“Está na sua natureza fazer uma única coisa corretamente: tremer devidamente diante de Mim. O que me deve não é o medo, o senhor e outras formigas. O senhor me deve pavor.” (HARRIS, pag. 197, 2013)
Meu primeiro post no blog foi a estréia da coluna “
Quem vem para o jantar” e um dos meus convidados foi Hannibal Lecter: um personagem que considero fascinante. Nesse post, comentei sobre a minha frustrante experiência com “O Silêncio dos Inocentes” e sua leitura lenta e arrastada. Mas muitos anos se passaram desde essa malfadada leitura e várias coisas me fizeram querer ler a obra de Thomas Harris na totalidade, entre elas a série “Hannibal” e um comentário do diretor do filme “Hannibal”, Ridley Scott, sobre final do último livro e sua adaptação para o cinema. Ao ler “Dragão Vermelho”, minha segunda experiência com o autor se tornou igualmente frustrante.
Depois de um evento traumático, Will Graham encontra-se afastado do FBI e vive os dias tranquilamente com a esposa e o enteado. Porém, quando duas famílias são brutalmente assassinadas em circunstâncias semelhantes, ele é chamado por seu ex-chefe, Jack Crawford, para ajudar a encontrar o assassino conhecido como Fada do Dente. Não demora até que Will perceba que precisará de ajuda para compreender a mente doentia desse criminoso e recorre a aquele que há três anos quase lhe tirou a vida: o psiquiatra canibal Hannibal Lecter.
Evitarei comparar o livro com o filme e a série (embora essas adaptações tenham influenciado a minha leitura) para não me estender na resenha e dedicarei outro post a isso, mas não posso deixar de dizer que a minha impressão foi que Harris criou ótimos personagens, mas não extraiu deles todo o seu potencial, o que só veio a acontecer nas adaptações. Isso ocorre especialmente com Lecter que, a meu ver, deve sua notoriedade à magnífica interpretação de Anthony Hopkins.
Thomas Harris peca por desperdiçar elementos que parecem ser promissores, mas que acabam relegados a segundo plano (o que seria aceitável caso dessem lugar a algo mais interessante, mas não é o caso). Um desses elementos é a relação de Will e Lecter. Este é mantido envolto em uma áurea de mistério nas primeiras páginas e tudo que podemos fazer é ir montando o seu perfil aos poucos. Quando, finalmente, somos apresentados a ele, a expectativa em relação ao personagem já é alta, mas tudo que temos é um rápido encontro entre o doutor e Will e depois suas aparições são reduzidas a meras duas cartas.
Talvez não seja justo focar em Lecter e criticar sua falta de destaque já que o autor deixa claro no prólogo que não concebeu o personagem para ser um protagonista e que ele surgiu em sua mente após a criação de Will Graham e dos crimes investigados em “Dragão Vermelho”. Isso pode ser um choque para quem conhece o impacto do personagem pelos filmes, mas fica evidente em cada página do livro.
Mas se a atenção dedicada a Lecter é quase insignificante, bastam poucas páginas para que a personalidade interessante e atormentada de Will Graham fique evidente e o autor deixe no ar várias perguntas sobre ele. Will é um recurso poderoso para o FBI, pois não enxerga as coisas como a maioria das pessoas e é capaz de extrair informações das cenas dos crimes de maneira que nenhum outro investigador consegue. O problema é que esse processo que o personagem adota é mal explicado – talvez porque nem mesmo ele entenda direito como ocorre – e parece ser, muitas vezes, fruto do acaso. Sua mente não funciona de maneira convencional, mas saber isso não é o suficiente para acreditarmos em algumas de suas atitudes e conclusões (como a decisão repentina de ver Lecter ou como conseguiu desmascarar o canibal há alguns anos).
Outra coisa que, a meu ver, não funcionou é a condução da história em dois núcleos: o do assassino e o da investigação. Antes da metade do livro, já sabemos quem é o Fada do Dente e em torno de quê giram seus crimes (o que o atiça e como escolhe suas vítimas). Esse é um ótimo recurso do autor que rende momentos tensos (até mesmo repugnantes) e permite que o leitor conheça detalhes da vida do criminoso e entenda porque ele se tornou o que se tornou. É uma decisão que costuma me agradar e que exige segurança do autor e confiança de que o suspense de sua história não gira simplesmente em torno de descobrir a identidade do assassino, sendo mais complexo do que isso. O problema em “Dragão Vermelho” é que de um lado conhecemos o assassino e a essência de seus crimes e do outro somos forçados a acompanhar Will e Crawford em uma investigação pouco estimulante, pois sabemos estar indo para o lado errado.
Além da condução da história, a narrativa de Harris também deixou a desejar em alguns momentos, em especial em certos diálogos que pareceram não acontecer entre os personagens e sim de forma a explicar algo para o leitor.
Thomas Harris apresenta em “Dragão Vermelho” ótimos personagens, mas que não têm todo o seu potencial desenvolvido e o livro só não foi uma decepção maior porque eu já não havia gostado de “O Silêncio dos Inocentes”. Na verdade, se esse fosse qualquer outro livro, eu estaria bem tentada a usar a frase “não tem nada de extraordinário”, se ele não tivesse uma das coisas mais extraordinárias que um livro de suspense poderia ter: o Dr. Hannibal Lecter.
Título: Dragão Vermelho
Autor: Thomas Harris
Nº de páginas: 381
Editora: Best Bolso