenas por cima dos episódios relacionados à ditadura, o embrião de Ainda Estou Aqui surgiu com as descobertas realizadas pela Comissão Nacional da Verdade e com as manifestações populares que tomaram as ruas da nação, nas quais algumas pessoas pediam o retorno da ditadura militar. Dessa vez, Marcelo Rubens Paiva conta a estória de sua família, mais precisamente de seu pai, torturado e morto pelo regime militar, e de sua mãe, uma mulher que se reinventou inúmeras vezes e que hoje sofre com o Mal de Alzheimer. 

É impossível ler Ainda estou Aqui e permanecer indiferente. Com seu estilo direto e sem rodeios, Marcelo descortina os horrores de um dos períodos mais nefastos da história da nossa nação. O deputado federal Rubens Beyrodt Paiva teve seu mandato cassado em 64, e após um breve exílio, retornou ao Brasil e voltou a trabalhar como engenheiro. Apesar de manter contato com outros políticos e ativistas exilados, não se envolveu na luta contra a ditadura militar. Ainda assim, foi levado por militares para ser “inquirido” a respeito de atividade subversiva, sendo torturado e morto, informação esta confirmada apenas em 2014. 

Mas quem rouba a cena é Eunice Paiva. Aos 41 anos, teve que cuidar dos cinco filhos, enquanto o governo desconversava a respeito do desaparecimento de seu marido. Rubens Paiva se tornou um morto-vivo: morto para todos os efeitos, mas vivo juridicamente. Bens não puderam ser inventariados, dinheiro da poupança não pode ser sacado e a família continuou a viver no limbo, sem saber qual havia sido o destino do marido e pai. É então que Eunice começa a cursar a Faculdade de Direito, e se torna defensora dos Direitos Humanos, denunciando desaparecimentos e torturas levados a cabo pelos militares, bem como defendendo os direitos dos povos indígenas. 

Ainda Estou Aqui é um livro impactante e que faz refletir. A estória de Eunice é, para dizer o mínimo, inspiradora, e é fácil visualizar nela a figura da fênix, ave mitológica que renasce das cinzas. Uma mulher que nunca desistiu de lutar pela justiça, que levantou sua voz contra os militares apesar do medo, que se tornou uma autoridade sobre o direito indígena, frequentando reuniões da ONU. Mas o livro também é devastador, por expor uma política de Estado: governar pela repressão, pelo medo. E se você acha que isso é coisa do passado, o autor não perde tempo em apontar casos recentes como Amarildo, torturado em uma Unidade da Polícia Pacificadora em 2013.

Já falei o quanto gostei da escrita do autor na resenha de Feliz Ano Velho. Impossível não repetir o elogio, pois além das qualidades marcantes da sua escrita, como a honestidade brutal e a linguagem informal, fica evidente como o texto de Marcelo amadureceu. A narrativa, bem como a estória, de Ainda Estou Aqui é tão envolvente que li as últimas cento e cinquenta páginas sem parar, de tão imerso que estava. 

A verdade é que Marcelo Rubens Paiva, mesmo sem ter essa ambição, escreveu uma das mais incríveis lições sobre a história do Brasil que já tive o prazer de ler e se por ventura você conhecer algum indivíduo que defenda o retorno da ditadura militar, faça um favor à nação: presenteie o dito cujo com um exemplar de Ainda Estou Aqui

Encerro a resenha reconhecendo que não fiz jus a esta obra fantástica, e por isso resumo-a em três palavras: impactante, emocionante e inesquecível. Um livro que não apenas informa, mas que também envolve o leitor na saga desta família que tanto sofreu, mas que não deixou de se levantar. E de revidar. Se estivesse em meu poder, não teria duvida de tornar Ainda Estou Aqui leitura obrigatória para todos os brasileiros. Mas deixo um conselho: aperte o cinto e prepare-se para um choque de realidade. 

“A tortura existiu em arenas romanas, em masmorras da Idade Média, em castelos, pelourinhos, foi patrocinada por imperadores, reis e papas, ditadores de esquerda e de direita. Existe quando um Estado precisa subjugar seus inimigos. Apesar de ser considerado crime hediondo, inafiançável, continua existindo. Por que a tortura nunca acaba? Serve para quê?” (PAIVA, 2015, p. 111)

Título: Ainda Estou Aqui (exemplar cedido pela editora)
Autor: Marcelo Rubens Paiva
N.º de páginas: 295
Editora: Alfaguara

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

RESENHA: Feliz Ano Velho

“Você já imaginou uma mãe de cinco crianças ter a sua casa invadida por soldados armados com metralhadoras, levarem seu marido sem nenhuma explicação e desaparecerem com ele? Já imaginou essa mãe também ser presa no dia seguinte, com sua filha de quinze anos, sem nenhuma explicação? Ser torturada psicologicamente e depois ser solta sem nenhuma acusação? Já imaginou essa mãe, depois, pedir explicações aos militares e eles afirmarem que ela nunca fora presa e que seu marido também não estava preso? [...]. É duro, né? Nem Kafka teria pensado em tamanho absurdo.” (PAIVA, 2015, p. 37/38)

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Feliz Ano Velho é um dos poucos livros obrigatórios que tive que ler no ensino médio que realmente gostei. Tanto a estória de Marcelo, quanto sua narrativa, são extremamente envolventes, e desde aquela época desejava reler a obra.

Em dezembro de 1979, quando tinha 20 anos, Marcelo mergulhou de cabeça em um lago com pouca profundidade. Como resultado, fraturou uma vértebra e ficou tetraplégico. Em Feliz Ano Velho, ele relata sua jornada após o acidente, e também conta episódios de sua vida. 

Marcelo é absolutamente honesto e compartilha de tudo com o leitor: a impaciência com a recuperação, sua adaptação a nova realidade, a comoção gerada entre familiares e amigos, a vida de estudante de Engenharia Agrícola, as aspirações musicais, as muitas namoradas e seu relacionamento com seu pai. 

O pai de Marcelo, Rubens Paiva, foi deputado federal e teve seu mandado cassado após o Golpe Militar. Em 1971, a casa do político foi invadida por militares que o prenderam, assim como a sua esposa e filha mais velha. Marcelo, na época uma criança com onze anos, assistiu a tudo sem entender o que estava acontecendo. E foi assim que cresceu, pois o governo negou que Rubens tivesse sido detido, e a família somente recebeu a confirmação de sua morte em 2014, em função dos trabalhos da Comissão da Verdade. 

Apesar de crescer sem o pai e sofrer o grave acidente que lhe roubou parte dos movimentos, Marcelo não se faz de vítima, nem de derrotado. Apesar de declarar que não escreveu o livro com a intenção de inspirar seus leitores, é impossível ler Feliz Ano Velho e não sentir uma injeção de ânimo. É impossível ler Feliz Ano Velho e não se sentir grato por viver em uma democracia. 

Porém, deixo claro que o desaparecimento de Rubens Paiva está longe de ser o cerne da obra. Marcelo intercala sua jornada de recuperação com inúmeros episódios de sua infância e juventude, incluindo os trágicos eventos que ocorreram em 1971.  

A narrativa do autor é peculiar. Fiquei com a impressão que Marcelo sentou em frente à máquina de escrever e colocou todos os pensamentos e sentimentos no papel, sem papas na língua e sem censura. O mais impressionante é que Marcelo é autêntico, e se revela ao leitor com todas as suas qualidades e defeitos, sem se importar com o julgamento alheio. E esta característica faz com que a narrativa seja extremamente fluída, de modo que o leitor não vê as páginas avançarem. 

Mesmo tendo sido publicada originalmente em 1982, a obra permanece mais atual do que nunca. Seja por mostrar ao leitor que vale a pena viver e lutar pela vida, seja por nos lembrar de um episódio vergonhoso da história da nossa nação. Muito mais que um livro de entretenimento, Feliz Ano Velho é uma biografia emocionante e impactante, que consegue ser, ao mesmo tempo, uma lição de vida e uma aula de história. 

O autor lançou recentemente Ainda Estou Aqui (resenha em breve), livro de memórias em que se aprofunda na estória de sua família.

Título: Feliz Ano Velho (exemplar cedido pela Editora)
Autor: Marcelo Rubens Paiva
N.º de páginas: 270
Editora: Alfaguara
 

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