Frankenstein é um dos livros mais icônicos da literatura de terror, sendo que até mesmo aqueles que não leram a obra conhecem a estória. É por isso que se pode afirmar com segurança que Frankenstein transcendeu não apenas fronteiras geográficas e temporais, mas transcendeu seu próprio formato. O monstro não vive apenas no livro escrito por Mary Shelley, mas habita o imaginário popular, sendo mais conhecido que sua própria criadora.
Victor Frankenstein é um jovem ambicioso, com aptidão para as ciências naturais. Quando ingressa na faculdade, dedica-se com afinco aos estudos a fim de descobrir como poderia criar a centelha de vida que animaria um ser criado por suas mãos. Mas quando alcança este feito, apavora-se com o resultado e com suas implicações. A criatura, apesar de sua aparência grotesca, é essencialmente humana e nutre os mesmos tipos de sentimento, como amor, esperança, desejo de aceitação, medo e ódio.
O texto de Shelley é um pouco cansativo, visto que a narrativa da autora é eminentemente descritiva. Creio que isso se atribui ao fato de que o livro consiste em um relato linear do próprio Victor acerca de sua jornada, ou seja, a narrativa diz respeito à descrição dos acontecimentos e não aos acontecimentos em si. Outro aspecto que me incomodou um pouco são as inúmeras coincidências utilizadas pela autora a fim de cruzar as vidas de Victor e da criatura.
“Um dos fenômenos que atraíram de modo peculiar minha atenção foi a estrutura do corpo humano e, decerto, de qualquer animal dotado de vida. Por isso, muitas vezes perguntei de onde procedia o princípio da vida. Era uma pergunta arrojada e considerada sempre um mistério; no entanto, quantas coisas estaríamos prestes a conhecer se a covardia ou o descuido não impedisse nossas pesquisas?” (SHELLEY, 2017, p. 67)
Meu interesse e envolvimento com a estória apenas surgiu quando a criatura confronta seu criador, narrando-lhe suas experiências de vida. A meu ver, este é o ponto alto da trama, pois Shelley revela de forma genial a humanidade do mostro e a monstruosidade da humanidade. É impossível não se sentir indignado com o tratamento que todos dão à criatura, julgando-a apenas por sua aparência.
É a partir deste cenário de julgamentos e de preconceitos que Shelley mostra que o “monstro” nada mais é do que um produto de seu meio, e suas ações são, na verdade, meras reações às injustiças que sofreu. É por isso que vejo Frankenstein muito mais como um livro de drama, do que uma estória de terror ou de ficção científica.
Vale registrar também que Frankenstein é uma mina de ouro para as reflexões, sendo que uma delas se destacas: existem limites para as ciências e para experimentos científicos? Ou será que há mistérios que estamos fadados a não compreender? Mesmo tendo sido publicado originalmente há duzentos anos, Shelley já explorava assuntos que são extremamente pertinentes nos dias de hoje.
Frankenstein é uma interessante estória baseada em dicotomias: criatura e criador, esperança e medo, desejo de aceitação e rejeição, injustiça e vingança, vida e morte. Apesar de contar com um texto denso e um pouco cansativo, a obra certamente brilha por suas reflexões.
Esta edição ainda apresenta quatro contos da autora com a temática da imortalidade.
Autora: Mary Shelley
N.º de páginas: 304
Editora: DarkSide Books
Exemplar cedido pela editora
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