“O problema é a distância (...) Não dá pra distinguir rostos, certo, quando eles se tornaram apenas minúsculos pontos, e então não é mais preciso se preocupar se estão triste ou alegres. É por isso que somos capazes de matar formigas. Aí, depois de um tempo, o suicídio já é algo que a gente consegue imaginar, o que não seria possível se elas estivessem me olhando nos olhos todos os dias.” (HORNBY, 2014 p. 132)
A premissa de “Uma Longa Queda” é inusitada, trágica e divertida, e promete render um livro nada menos que genial. Porém, a leitura não me encantou tanto quando esperava.
Quatro pessoas se encontram por acaso no topo de um prédio em Londres na noite de Ano Novo. A intenção de cada uma é a mesma: se matar. Apesar daquele ser um dos lugares mais escolhidos pelos suicidas e aquela uma das noites mais concorridas do ano para tal ato, eles não esperavam encontrar companhia e é justamente essa surpresa que faz com que adiem os planos por algumas semanas, afinal, o clima já passou. Assim, fica combinado um reencontro dos quatro no mesmo lugar, semanas depois, na segunda noite favorita dos suicidas: o dia dos namorados. Até lá todos precisarão encontrar distrações de suas vidas para evitar que acabem com elas antes do prazo.
Eis os suicidas em potencial: Martin, um apresentador de tevê que viu sua vida pessoal e profissional desmoronar após ser preso por transar com uma menina de 15 anos; Maureen, uma mulher que não tem vida própria e cujos dias giram em torno do filho em estado vegetativo; Jess, a típica adolescente problemática e inconsequente, porém assombrada pelo desaparecimento – e possível morte - de sua irmã; JJ, um músico frustrado que viu sua banda e seus sonhos acabarem e agora passa os dias fritando hambúrguer em um país que nunca foi seu lar.
Narrado em primeira pessoa pelos quatro protagonistas, o livro apresenta uma linguagem informal, compatível com as quatro personalidades, e eu não consigo imaginar essa história sendo narrada de qualquer outra forma. O autor foi feliz em traduzir para a narrativa em primeira pessoa a maneira como cada personagem fala e vê o mundo, mas acredito que tenha sido essa informalidade que me incomodou um pouco. Reconheço, porém, que a narrativa de Hornby é divertida e fluida de uma maneira que dá a impressão que ele simplesmente sentou e escreveu (o que colabora para que o leitor leia com o mesmo espírito) e que o autor tem sacadas verdadeiramente geniais. Apesar das coisas que me incomodaram, me parece que todas as escolhas do autor foram, de fato, as mais adequadas para a história que ele tinha para contar.
Por motivos óbvios, os quatro personagens são frustrados e por vezes até irritantes, mas em nenhum momento tentam encontrar desculpas para os erros que cometeram ou mesmo pelo egoísmo de suas ações. Isso, a meu ver, é um ponto muito positivo. Os personagens são quem são e suas personalidades devem ser exploradas ao máximo. Eu, particularmente, acho que quanto mais defeitos os personagens têm, mais interessantes eles são (não é a toa que entre os meus personagens favoritos da literatura estão Heathcliff e Hannibal Lecter). Também conta pontos o fato das relações entre eles não serem forçadas, já que se trata de quatro personalidades completamente distintas. Entre discussões e deboches, pessoas que nem mesmo gostam de verdade umas das outras desenvolvem uma dinâmica de apoio. Um se escora no outro e o grupo se sustenta das maneiras mais curiosas. Mesmo que passem brigando, cada um tem aquilo que o outro precisa.
Apesar de girar em torno dos problemas de personagens que tem como objetivo maior na vida acabar com ela, o livro rende situações hilárias. Esse tom já fica claro desde as primeiras páginas (afinal, como não rir de uma cena em que o cara está prestes a pular de um prédio e uma mulher pede sua escada emprestada, dizendo que espera ele terminar para que daí ela possa fazer o mesmo?). Hornby sabe mostrar que o trágico é, muitas vezes, ridículo e, consequentemente, engraçado e essa é a essência de “Uma Longa Queda”.
De maneira geral, gostei do livro. Acredito que Nick Hornby criou uma história original e personagens capazes de reverter clichês (o músico frustrado, a adolescente revoltada, o cara bonitão com diversos casos amorosos) ao contar para ao leitor em suas próprias vozes porquê suas vidas são tão desastrosas a ponto de valer mais a pena acabar com elas (mesmo que nesse processo eles mesmos possam mudar de idéia). Com uma premissa que me cativou instantaneamente e a lembrança de já ter visto inúmeros elogios às obras do autor, a leitura não foi tudo o que esperava, mas agradou.
Assim como outras obras do autor, o livro recebeu uma adaptação cinematográfica estrelada por Pierce Brosnan, Toni Collete, Aaron Paul e Imogen Poots.
Título: Uma Longa Queda (exemplar cedido pela Editora)
Autor: Nick Hornby
Nº de páginas: 329
Editora: Companhia das Letras
A premissa de “Uma Longa Queda” é inusitada, trágica e divertida, e promete render um livro nada menos que genial. Porém, a leitura não me encantou tanto quando esperava.
Quatro pessoas se encontram por acaso no topo de um prédio em Londres na noite de Ano Novo. A intenção de cada uma é a mesma: se matar. Apesar daquele ser um dos lugares mais escolhidos pelos suicidas e aquela uma das noites mais concorridas do ano para tal ato, eles não esperavam encontrar companhia e é justamente essa surpresa que faz com que adiem os planos por algumas semanas, afinal, o clima já passou. Assim, fica combinado um reencontro dos quatro no mesmo lugar, semanas depois, na segunda noite favorita dos suicidas: o dia dos namorados. Até lá todos precisarão encontrar distrações de suas vidas para evitar que acabem com elas antes do prazo.
Eis os suicidas em potencial: Martin, um apresentador de tevê que viu sua vida pessoal e profissional desmoronar após ser preso por transar com uma menina de 15 anos; Maureen, uma mulher que não tem vida própria e cujos dias giram em torno do filho em estado vegetativo; Jess, a típica adolescente problemática e inconsequente, porém assombrada pelo desaparecimento – e possível morte - de sua irmã; JJ, um músico frustrado que viu sua banda e seus sonhos acabarem e agora passa os dias fritando hambúrguer em um país que nunca foi seu lar.
Narrado em primeira pessoa pelos quatro protagonistas, o livro apresenta uma linguagem informal, compatível com as quatro personalidades, e eu não consigo imaginar essa história sendo narrada de qualquer outra forma. O autor foi feliz em traduzir para a narrativa em primeira pessoa a maneira como cada personagem fala e vê o mundo, mas acredito que tenha sido essa informalidade que me incomodou um pouco. Reconheço, porém, que a narrativa de Hornby é divertida e fluida de uma maneira que dá a impressão que ele simplesmente sentou e escreveu (o que colabora para que o leitor leia com o mesmo espírito) e que o autor tem sacadas verdadeiramente geniais. Apesar das coisas que me incomodaram, me parece que todas as escolhas do autor foram, de fato, as mais adequadas para a história que ele tinha para contar.
Por motivos óbvios, os quatro personagens são frustrados e por vezes até irritantes, mas em nenhum momento tentam encontrar desculpas para os erros que cometeram ou mesmo pelo egoísmo de suas ações. Isso, a meu ver, é um ponto muito positivo. Os personagens são quem são e suas personalidades devem ser exploradas ao máximo. Eu, particularmente, acho que quanto mais defeitos os personagens têm, mais interessantes eles são (não é a toa que entre os meus personagens favoritos da literatura estão Heathcliff e Hannibal Lecter). Também conta pontos o fato das relações entre eles não serem forçadas, já que se trata de quatro personalidades completamente distintas. Entre discussões e deboches, pessoas que nem mesmo gostam de verdade umas das outras desenvolvem uma dinâmica de apoio. Um se escora no outro e o grupo se sustenta das maneiras mais curiosas. Mesmo que passem brigando, cada um tem aquilo que o outro precisa.
Apesar de girar em torno dos problemas de personagens que tem como objetivo maior na vida acabar com ela, o livro rende situações hilárias. Esse tom já fica claro desde as primeiras páginas (afinal, como não rir de uma cena em que o cara está prestes a pular de um prédio e uma mulher pede sua escada emprestada, dizendo que espera ele terminar para que daí ela possa fazer o mesmo?). Hornby sabe mostrar que o trágico é, muitas vezes, ridículo e, consequentemente, engraçado e essa é a essência de “Uma Longa Queda”.
De maneira geral, gostei do livro. Acredito que Nick Hornby criou uma história original e personagens capazes de reverter clichês (o músico frustrado, a adolescente revoltada, o cara bonitão com diversos casos amorosos) ao contar para ao leitor em suas próprias vozes porquê suas vidas são tão desastrosas a ponto de valer mais a pena acabar com elas (mesmo que nesse processo eles mesmos possam mudar de idéia). Com uma premissa que me cativou instantaneamente e a lembrança de já ter visto inúmeros elogios às obras do autor, a leitura não foi tudo o que esperava, mas agradou.
Assim como outras obras do autor, o livro recebeu uma adaptação cinematográfica estrelada por Pierce Brosnan, Toni Collete, Aaron Paul e Imogen Poots.
Título: Uma Longa Queda (exemplar cedido pela Editora)Autor: Nick Hornby
Nº de páginas: 329
Editora: Companhia das Letras


