Desde que li Kindred – Laços de Sangue, que foi uma das minhas melhores leituras de 2018, desejava ler outros livros de Octavia Butler. O escolhido foi A Parábola do Semeador, o primeiro livro de uma duologia distópica, que se passa nos Estados Unidos onde uma crise econômica e ambiental levou a civilização ao caos. Filha de um pastor, Lauren não consegue compartilhar da fé de seu pai, mas isso não a impede de ter fé em outras crenças. Quando ela perde sua família e acaba fugindo para sobreviver, tem início uma jornada que a acaba conduzindo a criação de uma nova religião.
O início de A Parábola do Semeador é arrastado. A sensação que eu tive foi que Butler iniciou a escrever tendo apenas uma premissa em mente, mas sem saber exatamente qual estória tinha para contar. E, assim, os primeiros capítulos patinam, não conseguindo prender a atenção do leitor. Tanto foi assim que confesso que quase cheguei a abandonar a leitura de tão entediado que estava.
Mas, após insistir por mais alguns capítulos, pude sentir uma leve melhorada. A estória deixa de ser uma coletânea de episódios isolados e passa a ter um objetivo mais claro. No entanto, a jornada de Lauren não causou o impacto devastador que senti lendo Kindred e que tanto ansiava vivenciar novamente. Por um lado, a estória em si não empolga, visto que a trama é bastante linear e limita-se a levar os personagens do ponto A ao ponto B. Ainda mais grave que isso é a falta de carisma dos personagens, os quais não conseguem criar uma conexão com o leitor, mesmo vivendo em um mundo com o qual podemos nos identificar.
“— É uma verdade — respondi. — A mudança é constante. Tudo muda de certo modo: tamanho, posição, composição, frequência, velocidade, raciocínio, o que for. Todo ser vivo, cada pedaço de matéria, toda a energia do universo muda de certa forma. Eu não afirmo que tudo mude de todas as maneiras, mas tudo muda de algum modo.” (BUTLER, 2018, p. 270)
O ponto alto certamente são as reflexões trazidas pela religião criada por Lauren. A protagonista prega que Deus é mudança, por que esta é a única constante em nossas vidas. Apesar da originalidade da religião e de sua profundidade, senti que Butler estava mais interessada em desenvolver tais dogmas do que em contar a estória de Lauren e de sua comunidade.
O livro encerra sem grandes reviravoltas, me deixando com a impressão de que não eram necessárias mais de 400 páginas para o desenvolvimento da estória. Assim, apesar de até haver um possível arco para ser desenvolvido na sequência, creio que não irei me aventurar em A Parábola dos Talentos.
Creio que minhas expectativas elevadas tenham minado minha experiência, pois o fato é que terminei a leitura de A Parábola do Semeador com um gostinho de decepção. Apesar do universo criativo e original criado pela autora, me dói admitir que a estória deixou a desejar em diversos aspectos. Ainda assim, minha admiração por Octavia Butler não diminuiu e certamente lerei os demais livros de sua autoria.
Título: A Parábola do Semeador
Autora: Octavia Butler
N.º de páginas: 416
Editora: Morro Branco
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