Quem conhece Philip K. Dick não precisa sinopse para saber o que esperar de seus livros: algo que irá lhe fazer refletir sobre a vida que você conhece, mas que não necessariamente lhe trará respostas. Foi neste espírito que li “Ubik”.
Em uma Nova York futurista, poderes psíquicos podem servir tanto para manipular realidades, quanto para neutralizar esses efeitos. Nesse mundo, também é possível falar com os mortos, já que eles são mantidos em um estado de meia-vida que permite que seus entes queridos os abordem de tempos em tempos para, entre outras coisas, receberem conselhos. É isso que Glen Runciter faz quando seus funcionários começam a desaparecer e ele precisa da ajuda de sua esposa falecida, Ella, para definir os rumos da empresa. Eventualmente, Runciter embarca em uma missão para a Lua com um grupo dos seus melhores funcionários, entre eles Joe Chip, e coisas estranhas começam a acontecer.
Aprendi a gostar de ficção cientifica quando entendi que ela sempre parte de alguma pergunta, normalmente um “e se?”, questionando como seria a nossa realidade caso alguma coisa fundamental fosse alterada. Em “Ubik” o questionamento não é “como” seria e sim “o que” seria. O que é, afinal, a realidade? Como sabemos que o que estamos vivendo é mesmo real e não um sonho, um delírio ou uma manipulação?
A outra grande pergunta que PKD propõe nesse livro é a existência da vida após a morte. Em “Ubik”, os mortos podem ser armazenados durante anos e, eventualmente, serem despertados para pequenas conversas. Eles têm uma espécie de estoque de vida, um número limitado de horas, que poderá ser utilizado em doses homeopáticas para momentos oportunos. Isso seria viver, de alguma forma?
Outro elemento interessante que surge ao longo do livro é o “Ubik”, que adota finalidades diferentes, devendo sempre ser utilizado de acordo com as instruções de uso para manter a segurança, e que é apresentado para o leitor de maneira isolada em pequenos anúncios publicitários que introduzem cada início de capítulo. Essa foi uma das coisas que mais me deixou curiosa ao longo da leitura: afinal, o que é este Ubik e como ele entra nessa confusão toda?
“É como se, pensou, alguma força maliciosa estivesse brincando conosco, deixando-nos fugir e matraquear feito ratos descerebrados. Nós a entretemos. Nossos esforços a divertem. E quando chegarmos ao ponto exato, seu punho se fechará à nossa volta para depois largar nossos restos espremidos, como os de Runciter, sobre o chão que se move devagar.” (DICK, 2019, p.86)
“Ubik” foi a minha quarta experiência com PKD, então, de certa forma, eu já sabia o que esperar. Pelas minhas leituras anteriores, aprendi que os livros dos autor não necessariamente são leituras agradáveis (costumo sentir sempre um certo distanciamento e uma frieza em relação às tramas, o que acredito ser próprio da ficção científica, afinal, trata-se de um mundo que nos é estranho), mas que sempre compensam com reflexões interessantíssimas. No caso de “Ubik” confesso que continuei bastante perdida ao finalizar a leitura.
Durante a trama toda, acompanhamos Joe Chip tentando desvendar o que está acontecendo com ele e seus colegas. Isso dá a “Ubik” contornos de história policial, o que funciona bem. De fato esse foi o livro que mais rápido li de PKD e um dos que mais me estimulou a querer descobrir o que estava acontecendo. O problema foi que terminei a leitura continuando sem saber. Ao se propor questionar a essência do que é realidade e o que não é, PKD mantém seus personagens e seu leitor no mesmo barco (ou, deveríamos dizer, nave espacial?) sem ter certezas do que é real e o que é manipulação. É claro que é interessante que o autor seja capaz de construir e destruir seus conceitos constantemente durante a trama, jogando o leitor e os personagens no abismo a todo instante, o que me desagradou foi terminar na incerteza. Acho isso até bastante surpreendente, pois costumo gostar muito de finais em aberto, mas com “Ubik” senti que eu não tinha com o que trabalhar para encontrar as respostas e que a ideia do autor nem era deixar que o leitor encontrasse as suas respostas e sim demostrar justamente o contrário: que respostas não existem, consequentemente, certezas também não.
Ao chegar nessa conclusão, devo dizer que aprecio a obra, mas não consigo evitar ficar com o sentimento de que “Ubik” é um mistério incômodo que não chega a lugar algum.
Autor: Philip K. Dick
N° de páginas: 242
Editora: Aleph
Exemplar cedido pela editora











