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quinta-feira, 9 de maio de 2019

RESENHA: A Metade Sombria

A Metade Sombria - Stephen KingPseudônimo é um recurso ao qual muitos autores recorrem para poderem se livrar pressão dos seus próprios nomes. Autores que têm um estilo definido e querem (e por que não?) escrever algo diferente, fora da zona de conforto. Agatha Christie já foi Mary Westmacott, J.K Rowling já foi (e ainda é) Robert Galbraith, Stephen King já foi Richard Bachman. E da sua experiência sendo Bachman (o homem que morreu de “câncer no pseudônimo”, como diz o autor) nasceu a ideia de “A Metade Sombria”. E se esse outro cara ganhasse mesmo vida? E se ele não fosse um cara muito legal?

Thad Beaumont escreveu dois livros, mas nenhum fez muito sucesso. Porém, ele conheceu a fama escrevendo livros violentos sob o pseudônimo de George Stark. Quando um fã descobre a ligação entre Stark e Thad, o autor decide enterrar o pseudônimo, mas Stark não aceita ser dispensado tão facilmente. Quando uma série de assassinatos tem início e as pistas apontam para Thad, ele precisa dar um jeito de se conectar com a sua outra metade e a impedi-la de levar seu plano até o fim.

Stephen King tira histórias de grama. É impressionante como o autor consegue pegar uma coisa pequena e transforma-la em uma coisa absurda e completamente envolvente. Tanto é assim que os leitores não precisam estar dentro de seus livros para reconhecem seu estilo (eu mesma, certa vez ao ver um carro velho, sujo e estranhamente abandonado em uma rodovia, pensei: “Isso parece coisa do Stephen King. Credo!”). Ele tem um estilo e esse estilo faz com que seus leitores esperem certas coisas dele. Em “A Metade Sombria” é interessante que ele use toda a bagagem Stephen King para escrever sobre a sua experiência tentando fugir dessa bagagem (inclusive, King dedica o livro a Bachman).

King sabe sustentar uma história como ninguém e o legal de estar dentro do seu universo é que qualquer coisa pode ser qualquer coisa. O pseudônimo enterrado voltou à vida e está se vingando daqueles que o mataram. Ele não quer estar morto e, estando vivo, ele é a pessoa que escrevia as coisas horríveis que aconteciam naqueles livros violentos. Esse homem está a solta. Mas, estando ele em um livro de Stephen King o leitor se pergunta: isso é mesmo algo sobrenatural ou pode ser apenas um fã maluco reivindicando Stark de volta à vida? Com King tudo pode acontecer porque tudo pode ser real. Essa é parte da graça de “A Metade Sombria”.

"Um leve sorriso surgiu nos lábios do homem louro. Não apareceu em nenhuma outra parte do rosto, só nos lábios. Não havia verão naquele sorriso." (KING, 2019, p. 145)

Algo marcante no livro é a presença dos pardais. Quando criança, Thad teve um tumor removido e pardais estavam associados às suas crises. Quando Stark volta à vida, a frase “os pardais estão voando novamente” passa a assombrar Thad. E isso permite mais um exemplo do talento de King como contador de histórias. Eu não sou do tipo que se impressiona ou assusta fácil, mas com King tudo é tão vívido e a história se torna tão real que eu estava trabalhando, concentrada, e vi um pássaro na minha janela. Imediatamente, meu pensamento foi: “Os pardais estão voando novamente”. Aliás, os pardais rendem cenas dignas de Hitchcock em “A Metade Sombria” (e há até mesmo uma menção à Daphne Du Maurier, autora do livro que inspirou o clássico filme “Os Pássaros”).

Como sempre, com King você tem que se entregar. “A Metade Sombria traz uma eletrizante caçada policial, um vilão assustador e imprevisível e ainda a angústia do protagonista que está no centro de acontecimentos terríveis tendo, ao mesmo tempo, toda e nenhuma responsabilidade por eles. É uma trama que não faz sentido, mas que é construída de forma a fazer o leitor acreditar em seu absurdo. Um ótimo livro que, assim como outros do King, vai construir relacionamentos diferentes com cada leitor. Eu, por exemplo, detestei a explicação a respeito da existência de Stark, mas isso não interfere na minha experiência com “A Metade Sombria” porque sou do tipo que acredita que a graça está na jornada (penso o mesmo de “Sob a Redoma” que é um dos meus favoritos do autor). Prefiro ficar sem algumas explicações, mas, se elas são fornecidas e não me agradam, deixo de lado e foco na jornada. No caso desta jornada em específico, foi uma que devorei como há tempos não fazia.

A Metade Sombria” não deixa de ser uma grande metáfora. Todos nós temos outros lados dentro de nós e todos os dias escolhemos qual deles ganha. Thad pode abominar Stark, mas de alguma ele faz parte da sua personalidade e o fato de Stark fazer certas coisas talvez seja a razão pela qual Thad não as precise fazer. Sobrenatural? Sim. Realista? Também.

Título: A Metade Sombria
Autor: Stephen King
N° de páginas: 464
Editora: Suma
Exemplar cedido pela editora

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sexta-feira, 27 de abril de 2018

RESENHA: Insônia

Stephen King - Insônia
Talvez esse seja um comentário superficial, mas, para mim, quanto maior o livro, maior a promessa. Não é qualquer história que dá conta de 700 páginas, simplesmente porque são poucas as que precisam 700 páginas para serem contadas. Nessa categoria de livros imensos, Stephen King faz questão de ter um lugar cativo. Seu “Dança da Morte”, por exemplo, justifica (quase) todas as suas mais de 1200 páginas, por ter milhares de personagens em um mundo que precisa ser apresentado como é para depois ser destruído e só depois ser construído de novo. Já tendo se provado tantas vezes, o autor é digno de confiança para encarar uma aventura desse tamanho, mas com “Insônia” ele errou a dose.

Após a morte de sua mulher, Ralph Roberts, um aposentado de 70 anos, passa a sofrer de insônia. Mas não qualquer tipo de insônia. Ao invés de não conseguir dormir, Ralph não consegue se manter dormindo e a cada dia acorda um pouco mais cedo. Mesmo testando todos os remédios caseiros imagináveis, a condição se prolonga por meses e, com o passar o tempo, ele começa a enxergar áureas e luzes coloridas emanando das pessoas, além de seres estranhos que ele chama de Doutorezinhos Carecas. Ao descobrir o significado de suas visões, Ralph se verá desempenhando um importante papel em uma luta muito maior que a sua compreensão.

Stephen King tem um talento único. Mesmo depois de tantos livros do autor, ainda me espanta a sua capacidade de transformar premissas absurdas (e algumas vezes até ridículas) em histórias interessantes que sempre levam o leitor a uma reflexão, algo que ele repete em “Insônia”. Mas o que mais me admira é como o autor é hábil em pintar imagens para o seu leitor e fazer com que as cenas surjam diante dos seus olhos com tamanha riqueza de detalhes que é como se uma cortina se abrisse e simplesmente revelasse o que há por trás. Além disso, a voz de King é única e ninguém, absolutamente ninguém, soa como ele. Um leitor fiel reconhece o texto do mestre de longe e é por essas pequenas coisas que nada do que King escreve se torna chato. Ele conduz o leitor pela mão de uma forma que só nos resta apreciar o passeio. E é isso o que salva boa parte de “Insônia”. Confesso que se eu não tivesse tanta confiança em King provavelmente teria desistido do livro antes de chegar na metade. Isso porque durante as 300 primeiras páginas, a história não avança e tudo o que temos são o início da insônia de Ralph e suas consequências. Levando em consideração que 300 páginas é o espaço que muitas histórias precisam para serem contadas (com início, meio e fim) isso é muita coisa para pouco desenvolvimento. A minha sensação era a de nadar sem nunca chegar na praia. Sim, a água estava gostosa, mas ninguém quer nadar o dia inteiro sem nem avistar a terra firme. Para se ter uma ideia, é apenas depois da página 400 que vamos entender em torno do que gira a história (até então Ralph não tem a menor ideia do porquê da sua insônia ou suas visões).

A partir desse momento as coisas ganham fôlego e King entrega uma história tipicamente sua que inclui o sobrenatural, a luta do bem contra o mal e cenas grandiosas. Funciona? Sim, muito bem. Mas não é uma história mais complexa que a de “A Zona Morta”, por exemplo, e não justifica sua extensão, não importa o quão habilidoso seja King.

“Não fazia sentido recuar, no último instante, do limiar da loucura; não fazia sentido chegar tão próximo de qualquer limiar. Contudo, ele compreendia perfeitamente bem que não podia viver muito tempo em um mundo tão brilhante e maravilhoso sem por em perigo sua sanidade (...)” (KING, 2013, p.142)

Com tantas reclamações, pode parecer que eu não gostei de “Insônia”, mas não é o caso. A narrativa é envolvente, Ralph é um personagem carismático (assim como outros que cruzam seu caminho), os Doutorezinhos Carecas são figuras intrigantes e interessantes e a história é sim boa e bem amarrada e teria tudo para traçar uma curva ascendente, mas pela sua extensão acaba sendo uma montanha-russa, cheia de altos e baixos. Há momentos grandiosos em que eu me peguei dizendo: “Esse é o King que eu conheço”, mas outros tantos que me faziam pensar ao final de uma sessão de leitura “o que a história avançou?”.

Eu costumo dizer que King usa do sobrenatural para desencadear situações/problemas/dilemas humanos. Nesse sentido, achei interessante que “Insônia” use do contrário: uma situação mundana (a insônia) é a ferramenta usada pelo sobrenatural para se manifestar.

O jogo “acaso” e “desígnio” também é interessante, nos fazendo pensar sobre como algumas coisas são de suma importância e geram consequências capazes de mudar tudo, enquanto outras têm direito à flexibilidade já que qualquer coisa pode acontecer com elas a qualquer momento sem grandes consequências. Pensando bem, isso é válido para pessoas, decisões...

Convém mencionar também que há em “Insônia” um pequeno cruzamento com a história de “A Torre Negra”, mas não é preciso estar familiarizado com a série para entender os acontecimentos deste livro. Por falar em cruzamento, a história se passa em Derry, uma das cidades mais tradicionais do universo Stephen King.

Insônia” não é um livro ruim. Mas ao estender a jornada além do necessário, King perdeu de ter mais um “muito bom” atrelado ao seu nome. Isso prova que mesmo os mestres escorregam de vez em quando, mas prova também que, mestre que é mestre, acerta até mesmo quando erra e que sempre recompensa seus fiéis seguidores.

Título: Insônia
Autor: Stephen King
N° de páginas: 701
Editora: Suma de Letras

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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

RESENHA: Último Turno

“Assassinato não é controle; assassinato é só assassinato. 
Suicídio é controle.” (KING, 2016, p. 229). 

***

Último Turno é o livro de encerramento da Trilogia Bill Hodges e minhas expectativas para conferir o final da saga não poderiam ser maiores. 

ATENÇÃOa resenha CONTÉM SPOILERS dos livros anteriores da Trilogia Bill Hodges

Faz cinco anos que Brady Hartsfield — o Assassino da Mercedes — está na ala de traumatismo cerebral em estado vegetativo. Entretanto, os rumores no hospital são de que Brady desenvolveu poderes telecinéticos e que seu estado catatônico não passa de fingimento. Enquanto isso, Bill e Holly são convidados a participar da investigação de um suposto caso de assassinato seguido de suicídio e as pistas começam a apontar para um conhecido criminoso, apesar de toda a improbabilidade. 

Preciso confessar que, ao final do segundo livro, quando temos a confirmação de que Brady de fato desenvolveu poderes sobrenaturais, achei que o último livro da saga tinha todos os elementos para ser épico. Afinal, King acrescentaria elementos sobrenaturais neste mundo de investigação policial, unindo o melhor de dois mundos. 

Entretanto, meu problema continuou sendo Brady. Comentei na resenha de Mr. Mercedes e repito agora: a violência perpetrada pelo vilão parece se originar muito mais de sua loucura do que de uma personalidade essencialmente má. E mesmo que agora conte com poderes sobrenaturais e pretenda usá-los para fazer o maior número possível de vítimas, Brady não inspira o mesmo terror que outros antagonistas criados por King. 

Mas o grande acerto de Último Turno é o desenvolvimento das relações do protagonista e seus ajudantes. Ver a forma como as vidas de Bill, Holly e Jerome se entrelaçou e como eles impactaram a vida uns dos outros é um dos pontos altos. Ao investir no desenvolvimento deste arco ao longo da trilogia, King mostrou que apesar de toda a maldade e loucura que há no mundo, são sentimentos como o amor e a amizade que trazem valor e sentido para a vida. 

Como era de se esperar, a narrativa de King é fantástica, rapidamente emergindo o leitor no contexto da estória. A investigação policial é orgânica e convincente, conduzindo o livro em um ritmo constante. As últimas cinquenta páginas que são responsáveis por trazerem uma dose extra de ação e adrenalina, contando com o esperado confronto entre Bill e Brady. 

Ao findar a leitura da série, fiquei me perguntando sobre a necessidade do segundo livro. Isso por que Último Turno se conecta, principalmente, com Mr. Mercedes. Por sua vez, Achados e Perdidos apresenta uma estória própria e independente, contando com a presença quase que acidental de Bill (que, diga-se de passagem, não protagoniza a estória). Assim, cheguei a conclusão que o segundo livro fez o famoso papel de ponte, sendo “necessário” apenas para mostrar o decurso do tempo e o rumo que a vida dos personagens tomou. Apesar de me parecer que a estória de Bill e Brady não dependia do segundo livro para ser contada, registro que Achados e Perdidos foi o meu livro preferido da saga. 

Apesar de não ter sido a combinação explosiva que eu aguardava, Último Turno mantém o padrão dos livros anteriores. Infelizmente, não foi tão memorável quanto poderia ter sido, mas também está longe de ser um livro ruim. 

Título: Último Turno
Autor: Stephen King
N.º de páginas: 338
Editora: Suma de Letras


domingo, 6 de novembro de 2016

RESENHA: O Adulto

“Ainda assim, eu também sentia: a casa. Não necessariamente malévola, mas... atenta. Podia senti-la me estudando, faz sentido? O lugar me sufocava. Certo dia eu estava esfregando o piso e de repente senti uma dor pungente no dedo médio — como se tivesse sido mordia —, e quando olhei, estava sangrando. Enrolei o dedo, apertando-o com um dos panos de limpeza, e vi o sangue penetrar no tecido. Senti como se algo na casa tivesse ficado satisfeito. 
Comecei a ter medo.” (FLYNN, 2016, p. 36)

***

Já comentei aqui no blog que não tenho o costume de ler contos, pois acho mais difícil de me conectar com a estória. Entretanto, após quase um ano sem ler algum livro de Gillian Flynn — uma das melhores autoras contemporâneas —, mal podia esperar para conferir O Adulto. E mesmo com altas expectativas, Flynn não decepciona. 

Uma jovem — cujo nome não sabemos — é uma falsa vidente. Tendo uma aptidão natural para “ler” as pessoas, ela nunca teve dificuldade em dizer exatamente o que seus clientes queriam ouvir. Quando atende Susan Burke, mulher que acredita que a casa para a qual se mudou está tornando seu enteado, Miles, mais agressivo, a “sensitiva” imagina que irá ganhar dinheiro fácil ao fazer uma limpeza espiritual na residência. Mas ao visitar a mansão e se deparar com situações apavorantes, ela percebe que Susan não é apenas uma mulher fútil em busca de emoções.  

A narrativa, em primeira pessoa, nos coloca ao lado da golpista e nos faz mergulhar de cabeça na estória. Mesmo sem saber seu nome, Flynn nos dá um retrato muito claro da protagonista, de modo que entendemos seus motivos e atitudes e logo simpatizamos com ela. Além disso, por ser um conto e ter menos de sessenta páginas, é impossível interromper a leitura antes de chegar ao final e descobrir como as peças se encaixam. 

Flynn mais uma vez impressiona pelo talento em construir personagens reais e, com o desenrolar da estória, vemos as diversas facetas de suas personalidades. Chama atenção o fato de que apesar da protagonista ser o nosso ponto de contato com a estória e estar diretamente relacionada aos eventos narrados, ela não é a personagem mais importante do conto, o que revela originalidade da autora. 

Desta vez, Flynn flerta com elementos sobrenaturais, sendo precisa em transmitir ao leitor uma atmosfera soturna e opressora nos momentos certos. Entretanto, o enfoque da trama ainda é a relação conturbada entre Susan e Miles e as consequências que advém desta situação, não apenas na vida deles, mas também na vida da protagonista. 

Apesar de não ter achado o desfecho tão imprevisível assim, mais uma vez é preciso reconhecer a genialidade da autora. Entretanto, ressalto que o conto deixa algumas perguntas no ar, de modo que aqueles leitores que preferem um final fechado podem se sentir um pouco frustrados. De minha parte, digo que a Flynn acertou em cheio, pois deixa o leitor em estado catatônico, tentando processar tudo o que leu. 

O Adulto é a prova cabal de que bons thrillers psicológicos não dependem do número de páginas, nem de reviravoltas impossíveis. Ainda assim, é impressionante como uma estória tão enxuta consegue ser tão surpreendente e impactante. Por isso mesmo, creio que O Adulto seja uma excelente forma de ser introduzido à obra de Gillian Flynn, mas que também agradará aqueles que já são fãs. 

Título: O Adulto (exemplar cedido pela editora)
Autora: Gillian Flynn
N.º de páginas: 64
Editora: Intrínseca

sexta-feira, 6 de maio de 2016

RESENHA: Duma Key

“Um corpo e uma mente feridos não parecem uma ditadura, eles são uma ditadura. Não existe tirano mais impiedoso do que a dor, déspota mais cruel que a desorientação. Só fui perceber que minha mente estava tão ferida quanto meu corpo depois que fiquei sozinho e todas as outras vozes desapareceram.” (KING, 2009, p. 67).

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Duma Key é um exemplo de compra por impulso. Se não me engano, o livro estava com mais de cinquenta por cento de desconto, de modo que sequer me dei ao trabalho de ler a sinopse tamanha é minha confiança em Stephen King. 

Edgar Freemantle era dono de uma das maiores empresas de construção civil em Minneapolis, mas um acidente de carro tira sua vida dos eixos. Ele não apenas perdeu um braço e lesionou o quadril, mas também teve sérios problemas de memória. Após a esposa pedir o divórcio, Edgar decide se isolar em Duma Key, uma ilha na Flórida, para tentar recomeçar uma nova vida. E nessa nova vida ele descobre um talento adormecido: a pintura.

Duma Key é narrado em primeira pessoa e logo no início o leitor se afeiçoa a Edgar e a sua voz sincera. Aos poucos vamos compreendendo as circunstâncias em que ele vive e o que o motivou a deixar tudo para trás e ir para Duma Key. 

Apesar da narrativa envolvente, achei o livro com um ritmo lento, especialmente a partir do momento que Edgar chega em Duma Key e começa a descobrir sua aptidão para a pintura, bem como a desvendar os mistérios que envolvem a ilha. Entendo o motivo pelo qual King optou por fazer um desenvolvimento mais lento, mas ainda assim, senti falta de algumas doses de ação e adrenalina ao longo da trama. 

Creio que foram apenas nas últimas duzentas páginas que pude afirmar “esse é o King que eu conheço”, quando o ritmo não apenas se tornou mais acelerado, mas sobretudo começamos a entender a real natureza dos eventos que acontecem na ilha.

Para aqueles que estejam se perguntando, sim, Duma Key apresenta elementos sobrenaturais e de terror. Mas, mais uma vez afirmo que estes não são o cerne da estória, mas apenas gatilhos que trazem à tona as mais diversas facetas das personalidades dos personagens, criando conflitos que não seriam possíveis de outra forma.

É interessante notar que os eventos que acontecem em Duma Key podem ser vistos sob dois ângulos: a batalha com as forças que atuam na ilha, mas também a batalha entre o bem e o mal que acontece no próprio protagonista. E esta é a essência da estória: acompanhar os dramas de uma personagem ferido, em vários sentidos, e que ainda tem que lutar contra forças que desconhece.  

Por isso mesmo, dificilmente classificaria Duma Key como um livro de terror, mas sim como um drama. Aliás, registro também que apesar dos elementos sobrenaturais e de terror, não achei o livro assustador. O máximo que posso dizer é que há alguns momentos mais tensos, mas nada muito pesado. 

Apesar de não achar o livro tão bom quanto Sob a Redoma, Doutor Sono e Novembro de 63, para citar alguns, indico Duma Key para aqueles que já acompanham o trabalho do autor há algum tempo e que sabem o que esperar de um livro como esse. Para quem teve pouco contato com as obras do autor, a obra pode ser um pouco frustrante em virtude do ritmo mais lento, ainda mais para leitores que tenham a expectativa de uma épica batalha entre o bem e o mal e que não conseguirão enxergar os nuances da obra. 

Título: Duma Key
Autor: Stephen King
N.º de páginas: 665
Editora: Suma de Letras

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

RESENHA: Joyland

“Quando se tem vinte e um anos, a vida é um mapa rodoviário. Só quando se chega aos vinte e cinco, mais ou menos, é que se começa a desconfiar que estávamos olhando para o mapa de cabeça para baixo, e apenas aos quarenta temos certeza absoluta disso. Quando se chega aos sessenta, vai por mim, já se está completamente perdido.” (KING, 2015, p. 20)

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Quem acompanha o blog sabe que considero Stephen King o tipo de autor que dispensa sinopse. Não preciso saber sobre o que se trata o livro para ter vontade de lê-lo, pois ver seu nome na capa já é o suficiente. E foi assim que comecei a leitura de Joyland, sem saber para onde o autor pretendia me levar.  

Devin Jones é um estudante de letras que, durante as férias de verão de 1973, decide trabalhar no parque de diversões Joyland. Ainda lidando com uma decepção amorosa, Dev faz bons amigos e descobre um episódio sinistro do parque: um serial killer matou a jovem Linda Grey no trem fantasma, e diz a lenda que seu espírito ainda vaga pelo brinquedo. Além de investigar o caso, Dev também irá conhecer Mike, um garoto de saúde frágil e que tem um dom especial. 

Joyland me fez perceber como nas mãos de Stephen King uma estória que tinha tudo para ser banal ou corriqueira se torna algo monumental. Mesmo em um cenário quase idílico como um parque de diversões à beira-mar, mesmo com eventos que se desenrolam basicamente em virtude do trabalho em Joyland, King encontra uma fonte quase que inesgotável para falar sobre temas como amor, amizade, dor e morte. 

Já mencionei por aqui o quanto me impressiono com a habilidade do King em construir personagens complexos, com diversas facetas, que não são bons ou ruins, mas apenas seres humanos, com qualidades e defeitos. Mais uma vez o autor consegue criar um protagonista fantástico e que logo conquista a empatia do leitor. Também não posso deixar de expressar minha incredulidade com o fato de que King conseguiu transformar até mesmo um parque de diversões em personagem. 

O que me surpreende é que mesmo após ter escrito mais de cinquenta livros, King continua achando vozes diferentes para contar suas estórias. O estilo do autor é inconfundível, mas a voz do narrador é diferente de tudo o que já vi em suas obras. Devin narra os episódios vivenciados em Joyland anos depois, e o leitor rapidamente percebe o amadurecimento e até mesmo a nostalgia do personagem, sem deixar de entender quem era o Devin apaixonado, de coração quebrado e ingênuo de vinte e um anos.  

Embora a investigação sobre o assassinato de Linda Grey seja uma parte importante do livro, não classificaria Joyland como um livro policial. A obra conta com drama, romance, sobrenatural, suspense e também policial e apesar desta mistura um tanto exótica, King sabe como explorar os elementos de cada gênero, sempre flertando com o verdadeiro cerne da estória: a evolução de Devin e o impacto dos acontecimentos do verão de 73 em sua vida.  

Apesar da investigação ser empolgante, não posso dizer que me surpreendi com a resolução do mistério, e até acho que esta era a intenção do autor, que não queria tirar a atenção do real foco da estória. Mas, ainda assim, preciso parabenizar King pelo desfecho do livro, literalmente de tirar o fôlego e fazer o coração acelerar. 

Creio que apenas não gostei mais de Joyland por que meu tempo de leitura era exíguo e demorei mais tempo do que planejava para encerrá-la. Tenho certeza que se tivesse lido mais rápido, teria me envolvido mais com a estória e com seus personagens, motivo pelo qual já estou planejando uma releitura. 

Joyland é a prova cabal de que Stephen King não é apenas um autor de terror, mas sim um escritor que consegue transitar entre diversos gêneros com facilidade e ser bem sucedido. Com personagens memoráveis, uma narrativa sensível e uma trama despretensiosamente arrebatadora, Joyland é o livro ideal para apresentar o autor àqueles que ainda não tiveram nenhum contato com sua obra, mas que também irá encantar aqueles que já são fãs. 

Título: Joyland (exemplar cedido pela editora)
Autor: Stephen King
N.º de páginas: 239
Editora: Suma de Letras

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

RESENHA: À Espera de um Milagre

“Há uma frase que li em algum lugar e nunca esqueci, algo sobre ‘um enigma envolto num mistério’. Isso é que John Coffey era e acho a única razão pela qual ele conseguia dormir de noite era porque não se importava.” (KING, 2013, p. 149)

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É incrível como a cada livro que leio de Stephen King meu conceito sobre o autor sobe mais um pouco, e com À Espera de um Milagre não foi diferente. Para ser sincero, meu interesse pelo livro se devia muito mais ao seu sucesso entre os fãs do que pela sinopse em si. Agora entendo o porquê de tantos elogios. 

Paul Edgecombe está em um asilo quando decide narrar os eventos ocorridos no outono de 1932, quando era o superintendente do Bloco E (também conhecido como o corredor da morte) da penitenciária de Cold Mountain, em especial os episódios envolvendo os estranhos poderes de John Coffey, condenado a morte pelo estupro e assassinato de duas meninas. 

Como era de se esperar, King escreve com naturalidade e consegue fisgar a atenção do leitor já nas primeiras páginas da obra. Um fator que me chamou atenção neste livro, mais do que nos outros, foi sua qualidade cinematográfica, pois a narrativa de King literalmente consegue reproduzir um filme na mente do leitor.

Para quem não sabe, este livro foi originalmente publicado em seis fascículos e posteriormente reunido na forma como hoje conhecemos, contendo pouquíssimas alterações. O autor conta na introdução ao livro que o desafio de ser publicado em partes era a necessidade de criar pequenos clímax para manter o interesse do leitor semana após semana. Nesse aspecto posso afirmar que o autor fez um excelente trabalho, pois era impossível terminar de ler uma das partes sem perder o fôlego. 

Na introdução, King também compartilha sobre como foi escrever com o cronograma apertado de publicação e como nem ele sabia qual seria o desfecho da estória. Tal característica não passa despercebida pelo leitor, que percebe andar por terreno desconhecido juntamente com King, rumo a um futuro incerto. E esta é uma das maiores qualidades de À Espera de um Milagre: sua deliciosa imprevisibilidade. 

Embora a King geralmente seja atribuído o título de Mestre do Terror, creio que existe outro muito mais propício: Mestre em Criar Personagens. Admito que o escritor que vive em mim morre de inveja dos personagens criados por King. Todos eles, sem exceção, são delineados com profundidade, sendo improvável nada sentir em relação a eles. Pode ser algo entre o amor ao ódio, mas já lhe digo que é impossível permanecer indiferente. 

Se indagado qual o gênero de À Espera de um Milagre, não saberia responder. Apesar da premissa sobrenatural, o cerne da estória não é este, mas sim os acontecimentos ocorridos no Bloco E no outono de 1932. De toda a forma, diria que a obra é uma mistura bem sucedida de drama e suspense, com elementos sobrenaturais. 

Mais uma vez Stephen King esbanja talento e criatividade, e mostra por que suas obras encabeçam as listas de mais vendidos. Para fãs do autor, trata-se de leitura imperdível e para quem nunca teve contato, eis uma boa forma de ser introduzido as obras de King. 

Para quem deseja saber mais sobre o autor, não deixe de conferir o documentário “Stephen King: Shining In The Dark”. 

Título: À Espera de Um Milagre
Autor: Stephen King
N.º de páginas: 399
Editora: Suma de Letras
 

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