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segunda-feira, 27 de outubro de 2014

RESENHA: O Pintassilgo

O Pintassilgo Donna Tartt
Sucesso de público e vendas, aclamado por escritores e críticos, e laureado com o Pulitzer de literatura. O Pintassilgo foi um dos livros mais comentados do ano passado, acumulando os mais diversos elogios e conferindo a Donna Tartt o título de uma das cem pessoas mais influentes do mundo da revista TIME.

Theo Decker é um dos sobreviventes de um ataque terrorista ao Metropolitan Museum of Art, que ceifa a vida de sua mãe. Theo sofre apenas pequenas lesões, e enquanto luta para sair do meio dos escombros e dos corpos das vítimas, decide levar consigo o quadro “O Pintassilgo” de Carel Fabritius. A partir da morte da mãe, todo o seu destino será reescrito, desde as tribulações da adolescência até as responsabilidades da vida adulta. 

Inicialmente, a narrativa se mostrou bastante arrastada. Tal característica apenas é superada quando a parte introdutória do livro termina, e a premissa passa a ser realmente explorada. A partir de então, a leitura assume contornos mais fluídos, sobretudo pelo próprio laço que o leitor rapidamente desenvolve com Theo. 

Além de um protagonista cativante, o envolvimento com a obra se dá pela curiosidade do leitor sobre os acontecimentos que virão a seguir. Acrescente-se a isto que a gama de assuntos abordados no livro é extensa, e o luto é apenas o primeiro (e mais óbvio) deles. O grande diferencial é que Donna Tartt não se propôs a escrever sobre tais temas, mas sim a criar uma estória em que o leitor percebe-se como eles se relacionam, gerando momentos de reflexão. Fazia tempo que não me envolvia tanto com um livro, a ponto de refletir sobre ele enquanto estava ocupado com as tarefas do dia a dia, chegando até mesmo a sonhar com a obra. 

Por conta de O Pintassilgo, Donna Tartt foi comparada a grandes nomes da literatura, em especial com Charles Dickens (influência esta reconhecida pela própria autora), e certamente entendo o porquê. Li apenas um livro de Dickens, mas já foi o suficiente para perceber o cuidado do autor em não “mastigar” todos os acontecimentos, deixando a cargo do leitor interpretar as informações que estão nas entrelinhas. Nesse sentido, Tartt conseguiu mostrar inúmeras facetas da trama e dos personagens utilizando-se do mesmo recurso de Dickens.

“Mas às vezes, inesperadamente, a dor me atingia em ondas que me deixavam sem ar; e, quando as ondas recuavam, eu me via olhando para os destroços repulsivos de um naufrágio, iluminados por uma luz tão lucida, tão deprimente e tão vazia que eu mal conseguia lembrar que o mundo algum dia chegara a ser algo que não morte.” (TARTT, 2014, p. 84).

Como o livro é narrado por Theo e cobre um período de aproximadamente doze anos, e sendo a jornada da protagonista o cerne da obra, é evidente que o livro terá altos e baixos. Afinal, a vida real também é assim, contendo acontecimentos interessantíssimos e outros monótonos. Considerando esta “montanha russa”, creio que se o livro fosse um pouco mais conciso não haveria tempo do leitor perceber estes momentos de declínio. 

Creio ser um fato pacífico que O Pintassilgo é uma obra de difícil classificação. Afinal, o cerne da estória é a atribulada vida de Theo, da adolescência a vida adulta, então, em alguns momentos destaca-se o drama e o romance, em outros o suspense e até mesmo o thriller. Igualmente chama atenção o fato de que o livro é quase que totalmente imprevisível, surpreendendo os leitores em diversas ocasiões. 

Theo é um dos melhores protagonistas que vi nos últimos tempos, pois foi delineado com profundidade incomparável. Temos um personagem em luto, em um período já conturbado da vida, que perde tudo o que lhe é familiar. Sua vida como conhecia passa a desvanecer a cada dia, e lhe é imposta a árdua tarefa de se adaptar. Creio que o ponto alto do livro são os relacionamentos travados por Theo com os mais diferentes tipos de pessoas e como eles determinam ou influenciam a evolução do protagonista. 

Entretanto, preciso dizer que O Pintassilgo é um livro que demanda maturidade do leitor. E não apenas maturidade para entender todas as suas complexas camadas, mas sobretudo para apreciar a obra em toda a sua magnitude. Por isso mesmo, este é um livro que certamente pretendo reler.

O saldo final é positivo e sinto-me obrigado a concordar com Stephen King: este de fato é um livro raro. O Pintassilgo foi uma leitura impactante e envolvente, que faz o leitor refletir a todo instante e que surpreende por sua profundidade. Ainda assim, cheguei ao final com um gostinho de “esperava mais”. Afinal, foram tantos os elogios que aguardei por aquele “que a mais” durante o decorrer da leitura e que acabei não encontrando. 

Encerro dizendo que seria muito fácil escrever um tratado sobre este livro, pois material para a análise é o que não falta. Mas seria impossível prosseguir sem correr o risco de spoilers, então encerro a resenha por aqui, ainda que com a ciência de que não fiz jus ao livro. 

Título: O Pintassilgo 
Autora: Donna Tartt
N.º de páginas: 719
Editora: Companhia das Letras
Exemplar cedido pela editora

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