“Tudo mentira. O alto escalão do governo sabia que era mentira. Jornalistas sabiam que era mentira. Menos a minha mãe, que queria acreditar que ele estava vivo, que precisava acreditar, e conheceu senadores que não serviam para nada, deputados que não legislavam, um poder corroído pelo autoritarismo, corrompido até a alma, juízes que não julgavam, tribunais que mentiam, um poder de fachada, uma mentira para dar legitimidade a uma ditadura e a milicos que mandavam e desmandavam e metiam medo, lia uma imprensa vaga, sob censura ou, pior, condescendente, via uma TV que se omitia, acovardava-se.” (PAIVA, 2015, p. 157/8).
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Quando soube que Feliz Ano Velho ganharia uma continuação passados trinta e três anos de sua publicação, não tive dúvidas que precisava ler a nova obra de Marcelo Rubens Paiva o quanto antes.
Ao contrário do primeiro livro, que foca na vida do autor, sua recuperação do acidente que o deixou tetraplégico, falando apenas por cima dos episódios relacionados à ditadura, o embrião de Ainda Estou Aqui surgiu com as descobertas realizadas pela Comissão Nacional da Verdade e com as manifestações populares que tomaram as ruas da nação, nas quais algumas pessoas pediam o retorno da ditadura militar. Dessa vez, Marcelo Rubens Paiva conta a estória de sua família, mais precisamente de seu pai, torturado e morto pelo regime militar, e de sua mãe, uma mulher que se reinventou inúmeras vezes e que hoje sofre com o Mal de Alzheimer.
É impossível ler Ainda estou Aqui e permanecer indiferente. Com seu estilo direto e sem rodeios, Marcelo descortina os horrores de um dos períodos mais nefastos da história da nossa nação. O deputado federal Rubens Beyrodt Paiva teve seu mandato cassado em 64, e após um breve exílio, retornou ao Brasil e voltou a trabalhar como engenheiro. Apesar de manter contato com outros políticos e ativistas exilados, não se envolveu na luta contra a ditadura militar. Ainda assim, foi levado por militares para ser “inquirido” a respeito de atividade subversiva, sendo torturado e morto, informação esta confirmada apenas em 2014.
Mas quem rouba a cena é Eunice Paiva. Aos 41 anos, teve que cuidar dos cinco filhos, enquanto o governo desconversava a respeito do desaparecimento de seu marido. Rubens Paiva se tornou um morto-vivo: morto para todos os efeitos, mas vivo juridicamente. Bens não puderam ser inventariados, dinheiro da poupança não pode ser sacado e a família continuou a viver no limbo, sem saber qual havia sido o destino do marido e pai. É então que Eunice começa a cursar a Faculdade de Direito, e se torna defensora dos Direitos Humanos, denunciando desaparecimentos e torturas levados a cabo pelos militares, bem como defendendo os direitos dos povos indígenas.
Ainda Estou Aqui é um livro impactante e que faz refletir. A estória de Eunice é, para dizer o mínimo, inspiradora, e é fácil visualizar nela a figura da fênix, ave mitológica que renasce das cinzas. Uma mulher que nunca desistiu de lutar pela justiça, que levantou sua voz contra os militares apesar do medo, que se tornou uma autoridade sobre o direito indígena, frequentando reuniões da ONU. Mas o livro também é devastador, por expor uma política de Estado: governar pela repressão, pelo medo. E se você acha que isso é coisa do passado, o autor não perde tempo em apontar casos recentes como Amarildo, torturado em uma Unidade da Polícia Pacificadora em 2013.
Já falei o quanto gostei da escrita do autor na resenha de Feliz Ano Velho. Impossível não repetir o elogio, pois além das qualidades marcantes da sua escrita, como a honestidade brutal e a linguagem informal, fica evidente como o texto de Marcelo amadureceu. A narrativa, bem como a estória, de Ainda Estou Aqui é tão envolvente que li as últimas cento e cinquenta páginas sem parar, de tão imerso que estava.
A verdade é que Marcelo Rubens Paiva, mesmo sem ter essa ambição, escreveu uma das mais incríveis lições sobre a história do Brasil que já tive o prazer de ler e se por ventura você conhecer algum indivíduo que defenda o retorno da ditadura militar, faça um favor à nação: presenteie o dito cujo com um exemplar de Ainda Estou Aqui.
Encerro a resenha reconhecendo que não fiz jus a esta obra fantástica, e por isso resumo-a em três palavras: impactante, emocionante e inesquecível. Um livro que não apenas informa, mas que também envolve o leitor na saga desta família que tanto sofreu, mas que não deixou de se levantar. E de revidar. Se estivesse em meu poder, não teria duvida de tornar Ainda Estou Aqui leitura obrigatória para todos os brasileiros. Mas deixo um conselho: aperte o cinto e prepare-se para um choque de realidade.
“A tortura existiu em arenas romanas, em masmorras da Idade Média, em castelos, pelourinhos, foi patrocinada por imperadores, reis e papas, ditadores de esquerda e de direita. Existe quando um Estado precisa subjugar seus inimigos. Apesar de ser considerado crime hediondo, inafiançável, continua existindo. Por que a tortura nunca acaba? Serve para quê?” (PAIVA, 2015, p. 111)
Autor: Marcelo Rubens Paiva
N.º de páginas: 295
Editora: Alfaguara




