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terça-feira, 24 de março de 2015

RESENHA: Operação Perfeito

“Além disso, as coisas grandes na vida não se apresentam como tais. Acontecem em momentos normais, comuns — uma ligação, uma carta —, acontecem quando não estamos olhando, sem pistas, sem aviso, e é por isso que nos impressionam. E pode levar uma vida inteira, uma vida com muitos anos, para aceitarmos a incoerência das coisas; que um momento pequeno pode estar lado a lado com um grande, e pode se tornar parte do mesmo.” (JOYCE, 2015, p. 213). 

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Desde que li A Improvável Jornada de Harold Fry, tinha ciência de que leria todos os demais livros de Rachel Joyce. E quando a editora Suma de Letras anunciou que iria publicar Operação Perfeito, mal podia esperar para dar início a leitura. 

Em 1972, Byron e sua mãe, Diana, se envolvem em um acidente de carro que ocorre em um piscar de olhos. Para surpresa de Byron, sua mãe não percebe o acidente e continua agindo como se nada tivesse acontecido. Assim, Byron, com a ajuda de seu amigo James, decide criar um conjunto de planos para resolver a estranha situação. 

O problema de Operação Perfeito consiste em sua lentidão para engrenar. Como os capítulos são alternados entre o passado e o presente, a estória demora para ser desenvolvida. Some-se a isso que, em alguns momentos, a autora abusa de descrições, o que deixou a narrativa com um ritmo ainda mais vagaroso.  

Além disso, tive certa dificuldade em me envolver com a estória, e destaco dois motivos: a) desde o início, tinha fortes suspeitas de qual seria a grande revelação do livro, então, o suspense não funcionou; b) os personagens, apesar de bem construídos, não me cativaram. 

Para minha surpresa, apenas consegui mergulhar na estória nas últimas setenta páginas. E a estória que Rachel Joyce criou é realmente interessante, mas creio que se tivesse optado por uma estrutura mais linear e tivesse feito menos suspense, o livro teria funcionado melhor. 

Fiquei impressionado como a autora consegue demonstrar em pouquíssimas páginas a personalidade dos personagens. Com uma cena ou em um diálogo, Joyce consegue fazer com que o leitor perceba as características inerentes daquele personagem, e faz isso de maneira natural. 

Diana foi a única personagem que me irritou. Ela é descrita como alguém que teve um passado nebuloso e que, ao casar com um homem rico, deixou aquela vida para trás. Porém, me incomodava perceber o quanto ela era ingênua, o quanto era passiva diante dos outros. 

O cerne da estória consiste em mostrar como poucos instantes podem mudar uma vida inteira, como toda ação tem uma reação, e é neste aspecto que Joyce consegue demonstrar seu talento e sensibilidade. A meu ver, o ponto alto da obra foi constatar como a autora "brincou" com as consequências de um pequeno fato na vida de todos os personagens. 

Mais uma vez Joyce foca sua escrita no cotidiano, nos conflitos pessoais e familiares, em pessoas imperfeitas e no processo de cura, e por isso mesmo a obra exala verossimilhança. Embora Operação Perfeito não tenha me agradado em todos os aspectos, é impossível ler e não refletir sobre a vida, o tempo e a busca pela perfeição. 

Título: Operação Perfeito (exemplar cedido pela editora)
Autora: Rachel Joyce
N.º de páginas: 301
Editora: Suma de Letras

domingo, 19 de janeiro de 2014

RESENHA: A Improvável Jornada de Harold Fry

“E então, ela parou. De falar, de gritar, de chamar atenção dele. Esse novo silêncio era diferente do anterior. Se antes eles queriam poupar um ao outro, agora não havia restado mais nada para salvar.” (JOYCE, 2013, p. 99).

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Quando de meu breve intercâmbio em Londres, uma das diferenças culturais que mais me chamou a atenção foi o hábito da leitura. De manhã cedo, quando pegava o metro para a escola, a maioria dos passageiros estava lendo, fosse jornal, revista, livro ou ebook. Confesso que sou daqueles que discretamente estica o pescoço para ver o que o passageiro a frente esta lendo, e dois livros estavam entre os mais lidos. Um deles era A Improvável Jornada de Harold Fry e agora não me surpreende tê-lo visto com tantos passageiros.

Após receber uma carta de uma antiga ex-colega de trabalho, Harold decide cruzar a Inglaterra e juntar-se a amiga, que luta contra o câncer em estágio terminal. Sua convicção é de que se ele continuar caminhando, ela continuará vivendo, porém, não tem ideia das proporções e consequências que sua despretensiosa caminhada irá tomar.

A narrativa de Rachel Joyce em muito me lembrou a de Jane Austen (e este é um dos maiores elogios que um fã confesso e incondicional de Ms. Austen poderia fazer). Assim como sua conterrânea, Joyce consegue ordenar as palavras de uma forma tão poética, mas ainda assim tão cheia de significado, que é impossível não se impressionar.

Devo salientar que A Improvável Jornada de Harold Fry é uma leitura que exige maturidade, visto que aborda temas complexos — tais como a efemeridade da vida e a fragilidade dos relacionamentos —, mas sem perder a sensibilidade. E talvez por isso não agrade aos leitores mais jovens.

Seu conteúdo denso associado a uma narrativa profunda e poética fazem com que o leitor se questione e reflita sobre sua própria vida durante o transcorrer da leitura, de modo que é necessário ter tempo e paciência para apreciá-lo em sua totalidade, mesmo sendo um livro relativamente pequeno.

Um dos pontos altos é a crítica mordaz ao egoísmo generalizado em que vivemos neste século. Tantas pessoas estão ao nosso redor, cada uma com sua própria estória, com suas dores e problemas, mas parece que nossas preocupações se limitam a nós mesmos. O que será necessário para abrir nossos olhos às necessidades alheias?

Se pudesse resumir a essência do livro em poucas palavras diria que se trata de uma incrível jornada de autoconhecimento e de cura, uma busca pela humanidade que se perde no afã do dia a dia. Tocante, comovente e grandioso em sua simplicidade. 

A Editora Suma de Letras já confirmou a publicação do segundo livro da autora, Perfect. 

Título: A Improvável Jornada de Harold Fry
Autora: Rachel Joyce
N.º de páginas: 243
Editora: Suma de Letras
 

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