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sábado, 26 de outubro de 2019

RESENHA: Ubik

Philip K. Dick / Ubik / Editora AlephQuem conhece Philip K. Dick não precisa sinopse para saber o que esperar de seus livros: algo que irá lhe fazer refletir sobre a vida que você conhece, mas que não necessariamente lhe trará respostas. Foi neste espírito que li “Ubik”.

Em uma Nova York futurista, poderes psíquicos podem servir tanto para manipular realidades, quanto para neutralizar esses efeitos. Nesse mundo, também é possível falar com os mortos, já que eles são mantidos em um estado de meia-vida que permite que seus entes queridos os abordem de tempos em tempos para, entre outras coisas, receberem conselhos. É isso que Glen Runciter faz quando seus funcionários começam a desaparecer e ele precisa da ajuda de sua esposa falecida, Ella, para definir os rumos da empresa. Eventualmente, Runciter embarca em uma missão para a Lua com um grupo dos seus melhores funcionários, entre eles Joe Chip, e coisas estranhas começam a acontecer.

Aprendi a gostar de ficção cientifica quando entendi que ela sempre parte de alguma pergunta, normalmente um “e se?”, questionando como seria a nossa realidade caso alguma coisa fundamental fosse alterada. Em “Ubik” o questionamento não é “como” seria e sim “o que” seria. O que é, afinal, a realidade? Como sabemos que o que estamos vivendo é mesmo real e não um sonho, um delírio ou uma manipulação?

A outra grande pergunta que PKD propõe nesse livro é a existência da vida após a morte. Em “Ubik”, os mortos podem ser armazenados durante anos e, eventualmente, serem despertados para pequenas conversas. Eles têm uma espécie de estoque de vida, um número limitado de horas, que poderá ser utilizado em doses homeopáticas para momentos oportunos. Isso seria viver, de alguma forma?

Outro elemento interessante que surge ao longo do livro é o “Ubik, que adota finalidades diferentes, devendo sempre ser utilizado de acordo com as instruções de uso para manter a segurança, e que é apresentado para o leitor de maneira isolada em pequenos anúncios publicitários que introduzem cada início de capítulo. Essa foi uma das coisas que mais me deixou curiosa ao longo da leitura: afinal, o que é este Ubik e como ele entra nessa confusão toda?

“É como se, pensou, alguma força maliciosa estivesse brincando conosco, deixando-nos fugir e matraquear feito ratos descerebrados. Nós a entretemos. Nossos esforços a divertem. E quando chegarmos ao ponto exato, seu punho se fechará à nossa volta para depois largar nossos restos espremidos, como os de Runciter, sobre o chão que se move devagar.” (DICK, 2019, p.86)

Ubik” foi a minha quarta experiência com PKD, então, de certa forma, eu já sabia o que esperar. Pelas minhas leituras anteriores, aprendi que os livros dos autor não necessariamente são leituras agradáveis (costumo sentir sempre um certo distanciamento e uma frieza em relação às tramas, o que acredito ser próprio da ficção científica, afinal, trata-se de um mundo que nos é estranho), mas que sempre compensam com reflexões interessantíssimas. No caso de “Ubik” confesso que continuei bastante perdida ao finalizar a leitura.

Durante a trama toda, acompanhamos Joe Chip tentando desvendar o que está acontecendo com ele e seus colegas. Isso dá a “Ubik” contornos de história policial, o que funciona bem. De fato esse foi o livro que mais rápido li de PKD e um dos que mais me estimulou a querer descobrir o que estava acontecendo. O problema foi que terminei a leitura continuando sem saber. Ao se propor questionar a essência do que é realidade e o que não é, PKD mantém seus personagens e seu leitor no mesmo barco (ou, deveríamos dizer, nave espacial?) sem ter certezas do que é real e o que é manipulação. É claro que é interessante que o autor seja capaz de construir e destruir seus conceitos constantemente durante a trama, jogando o leitor e os personagens no abismo a todo instante, o que me desagradou foi terminar na incerteza. Acho isso até bastante surpreendente, pois costumo gostar muito de finais em aberto, mas com “Ubik” senti que eu não tinha com o que trabalhar para encontrar as respostas e que a ideia do autor nem era deixar que o leitor encontrasse as suas respostas e sim demostrar justamente o contrário: que respostas não existem, consequentemente, certezas também não.

Ao chegar nessa conclusão, devo dizer que aprecio a obra, mas não consigo evitar ficar com o sentimento de que “Ubik” é um mistério incômodo que não chega a lugar algum.

Título: Ubik
Autor: Philip K. Dick
N° de páginas: 242
Editora: Aleph
Exemplar cedido pela editora

domingo, 24 de julho de 2016

RESENHA: Um Reflexo na Escuridão

“Imagine ser senciente, mas sem estar vivo. Enxergar e até mesmo saber, mas sem estar vivo. Só olhando para fora. Reconhecendo as coisas, mas sem estar vivo. Uma pessoa pode morrer e continuar assim. Às vezes, aquilo que está te olhando através dos olhos de uma pessoa pode ter morrido lá atrás, na infância. O que está morto ali dentro ainda olha para fora. Não é apenas o corpo olhando para você sem nada dentro; ainda tem alguma coisa ali, mas essa coisa morreu e fica só olhando; não consegue parar de olhar.” (DICK, 2016, p. 281)

Quando comecei a me interessar pela obra de Philip K. Dick, “Um Reflexo na Escuridão” foi o primeiro livro que me chamou a atenção. Porém, na ocasião, ele ainda não havia sido lançado pela Editora Aleph e já não se encontrava disponível no catálogo da Editora Rocco. Assim, meu contato com a obra do autor teve início por outros livros, mas minha primeira impressão estava certa: “Um Reflexo na Escuridão” era o que mais iria me agradar.

Um policial que trabalha como agente disfarçado em meio a usuários de drogas. Esse é Bob Arctor (ou Fred, como é conhecido por seus colegas policiais) que, para cumprir sua missão, não teve escolha a não ser se tornar um usuário da misteriosa e altamente viciante Substância D. Cada vez mais dependente da droga, ele acaba experimentando um dos seus efeitos colaterais: o rompimento da conexão entre os dois hemisférios do cérebro. A partir desse momento, ambas personalidades (tanto Bob quando Fred) estão presentes, mas ele já não sabe mais quem é.

Dos três livros que li de Dick, “Um Reflexo na Escuridão” é o que menos apresenta um cenário típico de ficção científica e talvez justamente por isso seja o que tive mais facilidade de me conectar. Isso porque as outras tramas buscavam responder perguntas do tipo “e se?”, de forma que o contexto se sobressaía à história dos personagens, levando o leitor mais a refletir ao final do que a se envolver durante a leitura. Aqui o que acontece é o oposto, tanto que o autor já mostra na abertura do livro que estamos prestes a embarcar em uma história de pessoas que já não tem controle algum sobre suas próprias mentes, permitindo ao leitor testemunhar a angústia de um personagem que está convencido de que está infestado de piolhos. Assim, se os outros livros se prejudicam por criar um distanciamento entre o leitor e os personagens, esse leva vantagem por nos colocar dentro de suas consciências.

E isso é algo que Dick pode fazer com conhecimento de causa já que seu próprio passado de usuário de drogas influenciou a criação da trama. A “substância D” pode ter sido inventada pelo autor, mas muito do que vemos no livro foram coisas que Dick vivenciou por conta própria ou testemunhou através de conhecidos.

Dick mostra sua genialidade até em pequenas coisas. Uma delas é o codinome de Fred, “Bob Arctor”, remetendo à palavra “ator” em inglês, já que é justamente isso que o personagem faz: atua. Porém, a atuação que devia se limitar apenas aos usuários da droga, se alastra também para a vida dele enquanto policial. Devido a um “traje borrador” que mascara a aparência de quem o veste através de imagens armazenadas em um banco de dados, os colegas policiais não sabem a aparência que ele tem e, eventualmente, ele mesmo deixa de saber. Aos poucos as duas identidades se confundem e ele já não sabe mais se o policial finge ser o usuário ou se é o usuário que finge ser o policial, chegando um ponto em que, ao assistir as fitas de vigilância, Fred enxerga Bob Arctor como uma terceira pessoa, sem saber que se trata dele próprio. Com isso, não é apenas a perda da identidade que Dick aborda, mas também o distanciamento da realidade que vive o viciado em drogas, fazendo de “Um Reflexo na Escuridão” um livro angustiante e sombrio.

Ao adotar a narrativa em terceira pessoa, o autor conseguiu explorar igualmente as histórias de vários personagens, levando o leitor para dentro de suas mentes, mas ainda preservando o olhar de testemunha. Uma escolha acertada já que os próprios personagens não sabem direito o que se passa com eles e a intenção do autor parece ser justamente mostrar ao vazio a que os usuários se reduzem. Assim, as inúmeras cenas que giram em torno de conversas supérfluas e até mesmo sem sentido não são dispensáveis como seriam em outros livros e sim fundamentais.

Eu não diria que Bob/Fred seja um personagem que desperta empatia, mas nos últimos capítulos é impossível não se sentir tocado, e até mesmo triste, ao vermos o seu destino. Aliás, este é outro mérito do autor: não se acovardar no desfecho da história. Foi graças a isso que encerrei a leitura desejando fazê-la novamente em outro momento.

Não bastasse o impacto da própria história, o livro encerra com uma nota em que o autor revela ter se inspirado em conhecidos para alguns dos coadjuvantes da trama e fala também sobre a mentalidade da época a respeito do uso drogas. Como um ex-usuário, Dick reconhece: “É uma escolha”. Seus comentários sobre as pessoas que perdeu, sobre as consequências que algumas (inclusive ele mesmo) tiveram que enfrentar são breves mas emocionantes.

Além deste, a edição conta ainda com outros materiais extras, como uma entrevista do autor, um artigo que analisa a obra e uma nota referente a escolha do título da edição brasileira. Impossível não elogiar a atenção da editora Aleph com seu leitor ao, além de fornecer materiais que complementam a leitura, se preocupar em não deixar que a intenção do autor se perdesse para o leitor brasileiro.

“Um Reflexo na Escuridão” pode ser visto como um livro de ficção científica, como um suspense ou até mesmo como um drama. Pode ser simplesmente uma trama sobre o mundo das drogas e suas consequências ou pode ser uma discussão interessante sobre a identidade e perda dela, sobre ver seu próprio reflexo e não se reconhecer nele. Sob qualquer um desses pontos de vista, funciona e impacta.

Em 2006, o livro foi adaptado para o cinema sob a direção de Richard Linklater e com Keanu Reeves no papel principal. No Brasil, o filme recebeu o título de "O Homem Duplo". 

Título: Um Reflexo na Escuridão (exemplar cedido pela editora)
Autor: Philip K. Dick
N° de páginas: 349
Editora: Aleph

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

RESENHA: O Homem do Castelo Alto

“Um mundo psicótico, este em que vivemos. Os loucos estão no poder. Há quanto tempo sabemos disso? Encaramos isso? E...quantos de nós sabem? (...) Talvez, se soubermos que somos loucos, então não sejamos loucos. Ou estamos, finalmente, deixando de ser loucos. Despertando. Suponho que apenas poucas pessoas tenham consciência disso. Pessoas isoladas, aqui e ali. Mas as grandes massas...o que será que elas pensam? As centenas de milhares de pessoas aqui nesta cidade. Será que imaginam que vivem num mundo são? Ou adivinham, vislumbram, a verdade...? (DICK, p. 52, 2009)

Considerado a obra-prima de Philip K. Dick, “O Homem do Castelo Alto” faz o que mais encanta na ficção cientifica. A pergunta: “E se...?”.

O Eixo venceu a Segunda Guerra Mundial. Agora, a Alemanha e o Japão são as duas potências mundiais, os Estados Unidos foram reduzidos a quase nada e os judeus e africanos praticamente deixaram de existir. Neste cenário, o I Ching - oráculo chinês - ajuda as pessoas a tomarem decisões. É também neste cenário que um livro tornou-se proibido, pois nele seu autor se atreveu a imaginar uma realidade alternativa. Uma em que os Aliados teriam vencido a Guerra.

Esse ano aprendi a fazer algo crucial na vida de um leitor: perceber quando o livro que se tem em mãos não é o certo para aquele momento e que, se continuar a leitura, o sentimento ao acabar será: “finalmente acabei”. Isso aconteceu com “O Homem do Castelo Alto” e (nunca pensei que fosse dizer isso) fico feliz de ter abandonado a leitura para voltar a ela meses depois. Naquele momento, tudo parecia potencialmente interessante, mas enfadonho. Já a segunda leitura me mostrou um texto denso que pode sim ser cansativo em alguns momentos, dando até a impressão de patinar para chegar a algum lugar, mas foi impossível não admirar a genialidade do autor.

Como muitas vezes acontece na ficção cientifica, na obra de Dick é mais importante apresentar um cenário do que desenvolver os dramas dos personagens. É por isso que vejo os protagonistas como ferramentas usadas pelo autor para mostrar como essa realidade teria sido para pessoas em diversas situações. Para começar, temos Childan, um comerciante de antiguidades americano que sonha em conquistar um lugar melhor na sociedade. Para isso, ele se esforça para adotar os costumes e trejeitos japoneses, afinal, a cultura oriental é a mais forte. Usando cada oportunidade que sua realidade alternativa oferece, Dick aproveita Childan para mostrar a que se reduziu a cultura norte-americana (ou seja, a nada), quando objetos populares (como pôsteres ou um simples relógio de Mickey Mouse) passam a ser considerados artefatos históricos, representativos de uma cultura que foi eliminada. Outro personagem ilustrativo é Frank Frink, um judeu que conseguiu sobreviver à Guerra e vive sob uma identidade falsa (seu sobrenome original é Fink) tendo passado por cirurgias plásticas para disfarçar feições e esconder suas origens. Juliana, ex-mulher de Frank, é a única personagem feminina de destaque (e a personagem mais cativante na minha opinião). Ela teve um trauma no passado e aprendeu a se defender lutando judô (novamente a cultura oriental se sobressaindo), mas é uma pessoa sem rumo definido na vida.

É curioso que os personagens praticamente não se cruzem ao longo da trama e quando o fazem seja de maneira tênue. Isso vem a reforçar meu argumento de que o que acontece a eles não é tão importante para história quanto o que eles representam dentro dela. O problema, para mim pelo menos, é que essa abordagem que reduz o personagem a segundo plano afasta o leitor e dificulta a sua conexão com a história. É como se estivéssemos ali apenas para assistir de fora e não para nos envolvermos. Talvez seja até mesmo proposital para evitar que o leitor se sinta confortável diante de um cenário sombrio como o proposto. Pensando bem, quando lembro das minhas distopias favoritas, nunca lembro dos personagens e dramas pessoais. O que lembro é dos cenários, das minhas reflexões. Então talvez isso seja uma característica do gênero (uma com a qual ainda preciso aprender a conviver).

E por falar em reflexões, as perguntas “O que é realidade?” e “Como distinguir o real do falso?” são o verdadeiro cerne da história e aparecem de inúmeras formas, desde a historicidade exigida nos negócios de Childan (o que faz com que um objeto seja verdadeiro: o objeto em si ou o documento que confirma sua autenticidade? O que faz o documento verdadeiro?), ou a identidade de Frank (como saber quem é o verdadeiro homem por trás da nova aparência e do novo nome? Se o nome já não é judeu, se ele já não tem hábitos da cultura judaica, se já não tem as feições características, ele ainda é judeu?) e, claro, no livro de ficção científica que apresenta a realidade alternativa dentro da realidade alternativa (aquela em que os nazistas teriam perdido a Guerra).

Dick merece aplausos por muitas coisas em “O Homem do Castelo Alto”, entre elas sua atenção aos detalhes. Para o leitor se torna fácil acreditar que aquele mundo é real (tão fácil quanto para os personagens?) porque o autor mostra exatamente como ele funciona. Que territórios pertencem ao Japão, quais pertencem à Alemanha, a que as potencias escolheram se dedicar econômica e politicamente, como é a sociedade sob o domínio de cada uma delas (a japonesa mais zen, a alemã mais autoritária). Até os novos preconceitos que se criariam são abordados pelo autor.

Dick acerta também ao ambientar a trama na década de 60, quando o conflito em si já está distante a ponto de perder a importância. Tudo o que importa é a sociedade que surgiu a partir dele. Ainda assim, todos os personagens principais viveram os tempos de Guerra, conseguindo lembrar como era o mundo antes dela.

Outro aspecto interessante é o uso do oráculo e o quão dependentes dele os personagens se tornam para tomar suas decisões. Impossível não se questionar até que ponto as pessoas querem ser responsáveis pelas suas escolhas. Não seria mais fácil, às vezes, deixar tudo nas mãos de uma força externa e sobre a qual não se tem controle? Como um oráculo milenar ou como a religião?

Como se pode ver, questionamentos não faltam. Por isso mesmo, “O Homem do Castelo Alto” é um livro que se aprecia muito mais ao final do que durante a leitura. Confesso que durante suas quase trezentas páginas eu ansiava pelo momento em que seria cativada e isso não aconteceu. Mas desde que terminei a leitura, continuo a pensar sobre ela e a querer usar as palavras “genial” e “brilhante” . Na verdade, quase sinto Philip K. Dick cutucando meu ombro e perguntando: “O que mais você pode querer?” Talvez ele tenha razão. Afinal, a realidade (o gostar e não gostar) nem sempre tem contornos tão bem definidos.

Como sempre, vale um destaque para a edição da Aleph que complementa o texto de Dick com um interessante posfácio de Fábio Fernandes (tradutor desta edição) acerca da vida do autor, sua visão de mundo e o impacto em sua obra.

Em 1963, “O Homem do Castelo Alto” foi vencedor do Hugo Award, um dos mais importantes prêmios de ficção cientifica. Recentemente, o livro ganhou uma adaptação para a televisão, produzida pela Amazon.

Título: O Homem do Castelo Alto (exemplar cedido pela editora)
Autor: Philip K. Dick
N° de páginas: 304
Editora: Aleph

quarta-feira, 11 de março de 2015

Conexões Além da Contracapa #18

Psicose” de Robert Bloch, conta a história de Norman Bates que juntamente com sua mãe dominadora administra um motel de beira de estrada. O livro de Robert Bloch foi a base do roteiro do clássico filme de Alfred Hitchcock e é o perfeito exemplo de livro que foi superado por sua adaptação cinematográfica, já que se tornou muito mais lendário que a obra original. O mesmo acontece com...

...os livros de Thomas Harris protagonizados por Hannibal Lecter, nos quais Dr. Lecter é um personagem secundário que não provoca  o mesmo fascínio que vemos nas telas, o que é uma das razões que fazem dos livros de Harris apenas a base promissora para ótimos filmes e séries de TV. No cinema, o psiquiatra canibal foi imortalizado por Anthony Hopkins, mas esse não foi o único personagem da literatura incorporado pelo ator que também deu vida ao professor Abraham Van Helsing no clássico de terror “Drácula de Bram Stocker”, filme que conta ainda com...

...Keanu Reeves como Jonathan Harker, mais famoso por seu papel na trilogia Matrix que tem em seu roteiro diversas influências, entre elas...

...do livro Neuromancer, clássico da ficção científica escrito por William Gibson e um dos principais exemplares do subgênero cyberpunk. Neuromancer recebeu diversos prêmios, entre eles o...


...Phillip K. Dick (dado anualmente a obras de ficção científica) cujo título é uma homenagem a um dos maiores autores do gênero de todos os tempos, cujas obras incluem Androides sonham com ovelhas elétricas?” “Ubik” e “O Homem do Castelo alto”, este último considerado por muitos seu melhor livro. Nessa trama, o autor explora um cenário em que os nazistas teriam vencido a Segunda Guerra Mundial. O conflito também é o tema de...



...“O Menino do Pijama Listrado”, de John Boyne, que no cinema conta com a presença de Vera Farmiga que também dá vida a Norma Bates na série de TV "Bates Motel" que serve como um prequal para os eventos retratados no filme e livro "Psicose".



domingo, 30 de novembro de 2014

RESENHA: Androides sonham com ovelhas elétricas?

“Caminhando na direção da caixa de empatia, ela rapidamente se sentou e de novo pressionou o par de manetes. Ficou envolvida quase instantaneamente. Rick permaneceu ali segurando o receptor de vidfone, consciente da partida mental de sua esposa. Consciente de sua própria solidão.” (DICK, 2014, pag.170)

Quando comecei a me interessar por ficção cientifica me foram recomendados dois livros como sendo os essenciais do gênero: “As Crônicas Marcianas”, de Ray Bradbury (o mesmo do ótimo “Fahrenheit 451”) e “Androides sonham com ovelhas elétricas?” O fato do título ser uma pergunta já é um indicativo que a intenção do autor é fazer o leitor pensar em busca de conclusões.

Depois da Guerra Mundial Terminus, quem pode emigrou para colônias interplanetárias (em especial para Marte), quem não pode, ou por alguma razão não quis, vive em um lugar tecnologicamente avançado porém solitário, coberto pela Poeira (a principal responsável pela eliminação esmagadora da vida animal e vegetal do planeta). Nesse cenário, Rick Deckard é um caçador de recompensas e sua função é aposentar androides. Quando lhe é dada a missão de aposentar seis novos modelos de “andys” (cujas características se assemelham de maneira impressionante às humanas) Rick aceita pois assim, quem sabe, poderá comprar sua tão sonhada ovelha genuína para substituir o animal elétrico que tem de estimação. Mas no processo, Rick pode se ver contestando suas próprias convicções.

Nas primeiras linhas, Philip K.Dick já deixa claro que seus personagens vivem uma realidade em que sentimentos podem ser regulados e pré-definidos eletronicamente o que faz com que nada seja essencialmente real. Esse, por si só, já seria um cenário assustador, mas o autor insere isso em um mundo desolador no qual a maioria dos lugares está desabitada. Em que prédios inteiros têm um único apartamento ocupado e o resto, como diria outro grande escritor, é silêncio. Apresentar essa Terra ao leitor, fazê-lo acreditar que tudo que conhecemos deixou de existir, é o grande mérito do autor nas primeiras páginas.

Nesse panorama em que a vida é escassa, conhecemos três tipos de seres: os humanos Normais (cujo maior representante é Dick), os Especiais (seres que sofreram alterações biológicas devido à Poeira – em especial JR Isidore) e os Androides (cuja principal diferença dos humanos é a incapacidade de sentir empatia). Cada qual com os seus questionamentos e aspirações. Para um Normal como Rick, por exemplo, comprar uma ovelha genuína é um sonho (já que é sinal de status possuir um animal de verdade em um mundo no qual a vida é tão preciosa). Já os Androides, que longe de serem meros seres robóticos, são altamente inteligentes e se parecem com humanos a ponto de só poderem ser diferenciados através de testes.

A meu ver, mais interessante que a história em si é o mundo que Philip K.Dick cria. A necessidade de convívio que esses personagens exalam, as dúvidas sobre o que é real, confiável e correto e o que não é, são passíveis de identificação, mas foram transpostas para um mundo que mais se assemelha a um vácuo. A razão pela qual acho o cenário todo mais interessante que seus habitantes é que os personagens me pareceram ter como função ilustrar os questionamentos propostos. Que eles foram criados para os questionamentos ao invés de os questionamentos partirem deles. Talvez isso seja uma ferramenta de que o Philip K. Dick se vale para ressaltar que nesse mundo a vida é mecânica e gelada (e que satisfação, raiva e até mesmo paz não são sentidos de verdade, já que podem ser atingidos ao se escolher uma opção em um sintetizador). Compreendo que em um gênero como a ficção científica isso pode ser intencional, mas senti que me afastou da leitura.

A exemplo do que me refiro, o relacionamento de Rick e Iran, sua esposa, foi uma das coisas que me pareceram pouco exploradas. Iran parece existir mais para abordar o fanatismo religioso (fazendo um interessante paralelo com o vício em drogas) e para mostrar que mesmo com os sintetizadores males como a depressão ainda existem, do que para ser responsável por ações que tenham algum impacto na trama. É funcional, mas não empolga. Se pensar no histórico que tenho com a literatura policial, pode-se dizer que ainda estou engatinhando no mundo da ficção cientifica, então talvez seja por isso que tenha sentido uma certa dificuldade em me conectar com os personagens, mas não posso negar que aconteceu.

Em 1982, “Androides sonham com ovelhas elétricas?” ganhou uma adaptação dirigida por Ridley Scott sob o título de “Blade Runner”. O filme, que se tornou um dos maiores clássicos do cinema de ficção cientifica, conta com Harrison Ford no papel principal e foi indicado a diversos prêmios, inclusive dois Oscars. Lançado meses após a morte de K.Dick, “Blade Runner” parece ser um valioso adendo ao livro que o originou, mesmo que dê um tratamento diferente à história. Algo que pretendo conferir em breve.

Nessa edição da editora Aleph, o romance vem acompanhado de materiais extras que ilustram a importância que a obra adquiriu, em especial após o sucesso do filme. Uma carta escrita pelo autor aos produtores revelando sua satisfação com o resultado que pareciam prestes a alcançar ao levar sua obra para o cinema; sua última entrevista; e um posfácio escrito pelo tradutor da edição e conhecedor da obra de Philip K. Dick, fazendo comentários e comparações entre as duas versões da história de Rick Deckard. Todos materiais muito válidos.

Certa vez ouvi alguém dizer que era uma pena que a ficção científica “pura” tivesse perdido seu espaço já que é um gênero fascinante. Concordo. Os grandes clássicos do gênero têm em comum o fato de serem inteligentes, reflexivos e empolgantes. Para mim, “Androides sonham com ovelhas elétricas?” tem as duas primeiras características e é mais do que eficiente em transportar o leitor para um mundo rico em possibilidades. Gostei muito da idéia geral, mas teria gostado ainda mais se o autor tivesse ido mais a fundo com os personagens. Certamente me deixou na expectativa para conferir outros livros do autor.

Título: Andróides sonham com ovelhas elétricas? (exemplar cedido pela editora)
Autor: Philip K. Dick
N.º de páginas: 269
Editora: Aleph
 

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