“Você precisa entender, Elspeth, que, devido à magnitude dos casos, sabíamos que se passaria um tempo até termos certeza absoluta do que estávamos enfrentando. Pense bem. Quatro quedas diferentes envolvendo três modelos distintos de aeronaves em quatro continentes: era algo sem precedentes.” (LOTZ, 2014, p. 38).
***
Partindo de uma premissa instigante e tendo o aval de Stephen King, estava bastante curioso para conferir o que Sarah Lotz havia preparado em Os Três. Tentando mesclar ficção científica, com terror, suspense, thriller e até drama, no fim das contas a obra não funcionou em nenhum dos genêros.
Em uma quinta-feira, quatro aviões caem simultaneamente ao redor do mundo e apenas quatro pessoas sobrevivem aos desastres, das quais três são crianças. Pamela, a única adulta, sobrevive apenas por alguns minutos e consegue gravar uma mensagem em seu celular. Uma mensagem que vai mudar o mundo.
A estrutura narrativa do livro é um tanto estranha, pois trata-se de um texto jornalístico, intitulado de “Quinta-Feira Negra – da queda à conspiração”, contendo diversos pontos de vistas sobre os desastres e suas consequências. Ou seja, a narrativa é uma colcha de retalhos, composta por inúmeros relatos, reportagens, e-mails, entrevistas e transcrições.
Embora tal opção tenha afetado meu envolvimento com a obra — pois há um certo distanciamento entre os personagens e o leitor —, entendo que seria complicado usar outra estrutura para contar uma estória tão ampla e repleta de detalhes. Outro fator que também afetou o envolvimento é a ausência de um protagonista bem como a quantidade de personagens, visto que, em alguns momentos, era necessário interromper a leitura para lembrar quem era o sujeito entrevistado no momento.
Elspeth Martins, a autora da obra jornalística, já deixa claro no início de que se trata de uma composição objetiva, com o fim de dar a visão dos principais atores dos eventos ocorridos após a Quinta-Feira Negra. Ou seja, o livro de Elspeth desejava fornecer um panorama dos fatos, sem apresentar qualquer conclusão.
Entretanto, o livro é construído de forma a deixar o leitor na expectativa por respostas, de forma a fazer parecer que todos os relatos juntados por Elspeth são uma contextualização. As respostas vêm apenas no desfecho da obra, quando o leitor não tem mais o menor interesse ou curiosidade sobre elas, e ainda por cima não convencem.
Outro grande problema é que, em sendo um relato jornalístico, ao invés de mostrar a ação acontecendo, tínhamos que ler o relato de alguém sobre a ação. Ou seja, cenas interessantíssimas, que seriam lidas com a respiração presa, acabaram perdendo toda a emoção e adrenalina que tinham a oferecer.
Os Três apresenta uma mistura de teoria da conspiração, fanatismo religioso e elementos sobrenaturais que tinha potencial, mas que não deu liga. E friso que não deu liga pela forma como a estória foi explorada, e não em virtude desta mistura nada convencional.
A ideia de Sarah Lotz tem seus méritos e creio que funcionaria muito melhor se transformada em série televisa. Em minha mente fértil já imagino Elspeth como protagonista, investigando os trágicos eventos com o intuito de escrever o livro. Nesse formato, seria impossível deixar as respostas apenas para o final sem perder a audiência. Então, bastaria criar um final um pouquinho mais interessante e voilà: sucesso garantido.
Autora: Sarah Lotz
N.º de páginas: 391
Editora: Arqueiro



