“Porque a metade da vida de um ser humano envolve sobreviver ao mundo. A outra metade envolve descobrir um significado para sua existência.
Para o primeiro, existe o trabalho, o instinto e a evolução natural.
Para o segundo, existe o amor, a fé.
E o sonho.” (DRACCON, 2009, 375)
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Há quatro anos li o primeiro volume da série Dragões de Éter, Caçadores de Bruxas, e mesmo tendo adorado a leitura, por algum motivo protelei a leitura da continuação, Corações de Neve.
ATENÇÃO: a sinopse (parágrafo abaixo) CONTÉM SPOILERS do livro anterior. O restante da resenha é SPOILER FREE.
ATENÇÃO: a sinopse (parágrafo abaixo) CONTÉM SPOILERS do livro anterior. O restante da resenha é SPOILER FREE.
Anísio Brandford se torna rei de Arzallum e, para sua coroação, comparecem reis e emissários de toda a Nova Ether. Mas a agitação na cidade não se deve apenas a coroação do novo rei, mas também ao torneio de boxe Punho de Ferro, no qual o príncipe Axel Brandford irá participar. Enquanto o torneio segue com lutas épicas, um prisioneiro inconformado com a distribuição da riqueza é liberado da prisão, duas sociedades secretas se juntam para renascer das cinzas, uma adolescente passa por um ritual de iniciação e dois irmãos descobrem vínculos sinistros de sua família com a magia negra.
O grande barato da saga criada por Raphael Draccon são as inúmeras referências a personagens de contos de fada, da literatura e do mundo pop como um todo. E a melhor parte é que o autor não tem medo de se apropriar destes personagens, criando novas facetas e dando-lhes novos destinos, mas sempre respeitando suas origens.
O problema de Corações de Neve é seu ritmo vagaroso. Boa parte do livro gira em torno do torneio de boxe, então para aqueles leitores que não tem nenhum interesse pelo esporte, assim como eu, ler cenas e mais cenas detalhando lutas intermináveis, pode ser um pouco cansativo. Apesar do torneio até ter algum nível de importância para o desenvolvimento da trama, me pareceu que o autor investiu muito na parte menos interessante da estória.
Fiquei com a sensação de que o segundo livro de Dragões de Éter foi como uma partida de xadrez. Vemos os peões se movendo gradualmente pelo tabuleiro que é Nova Ether, sendo colocados em pontos estratégicos, mas a verdade é que falta ação. E talvez até por isso o torneio de boxe tenha tomado proporções tão grandes: para disfarçar a ausência de ação no restante da estória. Senti que o ritmo do livro aumentou apenas no último terço, quando o jogo de xadrez se tornou mais intenso, mas, como previsto, o “xeque-mate” foi reservado para o último livro.
O fato é que a estória de Corações de Neve está muito pulverizada (como a sinopse comprova), dividida em inúmeras frentes de ação, contando com elencos diferentes, de modo que falta unicidade. E, a meu ver, as partes mais interessantes foram subaproveitadas. No fim das contas, me pareceu faltar um protagonista, alguém que não apenas fosse o cerne da estória, mas que também conquistasse o leitor e fizesse com que ele se importasse e se envolvesse com os eventos que se passam em Nova Ether.
Além disso, alguns personagens me tiraram do sério com suas crises adolescentes, agindo como se seus dramas juvenis fossem o fim do mundo. Outros, por sua vez, me pareceram que agiam de forma exagerada, como se o peso do mundo estivesse em seus ombros. Os vilões fizeram um bom trabalho apimentando a trama, porém, também me pareceram caricatos, sempre movidos por ambição e ganância, dispostos a tudo para alcançarem seus intentos. Em suma, faltou equilíbrio na construção dos personagens.
A narrativa, em primeira pessoa por um narrador que está literalmente conversando com o leitor, continua fluida e envolvente. Entretanto, achei que o autor se deu a liberdade de fazer muitas digressões filosóficas ao longo da estória, dando ares de pretensiosidade ao texto.
Creio que no próximo livro, Círculos de Chuva, as tramas antes dispersas irão convergir rapidamente em uma mistura que tem potencial de sobra para ser explosiva. Apenas espero que este potencial seja plenamente explorado.
Autor: Raphael Draccon
N.º de páginas: 495
Editora: LeYa















