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sábado, 23 de fevereiro de 2019

RESENHA: A Nova República

A Nova República / Lionel Shriver
Uma das coisas que mais gosto em Lionel Shriver é como ela se reinventa a cada trama. Com Shriver, cada livro é um gênero novo dentro da sua obra. Se “Precisamos falar sobre Kevin” é seu thriller; “O mundo pós-aniversário”, seu romance; “Tempo é Dinheiro”, seu livro sobre doença; “A Nova República” é seu livro político.

Edgar Kellogg passou a vida se inspirando nos outros para saber o que queria ser. Até que ele decide desistir de sua bem sucedida carreira como advogado em Nova York para se tornar jornalista (exatamente como um dos seus ídolos de adolescência, um colega de colégio a quem ele recorre para conseguir uma vaga em um jornal). Edgar dá sorte. Barrington Saddler, um correspondente internacional que cobria os conflitos terroristas de Barba, Portugal, desapareceu sem deixar vestígios, abrindo espaço para que Edgar dê início a sua nova carreira. Mas substituir o lendário, amado e detestável Barrington não vai ser tarefa fácil.

Shriver tem uma habilidade que poucos autores têm: com poucas páginas já nos faz conhecer profundamente personagens tridimensionais. No caso de Edgar, bastou um capítulo (cinco páginas) para que eu já estivesse fisgada a conhecer a história desse sujeito que resolveu mudar completamente sua vida, que viveu desde a adolescência querendo ser outra pessoa, avaliando suas conquistas e objetivos com base nos de outros.

Além de Edgar, e das mudanças pelas quais ele vai passar, temos ainda Barrington. Mesmo sem estar fisicamente presente nos eventos, o jornalista desaparecido é tão protagonista quanto Edgar. O personagem que nem o leitor nem o protagonista conhecem é quem coloca toda a trama em movimento. Tudo acontece a partir dele. O cargo que ele ocupa, a casa onde mora, seu círculo de amigos. Tudo passa a ser de Edgar e Edgar quer ser Barrington. Quer provocar nas pessoas o efeito que ele provoca. Conquistar o que ele conquista.

“A maior preocupação de Edgar em relação a seu caráter era não ser original. Nem sabia como se tornar original, a não ser imitando outras pessoas que eram.” (SHRIVER, 2012, p. 45)

É através de Edgar e Barrington que a autora brilha neste livro. Edgar passou sua vida toda querendo ser admirado. Querendo chegar em casa e encontrar a secretária eletrônica cheia de recados. Querendo que as pessoas sentissem sua falta quando não estivesse e que seus rostos se iluminassem quando ele chegasse. Mas sua ânsia em ser popular o deixou sempre na sombra dos populares. E aí ele abandona sua vida e se depara com o fantasma de Barrington que, mesmo ausente, continua sendo tudo aquilo que ele sempre quis ser e nunca conseguiu.

Com relação a Barrington, o mais interessante é que só o conhecemos através das percepções das pessoas que conviveram com ele e mesmo assim sua presença é palpável. Através dele Shriver nos faz questionar a maneira como vemos as pessoas e se isso é condizente com quem elas realmente são. Nos faz pensar sobre tudo que congelamos em nossa memória, acreditando que pessoas, lugares e situações permanecem sendo como lembramos delas, mesmo quando nós mesmos mudamos.

Apesar dos muitos aspectos positivos, “A Nova República” foi o primeiro livro de Shriver a me decepcionar. Isso porque tramas que envolvem política tendem a me entediar (até Erico Verissimo em seu inesquecível “O Tempo e o Vento” provocou esse efeito em alguns momentos dos últimos volumes). Para mim, política simplesmente não cativa, não intriga. Não funciona. As bombas, as intrigas, as pecuinhas, tudo que acontecia em Barba eram apenas obstáculos que eu precisava transpor para entender o que realmente me interessava: os personagens. Mas acredito que isso possa ser uma percepção puramente pessoal e que o mesmo talvez não aconteça com outros leitores já que a trama é muito bem construída. Curiosamente, “A Nova República” quase foi o primeiro livro que li da autora há anos. Por sorte optei por “Precisamos falar sobre Kevin”. Caso contrário, talvez tivesse perdido de conhecer melhor uma autora que adoro.

“A Nova República” é um livro inteligente e bem construído que pode funcionar totalmente para alguns leitores e não tanto para outros. Nenhum autor tem uma obra impecável, mas Lionel Shriver é uma que chega muito perto.

Título: A Nova República
Autora: Lionel Shriver
N° de páginas: 384
Editora: Intrínseca
Exemplar cedido pela editora

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sexta-feira, 15 de junho de 2018

RESENHA: Tempo é Dinheiro

Tempo é Dinheiro / Lionel Shriver
Com “Tempo é DinheiroLionel Shriver entrou definitivamente para o rol de autores em que confio dispensando sinopses.

Shepard sempre economizou para “a outra vida”. Sempre sonhou em, um dia, deixar tudo para trás e ir viver em um lugar idílico. Por isso, suas viagens de férias com a família nunca foram chamadas de férias e sim de “pesquisa de campo”, afinal, era preciso estudar os territórios para descobrir em qual recomeçar a vida. Até que um dia Shepard toma a coragem necessária. Compra as passagens (para ele, a esposa Glynis e o filho adolescente), coloca a mala em cima da cama e começa a pensar no que irá levar. Quando a esposa chegar em casa naquela noite, ele irá confrontá-la com a notícia, mas eis que Glynis também chega com notícias: ela está com câncer terminal.

Shriver é o tipo de autora que não cria tramas e sim personagens. É por isso que nas suas mãos qualquer premissa funciona e a de “Tempo é Dinheiro” é um prato cheio para deixar a humanidade de cada personagem transbordar.

É por isso também que mesmo o livro girando em torno da terrível doença e da deterioração de Glynis, ele não seja sobre a doença ou sobre sua possível cura e sim sobre o que ela faz com o relacionamento do casal, como muda a dinâmica entre marido e mulher, os aproximando e os afastando ao mesmo tempo. É sobre como as pessoas da vida de Glynis (seus filhos, amigos, parentes e vizinhos) passam a vê-la, como lidam eles mesmos com a doença. Por isso, “Tempo é Dinheiro” não é um livro sobre uma mulher com câncer, mesmo sendo protagonizado por uma. É um livro sobre relacionamentos.

Além de Glynis, Shriver também coloca em cena os melhores amigos do casal lidando com uma doença raríssima que acomete sua filha adolescente e ainda com as consequências de uma cirurgia. Como se não bastasse, completa o time o pai de Shepard que, já idoso, passa a necessitar de cuidados específicos. E aí você pode pensar: “Mas isso é forçar muita doença junta” e eu estaria inclinada a concordar caso Shriver não fosse hábil a ponto de deixar que as angústias dos personagens fossem maiores do que os acontecimentos que os cercam.

“Para a sua vergonha, estar na cama sozinho foi um alívio. A simplicidade, a vastidão sem exigência dos lençóis vazios. Não se apercebera da tensão de um outro corpo ao lado do seu, apodrecendo um pouco mais a cada minuto, de dentro para fora. Da energia que a impossibilidade de protegê-la drenava dele. Ninguém imaginaria que uma coisa que não se podia fazer e não se vinha fazendo pudesse tirar alguma energia, mas tirava.” (SHRIVER, 2012, p. 148)

Também não vem ao caso gostarmos ou desgostarmos desses personagens. Eles são humanos demais para que nos sintamos da mesma forma o livro todo. Eles erram uns com os outros, se arrependem, são injustiçados e assim seguem. Ao final, é impossível não se sentir comovido com o que acontece a todos.

Outro toque genial de Shriver é iniciar alguns capítulos com o saldo bancário de Shepard, de forma que podemos ver o quanto a doença de Glynis o está sugando em todos os sentidos. Vemos o tempo que passou, o dinheiro que se foi, o quanto “a outra vida” era uma ilusão e o quão triste é que, na verdade, ele tenha deixado de fazer tantas coisas que queria fazer, que tenha economizado tanto em cada oportunidade, apenas para que o dinheiro fosse aproveitado dessa maneira. Sem hipocrisia ou insensibilidade, Shriver aborda a importância do dinheiro em uma situação como essa e o fato de que Shepard e o filho precisarão de meios para continuar vivendo quando Glynis se for.

A autora também nos leva a pensar sobre as apostas que fazemos todos os dias, contando que o futuro nos reserva isso ou aquilo quando, na verdade (e o clichê é inevitável), tudo é incerto. É assim que o “tempo” do título também se justifica. Não temos todo o tempo do mundo. Temos algum tempo e algumas chances de fazer o que queremos. Muito ficará para trás. Muito ficará apenas no plano dos sonhos. É preciso escolher e agir.

Fiz com “Tempo é Dinheiro” algo que nunca faço: interrompi a leitura na metade para aproveitar um feriadão e mergulhar em um livro que há meses ansiava em ler. A razão pela qual nunca faço isso é que perco a conexão com a história e com os personagens, mas nesse caso, Shepard, Glynis e aqueles que os cercam são tão verdadeiros que senti que podia me afastar e quando retomei a história não senti que havia perdido nada. Nem parecia que eu tinha interrompido a leitura.

Longe de ser um livro ágil, “Tempo é Dinheiro” obriga o leitor a passar com sua protagonista por todo o processo do tratamento. Não é bonito, mas não queremos nos afastar. Uma trama trágica, comovente e, sobretudo, humana na qual Lionel Shriver aborda o que fazemos com o dinheiro, o que fazemos do nosso tempo, como construímos (ou destruímos) as nossas relações. Como vivemos as nossas vidas enquanto a morte, inevitavelmente, não chega.

Título: Tempo é dinheiro
Autora: Lionel Shriver
N° de páginas: 462
Editora: Intrínseca
Exemplar cedido pela editora

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domingo, 25 de março de 2018

RESENHA: O mundo pós-aniversário

Depois de uma leitura impactante como “Precisamos Falar Sobre o Kevin” é difícil não confiar em Lionel Shriver para executar qualquer premissa. Em “O mundo pós-aniversário” ela pega uma pergunta que, ocasionalmente, todos nos fazemos e a transforma não em uma, mas em duas tramas interessantíssimas.

Irina, casada com Lawrence, é uma ilustradora de livros infantis. Sua editora, June, casada com Ramsey, há anos sugere que as duas saiam jantar com os maridos. Quando elas finalmente conseguem encontrar uma data na qual os quatro estejam livres, a data coincide com o aniversário de Ramsey e dá início a uma tradição que perdura por anos: no aniversário de Ramsey, o quarteto sai para jantar. Mas, eventualmente, June se separa de Ramsey e rompe relações profissionais com Irina, de forma que o quarteto se reduz a um trio. Até que em um determinado ano, Lawrence está em viagem e o jantar se resume a Irina e Ramsey. Ao estar sozinha com este homem charmoso com quem ela nunca teve muita afinidade, surge uma vontade incontrolável de beijá-lo e é no breve momento que antecede o beijo que sua vida encontra uma bifurcação: beijá-lo e trair Lawrence, ou manter-se fiel ao marido?

Tenho por regra fugir de histórias envolvendo triângulos amorosos, mas também tenho por regra acreditar que a maneira como uma história é contada vale mais do os fatos que ela conta (e, claro, os personagens valem mais do que tudo). E é isso que torna o livro de Shriver tão genial. Não temos uma história e sim duas histórias que surgem a partir da bifurcação na vida de Irina.

A última cena do primeiro capítulo deixa a nossa protagonista a segundos de beijar Ramsey. A partir disso, a narrativa se desdobra em duas: teremos dois “segundo capítulo”, dois “terceiro capítulo”, dois “quarto capítulo”, e assim por diante, porque teremos duas histórias. Em uma, Irina beija Ramsey, na outra, não. Assim, Shriver leva o “e se?” ao extremo e explora as duas possibilidades. Se ela beijasse Ramsey, o que se seguiria seria isso. Se ela não beijasse, seria aquilo.

É incrível como a autora conduz as histórias. Se tratam dos mesmos personagens e muitos dos mesmos eventos (os mesmos torneios, as mesmas premiações, os mesmos programas de tv, os mesmos jantares), mas vividos de maneiras diferentes por causa daquele beijo que em uma realidade aconteceu e na outra não. Dessa forma, às vezes uma mesma frase é dita com conotações completamente diferentes, em outras, algo que Irina diz para Lawrence, por exemplo, é dito por ele para ela na outra realidade. Até mesmo o tempo que leva para moer os grãos de café e preparar uma torrada no café da manhã acaba sendo um evento totalmente diferente após o “beijo”. Assim, “O mundo pós-aniversário” é composto de pequenos momentos que o tornam genial.

“A ideia é que a gente não tem apenas um destino. As crianças, cada vez mais novas, são pressionadas a decidir o que querem fazer na vida, como se tudo dependesse de uma única decisão. Mas, seja qual for a direção tomada, haverá altos e baixos. A gente lida com uma série de compensações e não com um rumo perfeito, comparados ao qual todos os outros seriam uma porcaria. (...) Há vantagens e desvantagens variáveis em cada um desses dois futuros que rivalizam entre si. (...) Em ambos, tudo dá certo, na verdade. Está tudo certo.” (SHRIVER, 2009, p. 398)

É admirável como as duas histórias são totalmente plausíveis. Como as angústias de Irina são completamente diferentes nas duas histórias, mas funcionam da mesma forma. Tanto que não é o objetivo da autora eleger uma versão como sendo verdadeira e a outra imaginação/conjectura/sonho/realidade paralela ou qualquer coisa desse tipo. São duas possibilidades, igualmente admissíveis, que mostram que não é se manter fiel ao marido ou, por outro lado, se entregar a uma paixão intensa que fará Irina feliz ou infeliz. As duas situações trarão alegrias e tristezas e, em alguns momentos, a farão desejar não ter agido como agiu. São escolhas e consequências.

Outro ponto que vale ser destacado é que as histórias são tão densas que quando estamos lendo uma esquecemos totalmente da outra. Por isso não há razão para confundir o leitor sobre em que “mundo” ele está, mesmo que as duas versões usem da mesma voz narrativa (onisciente, com foco em Irina). O que também prova que um bom autor não precisa daquela - atualmente tão banalizada - troca de narrador protagonista para apresentar ao leitor outra perspectiva dos mesmos acontecimentos, ou lançar uma continuação da história para fazer o mesmo.

Sem medo do desafio, a autora desenvolve a história ao longo de cinco anos, de forma que podemos ver as consequências a longo prazo da escolha de Irina. O desfecho foi mais ou menos como eu previa desde o início, mas eu jamais poderia ter imaginado o caminho que Shriver trilharia até lá. Não é que o livro seja surpreendente, mas é que ele é tão verossímil que, da mesma forma que é impossível prever os desdobramentos da vida, é impossível prever os de “O mundo pós-aniversário”.

Nesta minha segunda experiência com Lionel Shriver, constatei que ela é um daqueles poucos escritores que não tem um gênero definido. “Kevin” é um thriller psicológico como poucos, perverso das piores formas, daqueles para quem realmente tem estomago. “O mundo pós-aniversário” é um drama com foco na vida amorosa da protagonista. Cada um intenso a seu modo. Suas premissas habilmente exploradas ao máximo. Bons personagens, excelentes conflitos. Sem dúvida uma autora que pretendo conferir todos os livros.

Título: O mundo pós-aniversário
Autora: Lionel Shriver
N° de páginas: 542
Editora: Intrínseca
Exemplar cedido pela editora

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quarta-feira, 8 de março de 2017

As Mulheres da Intrínseca

Conversa de Contracapa é coluna off topic do blog Além da Contracapa. Sem limitação temática, iremos explorar todo e qualquer assunto relacionado ao mundo da literatura. 

Com a aproximação do Dia Internacional da Mulher, a Editora Intrínseca sugeriu que os blogs parceiros falassem um pouco sobre as principais escritoras do seu catálogo. Imediatamente aceitei o desafio de falar um pouquinho mais sobre algumas das autoras que me marcaram, percebendo, sem tanta surpresa, que todas se valem de personagens (principalmente femininas) com personalidades fortes, além de tramas intensas, e que todas figuraram nas minhas listas de melhores leituras ou de grandes expectativas dos últimos anos.

Jennifer EganA começar por Jennifer Egan, vencedora do Pulitzer pela genial colcha de retalhos “A Visita Cruel do Tempo. Li todos os livros da autora e posso dizer, sem pestanejar, que ela acerta sempre. Para mim, um destaque na obra de Egan é como a autora sabe explorar personagens que, sem serem carismáticos, conquistam o leitor porque seus dramas, questionamentos e angústias são fascinantes. “Olhe para mim” é um livro maravilhoso sobre identidade (sobre a perda e busca dela). Sua história nos apresenta uma modelo que, após sofrer um acidente de carro, tem seu rosto destruído e reparado por uma cirurgia plástica. Ela volta a ser linda, mas agora com um rosto completamente diferente do que tinha antes, de maneira que ela já não se reconhece mais porque muito de sua vida se baseava em sua aparência.

A obra de estreia de Egan, “Circo Invisível”, é uma jornada espetacular de autoconhecimento protagonizada por uma personagem que, às sombras da memória da irmã a quem idolatrava, esqueceu de viver a própria vida e não tem a menor ideia de quem é. Aqui, a habilidade da autora está em fazer o leitor conhecer a fundo uma personagem que não conhece a si mesma e em fazer o leitor se sentir tocado por sua jornada, mesmo que não ache a protagonista cativante. Em ambos os livros, Egan aborda a perfeição que se espera das mulheres. As exigências dos outros e delas mesmas.

Lionel Shriver
Eu não poderia deixar de lado, Lionel Shriver autora do aclamado “Precisamos falar sobre o Kevin”, que elegi como a minha melhor leitura de 2016. A história de uma mãe que convive com as consequências do massacre provocado por seu filho no colégio e que resultou na morte de sete pessoas. A temática é forte e a personagem não busca, de maneira alguma, justificar o que o filho fez. Pelo contrário. Busca mostrar que todos os indícios de que ele poderia ser capaz de algo assim estavam ali desde a sua infância. Shriver molda uma história intensa, protagonizada por um personagem perturbador e uma mulher que tem a coragem de se mostrar falha e desconfortável naquele que todos esperavam que fosse o grande papel da sua vida: o de ser mãe. Um thriller fantástico que faz com que nos deparemos com um dos maiores clichês impostos pela sociedade às mulheres: a obrigação de desejarem ser mães, esquecendo que algumas não querem isso para si mesmas ou, simplesmente, não tem aptidão para a tarefa.

Elizabeth Haynes
Outra autora que me marcou muito foi Elizabeth Haynes, provavelmente o nome menos conhecido da lista, o que atribuo ao fato de que os livros que se seguiram a sua obra de estreia não  terem se equiparado àquela. Estou falando de “No Escuro”, um livro não tão badalado como merecia e um dos meus thrillers psicológicos favoritos. A história de uma mulher tão marcada por um relacionamento abusivo que praticamente se transformou em outra pessoa. A tortura pela qual essa mulher passa ao perceber certos comportamentos no seu “tão perfeito” namorado, a angústia que sente ao relatar suas percepções e medos para as amigas e ouvir todas dizerem que as atitudes dele são justificáveis e que a reação dela é um exagero, tornam a violência psicológica do livro muito pior do que a física e deixam o leitor hipnotizado mesmo que não não seja uma história de surpresas e reviravoltas. Hayes mostra aqui o inverso do que costumamos ver em relacionamentos abusivos: a mulher enxerga a que esta sendo submetida, mas as pessoas próximas a ela estão cegas pelo charme do namorado. Sem apoio, ela luta por si mesma, se revelando uma personagem forte, vivendo uma situação em que tudo a faz se sentir rebaixada, fraca e impotente.

Gillian FlynnE é claro que eu não poderia deixar de fora Gillian Flynn. A autora de um livro tão bom que até estragou a minha vida. Sempre gostei de thrillers e livros de suspense, mas desde a história de Nick e Amy tenho dificuldade de encontrar livros do gênero que me conquistem e surpreendam como “Garota Exemplar”. Que me deixem em estado praticamente catatônico ao final da leitura sem saber como voltar para a minha vida. A verdade é que nem mesmo os demais livros da autora causaram o mesmo impacto, embora todos sejam excelentes e suas mulheres sempre perturbadoras de alguma forma. Flynn destrói totalmente a tola ideia preconcebida de que toda mulher é doce e frágil, mostrando que mulheres podem ser cruéis e perversas (com os outros e com si mesmas, com os que pouco significam para elas e com os mais próximos) e que, quando o são, conseguem ser ainda mais intensas e ardilosas que os homens.

Todas as autoras citadas nesse post quebram clichês de alguma forma. Mas acima de tudo são excelentes na arte de criar, desenvolver e contar uma história. São autoras completas: têm bons personagens, narrativas envolventes e tramas cativantes. São autoras que conseguem desenvolver um laço com seus leitores: o da confiança de que qualquer coisa que venha delas vale a pena ser lida e que, mesmo quando não fazem o seu melhor (pois nem sempre é possível se superar a cada vez), ainda superam o melhor de muitos outros autores. Na verdade, a razão pela qual esperamos essa superação é porque elas estabeleceram para si mesmas os mais altos patamares com livros absolutamente inesquecíveis e porque, sobretudo, são únicas e não buscam soar como ninguém que veio antes delas. Que venham mais Egans e Shrivers e Hayes e Flynns não porque se assemelham a elas como tantas vezes tenta se propagar, mas porque são autoras surpreendentes. Autoras com uma voz literária única. Autoras irresistíveis.

 

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